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Metamorfose: travessia entre popular e erudito nos Contos Populares do Brasil
Kizy dos Santos Dutra (UFRGS)

sentez-vous cette souffrance

et ce désespoir à nul autre égal

D'apprivoiser, avec des mots de France,

Ce coeur qui m'est venu du Senegal? 1

Leon Laleau

 

Ao escrever estas palavras, Leon Laleau expressa a sua dor por ter que fazer o registro da literatura oral antilhana em língua francesa e reproduzir os sentimentos de seu povo, que são originalmente expressos em crioulo, na língua do colonizador. Pode-se ainda dizer que, para conseguir a difusão destes versos, é necessária a passagem da língua falada para uma outra, aceita por outras camadas da sociedade. Uma mudança semelhante acontece no registro dos contos populares brasileiros. A língua continua a mesma, mas, para que os contos possam ser estudados como textos literários, é necessário o registro escrito e, conseqüentemente, a mudança de modalidade de linguagem.

Os escritores que fazem este registro introduzem na academia algo diferente, a literatura oral, que, na verdade, já está presente neste universo através da literatura erudita uma vez que as duas influenciam-se mutuamente. A prova são os traços comuns que elas possuem. Um exemplo de semelhança é a presença da metamorfose tanto na literatura erudita quanto na literatura oral. Segundo Mikhail Bakhtin, a metamorfose, definida como transformação humana, pertence ao acervo do folclore mundial pré-clássico e é caracterizada pela mudança da personagem através do aprendizado que lhe proporciona uma transformação. No ensaio intitulado Apuleio e Petrônio o autor mostra através da história de O Asno de Ouro de Apuleio que um acontecimento muda o destino do herói e que por isso não é necessário narrar a vida biográfica da personagem principal como ocorre em um Romance grego. A transformação, metamorfose, do personagem principal do livro Lúcio em asno e em homem novamente representa, para o autor, a transformação de um homem em outro. Dito diferentemente, a metamorfose ocorre não apenas no físico, mas também na personalidade humana.

A cultura popular tem como uma de suas características principais o caráter prático, a necessidade de transmitir um conhecimento, uma lição, podendo usar a metamorfose como recurso para transmitir este saber.

O autor afirma que uma das formas de metamorfose é a saída da casa paterna, presente nos diversos tipos de folclore:

 

A realização da metáfora do caminho da vida com suas diversas variantes desempenha um papel importante em todos os tipos de folclore. Pode-se mesmo dizer que o caminho no folclore não é uma simples estrada, mas sempre o todo ou uma parte do caminho da vida; o cruzamento é sempre o ponto que decide a vida do homem folclórico; a saída da casa paterna para a estrada e o retorno à pátria são freqüentemente as etapas etárias da vida (parte moço, volta homem); os signos da estrada são os signos do destino, etc. Por isso o cronotropo romanesco é tão concreto e circunscrito, tão impregnado de sentidos folclóricos. (1993, p. 242)

 

Em Contos Populares do Brasil , Sílvio Romero faz o registro de diversas histórias de origem oral. O autor acreditava que a literatura popular definiria o nosso povo e poderia nos diferenciar da Europa. O critério etnográfico foi usado para dividir o livro: a primeira parte reúne os contos de origem portuguesa, a segunda, os de origem indígena, e a terceira, os de origem africana e mestiça. A etnografia era para Romero um critério-chave para a análise dos contos e, conseqüentemente, do povo brasileiro, já que, segundo as teorias vigentes na época, um país com a mistura racial brasileira seria uma nação fadada ao fracasso. Para desconstruir este conceito o autor elabora uma teoria baseada em autores europeus valorizando a formação étnica do Brasil. O mestiço seria um elemento transformador, a ponte entre o momento em que Romero vivia e o momento no qual o Brasil se livraria das más influências dos indígenas e dos africanos.

