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Duas histórias de grandes amigas: a representação da amizade feminina em duas obras de Marcela Serrano, Antigua Vida Mía e Para que no me olvides.
Lélia Almeida (UNISC/Universidad Nacional de Cuyo, Argentina)
A confiar na bibliografia existente (ou inexistente) sobre a amizade feminina, seríamos obrigadas a creer na ausência deste sentimento ou desta prática na vida das mulheres.
Dos textos mais clássicos aos mais contemporâneos, ou seja, dos gregos 1 ao texto de Allan Bloom 2, ou dos últimos trabalhos de Michel Foucault, citados por Francisco Ortega 3, a amizade é um sentimento e uma prática essencialmente masculina e, predominantemente, homossexual.
Mas, ao contrário do que reza a historiografia oficial, é no imaginário literário de autoria feminina quem nos informa fartamente sobre o universo dos afetos femininos, de suas práticas e suas expressões. Textos como Pentimento , de Lilian Helman 4, Vengadoras angelicales , de Karen Blixen 5, Sula , de Tony Morrison 6, O clube da felicidade e da sorte , de Amy Tan 7, Tomates verdes fritos , de Fannie Flagg 8, Notícia da Cidade Silvestre ,de Lídia Jorge 9, A noiva ladra 10, de Margaret Atwood, As meninas 11, de Lygia Fagundes Telles ou Nebulosidade Variável 12, de Carmen Martin Gaite, A cor púrpura 13 de Alice Walker só para citar alguns, abordam o tema da amizade como importante relação identificatória, especular entre as mulheres e, quase sempre, de matiz solidário. A representação das relações de amizade entre as mulheres é, portanto, um tema recorrente na literatura de autoria feminina de muitos países, principalmente a das décadas da segunda metade do século passado.
Poderíamos pensar numa espécie de coincidência entre tal período e o das reivindicações feministas pela igualdade de direitos, e também pela solidariedade e irmandade entre as mulheres. Como se a recorrência do tema das amigas, entre outros, fosse um dos resultados, na expressão artística, de algumas das reflexões propostas pelo movimento de mulheres. Através desta literatura podemos perceber que as amigas, que a amizade feminina é um afeto fundamental na vida das mulheres e que, em muitos casos, é um desdobramento, seja através da identificação ou da negação, da relação primeira das mulheres com suas mães.
Mas poderíamos também, situar o tema da amizade feminina num âmbito mais abrangente, o das Genealogias femininas, que contemplaria outros temas recorrentes na literatura escrita por mulheres e que seriam os das representações das relações estabelecidas no universo dos afetos femininos.
Assim, podemos afirmar que são genealógicos os textos que narram as relações das protagonistas femininas com seus pares familiares, sejam elas mães, avós, tias, filhas, netas, bisavós, irmãs, madrinhas, etc. Textos que narram as relações das mulheres com outras mulheres que não fazem parte de sua ascendência ou descendência familiar direta; mulheres que são determinantes em suas vidas e biografias, sejam elas alunas, professoras, vizinhas, babás, nanas, empregadas, amigas, terapeutas, etc. E são genealógicos os textos que tratam das protagonistas, leitoras ou autoras, que dialogam com autoras e leitoras de outras épocas, num procedimento que tem como objetivo estabelecer uma linhagem, a possibilidade de uma ancestralidade literária.
Podemos chamar, portanto, de genealógica, aquela literatura de autoria feminina, geralmente narrada em primeira pessoa, em que a protagonista, num procedimento memorialístico, resgata ou estabelece uma relação especular com outra, ou com outras mulheres, relação esta, fundamental para um afirmativo e importante desenvolvimento identitário para todas elas. Esta relação especular, que se dá numa tensão permanente de identificação e separação, é vital para o descobrimento da identidade das personagens envolvidas.
Mas, diferentemente do que conta a literatura de autoria feminina sobre o tema, e a contar com a narrativa da historiografia oficial e da ideologia patriarcal, podemos concluir, sem dúvidas, que a amizade feminina não existe, que as mulheres rivalizam entre si e que não são, ao contrário dos homens, capazes de estabelecer seus pactos e alianças, através de suas escolhas pessoais e políticas.
A própria necessidade feminina de disputar a atenção e admiração dos homens para si mesma faria com que as mulheres fossem inimigas históricas, disputando, permanentemente, a admiração alheia, masculina, a única possível que garantiria legitimidade social, afetiva ou material.
