![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
Gênero e História nas obras Solitaria Solidaria e Perfume de Gardenia da escritora venezuelana Laura Antillano
Enelise Arnold (UFRGS)
O objetivo deste trabalho é investigar as obras Solitaria Solidaria (1990) e Perfume de Gardenia (1984), da escritora venezuelana Laura Antillano. Partindo do momento histórico que as obras refratam, ou seja, das últimas décadas do século XIX a meados do século XXI, período em que a Venezuela estava exposta ao regime ditatorial de Antonio Guzmán Blanco, Juan Vicente Gómez e Marcos Pérez Jiménez e a um intenso processo de capitalização a partir da exploração do petróleo.
Este trabalho busca estabelecer os vínculos entre Literatura e História, tendo em vista outro ponto que aproxima estes romances, ou seja, a perspectiva de Gênero. Incluir esta perspectiva na análise das obras significa resgatar um lado até então suprimido, apagado, negado, ou seja, o ponto de vista das mulheres venezuelanas que fizeram parte da história. Porém, estas vozes estavam renegadas a um plano secundário, de meras espectadoras. Desta forma, somente era escrito sobre elas e seus papéis eram apenas os de: mães, esposas, filhas, ou seja, sempre a partir de categorias descritas e escritas da perspectiva masculina. Mas, principalmente com esta geração de escritoras do século XX, em especial, para efeito deste trabalho, por Laura Antillano, encontramos essas vozes até então silenciadas, por múltiplos fatores: sexo, raça, falta de poder político e econômico, mostrarem sua vida, sem desprezar a cultura dita oficial, mas dando a chance para personagens anônimos, como são a maioria dos hispano-americanos, terem espaço para enunciar as suas experiências.
Em Perfume de Gardenia , Antillano trata de fatos históricos por meio da voz de uma jovem chamada Adriana. Esta faz parte de uma família constituída por três gerações de mulheres venezuelanas.
Nas obras de Antillano, a reconstrução histórica é um ponto marcante, trazendo aos nossos olhos, em Perfume de Gardenia , momentos das ditaduras de Gómez, López Contreras e das Juntas Militares que governaram a Venezuela no século XX, mostrando a saga das mulheres de uma família, que se desenvolve num espaço predominantemente doméstico, representando a história da Venezuela vista da margem.
O romance apresenta as mudanças vividas pelo gênero feminino durante o século XX, desde os tempos da avó, moça obediente, silenciosa, mas de muita personalidade, passando pela mãe, até a neta moderna e questionadora, com consciência social e histórica, que trata, a partir da perspectiva de quem está fora de seu lugar, de resgatar e integrar o mundo de suas antecessoras ao mundo em que vive. A história transforma-se numa sucessão de acontecimentos, desde a música, especialmente trechos de boleros (inclusive o título do livro), propagandas, marcas comerciais, recordações, objetos, costumes, que se mesclam e vão da casa ao mundo exterior e vice-versa, mostrando que o passado sempre retorna, pois todos o carregam na memória.
A associação entre a vida das personagens e a vida política e histórica da Venezuela é constante durante a narrativa:
“ Ahora el gobierno era la Junta (…) la calle se revistió de carnaval, de máscara, de trampa. Lo de adentro y lo de afuera, tu mundo de casada nueva, el mundo de gobierno nuevo: imágenes en los periódicos, las tres divinas personas .” 1
Nesta passagem, o mundo revelado pelos jornais é criticado, assim como o casamento. Ambos, muitas vezes, revelam apenas a face que é aprazível a todos, porém, no dia-a-dia, se percebe que a realidade é dura e que as aparências enganam.
O fio condutor da narrativa é uma jovem que mostra sua visão particular de mundo, além da de seus familiares, apesar de muitos deles, inclusive ela, não participarem diretamente da vida política venezuelana. Por meio da voz de Adriana temos acesso a como se refletia no povo as ações dos poderosos e como os valores sociais repercutiram na vida dos indivíduos.
Já em Solitaria Solidaria , nos deparamos com a história de uma professora universitária e historiadora, chamada Zulay, que vive no século XX e que encontra o diário de Leonora, uma jovem que viveu no século XIX. Assim, Zulay faz a retomada histórica do período em que Leonora viveu, por meio de um trabalho de pesquisa sobre a época em que Guzmán Blanco aterrorizava no poder.
Antillano revela, neste romance, uma linha de cunho autobiográfico, pois, assim como Zulay, ela também é uma professora universitária venezuelana. Nesta obra, estabelece-se maior distância na relação de um tempo histórico ao outro, porque neste romance temos, entre as mulheres que se alternam na narrativa, um século que as separa temporalmente.
