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A vadiagem de Vadinho: releituras
Benedito Veiga (UNEB / UCSal)

- Era um porreta!

Oração fúnebre para Vadinho de Paranaguá Ventura1

[...] maluco, sem juízo, meu doido lindo.

Palavras de Flor a Vadinho, ao sentir-se

apaixonada pelo boêmio 2

 

Vão vadiar por aí, meus filhos,

vão fazer neném.

 

Palavras de Deus às criaturas humanas,

segundo Vadinho. 3

 

A meu ver, Vadinho, personagem da ficção Dona Flor e seus dois maridos de Jorge Amado, pode ser analisado na articulação de dois contextos: o da época da ação narrada e o de sua produção e lançamento - as décadas de 30 e 60, respectivamente no século XX, momentos em que a problemática do exercício do poder persiste na sociedade brasileira, com a aliança do segmento mais conservador com setores mais avançados, permitindo a continuidade do mando, com permanências, entre outras, da distribuição injusta da riqueza.

Nessa perspectiva, o estudo da produção da narrativa amadiana dividida em fases, como aceito pela maioria dos críticos literários, é posto de lado, com a afirmação de que poderia ser considerada uma única fase, com os mesmos questionamentos sob angulação variada.

Minhas afirmativas têm respaldo na hipótese de Ivia Alves expressa no ensaio "As mudanças de posição da crítica e a produção de Jorge Amado", quando realoca, para leitura e interpretação, Gabriela Cravo e Canela , analisada como integrante de um bloco sob a perspectiva de um único problema que se abre com as narrativas do autor na década de 30. Segundo a autora, essa perspectiva de leitura aproxima contextos - burguesia, industrialização, crescimento urbano -, e mostra um paralelismo entre os anos 60 e aqueles de 30: a possibilidade de progresso.

Para a ensaísta,

 

[...] Amado discute a situação dos anos sessenta e conclui que, trinta anos depois, o país ainda não alcançou qualquer mudança significativa no eixo socioeconômico (no sentido de industrialização e de mais igualdade entre as classes), pois, no país, convivem, hegemonicamente, o poder urbano e o rural, refletindo-se em uma sociedade desigual entre as classes, na medida em que o comando político que detém a terra impede qualquer segmento urbano de transformar a sociedade. Em outras palavras, a passagem do tempo não projeta o país para frente, não modifica suas estruturas seculares, fincadas desde o começo da colonização. 4

 

Nesse quadro, Ivia Alves, prosseguindo, prioriza o ponto de vista do reexame de uma suposta segunda fase da produção amadiana, com os instrumentos centrados na recepção crítica de Gabriela , e opina:

 

Estudos históricos atuais tendem a mostrar que as transformações no Brasil não se realizam in totum , porque as reivindicações dos segmentos sociais avançados são paralisadas, detidas, antes mesmo de uma confrontação nas urnas, já que são retardadas pelo poder político conservador que, pelas urnas ou por outros meios (golpes), assume o poder. Com isso as reformas reivindicadas pela sociedade são sempre parcialmente alcançadas; e mais: apenas aquelas que reasseguram o poder conservador. Não será essa mesma idéia de avanço e recuo que se encontra nas páginas de Gabriela ? 5

 

O próprio Jorge Amado, em entrevista concedida a Paulo Ernesto Serpa, durante a realização do "Seminário sobre o romance de 30 no Nordeste", realizado em Fortaleza, em novembro de 1981, reconhece que, se a temática do romance de 30 continua sendo abordada, é porque os problemas de 30 ainda prosseguem: "A situação é a mesma. Mudou em que, às vezes, hoje a terra deixou de estar em mãos de um latifundiário nacional para estar em mãos de uma multinacional estrangeira. Quer dizer, piorou, em certos casos. Então, a temática está aí" 6.

Desse modo, a situação na década de 30 se projeta na de 60 não apenas na vagabundagem, na malandragem ou na boemia; elas podem ser vistas de modo mais generalizado e denunciador, como a falta de empregos com remuneração condizente para segmentos sociais mais baixos, ou a falta de preparo para o exercício de atividades profissionais pela carência ou inadequação das escolas, quando Vadinho se mostra como um tipo adequado.

No encalço dessa leitura e com as mudanças devidas, proponho que Jorge Amado, também em Dona Flor , tomando como cenário a capital baiana, discute dois momentos sociopolíticos similares, em que o embate entre os políticos novos e os velhos continua: o período da ação representada na narrativa (entre 1937 e 1945), e o da produção (de 1965 a 1966).

