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Além mundo: representações do lugar poético na poesia da passagem do século XIX ao XX
Paulo Maia (UFPR)
N'importe où! n'importe où! pourvu que
Ce soit hors de ce monde!
(Baudelaire, Petits Poèmes em Prose )
Ao aceitarmos com Antonio Candido que a literatura brasileira está formada na década de 70 do século XIX, aceitando o argumento de Formação da literatura brasileira de que é Machado de Assis a síntese do sistema literário que vinha havia duzentos anos buscando se completar, acreditamos que esse sistema não se fecha com este escritor, antes se abre com ele a novas possibilidades de pesquisa estética. Assim, o fato de que nossa literatura se completa com um prosador e a falta de um poeta à sua altura chama atenção para a questão de gêneros literários: a poesia parece não ter acompanhado a prosa no momento de maturidade da literatura brasileira. Para Candido, o "lirismo romântico continuaria em grande parte, sob outra forma, nas manifestações poéticas do pós-romantismo - o parnasianismo e o chamado simbolismo". 1
Neste caso , a releitura da poesia da virada do século XIX pode mostrar como, ao contrário da interpretação corrente, em geral determinada por um sinal de menos, nossos poetas parnasianos e simbolistas não foram lá tão anacrônicos ou alienados. Pois, se naquele momento a s preocupações do Brasil já não eram a independência, o que incomodava então os poetas brasileiros era a precária formação da pátria no âmbito estrutural (uma república recente, sem infra-estrutura, manchada pela experiência do trabalho escravo e com uma economia dependente) e no âmbito espiritual (a ausência de um grande poeta, uma linguagem não definida, a realidade de uma tímida tradição cultural e um público medíocre), portanto uma sensação de falta. Candido, ao comentar as implicações do nacionalismo literário, que encarava a criação estética como dever patriótico de construção da nação, nos ajuda a observar um aspecto dominante da formação da vida intelectual brasileira que pode ter contribuído para tal sensação:
Como não há literatura sem fuga ao real, e tentativas de transcendê-lo pela imaginação, os escritores [anteriores ao final do século XIX] se sentiram freqüentemente tolhidos no vôo, prejudicados no exercício da fantasia pelo peso do sentimento de missão, que acarretava a obrigação tácita de descrever a realidade imediata, ou exprimir determinados sentimentos de alcance geral. Este nacionalismo infuso contribuiu para certa renúncia à imaginação ou certa incapacidade de aplicá-la devidamente à representação do real, resolvendo-se por vezes na coexistência de realismo e fantasia, documento e devaneio, na obra de um mesmo autor. ( Formação , p. 26-27, V. 1)
Se Machado resolveu isso na prosa, nossa poesia daquele tempo era ainda desprovida de uma linguagem que superasse o histórico compromisso documentário, de um sujeito lírico capaz de superar algumas características do romantismo, como a "anestesia da razão pelo feitiço da sensibilidade" e o "sistema de imagens calcado nas impressões diretas da realidade externa e interna", e não contava com um universo referencial que ultrapassasse a obrigação da simples coloração tropical . Não havia, a exemplo do nosso grande prosador, um poeta capaz de realizar a síntese entre a nossa tradição poética e os influxos externos no que respeita à linguagem. Essa lacuna na formação de nosso sistema poético exigia uma solução, um empenho que os poetas finisseculares tomaram para si, mas que só veria um bom resultado com a entrada de Carlos Drummond em cena. 2 Somente a partir do poeta gauche é possível contarmos com um sujeito lírico consciente de sua realidade na linguagem, capaz de superar nossa tradição poética e os limites referenciais pelos quais o intelectual brasileiro sentia-se obrigado a transitar:
Também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.
