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Marques Rebelo E João Antônio: proximidade comprovada pela construção de suas personagens
Luciana Cristina Corrêa (UNESP/Assis/FAPESP)
Meu pai trabalhou tanto
Que eu já
Nasci cansado
Ai patrão
Sou um homem liquidado
No meu barraco chove
Meu terno está furado
Ai patrão
Trabalhar não quero mais
Eu não sou caranguejo
Que só sabe andar pra trás.
("Nasci cansado", Wilson Batista e Henrique Alves)
Diante do trecho do samba de Wilson Batista e Henrique Alves vemos, resumidamente, a atitude do ser malandro numa forma de ironizar, ou melhor, renegar o esforço laborioso como propiciador de uma melhoria nas condições de vida.
Como podemos observar, a focalização dada a esta figura a restringe, costumeiramente, a um ser que não respeita nem acredita nos valores morais de um ser humano. A recusa em trabalhar, entretanto, não pode ser vista com gratuidade. Se lembrarmos que, na ótica da malandragem, as compensações oferecidas ao proletário não são suficientes nem para o seu próprio sustento e, muito menos, ao de seus familiares, podemos afirmar que prevalece, entre os malandros, um sentimento de desilusão em relação às possibilidades de ascensão social através de atividades remuneradas.
Segundo alguns estudiosos, entre eles Claudia Matos (1982, p.82), em seu trabalho sobre a malandragem na formação da música popular brasileira, "o que está contido na rejeição ao trabalho é a consciência de que a sociedade capitalista brasileira raramente permite o deslocamento do indivíduo negro dentro de sua hierarquia econômica e social".
Dessa maneira, a malandragem torna-se um recurso para a sobrevivência num sistema que explora o operário, colocando-o num estado de total pobreza oriundo de uma intensa exploração sem que, ao menos, ele possa acreditar numa possível mudança, nem almejar uma melhoria nas condições de vida. Para se ter uma idéia do descrédito das camadas subalternas da população com relação ao trabalho institucionalizado, associado historicamente à escravidão, recorramos a Florestan Fernandes:
Não só viam limitadas compensações materiais e morais no engajamento como assalariados; não possuíam razões para compartilhar das convicções que levavam o assalariado a encarar o trabalho organizado, disciplinado e permanente como algo necessário, útil e dignificante (FERNANDES: 1977, 57).
Diante da reflexão de Florestan Fernandes, destacamos a análoga postura adotada por Maria Lucia Victor Barbosa, ao explicar a origem da ociosidade por parte dos ex-escravos e seus descendentes. Dialogando com o texto de F. Fernandes, a pesquisadora menciona a abolição da escravatura como propulsora do afrouxamento nas normas trabalhistas e, conseqüentemente, da repugnância do recém liberto ao trabalho institucionalizado. As importantes considerações de Barbosa podem ser observadas através de fragmentos do seu estudo, esclarecedores para um entendimento da gênese do ser malandro na sociedade brasileira. Para a autora:
No escravo recém-convertido em assalariado, manteve-se a mentalidade da senzala, pois da abolição surgiu uma classe social tutelada, acomodada, sem nenhuma intenção de romper os grilhões [...] formados [...] por imperceptíveis elos culturais, entre os quais se encontrava a mesma aversão ao trabalho manifestada pelo colonizador português [...]. Na desgraça da pobreza, a miséria emergiu [...]. Com a abolição, consolidou-se de uma vez por todas o reino da malandragem (BARBOSA:1988, 39).
Conforme acrescenta Roberto Goto (1988, p.108), em seu célebre trabalho sobre a malandragem, "o amoralismo do malandro, nesta perspectiva, surge como um produto" da "antropofagia social, da lição segundo a qual, diante da luta pela sobrevivência, considerações éticas ou estéticas são extemporâneas", inoportunas a uma figura incapacitada de bradar por mudanças numa adversa realidade social .
A partir da breve, porém pertinente caracterização sobre o malandro, sobretudo no que diz respeito à sua gênese na sociedade brasileira, é dever salientar que as peculiaridades desta figura se mostram visíveis também em nossas manifestações literárias. Merece registro, neste instante, o ensaio de Antonio Candido já que aponta como precursor a possuir como personagem um típico malandro, o romance Memórias de um Sargento de Milícias (1854).
No decorrer do clássico "Dialética da malandragem", originalmente publicado em 1970, o crítico brasileiro reavalia os estudos feitos sobre o livro como herdeiro do romance picaresco. Candido mostra, ao analisar as Memórias , peculiaridades no protagonista Leonardo Pataca que realçam suas marcas como um malandro, afastando-o, em determinados aspectos, do molde do pícaro clássico, surgido na Espanha do século XVI, tendo como principal representante o anônimo Lazarilho de Tormes (1554). Menciona também alguns traços de nossa sociedade presentes no livro de Manoel Antônio de Almeida, que acentuam sua caracterização como um romance representativo, visto que ele representa uma "formalização estética de circunstâncias de caráter social profundamente significativas como modos de existência" (1993, p.36).
