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Auto do Frade: um exercício de liberdade
Rosanne Bezerra de Araújo (UFRGN)

João Cabral de Melo Neto foi o poeta que sempre buscou a "brancura crítica" do papel que serviria de espaço para a sua palavra contida: aquela que evita os excessos e "que exige sempre a justeza/em qualquer caligrafia". Como mostram os versos citados, nosso estudo versa sobre a obra Auto do Frade : poema para vozes 1.

Antes de iniciarmos a análise do auto, gostaríamos de tecer algumas palavras sobre o personagem histórico do auto, Frei Caneca, pois, como bem aponta João Cabral, "ninguém sabe quem foi Frei Caneca".

Juntamente com Cipriano Barata, Frei Caneca encontrava-se em oposição à centralização do poder - a monarquia. Ambos combateram em Pernambuco na Sentinela da Liberdade e no Tifis Pernambucano. Após a dissolução da Constituinte, Cipriano Barata foi preso, restando somente Frei Caneca como combatente e "como figura central das críticas ao Império", sendo um dos participantes da Insurreição de 1817. 2

Frei Joaquim do Amor Divino levava a alcunha de Caneca por querer honrar a origem humilde sua e de seu pai. Vendedor de Caneca pelas ruas do Recife, o garoto mal sabia o futuro que o esperava. A educação recebida no Seminário o tornou um intelectual preocupado com as injustiças e a opressão de um regime ditador, fazendo-o por em ação suas idéias liberais, defendendo seus ideais por um mundo claro e justo. Frei Caneca tornou-se um ícone da liberdade e igualdade entre os homens. Foi condenado à forca mas terminou sendo fuzilado pois todos se negaram a executá-lo na forca como vemos na voz de um dos carrascos: "Dessa vez eu não posso/matar um santo é mais que um bispo".

O Auto do Frade de Cabral, apesar de fiel à história verídica de Frei Caneca documentada pelos historiadores, possui um tom dramático e poético que supera o discurso histórico, ou ainda, nas palavras de Níobe Abreu Peixoto, o discurso literário não é ofuscado pelo histórico 3:

 

No Auto do frade (poema para vozes) estamos no domínio da criação estética, em que a exemplaridade do personagem histórico não ofusca a elaboração do personagem ficcional e do texto. Antes amalgama-se a eles e encontra o seu reflexo na realidade dos versos dialogados e no monólogo do frei, em que o ideário é percebido pelo leitor/espectador através da linguagem poética.

 

A razão pela qual trazemos o auto para a discussão é que, como observa a estudiosa do poeta, "em Frei Caneca, João Cabral junta idéias liberais com ética existencial. Liberdade, igualdade e fraternidade são palavras que definem o modo de agir do personagem" (NÍOBE, 2001:61).

Frei Caneca era iluminista e, como tal, acreditava na possibilidade da construção de um mundo onde os homens fossem iguais, com direito à felicidade e à liberdade, sem a opressão do Estado vigente. O mundo harmonioso que Frei Caneca desejava construir e o harmonioso ritmo dos versos de João Cabral figuram como um exemplo de ética do pensar e do dizer. O Auto do Frade assume uma particularidade para cada leitor que, através da razão contida nos versos de Caneca/Cabral, entra em comunhão com o ideal universalista 4 do Iluminismo.

Assim, o leitor atravessa a experiência individual da leitura para unir-se às vozes históricas (através de Frei Caneca relembramos outros mártires como Tiradentes, por exemplo) e ao sentimento de liberdade e fraternidade comum a todos nós.

Do individual, Caneca e Cabral alcançam o universal. O primeiro por despertar na humanidade a coragem de lutar contra a opressão, fazendo com que os homens aprendessem a dura lição de dizer não a um Império. O segundo por dizer não à poesia sentimental, ao lirismo exacerbado, à poesia de fácil inspiração, optando finalmente por uma poesia que preze pela dureza dos versos, calcada numa educação pela pedra , símbolo da luta enfrentada por Frei Caneca. Ambos, Caneca e Cabral nos dão lições.

O Auto do Frade é dividido em 7 partes, representando, assim, as paradas de uma procissão:

1. Na cela

O auto tem início na cela onde se encontra o frade dormindo profundamente sem se dar conta da chegada do provincial e do carcereiro. Esses dois personagens abrem o auto com um diálogo:

- Dorme.

- Dorme como se não fosse com ele.

- Dorme como uma criança dorme.

- Dorme como em pouco, morto, vai dormir.

 

[...]

 

Sem saber o que se passa fora da cela, o frei, inocente, ignora a chegada da morte. Os versos do diálogo trazem questionamentos acerca da vida/morte, e do acordar/dormir. Seria a morte o sono inteiro? Os versos dizem: "Não é sono./ Não é sono". Mas ainda não é chegado o tempo da execução, pois a morte também se faz esperar: "que durma ainda./Não tem hora marcada".

