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Reacionarismo, conservadorismo, literatura
Ricardo Gonçalves Barreto (USP)

É de Horkheimer, se não me engano, a afirmação de que uma crítica progressista, em determinada época, pode se tornar facilmente conservadora em outra, legitimando o status quo . A visão arrojada de uma parte da crítica literária brasileira que se afirma com o Modernismo, em cujo lugar existencial convivem simultaneamente a angústia do entendimento do novo e a tomada de consciência de que as estruturas sociais repetem as condições profundas de alienação e desumanização como marca de nossa história, parece não fugir a essa regra. A literatura brasileira pós 22, constituída pelo movimento duplo de atravessamento constante da identidade que se quer firmar e pelo toque alargado até as fronteiras de outros sistemas nacionais e universais, feita no momento imediato de seu surgimento, impôs uma espécie de posicionamento distinto até então: para acompanhar o objeto, o crítico deveria mover-se com ele, enquanto o caldo ainda estava quente. Se o olhar paralisasse, correr-se-ia o risco de permanecer num ponto cego da história. O Modernismo foi, nesse sentido, mais do que um anúncio dos novos tempos, foi a integração mais decisiva na ordem social capitalista que nos levaria progressivamente à ruína do paradigma estético em vigência e com ele as formas obsoletas de construção de nosso imaginário, travestidas numa necessidade de se estar pura e simplesmente em sintonia com os centros desenvolvidos, ainda que a sociedade, se vendo agora republicana e "avançada" e repetindo sem se dar conta a sua condição de parceiro pobre na ordem mundial, reproduzisse o velho no novo, como se para caminhar precisássemos sempre carregar às costas o peso de nosso atraso.

De certa forma, vivemos ainda hoje esse dilema, em especial na crítica literária, de maneira que o assunto mostra interesse, principalmente quando acompanhamos a velocidade com que se quer apropriar do que acontece lá fora, sem dialeticamente olhar para dentro. A condição social capitalista, diz Terry Eagleton a propósito de Lukács, é uma totalidade de contradições, e o sentimento do moderno que se prolonga no Brasil desde o início de século XX parece potencializar isso 1. Não por acaso Mário de Andrade - é bom lembrarmos que revestido de ironia - "desculpa-se", no Prefácio Interessantíssimo , por estar atrasado em relação aos movimentos artísticos de sua época afirmando "Sou passadista, confesso. Ninguém pode se libertar duma só vez das teorias-avós que bebeu". 2 Em suma, e retomando Horkheimer, no interior da ânsia progressista, vê-se o risco do conservadorismo. A proposta de minha apresentação é discutir, a partir da análise de parte da crítica literária do início do século XX, quais são as origens, as formas de expressão e a natureza dos pensamentos conservador e reacionário e seus enraizamentos na realidade brasileira, debatendo as variadas compreensões de como se constrói o que, afinal de contas, é ser moderno.

É bem provável que a consciência da impossibilidade da "liberdade" apontada por Mário no Prefácio , a um só tempo mobilizadora e paralisante, tenha passado ao largo de alguns, mesmo sendo, a meu ver, uma poderosa síntese de época, de onde se pode avançar e recuar no tempo, alinhavando simultaneamente as raízes e os desdobramentos da problemática modernidade/conservadorismo. Em texto que pretendo abordar mais adiante, Tristão de Athayde afirma ter a sua geração (incluindo-se aqui Mário de Andrade, entre outros) começado "pelas coisas supérfluas, mal que não lhe era singular, mas em que refletia o próprio destino do Brasil". 3 Correndo o risco de insistir no lugar-comum, é necessário retomar a idéia de que fazer crítica literária no Brasil é também discutir sociedade, e que, portanto, é necessário refletir sobre os modos pelos quais a crítica literária se ancora na realidade social da qual faz parte, não querendo torná-la absoluta mas sim integrando e diferenciando essa crítica no e do momento em que é elaborada, evitando, para aproveitar uma síntese de Antonio Candido sobre o movimento dialético necessário ao espírito crítico, a "passagem do critério mais vasto de ideologia para o sectarismo estreito dos partidos" 4 e, acrescentaria, dos modismos.

