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Num século de utopias: Flora Tristán e Nísia Floresta
Maria Consuelo Cunha Campos (UERJ)
Visto a partir do XXI, o XIX se nos apresenta,contrastivamente,rico em utopias.Entre ambos, o XX ( que assistiu, sobretudo em sua primeira metade , a revoluções que visavam a uma transformação social profunda, consequente à visada utópica desenvolvida no XIX) verá seu próprio término associar-se a um proclamado fim das utopias.
Através da mídia ( bem como do pensamento único disseminado nela por autores e livros, comprometidos com a chamada nova ordem mundial),o capitalismo tardio,globalizando-se sob o neoliberalismo econômico e sob a hegemonia imperial dos Estados Unidos da América, nos vem sendo apresentado como “ a “ utopia possível , alternativa única a fundamentalismos teocráticos que embasariam o terror. Civilização versus barbárie, em clave contemporânea...
Proclamada a falência da última utopia, o socialismo real, com o esfacelamento da URSS e do bloco comunista, com os novos rumos do comunismo chinês em seu convívio com o mercado,e com as décadas de isolamento econômico de Cuba, considerado vitorioso por manter-se, a partir da mais rica economia do planeta , na maior parte dele,este capitalismo tardio se apresentaria como aquilo que de mais próximo à utopia a humanidade teria conseguido produzir.Para chegar não a um livro, como queria Mallarmé , mas, sim, a um fim, o da história.
Nec plus ultra, este estágio neoliberal - não obstante a devastação do planeta, as desigualdades sociais extremas, a violência, a miséria produzidas dentro das sociedades e entre estas- seria, com sua democracia representativa burguesa, o máximo que a humanidade poderia almejar, em matéria econômica e político-social...
Face a tal pensamento hoje hegemônico, faria, ainda ,sentido, debruçar-nos sobre o passado e, nele, sobre duas figuras femininas ,marginais em seu tempo e que dedicaram suas vidas a lutar pelo que consideraram um mundo melhor, uma sociedade mais justa ?
Com argumentos como os de que, entre nós, a maioria do corpo discente dos diversos níveis de ensino já é constituída por mulheres, ou de que a força de trabalho feminina teria mais do que dobrado no último quarto de século, ou, ainda, de que o Código Civil já teria reconhecido a igualdade entre homens e mulheres na chefia da família, um certo pós-feminismo desconsidera, por outro lado,dados eloquentes em contrário, como os de que no terço de famílias cuja chefia é feminina estão os mais pobres entre os pobres, ou de que quase 30% das mulheres que chefiam famílias auferem até meio salário-mínimo e são as mais atingidas pelo subemprego.
No mundo das letras, a existência de acadêmicas , inclusive à frente da secular instituição pátria , ao mesmo tempo em que escritoras se fazem presentes( e mesmo com mais de um título, simultaneamente) nas listas de best-sellers, e, na nova geração, elas se multiplicam, com êxito e profissionalismo, poderiam indicar terem ficado, definitivamente, no passado, os entraves a mulheres, também neste campo.
Na universidade, a chegada feminina ao poder também poderia, superficialmente, ser vista como indício da igualdade entre os gêneros.Tetos de vidro,justamente por sê-lo, são ,às vezes, imperceptíveis...
Teriam Flora Tristán e Nísia Floresta , duas defensoras de direitos das mulheres, algo a dizer-nos, ainda, com seus escritos,quando este pós-feminismo proclama a caducidade da luta pela igualdade - aparentemente já alcançada - entre os gêneros?
Seria, por exemplo, uma Flora Tristán, divorciada, lutando em favor da igualdade da mulher e contra a exploração da classe operária pelo capital, enfrentando a burguesia industrial e sonhando com seu Palácio dos Trabalhadores, hoje apenas a personagem fascinante de uma avó rebelde que, com seu neto Gauguin,o paladino da Casa do Prazer , em O Paraíso na outra esquina , de Mário Vargas llosa, que consegue fascinar os leitores em um século como nosso XXI, que promete,já no seu início, ser tão voltado para a busca da felicidade individual , em meio à infelicidade quotidiana de massas e massas humanas , desde a América Latina até ao próximo e ao longínquo Oriente ?