Posterior a Memórias de Sargento de Milícias vemos que, impregnado no imaginário brasileiro, o malandro ganha representações em prosa e verso na produção artística nacional, sendo no romance uma das primeiras, para, posteriormente, chegar às telas do cinema e à música popular, como podemos observar na epígrafe para o artigo que segue.
Diante da composição musical de Wilson Batista e Henrique Alves, vemos que a imagem visual do malandro, nos anos 30, o aproxima da marginalidade das classes economicamente desfavorecidas. Contudo, a partir da década de 40, o malandro "anti-herói", provocador e orgulhoso da sua vadiagem na música popular brasileira, frente ao Estado Novo, transforma-se em "regenerado", em função da censura e repressão a qualquer forma de oposição ao governo de Getúlio Vargas que, naquele momento, pretendia "instaurar uma ordem ideológica bem mais rígida, voltada para o culto ao trabalhador", como adiciona Cláudia Matos (1982, p.55). Porém, apesar de aparentemente recuperado em alguns sambas posteriores a "Nasci Cansado", permanece como um ser que sobrevive à custa de trapaças e que se esquiva de tudo o que representa algum perigo, como os representantes da lei ou vadios mais espertos.
No que tange à literatura, vemos que esses tipos marginalizados socialmente permeiam a ficção de diversos escritores, sucedâneos a Manuel Antônio de Almeida. Entre eles destacamos, nos anos 30, a figura de Marques Rebelo e posterior a este, estreante na década de 60, o contista João Antônio.
Marques Rebelo, pseudônimo de Edy Dias da Cruz (1907-1973), publica, além das coletâneas de contos Oscarina (1931) e Três caminhos (1933), o romance Marafa , no ano de 1935. A obra, premiada no concurso "Grande Prêmio Machado de Assis", torna-se um marco de uma nova etapa em sua carreira literária já que, ao destaque como contista que lhe rende o título de "gênio da narrativa breve", segundo Josué Montello (1977, p.15) podemos somar a maestria de um romancista nascente.
Marafa é um romance de costumes que focaliza o submundo carioca, repleto de prostitutas e malandros habitantes de pensões humildes das esquecidas ruas dos subúrbios. Neste aspecto, a obra de Rebelo aproxima-se do clássico texto "Malagueta, Perus e Bacanaço" (1963), de autoria de João Antônio Ferreira Filho (1937-1996), o qual também possui uma galeria de tipos que podemos enquadrar na categoria dos malandros, dos que perambulam por diversos lugares, os "muquinfos", no anseio de suprir as necessidades básicas.
Ao observarmos as duas publicações, apesar da distância cronológica de aproximadamente trinta anos que as separam, afirmamos que ambas apresentam, na sua maioria, seres marginalizados e possuidores do "jeitinho" citado por Roberto Goto, em seu estudo, cuja gênese encontramos na vertente folclórica brasileira. Por este motivo, torna-se apropriado realizar um estudo comparativo aproximando narrativas e autores cronologicamente distantes. Como também é de grande valia apontar algumas marcas características a essa figura singular.
A personagem Teixeirinha, protagonista de Marafa , manifesta traços que a caracterizam como um típico malandro, entre os quais podemos citar algumas passagens pela polícia, a sobrevivência às custas de pequenos golpes, explorando prostitutas, além da constante rotatividade em diversos quartos degradantes de hotéis. Características estas comumente encontradas na construção dos seres que permeiam o conto de João Antônio. A fome, proveniente da carência de recursos financeiros, persegue o vadio de Marques Rebelo como também atinge as figuras do submundo ficcional do escritor paulista:
O sol ia alto - passava das duas - quando o homem acordou. Acordou com sede e com fome, estranhando o quarto calorento [...]. A cabeça pesava-lhe um tanto, mas aquilo era estômago vazio, fraqueza, e com desembaraço pediu "qualquer troféu que enchesse o buxo". [...] Almoçou bife com batatas fritas, mandando vir do botequim defronte, com um ovo a cavalo para reforçar.
__ Você quer uma salada, filho? Eles têm.
Recusou:
__ Não sou coelho. (REBELO: 1947,12 e 13).
Entraram, tinham fome, Bacanaço os convidou, pediram pratos feitos, chamados sortidos [...]. Comido o primeiro prato, sentiram ainda fome, pediram outro (ANTÔNIO: 1963, 146).