O texto revela um marcado processo de identificação entre as duas personagens principais, sendo descobertos pontos em comum através do tempo, com múltiplas diferenças, mas com um fio que permite a identificação e a explicação de suas próprias existências. Um exemplo é este sonho que remete Leonora a Zulay:
“Soñé (...) que no era más Leonora Armundeloy y con dieciocho años en febrero de 1879, sino una mujer del siglo XX. (...) Y para entonces, Carabobo tendría una Universidad muy grande que además dejaría ingresar a ella libremente a las mujeres, y podríamos hasta ser profesoras. ¿Qué te parece? Pues, en mi sueño, yo era una mujer del siglo XX y ya quizás no sufriría la diferencia: esta afrenta tan grande de ser distinta a la norma...” 2
Apesar da personagem do século XIX não ter nada que a remeta, diretamente, a do século XX, por meio de um sonho ela consegue ter acesso à vida daquela que no futuro encontrará seu diário.
Ambas personagens são muito ligadas à figura paterna. Para Zulay aparece: “...el padre, eterno compañero de sus acciones audaces, había sido capaz de mantenerse solidario a ella ...” 3
Durante praticamente toda a narrativa Leonora aparece ao lado do pai, apesar deste conservar a ideologia predominante no século XIX: “Papá dice que no entiendo mucho de política. Por lo regular es eso lo que dicen los hombres de las mujeres (...)” 4. Leonora tem sua visão muito inovadora, para uma mulher de sua época, sobre os preconceitos sociais relativos a mulheres e a minorias raciais, sendo, assim, muitas vezes, discriminada.
Leonora e Zulay viveram em sociedades de base patriarcal. Sobre o casamento de Zulay aparece:
“Su vida con Julio no había estado exenta de amor, pero su idea del “amor” en la pareja, se relativizaba a un estado de obediencia ciega y sacrificada al hombre; la pérdida de la iniciativa y la confianza en la propia persona frente a la presencia de él. (...) Por eso decidió el divorcio: tenía necesidad de una aventura solitaria, de saber más de si misma, de saberse persona por primera vez.” 5
Zulay ousou, tentando não fazer de sua vida mais do que a mera repetição do modelo seguido pela sociedade venezuelana do final do século XX. Leonora também ousou e transgrediu algumas normas sociais, de acordo com as possibilidades encontradas na sociedade conservadora na qual vivia, como, por exemplo, ter ido trabalhar. Assim, neste romance, encontramos duas personagens femininas que através da ousadia lutaram contra os valores sociais que as sufocavam.
Na vida da mulher do passado vemos aparecer os trens, os teatros, a luz elétrica, as idéias socialistas, enquanto na do presente ocorrem fatos relacionados à história política e econômica da Venezuela, as lutas sindicais, eventos como o anti-racismo de Mandela ou a música dos Beatles, mas o mais importante é a correspondência que existe entre uma e outra através da história.
As obras de Antillano têm uma visão fragmentária, apresentando uma nova forma de olhar, outras perspectivas, enfim, outras percepções sobre os mesmos fatos ou trazem à tona novos fatos a serem discutidos, conseguindo diminuir o território dito “selvagem”. Um exemplo, durante a narrativa de Solitaria Solidaria , é a ida de Zulay ao ginecologista e as suas percepções sobre este momento que, em seus detalhes mais íntimos, é desconhecido por muitos homens, e nesta obra é relatado pela narradora.
Como se pode verificar, a escrita feminina está conscientemente inserida no mundo e interagindo ativamente na sociedade. Um ótimo exemplo é Laura Antillano, que reconstrói a história através da literatura, mostrando a participação do gênero feminino na História, além de escrever textos do ponto de vista da mulher “e em função de representação particularizada e especificada no eixo da diferença” (SCHMITH, Rita Teresinha,1994) dando voz a muitos que seriam marginalizados nas narrativas tradicionais.
Como se observa nas obras analisadas, ainda é muito forte a ideologia patriarcal que insiste em manter as mulheres as margens de todo o devir histórico, mas algumas representantes do gênero feminino, por meio de um impulso subversivo, que se realiza através da linguagem, começam a romper com este modelo excludente.
Referências Bibliográficas:
ANTILLANO, Laura. Perfume de Gardenia . Caracas: Selevén, 1984.
____________. Solitaria Solidaria . Caracas: Planeta, 1990.
BARQUET, Mercedes. El estado actual de los estudios de género: Un breve recorrido por la teoría feminista. In: Casa de las Américas , número 183, a bril-junio, 1995. p. 19-25.
BUARQUE DE HOLANDA, Heloísa (org.). Tendências e Impasses: O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
Diccionario de historia de Venezuela . Caracas: Fundación Polar, 1997. 4 v.
GUERRA, Lucía. La mujer fragmentada: historias de un signo. Ciudad de La Habana: Colcultura, 1994.
LAURETIS, Teresa de. A tecnologia do gênero. In: BUARQUE DE HOLANDA, Heloísa (org.), Tendências e Impasses: O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
NITRINI, Sandra. Literatura Comparada . São Paulo: EDUSP, 1997.
QUINTERO, Rodolfo. La cultura del petróleo. Caracas: Monte Ávila, 1968.
PIETRI, Arturo Uslar. De una a otra Venezuela. Caracas: Monte Ávila, 1989.
ANTILLANO, Laura. Solitaria, Solidaria. Caracas: Planeta, 1990, p. 75.