Acredito que o marco zero dessa questão, como já disse, está nos primórdios do Modernismo e até mesmo um pouco antes dele. O entusiasmo ou o susto quando da chegada dos primeiros sinais do futurismo de Marinetti, na primeira década do século passado, já espelhavam a letargia de uma realidade social empobrecida pelo conjunto homogêneo da cultura da alta classe, presa ao passado, com vistas míopes no futuro e querendo conservar seu lugar num eterno presente. Contudo, entre o passado e futuro, tomados indistintamente quando o assunto é a afirmação de um pensamento das elites, vemos circular projetos ideologicamente demarcados mas que se confundem, em especial quando interessa preservar uma situação de poder. Sustentados pela ilusão de que o ato mercantil é o mesmo, isto é, a exportação do café para o mercado externo como continuum econômico, mas com a novidade de estar o país adentrando no mundo contemporâneo, os que governavam no período do Império se vêem na condição de governar também nos anos iniciais de República. O regime, aliás, pouco importava, desde que mantivessem as mesmas condições materiais e os modos de produção. A pergunta que fica é: qual o espaço para o novo se as condições são as mesmas, se, como diria Marx, há uma espécie de naturalização da mesma e repetida História? A libertação aludida por Mário de Andrade indica um processo de longa depuração da própria história, paralelo ao dos avanços do Modernismo, que de alguma forma corresponderia à chave interpretativa do problema.

O ponto passa a ser onde projetar os valores, se no passado histórico ou no futuro em aberto, e como hierarquizá-los na definição de nosso caráter nacional. Passadismo ou Futurismo, tanto faz: a questão é saber se haveria condições para uma revolução (aqui, em seu sentido fraco), para uma restauração ou o caminho seria mesmo o da conservação de caráter liberal, três das possibilidades político-ideológicas que se afiguravam então.

Mas o descarte do passado, a fé no futuro, e a imagem do país como necessitado de uma mão firme que o conduzisse vai transformando o que antes era conservador em um "progressismo" a qualquer custo. Walter Benjamin, a propósito, chama a atenção para as armadilhas que se escondem por detrás da ascensão dos pensamentos racionalizadores e ultraprogressistas na Europa de início de século XX. O mito do progresso, da ordem e da autoridade, que tanto embalaram os sonhos de uma sociedade justa e ordenada na visão de alguns de nossos críticos até o fim dos anos 30, aproximava o Futurismo dos totalitarismos. Ou seja, a imagem do mundo moderno desapegado de seu passado imediato, o olhar para adiante a qualquer custo, a máquina e a linha de montagem como representação da realidade sem conflito dos futuristas foram também alguns dos estilemas dos discursos dos regimes totalitários. Para o pensamento totalitário, lembremos Weber, o segredo estava no carisma do governante, que saberia, com mão de ferro associada a uma certa candura, dobrar as vontades e desconfianças individuais e colocar o povo em marcha única. A figura mítica do líder, como representação de um passado remoto, se somaria ao futuro como promessa.

Sabemos que ao longo de nossa história o caminho tomado, no plano político, salvo raras circunstâncias, foi o da conservação, cujo processo básico é o da conciliação. E vale a lembrança de que, em determinados momentos de nossa vida intelectual, o jogo ideológico, dividido em partes desiguais entre reacionários, conservadores e revolucionários, se mostrava algo dinâmico. Em agosto de 1902, por exemplo, uma minoria de monarquistas tenta dar um golpe a fim de restaurar o sistema político anterior. Procurando trazer para junto de si integrantes ultraconservadores das Forças Armadas e alguns republicanos que estavam na oposição, o núcleo duro do Partido Monarquista Paulista toma algumas cidades no interior de São Paulo com o intuito de derrubar o governo de Campos Sales e a oligarquia dos cafeicultores. No dia 25 do mesmo mês, publicam, no Correio da Manhã , seu manifesto, conclamando os brasileiros às armas. Em paralelo a isso, o Partido Socialista Brasileiro publica, no dia seguinte, seus "Programa Máximo" e "Programa Mínimo", n' O Estado de S. Paulo 5. Ou seja, nas frestas do sistema republicano algumas coisas aconteciam, mesmo que a matriz política já se firmasse em torno dos mecanismos de conciliação, fato que indica a opção conservadora. As tentativas de restauração ou revolução eram barradas no modelo de Estado republicano, no qual os políticos manobravam os interesses a fim de atender o patriciado rural. Com o passar do tempo, a atitude conservadora foi adequando a própria compreensão do que era ser "civilizado", o que significava ser capaz de equacioná-la eticamente à ambigüidade de alguns, como foi o caso de Tristão de Athayde, que afirmaria ser liberal em economia, conservador em política, modernista enquanto crítico e, finalmente, católico em sua fé. E esse tempero, antes de ser explosivo, de alguma forma vazava em seus escritos, tão diversos quanto suas opções.

