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Marques Rebelo e a ditadura
Mário Luiz Frungillo (UFG)
Em seu romance cíclico O espelho partido , de que publicou apenas três dos sete volumes inicialmente planejados, Marques Rebelo trata extensamente, embora da maneira descontínua e subjetiva própria de um diário íntimo, do Estado Novo de Getúlio Vargas. Sendo o romance construído sob a forma do diário de um escritor carioca, ele reflete não só as angústias e hesitações de um intelectual diante de um momento político especialmente grave, como também, de maneira mais geral, o clima intelectual daquele momento.
Grande parte do que encontramos nas páginas de O espelho partido é transfiguração das experiências do próprio Marques Rebelo. Isso poderia nos induzir a esperar, da parte do escritor, por uma atitude de autoindulgência ou autovitimização diante do regime ditatorial de Vargas. O que encontramos, pelo contrário, é um retrato ácido e franco, sem condescendência, de sua própria classe. Da leitura das páginas que o narrador Eduardo dedica à sua atitude e à de seus pares diante do Estado Novo, emerge todo o desconforto causado por uma mistura de impotência e acomodação diante dos acontecimentos.
Este desconforto pode ser observado com clareza quando ele passa a tratar de um fato na vida de Eduardo que é transposição quase que literal de um fato da vida do autor Marques Rebelo: sua colaboração como articulista para a revista Cultura Política, editada pelo Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo.
Com este tema, tocamos numa questão sempre espinhosa e nunca resolvida satisfatoriamente: a das relações dos intelectuais com as estruturas de poder, especialmente em momentos de supressão das liberdades democráticas e de intensa perseguição política. O livro de Sérgio Miceli, Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1920-1945) consagrou, para a relação entre os intelectuais e o Estado, o termo cooptação, que se refere mais especificamente àqueles intelectuais que servem ao Estado como funcionários, auxiliando, segundo a conclusão do autor, no processo de dominação 1. No entanto, como observa Antonio Candido no prefácio ao livro de Miceli, ele não diferencia aqueles que servem daqueles que se vendem, entre funcionários de carreira e os oportunistas de plantão. O leitor de seu livro pode se sentir tentado a perguntar se a iniciativa privada seria a única esfera digna de servir de local de trabalho a um intelectual de verdade. Além disso, seu livro se caracteriza por uma generalização excessivamente simplificadora das conclusões - todo intelectual que trabalha em algum organismo estatal, não importa em que repartição, sai de seu livro com a suspeita de colaboracionismo.
A grande ressonância que trabalhos desta espécie alcançam parece se dever a uma qualidade que se deveria considerar antes negativa: a de oferecer fórmulas fáceis, e de fácil reprodução, para responder a questões complexas - o que pode ser observado na freqüência com que aquele termo cooptação passou a ser empregado depois da publicação do livro de Miceli, muitas vezes de maneira indiscriminada. Sobretudo, falta à análise empreendida por Miceli uma leitura das obras produzida pelos intelectuais a que ele se refere, que comprovasse sua tese de que eles encenam um distanciamento que serviria para encobrir o fato de que suas obras são determinadas pelos serviços que prestaram. Tal afirmação não pode prescindir de uma leitura atenta dessas obras, e os resultados serão provavelmente os mais variados possíveis. É o que esperamos demonstrar com a leitura dos trechos de O espelho partido que se referem aos artigos escritos por Eduardo para a revista Cultura Política .
Antes uma ressalva: o envolvimento de que se trata aqui não é exatamente o mesmo de que trata Miceli em seu livro. Trata-se de algo ocasional, episódico. Mas as interpretações dadas a esse fato em geral não se distanciam essencialmente da sua. A suspeita de colaboracionismo é a mesma. Prova disso é o livro de Raúl Antelo Literatura em revista , em que um dos capítulos é dedicado justamente à análise das contribuições de Marques Rebelo e Graciliano Ramos à revista editada pelo DIP. A leitura do livro de Antelo deixa a impressão de que suas conclusões antecedem a análise, pois todo esforço é feito para provar, de um lado, a disposição autoritária de quem aceita colaborar numa publicação de um órgão oficial de um governo autoritário e, de outro, como tal colaboração compromete a obra do autor como um todo. A leitura que propomos para esse tema dentro do romance procurará demonstrar que, ao contrário, neste tipo de envolvimento, o desconforto e, mesmo, o sentimento de culpa que ele pode causar, podem proporcionar a oportunidade para uma reflexão em profundidade sobre as relações entre intelectuais e governo.
