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A formação no sítio
Patrícia Ribeiro Brasil (UFRGS)

Quando falamos em Literatura Infantil é natural que a primeira definição que nos ocorra seja a de literatura para crianças. Uma literatura didática, pedagógica que visa ensinar e educar os pequenos. No entanto, não podemos nos ater a essa equivocada definição. Os embriões desse gênero literário foram as fábulas que já aparecem no século XVIII a.C., na Suméria. Nascido no Oriente, vai ser reinventado depois no Ocidente, pelo grego Esopo (Séc. V a.C.) e aperfeiçoado, séculos mais tarde, pelo escravo romano Fedro (Séc. I a.C.), que o enriqueceu estilisticamente. Entretanto, é no século X, que começaram a ser conhecidas as fábulas latinas de Fedro.

É somente durante o século XVII que a Literatura Infantil constitui-se como gênero. É nessa época que as mudanças na estrutura da sociedade desencadearam importantes repercussões no âmbito artístico. Ao francês Jean La Fontaine (1621/1692) coube o mérito de dar a forma definitiva a uma das espécies literárias mais resistentes ao desgaste dos tempos, a fábula, introduzindo-a definitivamente na literatura ocidental. Charles Perrault (1628-1703), colhendo e adaptando as lendas e narrações afloradas da tradição e do folclore, imortalizou-se através de contos maravilhosos como o "Gato de Botas" e a "Gata Borralheira", sendo hoje considerado autor clássico do gênero, ao lado de Andersen e dos Irmãos Grimm. O primeiro livro de Perrault data de 1697. Os Irmãos Grimm, Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859), além de filólogos e lexicógrafos, foram os pioneiros dos estudos folclóricos. Os contos que escreveram e os celebrizaram, emanam diretamente das fontes primitivas e genuínas da tradição e saberes populares. Publicaram Contos populares e Lendas Alemãs .

O aparecimento da Literatura Infantil tem características próprias, pois decorre da ascensão da família burguesa, do novo status concedido à infância na sociedade e da reorganização da escola. Sua emergência deveu-se, antes de tudo, à sua associação com a pedagogia, já que as histórias eram elaboradas para converterem-se em instrumento dela. O pensamento burguês do século XVIII promoveu uma separação entre família e mundo dos negócios. Passou a valorizar o indivíduo, distinguindo infância de idade adulta. A infância ficou destinada à preparação pessoal para o futuro e sentiu-se, então, a necessidade de uma didática, de uma pedagogia.

É com Hans Christian Andersen (1805-1875) que se instaura a literatura infantil como gênero. O escritor e poeta dinamarquês foi indubitavelmente o mais sensível escritor do gênero. Autor de 156 contos maravilhosos, entre os quais figuram "O Patinho Feio" (autobiográfico), "O Rouxinol", "A Sereiazinha", "O Soldadinho de Chumbo", etc.

O século XIX, que fundamentou a literatura infantil, foi o período do surgimento dos livros mais representativos desse gênero, que ainda desafiam o tempo, permanecendo nas graças do público infantil. Assim, temos como exemplo, As aventuras de Pinóquio, de Collodi; Alice no país das maravilhas , de Lewis Carrol; Tom Sawyer e Huckleberry Finn , de Mark Twain; A ilha do Tesouro , de R.L. Stevenson; Peter Pan , de James M. Barrie; Tarzan , de Edgar Rice Burroughs; e os textos de Júlio Verne.

A Literatura Infantil, por iniciar o homem no mundo literário, deve ser utilizada como instrumento para a sensibilização da consciência, para a expansão da capacidade e interesse de analisar o mundo. Sendo fundamental mostrar que a literatura deve ser encarada, sempre, de modo global e complexo em sua ambigüidade e pluralidade.

Para investir na relação entre a interpretação do texto literário e a realidade, não há melhor sugestão do que obras infantis que abordem questões de nosso tempo e problemas universais inerentes ao ser humano. "Infantilizar" as crianças não cria cidadãos capazes de atuarem na organização de uma sociedade mais consciente e democrática.

