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Clarice Lispector e os mosaicos da existência - o intimismo do processo social
Mona Lisa Bezerra Teixeira (UFRGN)
A ficção não é um exercício ou uma aventura afetiva, mas um instrumento real do espírito, capaz de nos fazer penetrar em alguns labirintos mais retorcidos da mente .
Antonio Candido
Na escrita de Clarice Lispector a desordem das coisas e da estrutura emocional dos personagens são uma das referências centrais para a orientação do leitor. Nada está bem delimitado. O que nos faz pensar sobre um comentário muito forte acerca dos seus romances: "não existe enredo". Mas como não existe enredo se em todos os seus romances estamos diante da história de alguém? Em Perto do coração selvagem encontramos fragmentos da infância de Joana que podem ser associados perfeitamente à sua vida adulta, e para isso não é necessário sabermos de toda história de vida da personagem.
Desde os tempos de escola quando paralisa a professora ao perguntar o que fazer depois que se é feliz, Joana emerge das lacunas de uma narrativa cronológica para um complexo jogo de verdades sobre nossa condição. "Ser feliz é para se conseguir o quê?", ainda insiste a personagem. Joana vai de encontro a todas as convenções e resiste com vigor em acomodar-se às alegrias instituídas.
Alfredo Bosi 1, em "Narrativa e resistência", afirma que resistir é opor a força própria à força alheia. O que é exterior ao sujeito torna-se alvo de contestação. O crítico direciona esse conceito de resistência, que seria, a princípio, mais ético que estético, para associá-lo à arte. A arte estaria relacionada com as potências do conhecimento, como a intuição, a imaginação, a percepção e a memória. Todos esses fatores podem ser relacionados diretamente ao ato de escrever, pois a partir das narrativas, seja de caráter fantasioso ou do retratar de fatos verídicos, o escritor se envolve com essas categorias de expressão.
Com relação a Clarice Lispector, sua obra envolve todos esses aspectos. A intuição e a imaginação estão muito próximas em sua escrita. Basta observarmos o modo como as palavras passam não só a serem representantes de uma realidade física comum ao nosso dia-a-dia, mas de uma outra que não alcançamos de imediato. A representação do devaneio em sua escrita é uma das possibilidades para a criação de uma atmosfera de vida que escapa diante do mecanicismo em que vivemos.
A percepção e a memória adquirem uma ordenação diferente, pois o tempo cronológico, como já foi dito, apresenta-se de uma outra maneira, não possuindo mais a ordenação dos fatos e colocando como fator secundário a trajetória de vida detalhadamente linear de seus personagens. A memória também se apresenta desordenada com relação a um ajuntamento de situações vividas, mas nos atingem como fatos reais por expressarem as emoções e angústias que nos acompanham na existência.
Para Alfredo Bosi, a idéia de resistência aliada ao conceito da narrativa se realiza de duas maneiras: a resistência como tema e a resistência como processo inerente à escrita. Mas salienta que essas duas possibilidades podem se encontrar, em determinadas situações, num mesmo plano. É importante repetir que o crítico analisa a resistência como um conceito antes ético que estético. Mas argumenta que a tranferência do sentido da esfera ética para a estética é possivel. Ela acontece quando o narrador se põe a explorar uma força catalisadora de vida em sociedade: os seus valores.
Essa situação vai acontecer com Rodrigo S.M. em A hora da estrela. Na dedicatória do livro vamos encontrar: "Esta história acontece em estado de emergência e de calamidade pública. Trata-se de um livro inacabado porque lhe falta a resposta. Resposta essa que espero que alguém no mundo me dê. Vós?". Em 1942, em uma carta à Maury Gurgel Valente, Clarice diz: "Individualmente é absurdo procurar a solução. Ela se encontra misturada aos séculos, a todos os homens, a toda a natureza." 2 (p.23)
O sentimento de coletividade, de preocupação com a nossa condição, é mais que reproduzir através de sua escrita as mazelas postas de frente aos nossos olhos todo o tempo, porque antes de tudo o que lhe está latente é a nossa miséria, que se revela no espírito de acomodação diante das coisas. Diz Rodrigo S.M.: "[...] Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. Assim é que os senhores sabem mais do que imaginam e estão fingindo de sonsos." (p.12)
Esse desmascaramento do outro, diante da posição cínica das pessoas com relação à miséria de Macabéa, também está presente em A maçã no escuro : "Espantado diante dos narizes e bocas com que nascemos, Martim olhou os quatro homens: todos sabiam a verdade. E mesmo que a ignorassem, o rosto das pessoas sabia. Aliás, todo o mundo sabe tudo."(p.233-234)
A verdade que vive acima de qualquer disfarce é uma presença constante na obra de Clarice, mas não uma verdade doutrinária, moralista. Essa verdade estaria ligada a um plano superior à nossa própria convivência em sociedade, ultrapassando códigos morais e comportamentos a serem seguidos.