Retornando ao exemplo de Marinetti, vale citar uma passagem curta de um texto de Carlos de Laet publicado em agosto de 1910 no Jornal do Brasil . Recheado de ironia e de certo rancor passadista, Laet brinca com as notícias recentes do Futurismo que chegam por aqui:

No sentir do iconoclasta Marinetti, uma das condições para a marcha triunfal da humanidade é só olhar para a frente. Nada de vistas retrospectivas inúteis e até prejudiciais. O homem que se esteja fazendo, sairá errado quando se modele pelo homem que foi. Para progredir é preciso deslembrar, ou antes ignorar fundamentalmente o que tenha sido. 6

 

Considerado, na leitura do fragmento, o travo amargo e sarcástico a partir do qual são relatadas as condições que o Brasil apresenta para o desenvolvimento das idéias futuristas, percebe-se que, para o espírito reacionário - e Carlos de Laet definitivamente representa esse tipo - o Futurismo se encaixa exemplarmente na condição social da nova República pelo mérito de servir como revestimento do vazio do presente da época e de sua falta de projeto político. Valendo-se de alguns dos motes centrais do movimento futurista e identificando nisso a própria modernidade, Carlos de Laet questiona como é que nós poderíamos pensar num futuro desligado do passado. Confusamente ou não, o polemista vê na ordem do presente somente sua face progressista e liberal, sem entender ser essa face, no espírito conservador que move a República, um dos pontos alinhavados na política de conciliação. O resultado aponta para o paradoxo capitalista rebatido mais tarde no interior do Modernismo: futuro é bom porque é diferente, e é diferente somente porque é igual.

O caráter irregular porém combinado entre passado e futuro, entre moderno e não moderno, projetados todos no presente político e cultural, se arrasta por anos, vindo a encontrar seu momento de maior conflito no início dos anos 30 que, nesta comunicação, corresponde ao nosso ponto de chegada. "Ordem no espírito, clima social, dever de ação": estas são as três razões que, em síntese, afastaram provisoriamente Tristão de Athayde, por volta dos anos 30, da crítica literária militante que vinha exercendo desde sua estréia em 1919. Como afirma o próprio crítico, seu afastamento havia sido estratégico. Acontecimentos vários determinaram uma alteração nos rumos de sua carreira de crítico influente e alguns deles são revelados no texto citado por mim no início desta comunicação: organizar os pressupostos críticos, revistos à luz de muitos anos como crítico literário em O Jornal ; assumir a direção do Centro Dom Vital e a diretoria da revista A Ordem , aparelhos de representação política e cultural da inteligência católica leiga no Brasil; a tentativa de ingressar no magistério superior por três vezes, para as cadeiras de Sociologia da Escola Normal do Rio de Janeiro, de Economia Política da Faculdade Nacional de Direito e de Introdução à Ciência do Direito. Esse afastamento pode parecer, visto na distância do tempo, um fato isolado, afinal, lido nos termos de sua própria síntese, poderia ter sido fruto de uma opção pessoal. Porém, após a morte de Jackson de Figueiredo e de sua conversão definitiva, em 1928, uma necessidade e um dever de participação direta na estruturação dos organismos leigos da Igreja Católica no Brasil tomou o lugar do pensador da literatura. O crítico literário, sem o deixar de ser, toma para si o "dever elementar de confrontação das idéias, e das atitudes com essa coisa tão terrivelmente destruidora de ilusões e de sistemas: a realidade, a vida vivida e não apenas pressentida, pensada ou imaginada de longe". 7

É possível, operando por redução, buscar por trás do tríptico "ordem no espírito, clima social e dever de ação" um resumo dos embates ideológicos que, por dentro e por fora da literatura, motivaram a tomada de posição de Tristão: as palavras de ordem eram Espírito , Sociedade e Ação , ou seja, os pilares do projeto político-ideológico da Ação Católica, organismo que, a exemplo de suas co-irmãs européias, funcionava como o braço leigo da Igreja na possibilidade de intervenção em políticas nacionais.