É nessa linha de pensamento que Monteiro Lobato inicia a sua produção literária destinada ao público infantil. A realidade comum e familiar à criança, em seu cotidiano, é penetrada subitamente pelo maravilhoso , com a mais absoluta verossimilhança e naturalidade. Com o crescimento e enriquecimento do fabuloso mundo de suas personagens, o maravilhoso passa a ser o elemento integrante do real. Lobato preocupou-se com um duplo objetivo: levar às crianças o conhecimento da tradição, a apreensão do acervo herdado que lhes caberá transformar; e também questionar, junto a elas, as verdades feitas, os valores e não-valores, cristalizados pelo tempo e que cabe ao presente redescobrir e renovar.

A literatura Infantil apareceu no Brasil como função educativa, em livros didáticos e em traduções, quando a escola surgiu de maneira organizada no final do século XIX. O primeiro autor desse gênero foi o jornalista Alberto Figueiredo Pimentel (1867/1914), que escreveu Contos da Carochinha , Histórias da Avozinha , Histórias da Baratinha . Esses livros faziam um compilação e adaptação de estórias do folclore mundial e nacional, recolhidas por meio de relatos orais, porém sem um cuidado com a linguagem. Assim como na literatura adulta, muitos dos contos foram publicados pelo jornalista, em jornais como a coluna "O binóculo", na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, durante o ano de 1894.

Na poesia teremos como grande ícone, Olavo Bilac, com as Poesias Infantis , de 1904. Obra que aborda assuntos cívicos ("Ama com fé e orgulho a terra que nasceste"), noções de história e de tradições. A poesia de Bilac é construída por uma linguagem fácil e por um verso que flui com grande musicalidade, adotando imagens simples. Encontramos também na obra infantil desse poeta a valorização da família e do lar e a exaltação da natureza de uma maneira ufanista e patriótica. A valorização exacerbada da pátria, do amor à família, do respeito aos mais velhos, da piedade e compaixão aos mais pobres, da dedicação aos mestres são também características que encontraremos em livros traduzidos para o português no início do século passado e que alcançaram estrondoso sucesso como Cuore, de Amicis e Le tour de la France par deux garçons, de G. Bruno, respectivamente traduzidos no Brasil como Coração e Dever e Pátria . Esses valores servem ao Brasil por seu processo histórico, já que a República exigia de seu povo uma crença no país, o desejo latente de transformação que encontrou meio de propagação através da literatura.

É nessa perspectiva, de país recém formado, em busca de modernização, mas com uma estrutura econômica baseada na monocultura e na exportação de matérias-primas, com a realidade social de um país que a pouco abolira a escravatura e que inicia esforços para a formação da literatura infantil brasileira. Surge um clima de valorização do saber, da educação e da leitura como via de acesso para tanto.

Publicações como a revista Tico-Tico , que surgiu no Brasil no ano de 1905, com grande êxito, impulsionaram a penetração do livro infantil. Personagens como Chiquinho e seu cachorro Jagunço; Juquinha e depois Zé Macaco povoaram a infância das crianças daquela época. Essas revistas tiveram origem no início do século VXIII na Inglaterra com Juveline Magazine e depois na França, em 1833, com a Le journal des Enfants e mantém-se até hoje em suplementos e páginas infantis dos jornais em circulação. Em 1915, é editada a Biblioteca Infantil, criação do Professor Arnaldo de Oliveira Barreto, contendo mais de cem livros com estórias adaptadas do folclore mundial. Ali encontram-se estórias das Mil e uma Noites , Dom Quixote , Viagens de Gulliver e os contos de Andersen, Grimm e Perrault. Essa coleção foi inaugurada com a publicação de O Patinho Feio , de Andersen.

É possível observar além do caráter pedagógico, uma valorização da literatura universal em si, nas publicações infantis brasileira e, seguindo uma tendência nacional, essa literatura inicia uma busca de histórias essencialmente nossas. O folclore brasileiro recebe um cuidado maior, já que o universal tem sido traduzido e adaptado com abundância. Aparecem então contos brasileiros, embora não constantes, com temas folclóricos nacionais, como os de Monteiro Lobato, em Lendas e Mitos do Brasil , de Theobaldo M. Santos, Sacizinho anda à solta , Saci-pererê , de Mariana Jolowicz , Lendas do Brasil, de Wilson Rodrigues.

Na linguagem utilizada pelos escritores infantis do início do século passado também se observa uma tendência nacionalista em suas produções. A linguagem é tratada com zelo. Busca-se que as obras sejam claras, limpas, corretas. Além de o texto repassar conceitos morais e cívicos, transmite, através da linguagem, a necessidade do uso correto do português. Isso é observado também na literatura adulta brasileira, já que os movimentos literários que seguiram o romantismo primavam por uma linguagem mais cuidadosa em oposição aos descuidos românticos.