Outro aspecto coincidente entre as duas narrativas e típico à maioria dos malandros é a aparência. Na malandragem as vestimentas adquirem um valor de falso "status" social, uma máscara que omite a real situação financeira do vadio, já que tanto Bacanaço - um dos três protagonistas do conto "Malagueta, Perus e Bacanaço" - com seus trajes finos, como Teixeirinha simulam uma condição social que não lhes compete. Graças ao narrador onisciente em ambas as narrativas, a nós leitores são mostradas as reais carências de cada personagem:
Teixeirinha chegou apressado, terno de flanela creme, chapéu atirado para o alto da cabeça [...]. Caminhou. Ia de branco, engomado, muito frajola, pisando macio com os sapatos de salto carrapeta (REBELO: 1947, 63 e 89).
Camisa de Bacanaço era uma para cada dia. Vida arrumada [...]. Bacanaço sustentava o paletó no antebraço, seus sapatos brilhavam, engraxados que foram outra vez, e mão direita manicurada viajava para cima e para baixo, levando e trazendo um cigarro americano (ANTÔNIO: 1963, 103 e 125).
Na opinião de Cláudia Matos, o malandro se distingue do proletário por sua maneira de andar sempre bem vestido, como as personagens acima expostas, todavia o que poderia aproximá-lo dos padrões burgueses, acaba por afastá-lo definitivamente. O malandro, conforme Matos (1982, 56), torna-se "uma caricatura, uma paródia do burguês", haja vista que a sua aparência, seu modo de se apresentar, "inclui aspectos de exagero e deformação tão evidentes que o próprio trajar elegante é um dos elementos pelos quais a polícia o identifica como malandro". A autora nos chama a atenção ao mencionar que a imagem visual do vadio se caracteriza, pois:
Por uma preocupação estética ("gosto de andar na moda"), mas ao mesmo tempo pela ambivalência, pela impressão de fantasia ou disfarce que transmite. Tal impressão advém da contigüidade de signos de uma modernidade pequeno-burguesa com signos de outra ordem, relativos à condição negra e proletária [...], à postura marginal em relação à sociedade bem comportada [...] e finalmente à manutenção de uma tradição étnica e social (grifos da autora) (MATOS: 1982, 56 e 57).
As narrativas de Marques Rebelo e de João Antônio aproximam-se também por um hábito típico dos malandros que é o do vício em jogar. Em Marafa temos, fazendo uso da trapaça e astúcia, Teixeirinha, Sebastião e Cavalcanti como parceiros e apostadores no "pinguilim" ou roleta e no conto "Malagueta, Perus e Bacanaço" vemos os três protagonistas que, igualmente unidos e conspirados, participam do "jogo da vida": um passatempo na sinuca em que cada participante possui uma bola numerada que não pode perder. O jogador deve defender a sua bola - ou, simbolicamente, a vida - de todos que buscam matá-la na caçapa. As personagens de ambas as narrativas mostram-se unidas ou "conluiadas" nas trapaças para a obtenção dos lucros, como veremos a seguir:
Armaram o pinguilim nos fundos dum velhíssimo sobrado na Rua da Harmonia, explorando a estiva. Afastado da mesa, encostado nas portas, Sebastião, cada noite mais encovado [...] dominava o jogo como os olhos espertos de sagui. Manobrava as paradas da bola com fios de aço, finos como cabelos, escorrendo, imperceptíveis, da mesa até ele pelo rodapé. Era uma aventura arriscada no meio daquela gente temível, mas Sebastião era fino e a luz era escassa. Teixeirinha fazia o farol, mostrando-se viciado, arriscando pilhas de fichas em cada parada. Cavalcanti, que passava por banqueiro, era o boleiro [...]. O trato era rachar o lucro pela trinca (REBELO: 1947,77 e 78).
Por que Malagueta não derrubara aquela bola quatro? Uma repetição maliciosa numa bola quatro em diagonal no canto, acordou o inspetor Lima. Ali tinha coisa. A bola era fácil, fácil. Malagueta não liquidara. Por que raios o velho Malagueta só amarrava o jogo, defendendo e defendendo aquela bola quatro? [...].
E os olhos malandros dos três se encontraram, se riram, se ajustaram, gozozamente, na sintonia de um conluio que nasceu dissimulado [...]. Funcionavam direitinho, sem supetões, eram tacos de verdade, nascidos para trapacear. Arranjo bom [...]. (ANTÔNIO: 1963,115,117 e 118).
Diante dos excertos acima podemos considerar que, a união dos malandros faz de jogos individuais e sem parcerias, lutas coletivas. A solidariedade entre as personagens - pois se protegiam mutuamente - permite que estas consigam driblar as regras e vencer, tanto na roleta como na sinuca, trabalhando como verdadeiras equipes.