Drummond, ao negar o nacionalismo virtuoso, virtude vista com ironia, nega o princípio do nacionalismo literário. Ele não fez isso por se sentir menos brasileiro, mas por se sentir, sobretudo, poeta. Em seguida, ele também nega tanto a hipertrofia sentimental do romantismo quanto o alumbramento da poesia simbolista:
Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se. 3
Como resultado de uma "tomada de consciência", os poetas do final do XIX julgavam-se escolhidos para empreender a tarefa de redefinir a dinâmica da nossa produção poética, sentiam-se com a missão de reformar o sistema literário, cobrir suas lacunas, superar suas deficiências. Eles viam-se obrigados a uma poética como missão. Embora isso redundasse em uma poesia paupérrima na maioria dos casos, os sintomas revelam as preocupações desses poetas empenhados no empreendimento de uma reforma mental, como percebemos no poema Nova Hélade , onde Dario Velloso sugere como contraponto a um mundo desordenado, o retorno a outro idealizado, a Grécia Clássica. Para o poeta é possível um novo helenismo:
É preciso ruir essa escada de ossos
Por onde vai descendo o Ocidente, tão triste!
O claustro é treva e morte, e, para além, existe
A luz, a vida, a paz...
Entender tal perspectiva estética requer definir o campo de tensões sócio-cultural da segunda metade do século XIX europeu e, para isso, valem alguns apontamentos de Walter Benjamin 4 sobre a reprodutibilidade técnica da arte. De um lado, o aumento da difusão da arte, proporcionado pelas técnicas de reprodução, tende a destituí-la da noção simbólica de objeto excelso, singular e irreprodutível , parece colocar em crise a noção de aura de uma obra . Com isso, os poetas invocam o "valor de culto" , 5 o caráter secreto e sagrado de uma obra reservada a poucos, na tentativa de dignificar a literatura. 6De outro lado, houve naquele momento uma progressiva profissionalização do escritor, sobretudo devido ao desenvolvimento da imprensa, o que sugeriu uma banalização da sua função. Nesse caso, elevar o tom da arte como forma de escapar às tensões histórico-sociais era para o artista um modo de carregá-lo por inércia, era o recurso para combater a vulgarização que a figura do profissional das letras passou a representar. É o que mostra o poema Nua e crua , onde Raimundo de Oliveira deseja que a poesia transfigure a triste realidade e a ele próprio:
Doire a Poesia a escura realidade
E a mim me encubra
Esse campo de tensões aporta no Brasil e encontra um país em processo de intensa transformação econômica e social e uma crise na estrutura sócio-cultural: a relação entre trabalho, produção e condição de sustento. De acordo com Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil , no momento de transição de país rural a urbanizado, a sociedade ainda conservava alguns valores coloniais. Dois desses valores eram: a supervalorização dos ofícios que ocupam a inteligência, geralmente associados aos profissionais liberais como um valor distintivo, um título, e a desvalorização dos ofícios que ocupam os braços, atividades ligadas a um desempenho mecânico e, portanto, às classes servis. De acordo com Fernando Gil, 7 diante de uma sociedade que encara as letras como valor de distinção, "título nobiliárquico" como sugere Bastide, os poetas do fim do XIX se chocam com a dinâmica do sistema produtivo, que exigia a profissionalização do escritor devido ao aumento da demanda pela obra de arte tornada produto. Então, além da influência teórica européia, os poetas brasileiros, incomodados com realidade de uma história marcada pela brutalidade do trabalho escravo, vêem "a poesia como não-trabalho", ou não redutível ao caráter produtivo, e buscam a evasão como possibilidade de atingirem uma esfera mais digna para sua arte e para si próprios. Essa poética de fuga em relação à contingência histórica e social pode ser observada no poema Longe de tudo , de Cruz e Sousa:
E livres, livres dessa vã matéria,
longe, nos claros astros peregrinos
que havemos de encontrar os dons divinos
e a grande paz, a grande paz sidérea.
Porém, o abandono da "humana e trágica miséria" significava o abandono da sociedade e, portanto, da única possibilidade de uma validação desse "valor de culto", a evasão acarretaria a perda do contato com a única esfera capaz de garantir a cota de reconhecimento da arte e do ser social do poeta. Cientes disso, numa atitude ambivalente, os poetas se valem do que Benjamin chamou de "valor de exposição", caráter de exponibilidade e destinação pública de uma obra, na expectativa de reconhecimento. Esta poética de fuga mantém, assim, uma dialética entre dois valores contrários. Linguagem e universo referencial pouco acessíveis, caráter místico e ritualístico e sentimento de desprezo em relação ao público ("valor de culto") são características vistas pelo parnasianismo e simbolismo como qualidade artística a ser apreciada e reconhecida pela sua destinação pública ("valor de exposição"). Tudo isso se encontra no poema Ode parnasiana , de Raimundo Correia. Em determinada ocasião, após uma taça de vinho, entorpecente ligado à criação estética, um poeta tem uma alucinação: ele se vê no mundo clássico, onde encontra vários personagens da mitologia grega. Ao despertar do sonho, o poeta se sente iluminado por ter atingido um lugar reputado superior e desdenha do restante do mundo:
Motege embora o mundo!
