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O herói popular em Contos tradicionais do Brasil
Alessandra Flach (UFRGS)

As manifestações orais tendem a ser como a identidade do grupo que se vale delas. Assim, quando se trata de narrativas populares, é essencial ter em mente que isso implica considerar e analisar uma produção não apenas do ponto de vista formal, literário, mas também, inevitavelmente, imergir no imaginário de uma cultura, conhecer suas formas de pensar e, principalmente, de lidar com as coisas do mundo. Resgatar as histórias que fizeram parte (e ainda fazem) do imaginário coletivo é uma tentativa de pôr em evidência a identidade da cultura brasileira, com todos os seus desdobramentos, fundindo presente e passado, memória e invenção, tradição e atualização.

Em face disso, temos em Contos tradicionais do Brasil , recolha feita por Câmara Cascudo (1898-1986), um importante registro dessas representações orais. Como o próprio pesquisador costumava ressaltar, esses contos "revelam informação histórica, etnográfica, sociológica, jurídica, social. São um documento vivo, denunciando costumes, idéias, mentalidades, decisões, julgamentos" 1. Pela análise dos contos tradicionais recolhidos por Câmara Cascudo, tendo em vista essa natureza de "documento vivo", é possível fazer algumas associações entre o livro e o imaginário popular coletivo que ele representa. Além disso, ainda que os contos em questão sejam qualificados como "tradicionais", não se trata penas de ter conhecimento de como certos aspectos eram apresentados em um tempo remoto. Pelo contrário, os contos populares, por pertencerem à oralidade e serem resultado de uma produção coletiva, são atualizados e ressignificados à medida que nos apropriamos deles. Assim, cada época, cada cultura, interfere e modifica essas narrativas, de modo a torná-las representativas de sua identidade, de seu código.

Diante de tais possibilidades, percebe-se que há uma certa unidade nesta coletânea de Câmara Cascudo. A maneira como o herói é descrito em quase totalidade dos contos é um forte indício de que as narrativas populares, além de serem um registro histórico e literário, refletem a maneira como as pessoas pensam, e funcionam como uma espécie de válvula de escape, em que é possível viver experiências que talvez na vida real seriam impossíveis de se concretizar 2. O herói popular de Contos tradicionais do Brasil diferencia-se em certa medida do protótipo de herói que costumamos idealizar, aquele príncipe que, passando por diversas provas e tendo a ajuda de algum elemento sobrenatural, torna-se merecedor do prêmio 3. Na coletânea em questão, o "herói" aproxima-se muito mais da noção de "anti-herói", o fraco, o medroso, sem características que se sobressaiam, sem origem nobre. Em comparação com os contos dos irmãos Grimm, por exemplo, e até mesmo se considerarmos aqueles selecionados por Sílvio Romero 4, no final do século XIX, vemos que há, em Câmara Cascudo, muito mais recorrências de um herói mais próximo do povo, mais "humano", com falhas e defeitos. Cabe perguntar então: por que essa recorrência de um herói popular, que vai contra o ideal de herói que se costuma ver nos contos de fada? Por que essa simpatia por um herói que não difere tanto das pessoas comuns?

Para responder a essas perguntas, é preciso contextualizar o trabalho de Câmara Cascudo. Sua atuação como folclorista está inserida dentro do período designado como Modernismo brasileiro, que, como se sabe, teve a pretensão, entre outras coisas, de resgatar o folclore e a diversidade da cultura brasileira, até então à margem da cultura erudita, e cuja produção muitas vezes foi tachada de subliteratura. Daí que o pesquisador coletou a partir de testemunhos orais, tentando manter os relatos, na medida do possível, fiéis à forma como lhe foram narrados. Acima de tudo, Cascudo tinha consciência da complexidade e da importância dessa produção. A maioria das pessoas que lhe contaram essas histórias realmente as ouviram em rodas, nas fazendas, contadas pelos peões, pelos velhos. O próprio Cascudo testemunhou essas manifestações, de maneira que não se trata de uma pesquisa que tenta emitir um juízo, analisando-as sob a perspectiva da literatura oficial, mas de um estudo sério, que pretendeu conferir a essas produções seu devido lugar. No caso de Sílvio Romero, apenas para citar um contraponto, sua pesquisa e sua coleta são coerentes com o pensamento vigente em sua época, o que vai se refletir na forma como os contos são apresentados, com uma intervenção maior da cultura escrita, evidenciando que as noções de povo e cultura não eram tão polivalentes quanto aquelas demonstradas por Cascudo e que estavam ainda muito suscetíveis à influência européia. O fato é que, em especial a partir de Câmara Cascudo, houve uma preocupação maior em divulgar e valorizar a produção artística da cultura popular como representação do imaginário coletivo e de seus aspectos particulares, tendo em vista sua pluralidade e suas especificidades.

