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Malinche, una chingada madre
Carlos Rizzon (UFRGS/UNISC)
Para sobrevivir en la frontera
debes vivir sin fronteras
ser un cruce de caminos
Gloria Anzaldúa, La nueva mestiza
Personagem entremetida y desenvuelta , conforme palavras do cronista Bernál Díaz del Castillo, Malinche foi figura essencial e decisiva na história da Conquista espanhola no continente americano. Tradutora no diálogo entre o conquistador Hernán Cortés e o soberano asteca Montezuma, foi o elo da comunicação entre dois universos distantes e incompatíveis, entre aquele que falava com os homens e aquele que dialogava com os deuses, interpretando esse histórico encontro conforme a sua percepção da realidade. Além de sua representação histórica, possui também caráter mítico, pois, desde o século XVI até hoje, de forma cíclica, ela aparece e desaparece revestida como a) mãe simbólica da raça mestiça americana; b) traidora, aquela que se entrega ao estrangeiro; e c) chingada , mulher explorada e abandonada. Suas múltiplas representações são tantas quanto suas denominações: Malinalli, Malintzin, Malinche, Marina. No conto Malintzin de las maquilas , Carlos Fuentes desenvolve o questionamento das relações em que se configura a mulher mexicana hoje ao discutir, através do resgate da significação de Malinche como figura situada na fronteira entre culturas, a vida de trabalhadoras de uma multinacional instalada entre o México e os Estados Unidos. Transitando entre as margens do Rio Grande/Rio Bravo, cruzando fronteiras no meio do deserto, é enfocada a construção da identidade mexicana.
Apesar do crucial papel desempenhado por Malinche na história, a documentação que dá relato sobre a sua vida é inconsistente, frágil e às vezes incoerente. As crônicas dos conquistadores não podem ser totalmente confiáveis, pois representam Maliche de acordo com os seus modelos culturais e literários, que a falsificam e a ficcionam. Francisco Luiz de Gómara, por exemplo, descreve os episódios da Conquista e comenta sobre Malinche sem nunca ter pisado na América; Bernal Díaz del Castillo, soldado que acompanhou Hernán Cortés e presenciou os fatos, escreve a sua Historia verdadera de la conquista de Nueva España de memória após mais de 40 anos dos acontecimentos, o que pode ter distorcido as suas lembranças. Além disso, apresenta Malinche como uma donzela de novelas de cavalaria, seguindo qualidades morais de uma personagem medieval européia. O próprio Hernán Cortés, em suas Cartas de relación dirigidas ao rei Carlos V, preocupado em justificar e engrandecer suas ações militares e políticas, faz apenas alusões discretas a Malinche, quase sempre sem nomeá-la, caracterizando-a simplesmente por lengua . Mesmo sendo uma atribuição central, é muito pouco para quem não só traduziu, mas explicou ao conquistador as crenças dos antigos mexicanos e as fraquezas do Império asteca e, também, foi mãe de Martín Cortés, considerado simbolicamente o primeiro mestiço americano. Já os testemunhos indígenas recolhidos pelo frei Bernardino de Sahagún, nos primeiros anos após a conquista, relata como história o que era mito, não reconhecendo diferentes temporalidades nas vozes indígenas. E os códices elaborados pelos próprios indígenas não chegam a informar o passado de Malinche antes do seu encontro com Cortés, oferecendo o relato do período da chegada dos espanhóis no Golfo do México, em 1519, até a queda de Tenochtitlán em 1521. Embora sejam limitadas as suas aparições, Malinche está caracterizada como uma figura central detentora de um elevado status social, tanto nos textos dos aliados dos espanhóis, como é o Lienzo de Tlaxcala, quanto nos documentos leais a Tenochtitlán, como é o Códice florentino . No primeiro, Malinche é apresentada como uma indígena que sabe operar e manipular os valores políticos e religiosos do momento, enquanto que, no outro, é expressada uma hostilidade e um ressentimento com aquela que esteve ao lado dos conquistadores.