Sendo assim, a língua se torna um símbolo nacional também, objeto de adoração, nacionalismo e respeito. A língua nacional se converte em um símbolo pátrio como a bandeira brasileira. O fato é que, na necessidade de produzir textos claros, limpos, que elevassem a nossa língua à mais alta distinção, cometem-se erros clássicos, como o de Alexina de Magalhões Pinto: devido à severidade lingüistica, reescreve todas as peças folclóricas de sua obra infantil. O mesmo ocorre com Olavo Bilac que, em suas produções literárias infanto-juvenis, não diferenciando a fala infantil ou dos meninos não-escolarizados dos demais, impede uma visão "realista" na fala de personagens, demonstrando, assim, a impossibilidade de diferenciar em sua linguagem, um lavrador ou um caipira de um coronel, por exemplo.

E é esse o desejo de Monteiro Lobato, escrever para as crianças em uma linguagem que as interessasse, que fosse mais próxima de suas realidades e que possibilitasse a construção de um caminho direto para a fantasia. A inovação de Lobato não se encontra somente na linguagem, mas também, no imaginário quando cria personagens fantásticos, como uma boneca de pano subversiva, um sabugo de milho intelectual, um porco medroso, um rinoceronte professor, um saci peralta e uma cuca.

Monteiro Lobato inaugura uma nova fase na literatura infantil, dedicando-se a ela, não somente enquanto escritor, mas também como empresário. Ele funda editoras, promovendo uma popularização do livro infantil e, ainda que inicie a sua produção literária com os livros escolares, Reinações de Narizinho, - em um primeiro momento é destinado a cumprir esse objetivo -, desvincula-a do pedagogismo , criando e abrindo espaço, já que a reescreve e altera o original (obra republicada em 1942). É certo que a proliferação de livros infantis não acontece, inicialmente, durante a década de 20, suas obras são quase que solitárias. E, somente na década seguinte acontece um boom deste gênero.

Começam a surgir então textos dedicados às crianças dos romancistas de 30. Obras infantis de Érico Veríssimo, como As Aventuras do Avião Vermelho (1936), de José Lins do Rego, Histórias da Velha Totônia (1936) e a de Graciliano Ramos, em A terra dos Meninos Pelados (1939).

O crescimento do livro infantil está ligado ao crescimento econômico do país, ao desenvolvimento da classe média brasileira, sua modernização, industrialização e administração de Getúlio Vargas, bem como a escolarização da nação e sua nova posição que a arte tomou no país por causa dos movimentos modernistas de 22. O que não se pode esquecer é que Lobato atuou tanto na atividade de produção de textos infantis com inovação mas também na publicação e na difusão deste gênero.

Durante as décadas seguintes, 40, 50 e 60, são lançados no país uma grande quantidade de textos infantis, possibilitando a profissionalização do escritor. Já, depois da metade da década de 60, começam a surgir no país Instituições, Associações e Programas, instituições como a Fundação do Livro Escolar (1966) e a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (1968).

É retomado o estímulo à leitura com o relançamento de obras, o lançamento de títulos novos, a inserção de artista gráficos nas ilustrações e a produção de textos infantis de autores consagrados como Mário Quintana, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes e Clarice Lispector. A década de 70 e as seguintes tornam-se férteis, pois a herança de Lobato é consolidada com o desafio à modernização da cultura e à perpetuação do gênero infantil nas letras brasileiras.

Monteiro Lobato inicia sua produção infanto-juvenil com o livro Narizinho Arrebitado , em 1921. Uma obra escrita para escolas, como o próprio subtítulo sugere: "Segundo livro de leitura para o uso das escolas primárias". Apesar de apresentar um caráter pedagógico e didático, sendo direcionada à escola formadora de comportamentos exemplares há importantes diferenças: a fantasia, o maravilhoso, o imaginário. E, como assinalou Arroyo 1 (1968): " [ ... ] o conteúdo não é mais didático: é amplamente lúdico" (p.202).

Em 1934, Lobato edita uma segunda versão, agora com o título de Reinações de Narizinho , obra em que o caráter pedagógico desaparece para dar espaço à fantasia. Mesmo que Reinações tenha surgido muito mais tarde, não é desconsiderada a sua primogenitude.