Embora no romance de Rebelo a identificação entre personagens reais e fictícias seja mais problemática do que parece à primeira vista, pode-se dizer que o espaço que Eduardo compartilha na Cultura Política com seu colega Gustavo Orlando reproduz a alternância entre as crônicas de Rebelo e as de Graciliano Ramos na mesma revista. A proposta de escrever uma coluna regular na revista era tentadora demais para ser recusada, pois ajudaria a equilibrar as precárias contas domésticas. Mas o desconforto se segue imediatamente à aceitação: Os escrúpulos, porém, vieram e fico dando tratos à bola - papagaio! Como poderei comparecer ao bornal estadonovista sem falar muito ou sem falar nada no Estado Novo"? 2
A situação era tão incômoda que Eduardo procura apoio e consolo no fato de que seu colega Gustavo Orlando, que estivera preso como comunista, também iria colaborar para a mesma publicação. Em 1936, Graciliano foi preso sob suspeita de atividades contrárias ao regime. Num primeiro momento causa estranheza que fosse convidado a colaborar numa revista editada pelo DIP. Ele mesmo se referiu a isso numa carta a sua esposa Heloísa:
Vi lá [no Ministério da Educação], num corredor, o nariz e o beiço caído de s. excia. O sr. Gustavo Capanema. Zélins acha excelente a nossa desorganização, que faz que um sujeito esteja na Colônia hoje e fale com minstros amanhã; eu acho ruim a mencionada desorganização, que pode mandar para a Colônia o sujeito que falou com o ministro. 3
A desorganização aí parece que não é apanágio apenas do regime de Vargas. Atinge também a oposição a ele. Pois antes de aceitar o convite, Graciliano discutiu o assunto com seus companheiros de partido, que o aconselharam a aceitá-lo, tendo em vista sua precária situação financeira. Antes de acusá-lo de venalidade, deve-se notar que nos seus "Quadros da vida regional", hoje recolhidos no livro Viventes das Alagoas , não se encontra uma palavra sobre política que permita afirmar sua simpatia pelo Estado Novo. Antelo procura provar nas crônicas as tendências autoritárias do autor, mas só o consegue recorrendo arbitrariamente à psicanálise e a pirotecnias verbais, com resultados mais que discutíveis.
No caso de Marques Rebelo esse tipo de argumentação se torna mais fácil, pois em suas crônicas, hoje recolhidas no livro Cenas da vida brasileira, se encontram várias referências diretas ao regime de Vargas. E nessas referências se pode ver que Rebelo foi menos impermeável que Graciliano aos apelos da situação política. Mas aqui também uma análise em preto-e-branco leva a resultados menos interessantes. Deve-se notar, de qualquer maneira, que as crônicas em que aparecem referências mais comprometedoras ao Estado Novo estão entre as primeiras a serem publicadas na Cultura Política . Talvez Rebelo tenha imaginado que era isso que se esperava dele e depois - seguindo o exemplo de Graciliano? - se tenha visto desobrigado de fazê-lo.
A crônica mais extensamente analisada por Antelo refere-se a uma fábrica construída em Itajubá, e o fato de ter sido suprimida da publicação em livro é interpretada como indicativo de que "Rebelo é ciente do descompasso entre a leitura no periódico do DIP e a fruição no objeto-livro". 4 A leitura da crônica deixa claro o deslize de Rebelo. Sob um regime autoritário elogiar o exército e o ditador, mesmo que isso não signifique endossar todos os atos do governo, tem sempre um efeito propagandístico indesejável. Mas o tom laudatório da crônica, próximo ao de um press-release , parece justificar melhor sua supressão da publicação em livro que uma intenção deliberada de esconder do público um elogio feito a Vargas. Esta hipótese é reforçada pelo fato de terem sido mantidas na publicação em livro outras crônicas que parecem muito mais comprometedoras do que aquele elogio a uma fábrica construída pelo regime. Vejamos o trecho a seguir:
Januária era terrível de politicalha sangrenta. A jagunçada enxameava suas ruas de areia, matando, depredando, intimidando, aniquilando-a. Cada chefe político tinha o seu bando, facínoras que vinham do sertão baiano, do sertão Goiano, do Alto Pirapora, e que matavam por cinco mil-réis. Eram eleitos deputados que nunca viram Januária, que não sabiam escrever o nome, toda a receita do município era gasta nas lutas políticas, as cruzes de madeira, tão simbólicas, multiplicavam-se nas encruzilhadas e veredas de emboscada.