*

A concepção de malandro na modernidade carrega um sinal negativo, inscrevendo o indivíduo que não trabalha, pois o trabalho é símbolo de inserção na sociedade burguesa e capitalista.

Servindo-me da análise de historiadores e críticos e das próprias palavras de Jorge Amado, tudo isso pode ser revisitado na figura de Vadinho e serve como pista para se repensar o modo de viver julgado doidivanas ou boêmio.

Vadinho representa um universo de contestações às injustiças aplicadas aos subalternos, impostas pelo sistema capitalista vigente na sociedade brasileira, que inferioriza a maioria da população, reservando a esta, empregos de baixa renda ou subempregos, e estabelecendo critérios personalíssimos para o preenchimento de cargos públicos, o que afasta grande parte da comunidade sem as habilidades ou os apadrinhamentos necessários.

A relação Vadinho versus emprego permite mostrar traços desse anti-herói, inscrito na entrada econômica da modernidade nacional:

 

Um tio seu, de apelido Chimbo, ocupara o posto de Delegado Auxiliar durante uns poucos meses. Esse tio, um dos raros Guimarães a reconhecer Vadinho como parente legítimo, foi quem lhe arranjou o emprego na Prefeitura: fiscal de jardins, lugar dos mais modestos, ordenado mísero, não dava nem para uma noite gorda no Tabaris. Não é necessário ressaltar a completa negligência do jovem funcionário municipal: jamais fiscalizara jardim de nenhuma espécie, só aparecia na repartição para receber os magros caraminguás mensais. Ou para tentar o aval impossível do chefe, para morder os colegas em vinte ou cinqüenta mil-réis. Os jardins não lhe interessavam, não tinha tempo a perder com plantas e flores, podiam desaparecer todos os jardins da cidade, não lhe fariam falta. Ave noturna, seus canteiros eram as mesas de jogo, e suas flores, como bem considerava seu Vivaldo, as fichas e os baralhos. 7

 

O caráter infringente de Vadinho mostra-se claro, paralelo às denúncias das mazelas da burguesia: o ingresso no serviço público por apadrinhamento - quem indica Vadinho para o emprego é um tio; o pagamento ínfimo do trabalho do servidor ao lado do não comparecimento ao serviço - Vadinho recebe ordenado mísero e é faltoso contumaz; a completa indisposição para as funções - Vadinho não se interessava pelo tipo de serviço e não tinha nenhum preparo para executá-lo; a vida dedicada a outras atividades, sem qualquer referência com o vínculo funcional - Vadinho era interessado na vida noturna e nos jogos de azar.

Essa camada social, majoritária e excluída, da qual Vadinho faz parte, esbarra ainda com os valores da classe dominante e urbana, contrária ao funcionamento dos jogos de azar, permitidos no Brasil até o início de 1946, quando se restabelece a vigência do artigo 50 da Lei das Contravenções Penais 8: os cassinos e as roletas esmaecem, mas as bancas do jogo de bicho crescem na ilegalidade consentida.

Vadinho mostra-se um desafiante de tais convenções burguesas, quando avaliado: não apenas durante o período da narrativa Dona Flor , mas igualmente no momento de sua estréia comercial como personagem, em 1966, por analogia das perseguições aos desafinados dos regimes ditatoriais.

Como reforça Jorge Amado: "Nem mesmo no momento de paixão mais alta, de maior doçura familiar, de pensamentos mais domésticos, Vadinho imaginou sequer mudar sua vida, modificá-la, adquirir novos hábitos, regenerar-se" 9.

A construção do anti-herói Vadinho começa na descrição de sua morte, no início da narrativa:

 

[...] Vadinho caiu no samba com aquele exemplar entusiasmo, característico de tudo que fazia, exceto trabalhar. Rodopiava em meio ao bloco, sapateava em frente à mulata, avançava para ela em floreios e umbigadas, quando, de súbito, soltou uma espécie de ronco surdo, vacilou nas pernas, adernou de um lado, rolou no chão, botando uma baba amarela pela boca onde o esgar da morte não conseguia apagar de todo o satisfeito sorriso do folião definitivo que ele fora. 10

 