De acordo com os relatos históricos, Frei Caneca dormia pesadamente quando foram acordá-lo na cela. Dormia um sono tranqüilo como se fosse o último de sua vida.

2. Na porta da cadeia

Esta parte tem início com a voz do meirinho que anuncia publicamente:

- VAI SER EXECUTADA A SENTENÇA DE MORTE NATURAL DA FORCA, PROFERIDA CONTRA O RÉU JOAQUIM DO AMOR DIVINO RABELO, CANECA.

Para Alfredo Bosi, o tempo dramático tende a se estreitar entre o anúncio do Meirinho, repetido catorze vezes na obra, e a hora em que o frei é executado. "João Cabral elaborou de uma forma coral essa experiência de espera sofrida no espaço exíguo das sete estações por onde o réu é arrastado" 5.

Intercalada pelas outras vozes (a da tropa, da justiça, da gente nas calçadas, do clero, etc.), a fala do Meirinho funciona como uma advertência, um prenúncio da morte do frei. A repetição do meirinho parece encurtar o tempo de vida do frei.

O acordar do frei é expresso na sua atitude, e, através desta, consegue exercer influência no pensamento das pessoas, proporcionando-lhes uma reflexão acerca da realidade na qual vivem. A lucidez e o ensinamento pregados por ele são semelhantes à clareza, à precisão e ao ensinamento da poesia cabralina. Amantes da geometria, ambos alcançam a clareza do dizer e a medida certa da palavra no verso/discurso, como comprovam as vozes da gente nas calçadas: "Diziam que ensinava o diabo./Na sua boca tudo é claro,/como é claro o dois e dois quatro".

Dessa forma, a razão imbuída nos versos de Cabral e a lucidez do pensamento e das palavras de Frei Caneca - mesmo estando prestes a ser executado em praça pública - mostram o auto-controle desses dois homens que acima de qualquer coisa privilegiaram a consciência do dizer contra a espontaneidade das ações. É através dessa consciência, amparada pela ética do dizer que ambos adquirem sua própria liberdade.

O discurso e a sensibilidade de ambos se opõem a automatização das outras vozes: as vozes populares reprimidas pelo Imperador, no caso do Auto do Frade ("Padre existe é para rezar/pela alma, mas não contra a fome"), e as vozes de outros poetas que cultivavam o lirismo na poesia, no caso de João Cabral.

A autenticidade do discurso de Caneca e Cabral tem por regra a desobediência a fim de conseguir criar à margem daquilo já estabelecido (a ordem do Imperador e o critério da poesia) um espaço diferente, lançando um novo olhar para a realidade. Através desse novo olhar , torna-se possível alcançar um novo "mar azul", um "sol mais limpo" e, finalmente, alcançar à liberdade.

3. Da cadeia à Igreja do Terço

Os versos de João Cabral em Auto do frade são permeados pela ironia, interpretada pelas vozes daqueles que acompanham a procissão, bem como pela voz do próprio frade. Impedido de falar e agir de acordo com a sua consciência, o frade limita-se a sua última caminhada, com o ímpeto controlado. Se não pode falar por causa da imposição da disciplina, resta-lhe no entanto o alívio de falar para si mesmo, num silencioso monólogo interior, como vemos no seu diálogo com o oficial que o acompanha:

 

Oficial e Frei Caneca:

- Um condenado não pode falar.

Condenado à morte, perde a língua.

- Passarei a falar em silêncio.

Assim está salva a disciplina.

 

A fala do frei era, portanto, uma ameaça perigosa, uma má influência à paz e ao conformismo daquela gente que, calada, o ouvia. O sermão do frade era proibido, tendo que ser forçado a calar-se. Vejamos a ironia nos versos seguintes:

 

A gente nas calçadas:

- Receiam que faça falando

desta procissão um comício.

- Dizem que ele é perigo, mesmo

falando em frutas, passarinhos.

 

O truque de falar de coisas inocentes, sem qualquer pretensão, como falar de "frutas" e "passarinhos", trazendo nas entrelinhas uma mensagem revolucionária para acordar a população, remete à ditadura militar, época na qual as canções eram censuradas, fazendo com que o cantor camuflasse sua mensagem, salvando sua arte da proibição. 6

Não queremos aqui afirmar que essa tenha sido a intenção de Cabral uma vez que o poeta afirma não ter pensado na ditadura enquanto escrevia seu auto. Trata-se de uma questão de interpretação e de tentativa de estabelecer relações entre a obra e o contexto histórico no qual ela se insere. O fato é que Frei Caneca não poupava sua voz ao dizer o que pensava, tampouco temia as conseqüências do seu falar. Frei Caneca figura como um exemplo de anticonformismo, empenhado em transformar a realidade ao seu redor, ao ponto de o povo acreditar mais no frade do que nos santos: "Por que será que nesse frade/mais do que em santos, tenham crença?" Porque sua extrema curiosidade em relação ao mundo e sua abertura para o confronto mostraram que ele não era um intelectual fechado em si, mas voltado para as coisas que o cercavam. Viveu em conjunto com os outros, "nunca se isolou com sua ciência".