Ria-nos essa turba ímpia e nojosa,
Sobre a qual cuspo o meu desdém profundo;
Mísera e vil, curvada aos pés de um rei!
Vil e mísera, sim que ela não goza
Da taça que emborquei.
A análise das tensões do universo estético que os poetas brasileiros, através da poética da evasão, empenharam-se em reformular, mostra essa necessidade de fuga como negação à contingência histórica e à realidade sócio-cultural. Porém, como pudemos ver, a formulação em imagens dessa saída pela tangente em busca de um lugar idealizado representava uma abstenção em relação à esfera pública, da qual dependia a validação da arte e do artista. Essa perspectiva gera uma estética ambivalente que define a poesia do último quartel do século XIX, como observa Fernando Gil, em A ambivalência da poesia classissizante . 8
Os poetas finisseculares afirmam a existência de um lugar onde a arte estaria livre do peso da história, da mediocridade humana e da vil matéria, um lugar para onde desejam partir e, em alguns casos, partem carregados pela sua obra, como espera Alceu Wamosy, em Peregrinação :
Levando o mesmo Ideal, pisando a mesma estrada...
E havemos de chegar bem cedo a esse país,
Onde se canta sempre e sempre se é feliz
No entanto esse movimento, geralmente visto como de ascensão, é, por vezes, sucedido por outro de queda. No poema Sobre a nuvem , por exemplo, Alberto de Oliveira descreve uma cena em que um poeta recebe a visita de uma nuvem que se oferece para levá-lo às "regiões da luz e das estrelas", ele aceita, mas, ao ver-se muito afastado da Terra, é tomado por uma nostalgia:
E mais e mais ia subindo a nuvem,
E era já com saudade, com um profundo
Desejo ardente, que eu achar tentava
A terra, e a procurava, procurava
Nem sequer um vestígio desse mundo!
Há, de um lado, a impossibilidade de representar esse espaço sagrado e, de outro, de atingi-lo devido à parcela de ser social do poeta, como revela Olavo Bilac em Perfeição , onde, apesar da falsa modéstia, ele se contenta com adivinhar o esplendor do templo perfeito: "Nunca entrarei jamais o teu recinto/.../ Amo-te, cobiçando-te... E, faminto,/ Adivinho o esplendor de tuas salas."
Esse embate entre vontade de fuga, abandono do público e vontade de reconhecimento, só possível pela destinação pública da arte, pode ser alegorizado pelo mito de Ícaro. Trancado em um labirinto, o filho de Dédalo consegue escapar graças ao par de asas que seu pai lhe fixou às costas com cera. Mas, imprudente, Ícaro não ouve os conselhos do pai e, deslumbrado com o sol, busca alcançá-lo. Não percebendo que a cera derretia com o calor, ele perde as asas e precipita-se no mar, onde se afoga. Essa representação "das ambições desmesuradas do espírito" (CHEVALIER, p. 498-9) mostra bem o movimento de subida e descida formulado nas imagens poéticas, onde o mar corresponde a um balde de água fria aos vôos megalomaníacos.
As tentativas de representação desse lugar idealizado, desse além mundo, são diversas. As principais imagens correspondem a espaços reputados sagrados e, portanto, superiores, como a constante referenciação à tradição greco-latina, onde se encontram "os Poetas e Heróis do grande mundo antigo", como sugere Francisca Júlia. Outras descrições se referem a espaços identificados nas estrelas, no mar, nas florestas, na torre de marfim, no templo, no crepúsculo, na noite. Há duas outras maneiras de representar esse lugar sublime que devem ser destacadas. Uma está associada à consciência do artista, é o caso que encontramos em Sofia , de Dario Velloso:
Em minha mente, como um sol levante,
Sobes da Consciência o mundo alado,
Mundo infinito, de IDEAIS, criado
Da Inteligência à flana irradiante.