Está vinculado a esta preocupação com o futuro do país o interesse de Romero pela literatura popular; no entanto, como afirma Cláudia Matos, não era só o aspecto etnológico que interessava o escritor :

 

Na perspectiva de Sílvio Romero, estudo e conhecimento da poesia popular servem a duas finalidades complementares, vinculadas ambas ao projeto nacionalista: no domínio científico, fornecer uma "contribuição etnológica, [um] subsídio anônimo para a compreensão de espírito da nação"; no domínio literário, constitui uma matriz referencial para a construção de uma literatura dotada de originalidade e representatividade nacionais. (1994, p.150)

 

 

Matos acrescenta que a poesia popular não era muito bem vista, era associada a um conceito negativo de povo devido às revoltas populares, era associada a perigo, conseqüentemente pouco valorizada. Nessa época Romero, contrariando a tendência nacional, defende, a união da população e da intelligentsia brasileira na construção nacional:

 

A tônica do manifesto [ Mensagem dos homens de letras do Rio de Janeiro ao governo provisório da República do Brasil ] é o destaque apologético da aliança entre intelectuais e massa popular na construção da história brasileira. Os "heróis populares" chegam a ser comparados aos "deuses de Homero", por sua participação na guerra contra os holandeses e outros passos emblemáticos da auto-afirmação nacional. Romero não mede palavras otimistas ao exaltar a atuação constante e decisiva do povo brasileiro na construção do Estado independente e promissor, em harmonia com a força propulsora do pensamento ilustrado. (Idem, p.131)

 

 

Sobre as criações populares, além de enfatizar sempre o valor lingüístico, mitológico, etnográfico, o autor entende que os escritores eruditos "Devem inspirar-se na criação popular, como antes deveriam inspirar-se na natureza americana." (Idem, p. 182) A sua relação com uma das formas de expressão destas criações populares mostra como o autor se preocupava com o gênero:

 

A música que sabemos de cor, é muito graciosa e mereceria bem a pena de ser escrita. E aqui fazemos uma declaração e exprimimos um anelo.

Ainda hoje, entre parênteses, nos lembramos dos tons de mor porção dos nossos cantos populares. Temos feito esforços por conseguir músico de saber e talento capaz de as tomar por escrito. Não nos tem sido possível.(...)

De novo exprimimos o voto de que seria para desejar que algum sabedor se apresentasse para escrever a nossa música popular. Nós ficamos às ordens para cantar o que sabemos; nós e pessoas de nossa família, onde o elemento nortista predomina. (ROMERO, apud Matos, 1994, p.180)

 

Romero não incluiu, em seus estudos sobre os contos populares a análise literária, ateve-se a coletá-los e classificá-los. Isso é justificável pelo seu pioneirismo no interesse por contos populares no Brasil. No entanto, usando o corpus que o autor coletou, podemos hoje fazer a análise segundo critérios contemporâneos.

Em "O Sargento Verde", a filha de um homem rico é desposada pelo diabo disfarçado de príncipe. Nossa Senhora, que é madrinha da moça, alerta-a para o seu futuro, dizendo a ela o que deve fazer depois que a cerimônia do casamento acabar. Os dois seguem por uma estrada e a moça nega-se a ir na frente. Advertida por Nossa Senhora, ela mostra para o diabo um rosário e segue o caminho da direita. Como afirma Bakthin, "os signos da estrada são os signos da vida". Neste caso, mostram a não-aceitação do diabo.

Em "O Irmão Caçula", o caminho da estrada é seguido por três irmãos, os dois primeiros, João e Manuel, saem fugidos de casa e cabe ao mais novo, José, ir buscá-los. No caminho José encontra uma velha que lhe dá de comer e diz que ele deve ir ao Reino das três Pombas para encontrar os irmãos mais velhos. Esta adverte o rapaz de que eles fingiriam que não o conheciam para poder desacreditá-lo na frente do rei e o obrigariam a cumprir provas. A velha dá a ele uma vara e uma esponja para que o ajudem a vencer os desafios impostos pelos seus irmãos. O caminho que traça para alcançar o objetivo de sua saída de casa, saber o paradeiro dos irmãos, é para José uma forma de amadurecimento e de superar os irmãos que mostram suas falhas de carater. Apesar de, no final do conto, os três irmãos terem se casado com princesas, é através da vara ganha no caminho para o reino que José consegue dominar a situação e superar os irmãos. Podemos dizer que as noções de tempo e espaço se confundem, as provas que José vence durante o caminho que garante a sua volta como vencedor fazem a sua maturidade, segundo Bakthin :"Os índices do tempo transparecem no espaço, e o espaço reveste-se de sentido e é medido com o tempo." (1993, p.211)