Apesar da fragilidade de todos esses textos, eles coincidem em muitos aspectos e revelam alguns dados sobre a vida de Malinche: após a batalha de Centla, no sul do México, os conquistadores receberam dos caciques locais, como sinal de submissão aos vencedores, vários presentes, como jóias, tecidos, perus, galinhas e um grupo de vinte escravas para cozinhar e desempenhar funções procriadoras com os espanhóis. Entre as mulheres que faziam parte desse lote estava Malintzin. Natural de Painalla, nasceu no berço de uma família nobre no ano de Ce Malinalli do calendário indígena e herdou o nome e os signos de revolta, desavenças e sangue derramado que o ano predestinava. Conforme relata Bernal Díaz del Castillo, desde su niñez fue gran señora y cacica de pueblos y vasallos , mas, com a morte do pai e o segundo casamento de sua mãe, foi entregue como escrava, ainda criança, a comerciantes da região de Xicalango, e estes, mais tarde, a venderam aos de Tabasco. Dessa forma, tornou-se bilíngüe, conhecendo tanto o idioma nauhatl dos astecas quanto a língua dos maias do sul do México. Por sua forte personalidade, seu nome contraiu o sufixo tzin , que significa senhora, passando a chamar-se Malintzin. Quando entregue aos espanhóis, foi batizada na Igreja católica, recebendo o nome de Marina. Ao chegarem os conquistadores na costa do Golfo do México, em 1519, o capitão Hernán Cortés certificou-se que essa índia falava tanto o nauhatl quanto o maia, convertendo-a então em sua lengua , completando o elo que faltava para a comunicação com os astecas, pois o seu intérprete Jerónimo de Aguilar, que sabia maia, não conhecia o idioma nauhatl. Ao passar a acompanhar Cortés, seu nome recebeu, entre os indígenas, um sufixo que denota posse dos espanhóis, sendo identificada como Malinche. Sua atividade era tão importante que, emprestando as suas palavras ao discurso do conquistador, por extensão, o próprio Cortés recebeu dos indígenas a denominação de Malinche. Mais do que tradutora, Marina foi informante e conselheira política e amante de Hernán Cortés, acabando por também aprender a língua espanhola. Sabe-se que, após a Conquista, Malinche foi dispensada por Cortés e entregue como esposa ao espanhol Juan Jaramillo, mas são imprecisas as informações sobre a sua trajetória posterior, havendo muitas dúvidas a respeito da sua vida nos anos seguintes.
As poucas e variáveis informações sobre Malinche e mais a tradição do discurso histórico pertencer ao gênero masculino facilitaram o processo de apagamento da voz indígena feminina e provocaram o processo de deslocamento da sua representação histórica para a sua inserção no campo mitológico.
Como mito, designando mãe da raça mestiça, Malinche é comparada à Eva bíblica. No entanto, se pensarmos que o seu filho Martín Cortés cresceu na Espanha, longe do seu acompanhamento, podemos verificar que Malinche não desempenhou o seu papel de mãe. Mesmo assim, a imagem feita pelo artista José Clemente de Orozco, no mural do Colégio de San Ildefonso, na Cidade do México, mostra Hernán Cortés e Malinche nus, retratando Adão e Eva mexicanos, pais originais da nova raça mestiça. Daí que associá-la à traição é um pequeno passo. Esse foi o projeto desenvolvido após a independência, no século XIX, por aqueles que rejeitavam qualquer ligação com a ex-metrópole. Nesses anos, foi criado o depreciativo conceito malinchismo para caracterizar os conspiradores da nova nação. Termo esse que voltou na década de 20 do século passado para acusar os traidores da Revolução mexicana. Referiam-se não só ao papel de tradutora de Malinche, mas também às informações que ela prestava aos conquistadores, como no caso de Cholula, quando Malinche avisou Hernán Cortés sobre uma conspiração preparada pelos cholultecas. Antecipando-se à emboscada, os espanhóis efetuaram uma cruel matança. Cabe recordar que Malinche não era a única indígena que estava ao lado dos espanhóis. Havia todo um exército dos tlaxcaltecas, inimigos declarados dos astecas, que participaram ao lado dos espanhóis nos atos da Conquista. Ou seja, nem todos os habitantes do México eram aliados dos astecas. Além disso, Malinche, desde criança, já não possuía vínculos com o Império de Montezuma. Formada com uma mentalidade de escrava, o seu gesto pode ser visto como o simples cumprimento de uma obrigação. Acusá-la de traidora dos astecas, parece excessivo.