Situação diversa ocorre na nossa época atual, onde as pessoas ao invés de buscarem respostas e se solidarizarem com a situação mundial preferem se isolar, permanecendo fechadas em si, compondo verdadeiros "sujeitos despóticos" da modernidade, como afirma Jean-François Mattei 7. Nesse sentido, a maior barbárie da nossa época é a alienação, a recusa do mundo lá fora.

Quando Horkheimer e Adorno acusam o "sujeito despótico" do mundo moderno, não apelam mais às teses marxistas tradicionais do enfrentamento das classes sociais, exteriores umas às outras e incapazes de formar uma comunidade; eles tornam clara a condição maior da barbárie de nosso tempo, que consiste no fechamento do sujeito sobre sua interioridade. É a interioridade (quando esta se priva de toda luz exterior, a de Deus, do mundo ou dos outros homens) que se submete aos reflexos invertidos do humano e do bárbaro, e nenhuma pode escapar do inferno de seu enclausuramento (MATTÉI, 2001:76)

 

Ao contrário de se privar "de toda luz exterior" como ocorre com o sujeito moderno, Frei Caneca estava aberto com todos os cinco sentidos para a vida. O seu eu buscava o complemento do outro, das coisas que o rodeavam: "essas coisas ao redor/sim me acordam para a vida", "onde o sol, todo aceso, já arde".

O Iluminismo figura aqui não como uma cegueira, mas como um alívio para a aflição do frei. A luminosidade do sol serve como uma metáfora em oposição à escuridão da morte que o aguarda na praça pública. Embebido na luz do sol, o frei se fortalece de suas convicções, "o alcatrão já não o preocupa/e ao sol curou-se da prisão." Ao caminhar pelas ruas do Recife, não ia como se estivesse em procissão, mas como se estivesse passeando, se despedindo da cidade, do "mar azul" e do "sol mais limpo":

 

4. No Adro do Terço

Ao chegar ao Adro do Terço a tropa militar faz um círculo em volta do frade para que ninguém possa se aproximar do condenado. Neste momento o frei será execrado de acordo com as normas da Igreja. O ritual às avessas servirá para mostrar que o frei nunca foi digno de exercer as suas funções como religioso. Primeiro o vestem com todo o paramento como se fosse celebrar uma missa. Em seguida o conduzem ao trono e retiram-lhe todos os ornamentos de padre, simbolizando a degradação eclesiástica.

Este ritual representa para o padre a morte em vida. A humilhação de ser execrado pela igreja é mais uma prova pela qual tem que passar, fortalecendo ainda mais sua razão e convicção nos seus ideais. "Nu de toda igreja", o frade passa a ser um homem como os outros, ao invés de um mito. Dele o tomam até aquilo que não lhe haviam dado: "Com a faca raspam-lhe as mãos/que tanto haviam abençoado". Após despirem-no do hábito religioso vinham com incenso e água benta, mas "não era o frade a quem benziam,/estavam benzendo era a prenda". Segue o cortejo onde o padre vestirá agora uma espécie de mortalha.

5. Da Igreja do Terço ao Forte

Semelhante a Via Cruz, todos caminham trazendo no centro o prisioneiro. Nesta parte temos dois monólogos de Frei Caneca. Neles constatamos a sensibilidade com a qual ele se abre para a vida mesmo sabendo que o seu fim é chegado. Questionamentos acerca da morte também se fazem presentes no seu monólogo .

No decorrer da procissão, além de lhe terem sido arrancados os adornos da Igreja, o frade é despido pelos olhares da gente que o acompanha, passando de um símbolo a simples homem, como testemunham as vozes da gente nas calçadas: "É um homem como qualquer um, e profeta não se pretende".

6. Na Praça do Forte

Ao chegar ao local de execução, toda a gente se dissipa e o círculo se fecha em torno de Caneca. Ao seu redor somente militares e escrivões da Justiça. Nesta parte surge o problema de encontrar um carrasco que execute o frei na forca. O espetáculo já montado espera somente o carrasco, mas este se recusa a vir.