Não é o que contam as narrativas de autoria feminina da literatura finissecular da América Latina. Em La “Flor de Lis” , de Elena Poniatowska 14, a relação da protagonista Mariana com sua amiga Casilda é tão importante quanto a relação de Mariana com sua própria irmã Sofía. E de igual importância são as relações de Minerva e Sinito Perozo em El tiempo de las Mariposas , de Julia Alvarez 15, das amigas em El tono menor del deseo de Pía Barros 16, das amigas em El fin de la Historia de Liliana Hecker 17, El regalo , de Rosario Ferré 18, Más allá de las máscaras , de Lucía Guerra 19. E ainda nos textos Nosotras que nos queremos tanto 20 (1996), El albergue de las mujeres tristes 21 (1997), Antigua vida mía 22 (1995) y Para que no me olvides 23 (1993).
Em Para que no me olvides , a protagonista Blanca, no momento que cumpre seus quarenta anos, se vê envolvida por circunstâncias pessoais e políticas que produzem uma crise em que todos os seus valores e sua segurança se vêem ameaçadas. A resposta de Blanca a todas estas mudanças é a imobilidade através da afasia. Um silêncio muito expressivo se instala em sua vida, e então Blanca é capaz de começar a contar a sua história e vê-la de uma maneira nova. Através da amizade entre Blanca, Sofía e Victoria se estabelece um diálogo esclarecedor tanto sobre a vida política do Chile como sobre as frustrações e desilusões da protagonista, e que dá suporte e forças para suas futuras escolhas e seus novos caminhos.
A apresentação das amigas, estando Blanca inserida no grupo das três, já estabelece a relação de espelhamentos e comparações que vai definindo, ao mesmo tempo, a identidade, a marca pessoal de cada uma delas. O como elas se vêm nos olhos umas das outras, de que maneira elas imaginam que são vistas: admiradas ou reprovadas; como o encontro de suas vidas e seus destinos é capaz de mudar a perspectiva de todos estes olhares e, portanto, as imagens e auto-imagens, possibilitando assim, mudanças no próprio curso das vidas, de forma irreversível. Imagens complementares, refletidas em espelhos, olhares de afetos, num movimento de reflexões, mudanças, reconhecimentos de novas consciências.
O envolvimento de Blanca com as novas amigas, surgidas em sua vida através com o único irmão com quem estabelece um forte vínculo afetivo, é substitutivo do frágil ou quase inexistente vínculo que Blanca constrói com a mãe que prefere abertamente a outra filha, Pia. A genealogia de Blanca, que começa com sua avó e se estende a sua filha, se complementa agora com as três amigas.
O envolvimento de Blanca com Victoria se dá através de Sofía, sua cunhada que, por sua vez lhe dá acesso, através do Gringo, a um mundo novo e desconhecido para a protagonista. À medida em que os acontecimentos políticos do Chile lhe vão sendo revelados, as mentiras de sua vida conjugal e social vão sendo examinadas e transformadas. Episódios referentes à Comissão de Verdade e Reconciliação, as manifestações públicas e os quase inúteis meas culpas por parte dos militares, a busca pelos desaparecidos políticos, as denúncias das torturas, o Informe Rettig são os temas políticos e históricos que são, ao mesmo tempo, pano de fundo e motivo das novas reflexões na vida de Blanca em função de suas novas amizades e, que a fazem, ao mesmo tempo, revisitar seu universo afetivo e suas convicções políticas.
Em Antigua vida mía , Serrano repete o tema da amizade feminina através da história de duas amigas, Violeta Dansinski e Josefa Ferré, que se reencontram já adultas, quando um incidente dramático volta a aproximá-las.
A narrativa, fragmentária, em primeira pessoa, é um diálogo entre os cadernos de Violeta contando sua história e as circunstâncias que a levaram a matar o marido, e as reflexões da própria Josefa que, com a crise que vive sua melhor amiga, também pode dar vazão a sua própria crise de maturidade, até este momento, contida, sublimada. Violeta Dasinski mata o marido para proteger a filha do assédio do padrasto, um homem que se tornava violento a cada episódio de embriaguez.
As duas amigas, que se conhecem ainda pequenas na escola, que têm em comum as projeções maternas de ascenção social, sentem-se deslocadas na escola e aproximam-se justamente para se proteger e estabelecer laços de cumplicidade.
As diferenças e semelhanças entre as duas meninas vão construindo uma relação complementar em que as fragilidades de uma vão compensando as racionalizações da outra, fazendo do vínculo construído entre elas um ponto de equilíbrio fundamental em suas vidas. O questionamento sobre suas vidas na atualidade, faz com que as duas amigas questionem de forma profunda as suas relações com outras mulheres fundamentais em suas histórias e biografias. Josefa precisa, neste momento, rever sua relação com a filha Celeste, e Violeta, descobrir onde sua mãe Cayetana foi enterrada e reconciliar-se, definitivamente com a memória da mãe, morta durante a guerrilha em Antigua, na Guatemala.