A resistência de Macabéa está diretamente ligada à própria sobrevivência física para não morrer de fome. Ela é uma resistente, mas não tem noção disso, vai sobrevivendo diante da brutalidade humana e do egoísmo, inconscientemente. Com relação a Joana, sua resistência é consciente, sendo a essência de sua natureza rebelde diante dos conceitos burgueses que absorvemos e colocamos como base para as nossas vidas, dialogando com outras obras, como Água viva, o narrador de A hora da estrela também invoca o seu grito: "Porque há o direito ao grito. Então eu grito." (p.13). Joana também quer ter o seu direito ao grito, assim como Martim e Virgínia.
Rodrigo S.M. diz sobre sua condição de vivente: "Fico abismado por saber tanto a verdade. Será que o meu ofício doloroso é o de adivinhar na carne a verdade que ninguém quer enxergar."(p.57). Macabéa resiste sem saber, tanto que ao encontrar sobre a mesa do patrão o livro Humilhados e ofendidos de Dostoiévski se sente identificada com o título, mas tudo de maneira involuntária pois está tão condicionada à sua miséria que só resta conformar-se a ela: "[...]Ficou pensativa. Talvez tivesse pela primeira vez se definido numa classe social. Pensou, pensou e pensou! chegou à conclusão que na verdade ninguém jamais a ofendera, tudo que acontecia era porque as coisas são assim mesmo e não havia luta possível, para que lutar?"(p.40)
Além do conformismo de Macabéa, que a leva para uma vivência anestesiada em todos os sentidos, o narrador relata a condição de Olímpico e sua total alienação diante do trabalho que exerce: "O trabalho consistia em pegar barras de metal que vinham deslizando de cima da máquina para colocá-las embaixo, sobre uma placa deslizante. Nunca se perguntara por que colocava a barra embaixo." (p.45)
Para Alfredo Bosi, quando o romancista constrói o caráter do personagem atribuindo-lhe determinados aspectos, a escrita se volta para expressar a verdade destas características. A margem de escolha do artista é mais ampla do que a do homem comprometido com o cotidiano porque vai poder expressar tudo o que a ideologia dominante repele. "Embora possa partilhar os mesmos valores dos outros homens, também engajados na resistência a antivalores, o narrador trabalha a sua matéria de modo peculiar; o que lhe é garantido pelo exercício da fantasia, da memória, das potências expressivas e estilizadoras. Não são os valores em si que distinguem um narrador resistente e um militante da mesma ideologia. São os modos próprios de realizar esses valores." (p.123)
A situação de resistência que existe em Perto do coração selvagem com a figura de Joana revela um posicionamento da autora diante do mundo que é articulado sob um outro viés, mais particular, atento às angústias de um sujeito, mas que dentro da narrativa atinge outros personagens. Pelo seu comportamento, Joana, além de procurar sua verdadeira identidade, acaba expondo as faces verdadeiras de quem está ao seu redor: como a covardia de Otávio, o conformismo de Lídia, os padrões burgueses decadentes da tia e do tio, enfim, não há como não se posicionar diante das atitudes da protagonista. "Otávio foge de mim porque eu não trago paz a ninguém, dou aos outros sempre a mesma taça, faço com que digam: eu estive cego, não era paz o que eu tinha, agora é que a desejo." (p.151)
Joana quer atingir o coração selvagem da existência que ficou mortificado pelo medo e preterido em relação à segurança das estabilidades sociais em que até os sentimentos precisam ser condicionados de acordo com a ocasião. Otávio é um bom representante dessa contenção: "Do mesmo modo como para viver cercava-se de permitidos e tabus, das fórmulas e das concessões. Tudo tornava-se mais fácil como ensinado." (p.118). Joana direciona sua existência em oposição a esse autocontrole do marido. Daí o estranhamento dele em relação à mulher que lhe parece tantas vezes mais corajosa diante da vida.