Uma reescritura latino-americana de Flora & Florestas,nossas outras: diálogos imaginários
Preferi produzir uma resposta ficcional a estes questionamentos.Escrevi - e publiquei numa antologia de escritoras - um conto epistolar, tendo por título “ Minha cara Nísia...minha prezada Amparo”, de cujo making off lhes falo agora.Optei por uma técnica antiga, a narrativa epistolar, colada a outras contemporâneas, a apropriação, o enxerto, a citação unindo assim a matéria do século XIX a um modo de narrar atual.
Lendo as correspondências efetivas de Flora Tristán e de Nísia Floresta imediatamente percebi que estas duas mulheres singulares do século XIX,ativistas e escritoras, deixaram-nos também algo que vem interessando seja ao nosso fim de século XX seja a estes anos iniciais do XXI: cartas.
Na era do e-mail, a carta manuscrita, esta dentro em breve peça de museu, como as máquinas de escrever,tem suscitado livros, cursos universitários, etc.,ainda tem o poder de nos transformar , simbolicamente, em contemporâneas de suas autoras, transportando-nos ao mundo do socialismo utópico e das lutas de então, em prol da educação feminina.
Flora e Floresta não se conheceram,nem,consequentemente, se corresponderam.Mas foram contemporâneas e tiveram muito em comum .
Nascida a 7 de abril de 1803 em Paris e falecida a 14 de novembro de 1844 em Bordeaux, no número 12 da rue Saint-Pierre ,Flora, viveu uma curta existência de apenas 41 anos, tendo nascido apenas sete anos anos antes do que Nísia, vinda ao mundo a 12de outubro de 1810, em Papari, no Rio Grande do Norte.
Longeva,ao contrário de Tristán,a brasileira Floresta faleceu em 24 de abril de 1885,quarenta anos após a morte de Flora, e também na França, para onde Nísia viajara pela primeira vez em 1849, quase cinco anos depois da morte da autora de Peregrinações de uma pária .
Enquanto Nísia saía do Rio Grande do Norte para Pernambuco e, de lá, para o Rio Grande do Sul ,depois para o Rio de Janeiro, Flora ,órfã do pai, se casava com François Chazal, pintor e litógrafo, tinha seus filhos,separava-se do marido, empreendia toda a sua militância de socialista e paladina dos direitos da mulher.
Imaginei, como metaficção historiográfica, várias das cartas efetivamente escritas por Flora a diversos destinatários como se constituíssem uma longa e única epístola, uma espécie de legado ou testamento, e destinado a Nísia.
Atravessam-na temas autobiográficos ligados à condição feminina e questões de época, tais como o escravismo, a mestiçagem, o choque de culturas entre Europa e América Latina.
Retirei-as, efetivamente, da correspondência reunida de Flora, num processo de colagem e de enxerto, e inseri-as numa temática extremamente atual, como a dos arquivos pessoais , desde a epígrafe que fui buscar a Arlete Fage,autora de Le goût de l ´archive, onde ela qualifica de errância através das palavras de outrem o gosto pelo arquivo.
De fato, Flora e Nísia foram o que se pode chamar duas mulheres nômades , errantes, em suas frequentes viagens,duas mulheres em trânsito não apenas geográfico- da Europa para a América Latina e vice-versa- mas também entre o mundo falocrático, que tanto as oprimiu e as alternativas utópicas que desejaram tecer.
Ambas anteciparam, com isto, um perfil feminino que será mais frequente no século XX, facilitado não somente pelos avanços nas conquistas femininas, mas também pelos próprios fatores de natureza política e econômica de ordem geral, que ensejaram esta errância, este nomadismo e estes trânsitos ao século, tais como as duas guerras mundiais, as revoluções,os golpes militares , os demais conflitos regionais, étnicos, a fome, etc .
Como contraponto a esta correspondência, simultaneamente real e imaginária (quanto à destinatária ), criei um longo e-mail recebido pela possuidora do arquivo com a carta de Flora,uma personagem de nome Amparo, militante feminista e acadêmica, recentemente falecida.