O Sítio não é somente um espaço em que a ação se desenvolve, é também a representação idealizada do mundo. Não é apenas a reprodução de uma pequena localidade rural brasileira ou a representação arquétipa de uma sociedade rural brasileira. Muito pelo contrário, é a idealização de um mundo maravilhoso para a literatura infantil e uma esperança utópica da realidade brasileira.

Em Reinações de Narizinho não há uma noção clara de tempo. A passagem de ano, mês ou estação não está determinada. A temporalidade centraliza-se na noção do "dorme-acorda" 2 que caracteriza a sucessão de dias. Há poucas referências sobre o tempo cronológico. A maioria, entretanto, das referências feitas sobre o tempo são do tipo: uma vez , todos os dias, todas as noites, todas as tardes, todas as manhã, certo dia, no outro dia pela manhã . Porém, em que ano? Mês? Não há essa definição, o que acentua ainda mais o caráter maravilhoso da obra.

Lígia Leite (1985) 3 analisa a tipologia que Normam Friedmam apresenta: seus oito diferentes tipos de narradores. A narração em Reinações é feita em terceira pessoa, porém, o narrador oscila entre uma "aparente" neutralidade e uma interferência. Ora narra os fatos de um lugar periférico, ora de um lugar central. Nesse sentido, o autor pode situar-se nas mais variadas posições. Essa é uma característica do primeiro exemplo de Friedmam: o autor onisciente intruso.

O autor-narrador, através do uso de adjetivos, expressa o seu juízo de valor sobre o narrado. Mas, assim como interfere no texto, há momentos em que sua posição parece ser neutra e, o que interessa, é apenas narrar os fatos: "Resolvido aquele ponto, trataram de partir. Para isto o menino invisível tirou dum saquinho um certo pó de pirlimpimpim". (Ibid., p. 170).

É comum na obra infantil de Monteiro Lobato referências a outros de seus próprios textos, produzindo acontecimentos interligados, bem como, a mescla de clássicos entre as personagens do Sítio. Essas personagens-visitantes estão no Sítio a convite: para uma festa, para a solução de algum problema, etc. Estão ali para vivenciar o enredo e as idéias 4, ainda que a sua participação seja sempre pelo lado transgressivo. A participação dos personagens dos contos universais se mostra através de uma identidade própria, transgredindo a identidade apresentada em seus contos.

Em um ambiente como o do Sítio do Picapau Amarelo não é possível haver personagens que se adequassem ao mundo real, apesar da apresentação ser representada falsamente por pessoas reais: uma velha e seus netos, uma empregada, uma boneca de macela, um boneco de sabugo de milho e um porco. Dona Benta não é o protótipo de uma velha, uma avó saudosista, muito pelo contrário, encanta-se com as idéias futuristas. Acredita na modernidade e na fantasia de seus netos. Pedrinho não é um típico menino da cidade grande. É um aventureiro aberto às mais inimagináveis experiências. Narizinho vive intensamente suas fantasias, desbravando o imaginário. Ela não é apenas uma menina sonhadora. Emília é o oposto de uma boneca comum. Ela anda, fala e tem idéias próprias, mesmo sendo feita de macela e de pano, "dum paninho muito do ordinário" (Ibid., p. 28). O Visconde de Sabugosa é um boneco de sabugo de milho que mora junto aos livros de Dona Benta. Entretanto, é um sábio: lê e escreve, tendo um vasto conhecimento adquirido por esta estreita convivência com os livros. É um rei, pai de do leitão Rabicó. Este é um glutão medroso, mas também um Marquês e o esposo de Emília. Personagens assim tão fantásticos não poderiam viver em mundo real, ou em um mundo fictício fora do Sítio do Picapau Amarelo. O que os torna verossímil é exatamente a existência desse mundo fictício.

Nas palavras de Candido:

 

"A personagem é um ser fictício - expressão que soa como paradoxo De fato, como pode uma ficção ser? Como pode existir o que não existe? No entanto a criação literária repousa sobre este paradoxo, e o problema de verossimilhança no romance depende desta possibilidade de um ser fictício, isto é, algo que, sendo uma criação da fantasia, comunica a impressão da mais lídima verdade existencial. Podemos dizer, portanto, que o romance se baseia, antes de tudo, num certo tipo de relação entre o ser vivo, o ser fictício manifestado através do personagem que é a concretização deste." (1972, p. 55).