A atitude de Tristão representa uma aproximação da crítica literária da esfera política, o que não deixa de ser a decantação de um processo gradual e, em parte, doloroso. No caso, a atividade de crítica literária transforma-se em ação na sociedade. Em carta endereçada a Jackson de Figueiredo, datada de 2 de fevereiro de 1923, Alceu de Amoroso Lima propõe uma dissociação entre uma atitude conservadora na política e o conservadorismo estético, autoridade social e autoridade estética, em momento que vai preparando sua guinada dos anos 30. Na visão de Jackson, a "novidade" do Modernismo faz confundir audácia com bom gosto, argumento que sem dúvida caberia na boca do já citado Carlos de Laet. Como "autoridade" entre os jovens, deveria Alceu relembrar a articulação necessária entre "um valor de ordem" e "a beleza do passado". A resposta inicial deste é incisiva:

Devemos estar fartos, no Brasil, de coisinhas medidas e acadêmicas, por moldes feitos em França, para uso de meninas de colégio. Sofremos de não ter coragem de ser novos, de procurarmos uma expressão nossa, embora bebidos os princípios renovadores em literaturas estranhas 8

 

Mais adiante, procurando compor o combativismo dos modernistas (em especial Mário e Oswald) com o reacionarismo de Jackson, diz Alceu:

Há um movimento considerável de renovação literária na França e no mundo, movimento que parte daqueles que se consideram espíritos conservadores, no bom sentido em que nós tomamos a expressão, mas que não se julgam obrigados, com isso, a não pertencerem a seu tempo e a repetirem indefinidamente o que já disseram os nossos avós. 9

 

Situadas as diferenças, é possível depreender, a partir desse diálogo armado em contraponto, duas plataformas críticas que orientam ideologicamente o debate: de um lado, o conservadorismo pendular da crítica de Alceu, que se diferencia de Jackson para depois abraçá-lo num esquema conciliatório e eclético; de outro, o reacionarismo de Jackson, que não acredita ser a literatura modernista um campo fértil para as discussões prementes sobre o Brasil.

Em poucas palavras, os compromissos ideológicos de ambos anestesiam a tensão mais perturbadora e revolucionária do Modernismo brasileiro. Enquanto que, com escárnio, Mário "acatava as teorias-avós" para embutir dialeticamente no moderno seu elemento oposto, o passado, para daí dar o salto histórico, Tristão congela o presente, incorporando o passado, em sua forma reacionária, ao futuro moderno.

 

 

"O rabino Marxista: Walter Benjamin" in: A Ideologia da Estética , Rio de Janeiro, Jorge Zahar.

ANDRADE, Mário. "Prefácio Interessantíssimo" in: Poesias Completas , Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Edusp, 1987, pp. 59 - 82.

"De volta" [1936] in: ATHAYDE, Tristão de. Meio Século de Presença Literária (1919 - 1969) , Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1969.

"Notas de Crítica Literária - começando" in: Textos de Intervenção , São Paulo, Duas Cidades, Ed. 34, p. 40.

CARONE, Edgar. A primeira República (1889 - 1930): texto e contexto , 4ª edição, Rio de Janeiro, Bertrand, 1988, pp. 39 - 42 e pp. 229 - 232.

LAET, Carlos de. Obras seletas de Carlos de Laet: crônicas , Rio de Janeiro, Agir; Fundação Casa de Rui Barbosa; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1983, pp. 120 - 124.

ATHAYDE, Tristão de. Op. cit., p. 12 e 13

LIMA, Alceu de Amoroso e FIGUEIREDO, Jackson de. Correspondência: harmonia dos contrastes , tomo I, Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras, 1991, pp. 63 - 67.

LIMA, Alceu de Amoroso e FIGUEIREDO, Jackson de.Op. cit., p. 65.