A voz de um coro de mulheres, nosotras las otras , perpassa toda a narrativa, evocando uma voz feminina comum, que se desdobra em diversos tipos de afetos que teriam uma mesma origem, um sentido parecido, o de proteger as mulheres, suas existências e suas memórias também:
(...) A nosotras, las otras, nos entregaron el pasado y los recuerdos. Nos escatimaron el presente. Hoy, por prima vez, nos aceptan ser testigos del acá. Un trozo de cielo se asomo por los ventanales del taller de Violeta, a esa hora el cielo de Antigua estaba hecho de pájaros. Fue a esa hora, terminada la fiesta del bautizo, que cuatro mujeres ingresaron con sigilo al santuario de la creación. Misteriosamente desocupado, el bastidor – por primera vez sin tela en él – se arrima a la muralla; sólo un enorme espacio vacío, de altos muros y piso fresco. A lo lejos, el sonido de alguna campana que dobló a esa misma hora. La luz incierta vio a las cuatro mujeres sentarse en suelo sobre sus rodillas. Y aunque huidiza esta luz, alcanzó a mirarlas tomándose de las manos, formando el círculo. Se oyó la voz de una de ellas. Oraba? Y los espíritus – aquéllos, los tutelares – parecieron traspasar los ventanales, colándose en el espacio ritual de la tarde, susurrando un cántico de celebración, de sanación, a través de sus nombres olvidados.
Hasta que nosotras, las otras, oímos las letanías.
- Soy Violeta, madre de Jacinta, hija de Cayetana, nieta de Carlota.
- Soy Josefa, madre de Celeste, hija de Marta, nieta de Adriana. (p. 365)
A amizade das duas, vínculo fundamental para elas, serve de espelho e projeção, de modelo e exemplo, iluminando suas relações com outras mulheres igualmente importantes em suas vidas, sejam elas mães, filhas, noras, etc.
A história das amizades femininas na literatura de mulheres na América Latina trata de escolhas afetivas ou políticas realizadas pelas protagonistas em determinados momentos de crise importantes em suas vidas. As relações de amizade são escolhas e se dão, quase sempre a partir de escolhas políticas, em que se aprofundam os pactos ou se quebram as identidades entre elas. A irmandade proposta num primeiro momento pelo Movimento de Mulheres, tem nestas narrativas a proposta para uma verdadeira solidariedade entre as mulheres, em que as questões políticas e históricas de seus países são sempre um elemento importante e transformador em suas vidas.
Veja-se CÍCERO. Da amizade . Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1991.
BLOOM, Allan. Amor y amistad . Santiago de Chile: Andres Bello, 1994.
ORTEGA, Francisco. Genealogias da amizade . Rio de Janeiro, Iluminuras, 2002
HELLMAN, Lillian. Pentimento. Barcelona: Argos Vergara, 1974.
BLIXEN, Karen. Vengadoras angelicales . Madrid: Alfaguara, 1986.
MORRISON, Toni. Sula . Barcelona: Ediciones B: 1993.
TAN, Amy. O clube da felicidade e da sorte . Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
FLAGG, FANNIE . Tomates verdes fritos . São Paulo: Globo, 1996.
JORGE, Lídia. Notícia da Cidade Silvestre. Lisboa, Publicações Europa - América 1984
ATWOOD, Margareth. A Noiva Ladra . Rio de Janeiro: Marco Zero, 1995.
Telles, Lygia fagundes. As meninas . Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.
GAITE, Carmen Martín. Nebulosidade variável . São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
WALKER, Alice. A cor púrpura . Rio de Janeiro: Marco Zero, 1982
PONIATOWSKA, Elena. La "Flor de Lis". México D. F.: Ediciones Era, 1997
ALVAREZ, Julia. En el tiempo de las mariposas . Buenos Aires: Atlántida, 1995.
BARROS, Pía. El tono menor del deseo . Santiago: Editorial Cuarto Propio, 1990.
HECKER, Liliana. El fin de la Historia. Buenos Aires: Alfaguara, 1995.
FERRÉ, Rosário. “El regalo” in: Maldito amor . México: Joaquín Mortiz, 1987
GUERRA, Lucía. Mas allás de las máscaras . México: Ediciones Premiá, 1984.
SERRANO, Marcela. Nosotras que nos queremos tanto . Alfaguara: México: 1997.
___. El albergue de las mujeres tristes . México, DF : Alfaguara,1997.
___. Antigua Vida mía . Madrid: Alfaguara, 1998.
___. Para que no me olvides. Santiago de Chile: Editorial Los Andes, 1997.