O texto intensifica tônicas básicas do caráter de Vadinho: o exercício de um outro tipo de ocupação/trabalho ("caiu no samba com aquele exemplar entusiasmo, característico de tudo que fazia, exceto trabalhar.") e seu apego à folia ("do folião definitivo que ele fora.") Essas duas características da personagem têm como ponto de partida a denúncia da falência da família burguesa, levantada sobre valores, como a vigência de padrões imperantes até os dias atuais, nas relações domésticas de poder:

 

Jamais vivera ele vida de família, não chegara a conhecer a mãe morta de parto, e o pai cedo desaparecera de sua existência. Produto de ocasional ligação entre o primogênito de pequeno-burgueses remediados e a copeira da casa, dele ocupara-se o pai, o tal parente longe dos Guimarães, enquanto solteiro. Mas, ao fazer um casamento afortunado, tratou de livrar-se do bastardo a quem sua esposa, devota ignorante, consagrava um santo horror - filho do pecado! 11

 

Vadinho é um bastardo, excluído dos vínculos familiares. Seu modo de ocupação divergente - uma relação trabalhista legal, mas considerada não legítima pelos padrões burgueses - busca conciliar contradições da cultura nacional, como escreve Roberto DaMatta, em "Do país do carnaval à carnavalização: o escritor e seus dois brasis", mudando o que deve ser mudado: unindo o Brasil terrível para morar com o Brasil maravilhoso para viver. 12

Os locais de ocupação de Vadinho são os cassinos de jogos (como o Palace), os cabarés (como o Tabaris), as roletas (como a casa de tavolagem do negro Paranaguá Ventura, o antro de Zezé Miningite, o de Abílio Moqueca, a espelunca de Três Duques), as várias bancas de bicho, os bares (como o do Cabeça, o Bar Alameda), as alegres casas de mulheres (como o castelo da gorda Carla). Seu horário de trabalho era, preferencialmente, o noturno, com plantão de vários dias continuados de jogatinas e bebedeiras. Sua remuneração variava da perda total ao ganho exagerado, como acontece com os ocupados na jogatina: a depender da sorte.

Vadinho - com suas atitudes sem as medidas burguesas - enfrenta a ordem estabelecida, não considera a palavra de mando do sistema capitalista: o trabalho é um dever social. Que ditames, que dever para os excluídos? Vadinho desafia os limites do jogo de subalternidades, imposto às camadas inferiores da população; dribla, com galhardia boêmia, o respeito às posições estabelecidas.

Essa personagem amadiana ganha significados, relacional e de denúncia: para seus companheiros não do mesmo segmento social, apenas de jogatinas, Vadinho era "herói de um mundo proibido e fascinante" 13; para seus companheiros do mesmo segmento social e dessa ocupação enquanto meio de subsistência, era "um porreta!" 14.

 

1 AMADO, Jorge. Dona Flor e seus dois maridos . 48. ed. Record, Rio de Janeiro, 464p., 1997. p. 22.

2Id. , ibid., p. 92.

3Id. , ibid., p. 100.

4 ALVES, Ivia. As mudanças de posição da crítica e a produção de Jorge Amado. In: ______. (Org.) Em torno de Gabriela e Dona Flor. Fundação Casa de Jorge Amado, Salvador, p. 9-34, 2004. p.10.

5 ALVES, Ivia. As mudanças de posição da crítica e a produção de Jorge Amado, p. 12-13.

6 AMADO, Jorge. O passado presente para Jorge Amado: a problemática social de 30 persiste nos dias atuais (Entrevista a Paulo Ernesto Serpa). In: O ROMANCE DE 30 NO NORDESTE: seminário sobre o romance de 30 no Nordeste, realizado de 23 a 27 de novembro de 1981, na Universidade Federal do Ceará. EDUFCE, Fortaleza, 1983. p. 191-196. p. 192.

7 AMADO, Jorge. Dona Flor e seus dois maridos . p. 13-14.

8 OS CASSINOS no Brasil. Disponível em: < http://www.monteserrat.com.br/txt oscassinos.htm > Acesso em: 11 jun. 2004.

9 AMADO, Jorge, Dona Flor e seus dois maridos ., p. 88.

10Id. , ibid., p. 3.

11Id. , ibid., p. 85.

12 DaMATTA, Roberto. Do país do carnaval à carnavalização: o escritor e seus dois brasis. Cadernos de literatura brasileira : Jorge Amado, São Paulo, Instituto Moreira Salles, n. 3, mar. 1997, p. 120-135. p. 134.

13 AMADO, Jorge. Dona Flor e seus dois maridos , p. 18.

14Id. , ibid., p. 22.