 

Quando Monteiro Lobato estrutura a sua obra retirando de sua narrativa elementos como família patriarcal (já que é composta pela avó e seus neto), organização religiosa (que não é mencionada no livro em momento algum) e instituição educacional (Pedrinho está em férias). Não deixando de ser contemporâneo, ele abre as portas à fantasia. O Sítio do Picapau Amarelo será um lugar seguro não só para a fecundação de idéias e ideais utópicos lobateanos, mas também, para o florescimento de uma literatura infantil brasileira. Porque, como disse, "as idéias de Emília hão de ser sempre novidade." (op. cit., p.28).

O valor dessa obra encontra-se na concretização de um processo histórico-literário da literatura infantil brasileira. Possivelmente é com essa obra que se instaura o gênero no Brasil. Encarna todos os desejos de uma cultura voltada para a nação, sem ufanismo ou nacionalismo exagerado, sem a busca de modelos e ideais internacionais apresentando a valorização do particular e regional. Traçando um caminho alternativo ao que vinha sendo realizado nas letras infantis brasileiras.

Os estudos sobre a formação da literatura brasileira foram inaugurados com a obra A formação da literatura brasileira (momentos decisivos). Conforme Candido 5, a literatura brasileira foi formada a partir de uma síntese de tendências árcades (universalistas) e românticas (particularistas). Havia literatura no Brasil, mas não do Brasil. A literatura Brasileira é um " galho " da Literatura Portuguesa. A necessidade de uma Literatura do Brasil só se concretizou no último quarto do século XIX, quando se configura uma consciência social, pensando e fazendo sentir sua presença e incorporando o que foi anteriormente produzido.

Segundo Candido, é necessário estudar literatura como um conjunto de obras que estão interligadas por aspectos estéticos e históricos. Quando se aborda os aspectos históricos, fundamentalmente, está se analisando o valor e a função de uma obra, ou seja, a sua interação e o seu equilíbrio com o contexto social inserido, sem desconsiderar a sua "eficáfia estética". Essas obras estão ligadas por denominadores como a língua, os temas e as imagens e, também, pela natureza social e psíquica que fazem aspecto orgânico da civilização.

Roberto Schwarz 6, em seu artigo "Os sete fôlegos de um livro", analisa a obra citada de Antonio Candido, afirmando que, para estudar literatura em uma perspectiva formativa é fundamental investigar as relações de continuidade, adensamento ou de superação que existem nas produções literárias. A análise de um autor deve contemplar a capacidade de síntese que este mesmo autor fez das produções literárias antecessoras a sua obra, com o aperfeiçoamento da narração. Sem desconsiderar que os aspectos históricos perpassam por todo esse processo.

Reinações de Narizinho introduz no país algo diferente e inovador, uma literatura eminentemente brasileira, voltada para o público infantil. Uma obra com uma proposta diferenciada, de um mergulho no maravilhoso e no imaginário infantil, utilizando uma linguagem própria e características locais. É sabido que a produção literária destinada ao público infantil era de caráter pedagógico, didático, moralizante e repressor. Essencialmente, as obras existentes eram destinada aos bons costumes, à celebração de datas comemorativas e as crenças religiosas, incutindo alguns padrões e valores nada brasileiros.

Apesar de que Monteiro Lobato tenha destinado em uma primeiro momento a sua obra à pedagogia e às escolas devido a possibilidade de uma maior alcance de público, foi na criação de um espaço próximo de todos (um Sítio), uma linguagem acessível e humana, tratando do dia a dia de uma criança brasileira, penetrando no seu universo maravilhoso, que conseguiu criar algo diferente e belo. A peraltice natural dos meninos brasileiros, a subversão de Emília, os conhecimentos eruditos do Visconde de Sabugosa, o conteúdo folclórico e nacional de Tia Nastácia promovem uma obra com características brasileiras, apresentando cores locais, mas, sobretudo, tornam-se elementos substanciais dessa obra, possibilitando a discussão de uma formação de uma literatura infantil brasileira. Há, sim, a inserção de personagens dos contos universais, mas com a finalidade de reforçar e valorizar o imaginário infantil brasileiro. Em outras palavras, todos os personagens que visitam o Sítio, participam das aventuras, porém estão presentes para atribuir o poder de verossimilhança. O fantástico torna-se "real", porque são os personagens do Sítio, brasileiros, que asseveram isso.