Quando foi do golpe político de 1937, o senhor juiz de direito, um homem rígido, que lutara bravamente para manter uma autoridade que lhe era quase desrespeitada, mandou chamar ao Foro os chefes políticos locais, que eram uns trinta. Em poucas palavras expôs-lhes a nova situação do Brasil. O regime agora não comportaria lutas partidárias.
- Que é que o senhor é? - perguntou a um chefete.
- Sou médico
- Pois então agora o senhor vai tratar dos seus doentes. E o senhor - perguntou a outro.
- Fazendeiro
- Pois deixará logo a cidade para ir cuidar da fazenda.
E o farmacêutico foi cuidar da sua farmácia, o negociante do seu negócio, o boiadeiro do seu gado, cada um foi tratar da sua vida, e os que nada faziam senão política, e eram muitos, tiveram que arranjar uma obra. E os jagunços foram desarmados e dispersados, Muitos caíram no eito, pacíficos, frutos valentões apenas duma época de costas largas e de dinheiro fácil nos cofres da Prefeitura.
E Januária conheceu então a doçura dos dias tranqüilos. E as noites mais negras já não amedrontam ninguém. Um ritmo novo acelerou a sua vida. O comércio prosperou, a lavoura prosperou Abriram-se pequenas fábricas (os chilenos de Januária têm fama! A pinguinha de Januária é um assombro!), as ruas começaram a ser calçadas, um pequeno jardim, com um caramanchão de buganvílias, recebe agora os viajantes e as meninas de tarde para a alegria dos namoricos. 5
Este trecho se enquadra perfeitamente no estilo geral da série de crônicas e, do ponto de vista de uma possível contribuição à propaganda do regime, parece-me mais perigoso que o anterior. Se o trecho suprimido se referia a realizações que poderiam ser consideradas positivas, este vê virtudes em algo em si negativo - a supressão da pluralidade partidária. Não importa muito que o que venha apresentado como positivo seja o fim da "politicalha", pois a impressão que fica é que foi só ela que foi suprimida com a instituição da ditadura. Mesmo que a intenção inicial seja a de fazer um retrato pitoresco de uma cidadezinha do interior do país, e mesmo que a vida política naquela cidadezinha se resumisse à bandidagem descrita na crônica, o resultado final, se não pretende, ao menos parece querer justificar o injustificável.
Do que foi dito até agora, pode parecer que, embora criticando o trabalho de Raúl Antelo, eu discorde apenas em grau de suas conclusões. Não é o caso. Acho que os textos comentados comprometem bastante a independência de Rebelo diante do Estado Novo. Mas também considero que a simples acusação de colaboracionismo pouco acrescenta à discussão. O livro de Antelo, como em parte também o de Miceli, parecem afirmar que qualquer tipo de aproximação com o Estado é sintoma de falha de caráter, e que tal falha compromete necessariamente toda a obra do autor. E em nenhum dos dois encontramos uma análise das obras literária mais relevantes dos autores em questão a fim de provar suas afirmações.
O espelho partido fornece, no entanto, material que, melhor aproveitado, contribui sobremaneira para essa discussão. A chave para isso está naquele sentimento de culpa de Eduardo que já mencionei acima. O mas provável é que Rebelo, neste passo, refletisse sobre a ambigüidade de sua própria atitude - e não somente a sua - diante do Estado Novo. O romance não escamoteia o problema, antes o reflete em toda a sua complexidade, nem deixa notar em momento algum um esforço por parte do narrador no sentido de se autojustificar.
Algumas passagens do livro são dedicadas à dificuldade de se resistir aos apelos da propaganda nacionalista. Infelizmente, nem sempre é possível ficar imune aos apelos das comemorações do Sete de Setembro ou do Primeiro de Maio. Isso exige um esforço de resistência e vigilância constantes. E o desconforto por qualquer deslize se traduz num trecho meio enigmático:
Não nos preocupemos com as pretensas injustiças da degola feroz - nazista nunca é inocente, triste teorema facilmente demonstrável. Vejamos aqui, que não chegamos a tanto, por razões que não interessa explicar: somos ou não somos cúmplices da ditadura que nos corrói? Que fizemos, como povo, para impedir? Que fizeram os políticos profissionais de tão rasteiro nível? É a derrota, já antevista, do nazismo que faz, na verdade, surgir ondas subterrâneas de descontentamento e manobras, ainda informes, de restauração democrática. Na melhor das hipóteses, portanto, a pusilanimidade, a conivência, a acoelhação e a esperteza barata devem sofrer seus castigos e pela própria mão dos tiranos e carrascos que a elas induziram. Estoicamente espero o que me cabe. 6
Este trecho parece traduzir mais o sentimento de desconforto que um temor real de ter de se confrontar com suas responsabilidades. Pois, embora no contexto do romance seja uma anotação do ano de 1944, encontra-se num romance publicado em 1968, época em que o autor já sabe que nenhum daqueles temores se concretizou, e que mesmo os mais comprometidos nada sofreram.