Esse herói popular em geral é descrito como amarelo, medroso, pobre, preguiçoso, mas, por suas próprias forças (e aqui está aquilo que o legitima como herói), consegue interferir no sistema dominante do qual é vítima. É como se as pessoas vissem nele o grande sublimador de sua condição. Mesmo que não fique rico, mesmo que não mude o status quo , ele se vinga de seus opressores e isso representa uma forma de evasão, como se, de fato, as pessoas que ouvem a história e aquele que a conta assumissem a posição de heróis, deixando sua condição de resignação e submissão para afrontarem os dominantes. Muito mais que o herói que ganha um objeto mágico e fica rico de uma hora para a outra, o herói popular corresponde às expectativas do grupo que representa, pois não recorre a meios externos para atingir seus objetivos, o que implicitamente reafirma o valor e a sabedoria do homem simples, sem acesso ao universo erudito. Esse tipo de representação, segundo afirma Antonio Candido, é o resultado de uma característica bastante brasileira, que é a abertura ao dominado, a flexibilidade em acolher e valorizar o outro e a sua cultura. Por sua origem colonial, vê-se no Brasil uma particular tolerância aos que apresentam alguma condição de opressão.

Não querendo constituir um grupo homogêneo e, em conseqüência, não precisando defendê-lo asperamente, a sociedade brasileira se abriu com maior largueza à penetração dos grupos dominados ou estranhos. E ganhou em flexibilidade o que perdeu em inteireza e coerência. 5

Isso pode ter efeito sobre a valorização desse herói popular, até mesmo sobre a possibilidade de se considerar alguém de origem pobre, comum, como protagonista, como centro das atenções. A figura que se sobressai como maior representante desse tipo de herói popular é a de Pedro Malazarte. Este é um personagem recorrente no folclore universal. Com vários nomes, em várias culturas, mantém uma característica que lhe é peculiar: seu utilitarismo. Suas enganações, suas artimanhas (atitudes recrimináveis para o ideal de herói) fazem com que ganhe a simpatia das pessoas, porque consegue sempre dar uma lição nos mais ingênuos, mais ambiciosos, mais autoritários. Apesar de negar entusiasticamente o trabalho, de viver ludibriando os outros e tirando vantagem dos acontecimentos, suas "intenções" são nobres.

Nenhuma idéia instintiva de maldade desinteressada o anima a cometer uma diabrura. Se não existir a possibilidade de resultado econômico, Malazarte desistirá de qualquer ação. [.] Há nele igualmente o plano social da crítica, de ataque, de castigo aos ricos e aos fidalgos, adaptado no sertão brasileiro, aos fazendeiros e comerciantes que são ludibriados pelo velhaco. 6

Assim, o roubo e a enganação são aceitos desde que haja uma motivação ou um objetivo legítimo, como, por exemplo, vingar-se de um patrão que abusa dos empregados. Suas atitudes mostram como não se submeter a um comportamento opressivo, ou melhor, como reagir a isso, punindo de alguma forma aquele que impõe essa condição.

Em uma de suas aventuras mais famosas 7, Malazarte emprega-se na fazenda de um homem que tinha a fama de propor contratos impossíveis de serem cumpridos. Malazarte aceita o desafio, pois queria se vingar das humilhações que esse fazendeiro havia feito o seu irmão passar. Em todas as tarefas designadas, Malazarte conseguia inverter a situação de tal forma que o patrão era sempre prejudicado. Por exemplo, o patrão mandou que ele limpasse a plantação de mandioca. Nosso herói obedeceu com rigor a ordem, arrancando tudo, não só o mato, mas também a plantação inteira. Em outra ocasião, Malazarte deveria colocar a carroça e o boi dentro do galpão, mas sem passá-los pela porta. Ele obedeceu, fazendo picadinho da carroça e do boi e os metendo pela janela. O patrão, depois de tantas peripécias, resolveu matar o empregado, mas seu plano deu errado. Malazarte fez com que ele acabasse matando a própria esposa. Com medo de suas ameaças, o fazendeiro deu-lhe muito dinheiro para que fosse embora e não o denunciasse por ter matado a mulher. Neste caso, evidencia-se a questão da obediência. Como cabe ao pobre obedecer, Malazarte propõe uma obediência "malandra", que culmina com a "lição" dada no fazendeiro.