Como afirma Roberto Schwarz (1999) a respeito de Mário de Andrade, "para o modernista tarefa nacional e a nossa função para com a humanidade " consistiam em tradicionalizar o passado, "isto é referi-lo ao presente". E o que Lobato realiza em sua obra é criar um passado-presente, que possibilita ao mesmo tempo criar uma tradição literária com a tradução dos clássicos universais e, ao mesmo, tempo libertar-se dela, através da valorização e ênfase na interpretação nacional destes clássicos. É natural, então, encontrar não somente em Reinações, mas em toda a obra infanto juvenil de Monteiro Lobato, um duelo saudável entre o universal e o local que pode ser ilustrado com a visita das personagens de contos de fadas e fábulas pertencentes ao imaginário universal das personagens do Sítio. Eles não se contrapõem com a finalidade de fortalecer este ou aquele personagem, mas sim, na tentativa de criar algo diferente que favorecerá a afirmação de uma Literatura infanto-juvenil brasileira.

Outro fator importante na obra infantil lobateana é a discussão que essa realiza com o desenvolvimento econômico do país. Embora a literatura brasileira já estivesse formada e a cultura colonial já houvesse sido superada, um país economicamente independente ainda estava em formação e esta é uma das mais contundentes discussões que Monteiro Lobato fará com sua obra. O autor questionará as riquezas do país, descobrirá petróleo em nosso solo, quando todos diziam não existir tal coisas, talvez esse processo formativo histórico-econômico tenha favorecido o processo formativo da literatura infantil brasileira. E, para Monteiro Lobato, a concepção do saber se encontra na história. Ou melhor, é através de uma análise histórica de uma atuação sobre a realidade e do compromisso com a vida nacional que é estruturado a sua obra.

Reinações de Narizinho contém todos os elementos de uma obra que busca conjugar o particular e o universal, que valoriza o regional, configurando uma realidade brasileira, porque se preocupa com a transmissão de conhecimento historicamente construído, mas oportunizando um elemento novo: a imaginação livre, não somente por parte do autor, mas também do leitor. Possibilita, assim, uma criticidade no público leitor que será de fundamental importância para a mudança da nação. A obra estudada se caracteriza, portanto, por ser empenhada. Reinações será um divisor de águas do que vinha sendo produzindo antes, em termos de literatura infantil, do que é produzido hoje. Não que esse gênero literário tenha deixado de ser didático, ainda o é, mas se apresenta com adicionais, que oferecem a um leitor, a comunhão de valores postos, já compreendidos pela cultura nacional.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ARROYO, L. Literaura Infantil Brasileira: ensaio de preliminares para a sua história e suas fontes. São Paulo: Ed. Melhoramento,1968. p. 198-210.

CANDIDO, A. A personagem de Ficção . São Paulo: Ed. Perspectiva. 1972. p. 51-80.

______. A formação da literatura brasileira (momentos decisivos). 8. ed. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1997. v.1.

LEITE, L. C. M. O Foco Narrativo: ou o polêmico em torno da ilusão. 2. ed. São Paulo: Ática, 1985.

LOBATO, M. Reinações de Narizinho . 26. ed. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1976.

SCHWARZ, R. Os sete fôlegos de um livro. In: SCHWARZ, R. Seqüências brasileiras . São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 46- 58.

 

 

Cf. ARROYO, L. Literaura Infantil Brasileira: ensaio de preliminares para a sua história e suas fontes. São Paulo: Ed. Melhoramento, 1968. p. 198-210.

Linguagem coloquial infantil para a contagem dos dias.

Cf. LEITE, L. C. M. O Foco Narrativo: ou o polêmico em torno da ilusão . 2. ed. São Paulo: Ática, 1985.

Cf. CANDIDO, A. A personagem de Ficção . São Paulo: Ed. Perspectiva. 1972. p. 51-80.

CANDIDO, A. A formação da literatura brasileira (momentos decisivos). 8. ed. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1997. v.1.

Cf. SCHWARZ, R. Os sete fôlegos de um livro. In: SCHWARZ, R. Seqüências brasileiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 46- 58.