Como "sofia" significa inteligência, este trecho é um bom exemplo da representação de um lugar reputado superior, um mundo para além do mundo considerado inculto. Outra maneira de representação do espaço sagrado é muito singular na poesia daquele momento. Trata-se das imagens criadas pelo excêntrico Augusto dos Anjos. Se os outros poetas buscavam superar a imposição do real limitante a partir das exterioridades ornamentais da tradição clássica, do alumbramento pelo espaço sideral, da calma dos bosques, do mar ou do silêncio pálido dos templos, Augusto dos Anjos, afirmando-se pela rebeldia, identifica seu universo sagrado não com um lugar inatingível, mas repelente. Seu olhar não busca o sagrado, dessacralização da arte é o que espera o poema Aberração :
Mato o ideal; cresto o sonho; achato a esfera
E acho odor de cadáver na fragrância!
Sua poesia revela um ideal atormentado, uma visão negativa do homem e uma experiência poética antimetafísica. Se para os outros poetas, a busca de dignidade só era possível através de uma subida, uma sublimação para o alto, Augusto é tributário do que chamou Lúcio Esfer de "ascensão em queda livre". Como vemos no poema Os Doentes , há uma negação dessa subida:
No Alto, os astros miúdos
Reduziam os céus sérios e rudos
A uma epiderme cheia de sarampos
Se Augusto nega essa experiência espiritual de fuga, a sua evasão vai encontrar lugar digno no próprio interior da matéria orgânica da natureza, o além mundo é para ele um antes do mundo, a sua negação da contingência histórica e da realidade social é a mais coerente da poética da evasão, pois, como afirma ainda em Os Doentes , ele:
Anelava ficar um dia, em suma,
Menor que o anfióxus e inferior à tênia,
Reduzido à plastídula homogênea,
Sem diferenciação de espécie alguma.
Os poetas do final do XIX devem ser vistos pela sua "tomada de consciência". Para eles, não faz mais sentido o espírito nacional, a brasilidade para exportação ou a afirmação da nossa originalidade diante da tradição ocidental. A preocupação daquele momento não é mais refletir a cor local - a descrição do universo tupiniquim e tropical -, mas a redefinição de aspectos relevantes na dinâmica da nossa vida literária: como a busca de novas linguagens, maior aprofundamento lírico em nossa expressão poética e a ampliação do nosso imaginário. Porém, na maioria dos poetas de então, essa busca não resultou em boa qualidade estética ou na reformulação poética pela qual se empenharam. Com exceção de Augusto dos Anjos, grande parte da poesia daquele momento revela quando muito apenas algumas inquietudes originadas no campo de tensões que era o Brasil nos seus primeiros passos modernos. Inquietudes que, como vimos, serviram para desenvolver um movimento imagético interessante. Alegorizado pelo mito de Ícaro, esse movimento pode se concluir com o poema Soneto de Alphonsus de Guimaraens:
És inútil, ó sol, a quem se eleva
Na asa do sonho, e após, de treva em treva,
De desengano a desengano tomba.
BIBLIOGRAFIA
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______. A poesia como não-trabalho. In: II ENCONTRO DO GRUPO FORMAÇÃO, 2002, Rio de Janeiro: UFRJ. (no prelo)
HOLANDA, S. B. de. Raízes do Brasil . 19ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987.
MERQUIOR, J. G. De Anchieta a Euclides - breve história da literatura brasileira. 2ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979.
CANDIDO. Formação da literatura brasileira , p. 261, v. 2 (as referências estão citadas na íntegra na bibliografia).
Sugestão do Prof. Fernando C. Gil numa disciplina do programa de pós-graduação da U. Federal do Paraná destinada ao estudo da obra de Antonio Candido.
DRUMMOND. Alguma poesia . In: Poesia completa. p. 7
BENJAMIN. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica . In: Magia e técnica, arte e política, p. 165-196.
As expressões "valor de culto" e "valor de exposição" são de A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica , de W. Benjamin. A primeira liga-se ao caráter de autenticidade de uma obra de arte, ao de sua existência singular e irreprodutível. A segunda relaciona-se ao caráter de exponibilidade pública, de figuração exemplar de uma obra que esconde o trabalho empregado pelo seu criador.