Este e-mail teria sido escrito por uma companheira de militância, poeta, ensaísta afro-brasileira.Crio, assim, uma mini-rede feminista , entrelaçando a militância de duas mulheres do século XIX, Flora e Nísia e a de duas outras da última metade do século XX.
Se as primeiras ocuparam-se ,respectivamente , da união operária, da conexão entre a luta em prol das transformações da condição feminina e o socialismo e da educação igualitária, dos direitos da mulher face às injustiças dos homens, esta escritora e militante afro-brasileira nossa contemporânea vai escrever, por exemplo, sobre o muito que ainda há a ser feito,hoje, em termos de políticas públicas de reparação de nossa desigualdade racial histórica, que atinge ainda mais fortemente as mulheres negras do que os homens negros ,reproduzindo padrões perversos que um pós-feminismo branco tem por já historicamente superados.
Introduzindo esta temática racial,o e-mail de nossa ativista dos movimentos sociais e acadêmica destinado a uma companheira branca desta militância social e intelectual nos remete a pontes possíveis.Não apenas, como a que se desenha entre Flora e Nísia, entre mulheres européias que conheceram a América Latina e mulheres latino-americanas que conheceram a Europa ,mas também a que se desenha entre integrantes dos movimentos de mulheres brancas e dos de mulheres negras.
Esta questão, que a proletarizada Flora apenas vislumbrou no universo escravista da América Latina do século XIX, continua a nos desafiar, a todas, no começo do XXI.
Escrita e ativismo : conexões
Deve-se à admirável iniciativa da Editora Mulheres a publicação, em português, das Peregrinações de uma pária , de Flora Tristán. Lançado originalmente em francês, em 1838, o livro nos coloca, todavia, diante de uma contemporânea, apenas por acaso bicentenária. Marcada ,como ela própria se considerava, pelo selo da ilegalidade, o nascimento à margem de matrimônio civil dos pais ,que a discriminava perante a sociedade de então, Flora se identifica, metaforicamente, como mulher, com os párias, os intocáveis do sistema de castas indiano.
Vivendo na era das nacionalidades, estas comunidades imaginadas,e filha de uma francesa com um peruano ,Flora é uma apátrida .Tem algo da personagem “ gauche “ drummondiana, avant la lettre, não apenas por sua opção pessoal pela esquerda , pelo socialismo ,mas também pelo seu completo deslocamento social.
Sem herança, considerada bastarda pela aristocrática família paterna,órfã ,pobre, operária, separada do marido,vítima da violência deste, e, além de tudo, mulher intelectualizada ,não obstante a ausência de estudos regulares, Tristán acrescenta a este vasto elenco de handicaps ainda um combativo ativismo de militante com causa.
Este modelo de intelectual dita engajada, combinando produção escrita com ativismo em movimento social, hoje considerado demodé, old fashioned nos meios acadêmicos da era do pensamento único deu –nos , em 1843, a União Operária .
Flora percebera, aguda e pioneiramente, as conexões entre a emancipação da mulher e a dos trabalhadores em geral, vale dizer o rosto de gênero da opressão capitalista sobre o trabalho.
Publicado em 1835, quando Flora regressava à França, Necessidade de dar uma boa acolhida às mulheres estrangeiras, capitaliza sua experiência pessoal como viajante.Neste seu livro de estréia, ela reflete acerca dos problemas defrontados como mulher e como estrangeira, em viagem internacional e das soluções que permitiriam , na França, amenizá-los para outras mulheres .
Filha , ela própria, de uma migrante francesa à Espanha,a então futura avó de outro migrante,este à Polinésia francesa, Gauguin, soube muito bem captar as nuances femininas de um tema que mobilizava a Europa oitocentista : os deslocamentos da França de homens e mulheres, na esteira das transformações desencadeadas pela Revolução Francesa e as guerras napoleônicas, bem como a deterioração da situação dos estrangeiros na França.