Em "O Homem Pequeno", D. João, um príncipe, se transforma em criado de uma família de gigantes depois de se perder durante a caça. Guimara, a filha da família, se apaixona pelo criado. Para proteger a filha, o gigante resolve matar D. João. Este pede ao príncipe que ele realize diferentes tarefas que se não forem cumpridas serão punidas com a morte. Sabendo da dificuldade das tarefas, Guimara ajuda o príncipe com sua magia repetidas vezes. O pai descobre e os dois fogem. Ao longo do caminho Guimara disfarça-se e ao príncipe de várias formas diferentes conseguindo chegar ao reino originário de D. João. Guimara pede ao amado que não a esqueça nenhuma vez, e que não beije a mão da sua tia, mas ele esqueceu e a fez perder o encanto, ficando pequena e muito triste.

No caso deste conto a aprendizagem está presente, não diretamente na personagem, mas no que o leitor ou ouvinte, no caso de um conto popular, vai aprender com a história. Segundo Walter Ong, as comunidades que possuem a cultura oral primária como base de suas relações sociais :

 

aprendem pela prática - caçando como caçadores experientes, por exemplo - pelo tirocínio, que constitui um tipo de aprendizado, aprendem ouvindo, repetindo o que ouvem, dominando profundamente provérbios e modos de combiná-los e recombiná-los, assimilando outros materiais formuladores, participando de um tipo de retrospecção coletiva - não pelo estudo no sentido restrito. (1998, p.17)

Em "A Raposa e o Homem", a raposa engana o homem três vezes fingindo-se de morta. O homem enterra-a duas vezes e na terceira ele desiste. Reclamando que tem muitas raposas mortas em seu caminho para enterrar, ele apenas a joga longe. O conto acaba com a constatação da raposa: "Não se deve abusar de quem nos faz bem."

A aprendizagem neste caso não está na interpretação que o leitor pode fazer do conto, mas na aprendizagem que o próprio personagem faz com a sua experiência que é relatada pela história. O mesmo ocorre no caso literatura erudita, analisada por Bakthin.

Esta relação entre a literatura popular e a erudita só vem a provar que uma não pode ser vista como superior à outra, já que possuem semelhanças e se influenciam mutuamente. A desvalorização da cultura de origem oral só pode ser feita por pessoas que não se lembram ou não sabem que

A escrita não foi o primeiro dos mecanismos de fixação cultural utilizados pela humanidade, embora se possa afirmar que é dos mais antigos. A transmissão oral da tradição, o uso de rituais e da dança, o apelo às artes visuais precederam e muito o aparecimento daquela, mesmo a mais pictórica e ideogramática, e até hoje vários povos podem prescindir de seu emprego, sem se sentirem ameaçados de dispersão, nem se arriscarem nem à dissolução ou esquecimento dos valores herdados dos antepassados. (ZILBERMAN e SILVA, 1991, p.11)

 

 

 

 

Bibliografia :

 

BERND, Z. Inscrição do oral e do popular na tradução literária brasileira. In: Fronteiras do Literário, Literatura oral e popular Brasil/ França . BERND, Z. e MIGOZZI, J. (Orgs) Poa, Editora da Universidade/UFRGS, 1995.

MATTOS, C. A Poesia Popular na República das Letras . Rio de Janeiro, UFRJ, 1994.

PAIVA, M. e BOCCO, L.. Língua, cultura e o educador de línguas: uma releitura conceitual. In: Discurso, Memória e Identidade . Indursky, F. e Campos,M. Poa, Sagra Luzzato, 2000.

ROMERO, S. Contos Populares do Brasil . São Paulo, Landy, 2002.

ZILBERMAN, R. e SILVA, T. (Orgs) Leitura Perspectivas Interdisciplinares. São Paulo, Ática, 1991.

 

 

Tradução : Você sente este sofrimento/ e esse desespero que à nenhum outro é igual/ de registrar com palavras da França/ esse coração que me veio do Senegal?