O que Pedro realiza é sua parte integral no contrato, obedecendo até às últimas conseqüências as ordens de seu patrão. Assim fazendo, Pedro Malasartes pode tirar partido "do outro lado" do contrato, conseguindo transformar a desvantagem em vantagem. [.] Um empregado respeitador e orientado para o código dos favores, da patronagem positiva e das relações pessoais vincadas pela consideração jamais iria pensar em destruir os sagrados bens de produção do seu empregador, e assim seria liquidado por ele. [.] O que Pedro consegue realizar é a desmistificação dos bens do fazendeiro. 8

A malandragem e a sagacidade com que o herói encara seus desafios permitem que ele consiga reverter sua situação, passando de possível vítima a responsável pela queda do outro. Suas trapaças são vistas como algo positivo, como manifestação de sua sabedoria e de sua capacidade de se sair bem de situações difíceis, bem conhecidas entre aqueles que estão ouvindo sobre suas aventuras.

Acima de tudo, diferente do herói dos contos de fada, que recebe como prêmio uma nova vida, cheia de privilégios, com muitas riquezas, Malazarte jamais se integra ao sistema no qual interfere. Como representante da classe popular, mostra como a astúcia e a malandragem fazem com que ele sobreviva, mas, em nenhum momento, aceita assumir a posição de prestígio e poder. Isso pode ser explicado pelo fato de que a cultura popular, ainda que reforce o sentimento de grupo, de união, não se pretende um instrumento de insurreição popular contra os dominantes, não quer implantar a revolta entre as pessoas. É, antes de qualquer coisa, um instrumento de evasão, que permite, como no caso das narrativas de Malazarte, que as pessoas vejam uma outra possibilidade, que não se sintam desmerecidas por não dominarem certos códigos da cultura erudita. Assim como prova Malazarte, é possível sobreviver valendo-se de um pouco de esperteza e sagacidade.

Esse tipo de herói popular, como bem representa a figura de Malazarte, existe em praticamente todas as culturas, mas é significativo que apareça em tantas recorrências na coletânea feita por Câmara Cascudo. Isso demonstra a sua aceitação e consolidação na cultura popular brasileira. O que se pode concluir, enfim, é que o percurso do herói, em qualquer tipo de narrativa, é representativo do meio no qual ele é criado. Especialmente na cultura oral e popular, essa representatividade atinge proporções ainda maiores, por se tratar de uma prática coletiva, em que várias pessoas interferem e recriam, acrescentando seus valores e seus códigos. É por isso que tipos com Malazarte não podem ser referidos como anti-heróis. Eles não estão à margem, são justamente suas particularidades que os tornarão heróis verdadeiros e valorizados, já que, segundo Zilá Bernd, "a figura do herói resume a tomada de consciência coletiva de que existem meios de lutar contra a opressão" 9, o que os torna capazes de "salvar", ainda que pela ficção.

 

CASCUDO, Luís da. Literatura oral . Rio de Janeiro: José Olympio, 1952, p. 249.

Quando se trata de manifestações populares, é preciso ter claro que não é o mesmo que literatura erudita, tampouco se apresenta da mesma forma. Assim, é evidente que a literatura oficial também é representativa de uma época, de um grupo, configura-se como um documento histórico, mas, diferente das produções populares, ela é enfocada a partir de um ponto de vista individual, intelectualizado, ou seja, do próprio autor, que domina a cultura escrita em detrimento da oral, sendo, portanto, fruto de uma ação refletida e convencional. A literatura popular, por sua vez, decorre de um processo de criação coletiva, que não segue um estilo literário, que não tem preocupações estéticas, mas pragmáticas e com enfoque na tradição.

Sobre o herói paradigmático dos contos de fadas ver PROPP, Vladimir I. Morfologia do conto maravilhoso . Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1984.

ROMERO, Sílvio. Contos populares do Brasil . São Paulo: Landy, 2000.

CANDIDO, Antonio. Dialética da Malandragem. In: ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias . Edição Crítica. Rio de Janeiro: Livros Técnicos, 1972, p. 340.

CASCUDO, Luís da. Literatura oral . Rio de Janeiro: José Olympio, 1952, p. 269.

CASCUDO, Luís da. Seis aventuras de Pedro Malazarte. In: _____. Contos tradicionais do Brasil . 12ed. São Paulo: Global, 2003, p. 174.

DA MATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro . 5ed. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1990, p. 241-242.

BERND, Zilá. Literatura e identidade nacional . 2ed. Porto Alegre: Editora da Universidade/ UFRGS, 2003, p. 90.