A liberdade que acompanha Joana não é motivo de tranqüilidade. Ao contrário, provoca dúvidas em toda narrativa e deslocamento dos outros indivíduos. Essa liberdade será a sua condição para um posicionamento no mundo, embora ele não seja estabilizador: "No entanto sentia que essa estranha liberdade que fora sua maldição, que nunca a ligara nem a si própria, essa liberdade era o que iluminava sua matéria. E sabia que daí vinha sua vida e seus momentos de glória e daí vinha a criação de cada instante futuro." (p.196)
Benedito Nunes 3 comenta a impossibilidade de Joana em assumir uma postura de acomodamento na paz doméstica: "Mas essa inquietação, que exprime à narrativa um tom passional envolvente, desloca o aprofundamento introspectivo do plano de análise psicológica, da microscopia da consciência a um plano ético, estético e especulativo." Sendo assim, o crítico se aproxima de Alfredo Bosi com relação à junção desses planos no processo da narrativa romanesca.
A paixão segundo G.H , como observa Benedito Nunes, despreza a beleza e a sua irradiação em forma de escrita, para alcançar o inexpressivo através da ausência ascética dos sentimentos individuais. Dessa maneira, acontece uma espécie de filtragem antiestética da própria arte: "Não quero a beleza, quero a identidade. A beleza seria um acréscimo, e agora vou ter que dispensá-la[...]no mundo não existe nenhum plano estético, nem mesmo o plano estético da bondade, e isto antes me chocaria. A coisa é muito mais que isto. O Deus é maior que a bondade com a sua beleza."(p.160)
Alfredo Bosi analisa a impossibilidade de uma liberdade plena em sociedade quando comenta o romance de Luigi Pirandello Il fu Mattia Pascal, em que o personagem depois de ter passado por muitas situações (que foram criadas pela sua vontade ao optar em assumir outra identidade) chega à conclusão de que não pode ser livre: "No cotidiano cada um de nós[...]precisa resignar-se e afivelar a máscara correspondente[...]as nossas generalidades. Generalidades: é o que consta em nossa carteira de identidade, no registro civil sem o qual não temos nenhuma existência idônea e confiável. Trata-se da mesma percepção de Norbert Elias em A sociedade dos indivíduos , quando observa a necessidade de comprovação da existência através de números e documentos, que a modernidade exige do homens.
O crítico atenta para o desligamento de uma realidade absolutamente voltada para a reprodução da realidade dentro do universo narrativo, o que novamente o aproxima da escrita de Clarice Lispector, principalmente quando acentua a possibilidade da resistência desvinculada dos papéis sociais ativos: "Há momentos coletivos em que o élan revolucionário polariza e comove tanto os homens de ação como os criadores de ficção. E há momentos, mais numerosos e longos, em que prevalece a descontinuidade da vida social sobre o toque de reunir, ocorrendo então uma dispersão e diferenciação aguda dos papéis sociais. Neste caso, o artista da palavra pode desenvolver, solitária e independentemente, a sua resistência aos antivalores do meio. Será o 'coração oposto ao mundo' do poeta."(p.125)
Esse "coração oposto ao mundo" poderia ser aproximado do "coração selvagem da vida" que Joana tanto procurou atingir em sua trajetória, e que consiste na busca do que não foi civilizado e adaptado à dureza da civilização e das emoções reprimidas, resistindo desse modo a tudo o que está imposto pelos núcleos controladores da sociedade.
Existem duas formas de resistência na escrita, para Bosi: A resistência como tema da narrativa e a resistência como processo constitutivo. Clarice Lispector estaria relacionada com a segunda alternativa
Sobre a resistência no tema da narrativa, o crítico observa os movimentos de oposição aos regimes totalitários da Europa que envolveram muitas personalidades literárias empenhadas no combate ao Fascismo, ao Nazismo, e às ditaduras que derivaram deles, como o Franquismo e o Salazarismo. Os nomes de Sartre e Albert Camus são os citados pelo pesquisador como representantes de uma escrita que expressava o inconformismo diante dessa situação de extrema opressão. "Em termos de produção narrativa, o importante é ressaltar a coexistência de absurdo e construção de sentido, de desespero individual e esperança coletiva; em suma, de escolha social arrancada do mais fundo sentimento da impotência individual." (p.128)
A resistência nesse período estava representada na escrita pelo repúdio à demência da guerra, ao autoritarismo, à repressão de qualquer ordem, aos valores impostos arbitrariamente. Em suma, é uma literatura diretamente envolvida com os problemas sociais e políticos do seu tempo, tendo como princípio fundamental a coletividade.