A sobrevivência dos malandros ficcionais mostrados até o momento provém, além dos resultados das trapaças nos jogos, de suas amantes que, embora secundárias, possuem nos textos uma função que acaba por alterar e promover determinadas ações dos protagonistas. Assim, as também malandras Rizoleta, de Marafa e Marli, de "Malagueta, Perus e Bacanaço, são apresentadas aos leitores com a sina de trabalhar em expedientes esporádicos para sustentar os cafetões Teixeirinha e Bacanaço, respectivamente:
Está verdadeiramente orgulhosa dele. Fora de muitos, mas era o primeiro a quem se entregava daquele jeito - de quanto você precisa, meu filho? Passava o dinheiro franco. Quase tudo que ganhava. E bem que ela ganhava! Era muito freqüentada, tinha conhecidos certos, uma fama enorme no couraçado "Minas Gerais" (REBELO: 1947,16).
A mina lhe dava uma diária exigida de mil quinhentos, que o malandro esbagaçava todos os dias na vaidade do vestir e do calçar, no jogo e em outras virações. Quando lhe trazia menos dinheiro, Bacanaço a surrava, naturalmente como fazem os rufiões (ANTÔNIO: 1963,143).
A partir da breve leitura comparativa entre os textos Marafa e "Malagueta, Perus e Bacanaço" convém acrescentarmos que malandros e prostitutas possuem uma afinidade ou, melhor dizendo, uma dependência muito estreita entre si no universo ficcional apresentado por Marques Rebelo e João Antônio. Sob este aspecto, vale lembrar o que aponta Márcia Regina Ciscati quando define o meretrício como muito próximo ao mundo do crime, o qual engloba delinqüentes, alcoólatras, gigôlos e viciados.
Mas, apesar de compor esse universo desordeiro, a prostituição construída pelos escritores estudados adquire uma nova concepção. O trabalho dos autores nas referidas narrativas envolve os leitores com tamanha maestria a ponto de que estes acabam compreendendo que a representação da malandragem, bem como a da prostituição que permeia Marafa e "Malagueta, Perus e Bacanaço", não são os caminhos escolhidos por suas personagens, porém impostos por um sistema que não lhes deixa outra opção.
Ratificamos ainda que a malícia, a astúcia e a mentira passam a ser atitudes emblemáticas a esses seres desprovidos de qualquer assistência por parte dos governantes e demais autoridades, mesmo que possuidores de algumas características fundamentais, como as mencionadas por Roberto DaMatta (1997), quando em seu arguto estudo, refere-se a Pedro Malasartes como paradigma do malandro brasileiro.
Segundo o antropólogo, as personagens do submundo, mais especificamente o malandro - destacamos aqui o de Rebelo e João Antônio - são apontadas pela individualidade exacerbada , o que lhes permite a mutabilidade. Vale ressaltar, entretanto, algumas exceções para esta regra em determinados momentos das narrativas: os malandros cariocas de Marques Rebelo, por exemplo, unidos e "com lábia" (p.77), enganam os "pacóvios" ou tolos no "pinguilim"; da mesma forma que os vadios do escritor paulista "conluiados", vencem o "jogo da vida".
No parecer de DaMatta, os malandros são, igualmente, marcados pelo caráter contraditório , já que se encontram entre a posição de revolta ao sistema e a opção caracterizada por um encaixe num sistema de regras e; sobretudo, pela, liminaridade , o sobreviver nas rebarbas do sistema social, ou melhor, divididos entre o politicamente correto e o condenável pela sociedade.
Referências Bibliográficas
ANTÔNIO, João. Malagueta, Perus e Bacanaço & Malhação do Judas Carioca. São Paulo: Clube do Livro, 1987.
BARBOSA, Maria Lúcia Victor. O voto da pobreza e a pobreza do voto : a ética da malandragem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.
CANDIDO, Antonio. Dialética da Malandragem. In:_________. O discurso e a cidade . São Paulo: Duas Cidades, 1993. p. 19-54.
CISCATI, Márcia Regina. Malandros da terra do trabalho : malandragem e boemia na cidade de São Paulo: Annablume, 2000.
DaMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis : para uma sociologia do dilema brasileiro. 6ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
FERNANDES, Florestan. A Integração do Negro na Sociedade de Classes . São Paulo: Ática, 1977.
GOTO, Roberto . Malandragem Revisitada . Campinas: Pontes, 1988.
MATOS, Cláudia. Acertei no milhar : malandragem e samba no tempo de Getúlio. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
MONTELLO, Josué. O mestre do conto In: REBELO, Marques. Contos Reunidos . Rio de Janeiro: José Olympio, 1977.
REBELO, Marques. Marafa. 2ed. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1947.