A perspectiva negativa associada a Malinche completa-se com a identificação à figura de La chingada , aquela mulher que é explorada, jogada, humilhada, abandonada. No livro O labirinto da solidão , em capítulos como “Máscaras mexicanas” e “Os filhos da Malinche”, Octavio Paz identifica a Conquista a uma violação sofrida pelo México e faz uma relação com o caráter do mexicano contemporâneo. Dessa forma, assim como Cortés usou Malinche, o homem mexicano de hoje espera que a mulher lhe seja submissa, inferior, aberta/ rajada .
Em contraposição à depreciação de Malinche, a literatura feminina, e sobretudo a literatura chicana , tem resgatado a sua imagem para identificar suas autoras como filhas da Malinche . Não mais estereotipada como traidora ou como chingada , mas como personagem que compreende e domina diferentes culturas, como ponte situada na fronteira entre diferentes mundos, assim como observa Homi Bhabha:
“É nesse sentido que a fronteira se torna o lugar a partir do qual algo começa a se fazer presente em um movimento não dissimilar ao da articulação ambulante, ambivalente (...) Sempre, e sempre de modo diferente, a ponte acompanha os caminhos morosos ou apressados dos homens para lá e para cá, de modo que eles possam alcançar outras margens... A ponte reúne enquanto passagem que atravessa.” 1
O primeiro e último cenário no conto “Malintzin de las maquilas” (Malintzin das montadoras), de Carlos Fuentes, é justamente uma ponte. Transitando entre Ciudad Juárez, no Estado de Chihuahua, e El Paso, no Texas, é enfocada a vida de mexicanas que trabalham em uma fábrica de televisores, com peças trazidas das indústrias dos Estados Unidos e montadas no México com custo dez vezes mais barato, por ser um trabalho feito por mulheres em um país não desenvolvido economicamente. A personagem Marina, assim como a Malinche histórica, com quem comparte o nome, trabalha para estrangeiros, na montadora de Leonardo Barroso, empresário que detém o poder econômico na região. Esse é um lugar propício para as especulações imobiliária e industrial do senhor Barroso e seus sócios gringos . É também o lugar onde Marina e suas amigas companheiras da fábrica vão buscar emprego. Todas chegaram de outras rancherías , do deserto ou das montanhas:
“Todas venían de otro lado. Por eso se entretenían contándose historias sorprendentes sobre sus orígenes, sobre las combinaciones familiares, las cosas que las diferenciaban, y a veces, también, se admiraban de que coincidiese en tanto, familias, pueblos, parentescos. Pero todas estaban divididas por dentro: ¿era mejor dejar atrás todo eso, borrar la memoria, resolverse a empezar una nueva vida en la frontera?” 2
Marina e suas amigas trazem uma memória que luta constantemente entre a revelação e o apagamento. Revela-se nas tranças dos cabelos, nas roupas coloridas, nas recordações do passado. Apaga-se nas dificuldades do dia a dia, na solidão e nas incertezas do futuro. Na fábrica, as solteiras sustentam suas famílias; as casadas, os maridos desempregados. Marina vive sozinha, mas tem um amante infiel com quem se encontra uma vez por semana no outro lado da fronteira. Seu sonho era conhecer o mar, desejo herdado dos pais, que tampouco chegaram a vê-lo mas que lhe puseram um nome que inspirasse essa sorte. Deslocada do seu espaço, que imagina ser o litoral, Marina constrói a sua identidade na travessia de paisagens e de tempos. Nesse conto, Carlos Fuentes recompõe historicamente Malinche, situando-a no contexto mexicano atual, na pobreza do povo que sofre a exploração daqueles que verdadeiramente são os traidores ao realizarem suas negociatas e venderem o país ao capital estrangeiro. A identidade de Marina, da mulher mexicana, de Malinche, é a luta pela sobrevivência.
BHABHA, Homi. Introdução. O local da cultura . UFMG, Belo Horizonte, 1998. p. 24.
FUENTES, Carlos. Malintzin de las maquilas. La frontera de cristal . Alfaguara, Madri, 1998. p.163.