Ainda com relação à narrativa como tema , Michel Butor em seu ensaio "Indivíduo e grupo no romance" 4 quando comenta a estrutura dos romances clássicos, ressalta que neles havia uma resistência comprometida com o poder dominante, (o que seria o oposto do movimento existencialista): "No campo de batalha, com efeito, aquele que bate mais forte poderá ajudar os que estão em volta dele, será o cabeça de um pequeno corpo que se dissolverá se ele for morto. Bastará dizer que certo indivíduo está resistindo, para saber que o grupo de seus companheiros também está resistindo." (p.60)
Essa resistência só se torna efetiva pela presença de indivíduos que representem sua classe: a nobreza, a monarquia, os cavaleiros, os escravos, e assim por diante. Butor ressalta que essa resistência precisa ser ilustrada, exigindo um meio físico de manifestação, como um campo de batalha ou seu substituto, o torneio.
Com relação à narrativa como processo constitutivo, Alfredo Bosi analisa o fato de algumas obras escritas à parte de qualquer cultura política militante apresentarem uma tensão interna que as fazem resistentes enquanto escrita, extrapolando dessa forma os limites do tema. O romance que retrata uma resistência como forma imanente da escrita vai ultrapassar a reprodução dos fatos históricos ou da iminência do dia-a-dia. Essa forma de narrativa irá enxergar um outro lado que se oculta diante do cotidiano e do engajamento ideológico opressivo, como o de se comprometer com o contar dos fatos verídicos.
"Chega um momento em que a tensão eu/mundo se exprime mediante uma perspectiva crítica, imanente à escrita, o que torna o romance não mais uma variante literária da rotina social, mas o seu avesso; logo o oposto do discurso ideológico do homem médio. O romancista 'imitaria' a vida, sim, mas qual vida? Aquela cujo sentido dramático escapa a homens e mulheres entorpercidos ou automatizados por seus hábitos cotidianos." (p.130)
Perto do coração selvagem, O Lustre, A maçã no escuro, A paixão segundo G.H além de outras produções de Clarice Lispector representam essa quebra do automatismo do cotidiano de que o pesquisador fala. Esses romances retratam de maneira incômoda um lado absolutamente oposto aos mecanismos que regem nossas ações e sentimentos. A seguinte afirmação de Joana ilustra bem essa situação: "Quem se recusa ao prazer, quem se faz de monge, em qualquer sentido, é porque tem uma capacidade enorme para o prazer, uma capacidade perigosa - daí um temor maior ainda. Só quem guarda as armas a chave é quem receia atirar sobre todos." (p.53)
A narrativa que traz a escrita de resistência é atravessada pela tensão crítica e vai mostrar sem enfeites e sem retórica a "vida como ela é", mas alheia aos alardes ideológicos.
Especificamente a respeito de A paixão segundo G.H, Alfredo Bosi comenta: "[...] a narrativa oscila entre o confidencial e o metafísico. O tempo do relógio é suspenso e a imaginação se projeta e se desdobra em um espaço específico e sem margens." (p.131)
A narrativa lírica, para o crítico, quando alcança um estágio de profundidade, vai superar uma rotina de percepção cotidiana, libertando a voz de tudo quanto estava oprimido nas diversas esfera de relacionamento. Bosi expõe como exemplo A paixão segundo G.H . Para ele, é nessa direção que a narrativa vai demonstrar a vida verdadeira e ultrapassar tudo o que a vida real apresenta. A escrita de Clarice Lispector revela uma outra face da sociedade, mostrando o homem não como um objeto que produz algo dentro do sistema e tampouco pela função que exerce. É o lado oculto da nossa condição que vai se revelar através dos seus personagens que não serão mais um "somatório de atributos".
BOSI, Alfredo. Literatura e resistência . São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
MONTERO, Teresa (org.). Correspondências. Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.
NUNES, Benedito. O drama da linguagem. Op. cit., p. 20.
BUTOR, Michel. Repertório. São Paulo: Perspectiva, 1974 (Debates).