Estes deslocamentos dramáticos de trabalhadores, proletários, sobretudo mulheres, duplamente estigmatizadas, pelo sexismo e a xenofobia ,contrastando com a lucrativa circulação de capital volátil pelo planeta ,ainda hoje estão na ordem do dia :pobreza, fome, falta de perspectivas, tráfico de escravas brancas, prostituição infantil, pedofilia, paraísos sexuais do 3 o Mundo são apenas alguns de seus trágicos exemplos.
Depois de Flora, pioneira na abordagem do tema,” A festa de Babette”, por exemplo, levou às telas a personagem da migrante francesa, trabalhadora especializada, chef de cuisine, que se emprega como doméstica num país nórdico,tendo por patrões pessoas que não têm o seu requinte e conhecimento.”Onze minutos “,de Paulo Coelho, inspirado no relato de uma prostituta brasileira, migrada para a Europa,noutra perspectiva - a dos aspectos transcendentes do sexo- tematiza também as vicissitudes de trabalhadora estrangeira do sexo.
Agravadas pelo aumento das desigualdades entre os países ricos e os pobres, estas migrações tantas vezes trágicas de trabalhadores, que morrem no trajeto, ou são roubados, tornam-se clandestinos, etc, permanecem na pauta diária do noticiário.
Em 1938, Flora estréia na ficção com o romance Mephis ou le Proletaire .Folhetisnesco, recheado de situações melodramáticas, ele seria, no entanto, ultrapassado pela própria biografia da escritora, cujo ex-marido, Chazal tenta assassiná-la na vida real, muito além das maldades do personagem anagramático Hazcal, nele provavelmente inspirado.
Brasileira augusta,desde o nome, Nísia Floresta, nascida no Rio Grande do Norte, foi uma grande viajante, tendo residido na França e na ìtalia, e visitado várias vezes a Alemanha, a Bélgica, a Suíça e a Inglaterra.
Embora mais jovem que a franco-peruana Flora Tristán, e vivendo então no Brasil, onde as condições editoriais então e a situação da mulher eram ainda mais difíceis, Flora estréia em livro antes desta, publicando, em 1832, a obra que a faria pioneira do feminismo no Brasil, Direitos das mulheres e injustiças dos homens ,que ela apresentou como uma tradução livre, a partir do francês, da obra de Mary Wollstonecaft, vindication of the rights of women,e scrito originalmente em inglês,e , por seu turno, marco do moderno feminismo ocidental.
Escrita , Bildung , conclusões
Votado à questão da educação das mulheres, Opúsculo Humanitário , de Nísia Floresta reflete parte de seu pensamento pedagógico, também desenvolvido alhures ( Conselhos à minha filha,e Discurso às educandas ) .Diretora de colégio, tentou pôr em prática, nele, sua utopia de uma educação igualitária.
Pioneira, percebeu a importância da divulgação através da imprensa , então ainda incipiente, de seu ideário, tendo publicado capítulos do livro no prestigiado Diário do Rio de Janeiro.
Nísia compreendia que a ignorância em que era mantida a mulher conspirava contra sua emancipação e reforçava sua dependência e sulbaternidade em relação ao homem, a quem era aberto um mais largo horizonte educacional.
Constatando estas desigualdades entre homens e mulheres no acesso à educação, em todos os níveis, Nísia preconiza a multiplicação das escolas de ensino elementar para meninas, de modo a alcançar a igualdade com o número das para meninos.
Praticamente um século e meio depois , o universo educacional brasileiro ainda conserva fortes traços de desigualdade.Se não no que concerne a gênero, como no tempo de Nísia, certamente no que concerne a classes e raças.
Viajantes, utópicas, militantes, Flora Tristán e Nísia Floresta viveram ambas a solidão e a singularidade de mulheres que resistiram às representações hegemônicas do feminino,em seu tempo.
Como tais, ambas amargaram incompreensões,hostilidades, marginalização.Mas, como concluirá Flora Peregrinações de uma pária , “levantou-se a âncora, todo mundo se retirou “ [ e ambas ficaram sós, inteiramente sós ]”entre duas imensidões, a água e o céu.” E na memória e na história das lutas das mulheres.