Agora, fora da cela, prestes a ser executado, o cenário parece estar todo pronto à espera da última personagem invisível, cuja ação é a principal: a Morte. Por mais que ela seja algo certo, esperando-nos sempre pontual ao final da vida, é ao mesmo tempo uma surpresa, ora antecipando-se, ora fazendo-se esperar. De qualquer modo é sempre estranha, como uma pessoa cujo rosto nunca vemos. Dessa forma se dá a procissão do frei que "veio como se num passeio,/mas onde o esperasse um estranho".

A demora em encontrar um carrasco faz do tempo uma longa espera da morte: "Não é uma tortura menor/que a da cela negra e sem horas." Nessa penúltima parte do auto há a discussão de como se dará a morte do frei. Uma vez que não pode ser enforcado, decide-se então fuzilá-lo: "Doze homens o vão fuzilar;/ pois ninguém o ousava sozinho." Esta parte é finalizada com a descarga de espingardas.

7. No Pátio do Carmo

O fechamento do auto traz o pai do frei com o seu silêncio, buscando entender o que havia se passado com seu filho. O velho Caneca "esperou, em todas as formas/do verbo esperar," pelo regresso do filho. Reflexivo ao escutar o mar de sua janela, mirava o horizonte "para ver melhor o que se acerca". A vista não adiantou muito, mas os ouvidos testemunharam a bala vindo do Forte: "fora a bala que deram cabo de seu filho".

No fim do auto, "[...] dirigem-se à porta principal da Basílica do Carmo, e deixam cair no chão, grosseiramente, o corpo que traziam. Batem na porta, aos pontapés, e vão embora, sem esperar,[...]". Também no começo do auto temos batidas na porta: "Batamos, outra vez ainda./melhor arrombar a porta, sacudi-lo." No início da peça (auto) temos as batidas na porta para acordar o frei que dormia profundamente. Trata-se do acordar para a morte. No final temos o ruído das batidas dirigidas ao leitor, que, após o espetáculo, deve conscientizar-se e despertar para a realidade na qual habita. Façamos nossas as palavras da estudiosa arguta do poeta:

No poema para vozes , o som das batidas na porta desperta personagem e leitor. O primeiro, para a morte. O outro, para vozes diversas. Na cena final, as batidas anunciam o fim da peça e o leitor "acorda" para a realidade do seu momento. (NÍOBE, 2001:77)

 

As "vozes diversas" mencionada pela autora referem-se às vozes da gente nas calçadas, às vozes do público que formam um discurso polifônico, mostrando o retrato de uma sociedade multifacetada. Em meio às diversas opiniões e pensamentos alheios, a voz do frade, apesar de solitária e mal compreendida por alguns, ecoará por séculos e séculos como antecipam as vozes da gente na procissão: "Sabe que não o consertará [o mundo]/Mas que virão para imitá-lo." As batidas na porta, na abertura e no fechamento do auto, provam que a obra é circular, assim também como a História da humanidade pode ser vista como circular. Novos mártires virão. Sempre haverá alguém para se opor e lutar por um mundo melhor, assim como sempre nos depararemos com a opressão e o conformismo.

De qualquer forma, fica a lição de Frei Caneca e de João Cabral, a lição de abertura para o mundo, de insatisfação com o presente e a constante busca de uma nova forma de ser, pensar e agir no mundo, com o desejo de melhorar a existência de cada um de nós, nesse tempo que chamamos de agora , no qual estamos vivos e interagimos continuamente com o mundo a nossa volta. Com responsabilidade e serenidade seguimos a caminhada do auto. Seguimos a caminhada da vida.

 

 

MELO NETO, João Cabral de. Obra completa . São Paulo: Nova Aguilar, 1994. p. 463-513.

FAUSTO, Boris. História do Brasil . 10 ed. São Paulo: Edusp, 2002. p. 153-154.

PEIXOTO, Níobe Abreu. João Cabral e o poema dramático: auto do frade (poema para vozes). São Paulo:Annablume: Fapesp, 2001. p. 24.

ROUANET, Sérgio Paulo. Dilemas da moral iluminista. In: NOVAES, Adauto [org.] Ética . 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. Neste ensaio o autor resume a descrição do pensamento moral do Iluminismo. Em relação ao ideal universalista, entendemos "que existe uma natureza humana universal, de que existem princípios universais de validação ética, e de que existe um pequeno núcleo de normas materiais universais." (p. 153).

BOSI, Alfredo. O auto do frade: as vozes e a geometria. In: Céu, inferno : ensaios de crítica e ideologia. São Paulo, 1988. p. 98.

Uma canção (de 1968) que pode ser ilustrada como exemplo é "Caminhando" de Geraldo Vandré: "caminhando e cantando e seguindo a canção, somos todos iguais braços dados ou não..."

MATTÉI, Jean-François. Civilização e barbárie. In: ROSENFIELD, Denis L. [org.] Ética e estética. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 73-85.