Rebelo traça em seu romance um retrato sem condescendências do intelectual diante do regime autoritário. Se levarmos em conta sua própria atitude vacilante, podemos considerar esse retrato como resultado de uma profunda reflexão, causada pelo desconforto a que já me referi. Do contrário, encontraríamos no romance uma tentativa de justificação, se não o silêncio absoluto a respeito do assunto. Mas é o próprio Eduardo que exercita contra si mesmo sua ironia quando anota após a publicação da primeira crônica na Cultura Política:
Lauro Lago errou nos cálculos. Somente há uma semana saiu o primeiro número de Cultura Política . Tirante a parte doutrinária e demagógica, é uma bela revista, com bonito formato, um formato sério, que lembra as melhores estrangeiras. A síntese do nosso panorama literário feita por Martins Procópio tem um mérito - não esquece ninguém, lembra até dos mais desconhecidos ou esquecidos fantasmas, e só Arnaldo Tabaiá ficou no olvido. E Gustavo Orlando tem páginas surpreendentes - o que escreveu sobre os comedores de barro é precioso, comovente, antológico.
Também eu concorro para o sucesso. Lauro me telefonou:
- O Presidente gostou imensamente.
- Obrigado! ( O Trapicheiro, p. 471).
Não é este o único ponto em que a crítica de Rebelo se dirige a ele próprio. Páginas antes ele o fizera de maneira disfarçada, ao analisar as repercussões da notícia da morte de Lampião. Reproduz o que dissera alguém identificado apenas como "o famoso sociólogo". Embora concordando com a análise do fenômeno do cangaço, Eduardo também lhe reserva algumas farpas.
Não é improvável que, neste trecho do romance, Rebelo esteja atribuindo ao "famoso sociólogo" a análise feita por Graciliano Ramos, na série de crônicas que dedicou ao cangaço. Ao menos o ponto de vista é o mesmo: "O exame dos cangaceiros revela a inexatidão das teorias biopsicológicas. No fenômeno cangaço predominam os fatores sociais. O cangaceiro é lídimo produto do seu mísero meio social" ( O Trapicheiro , p. 444). O mais interessante é que as farpas lançadas por Eduardo contra o "famoso sociólogo" parecem antes atingir o próprio Rebelo, pois o que ele diz faltar na análise feita por aquele do fenômeno do cangaço bem poderia complementar a sua crônica sobre a bandidagem que imperava na política de Januária citada acima:
Mas o que o nosso precípuo sociólogo não disse, primeiro porque não tem peito - é, como troça Adonias, o "cauteloso pouco a pouco -, segundo por que a imprensa arrochada não publicaria, é que a aniquilação da vida política nos latifúndios se aparentemente elimina o cangaço, e favorece-lhe as derrotas, pois dela tirava força e proveito, na verdade, obriga-o somente a uma temporária condição de casulo, que romperá tão cedo a normalidade política se restabeleça, porquanto a exploração da massa campesina continua sob um novo regime, e as mesmas miserandas condições de desamparo, desassistência, analfabetismo, de falta de comunicações e baixa produção agrícola e pastoril, são o fermento poderoso onde se geram os desajustados da lei. ( O Trapicheiro , p. 444-445).
Como se pode ver, no romance encontramos uma reflexão a respeito daqueles anos que vai muito além do meramente documental. É um retrato cuja objetividade não poupa o próprio autor que, não se identificando completamente com sua personagem, não deixa de fazer com que esta toque em suas próprias feridas, muitas vezes em passagens que não parecem à primeira vista se referir diretamente a sua participação naqueles acontecimentos. Não se trata de um romance escrito com a intenção de se autojustificar. Pelo contrário, deixa entrever, lido com atenção, o quanto o maledicente Rebelo era capaz de analisar seus próprios erros com a mesmo crueza que empregava contra seus amigos e desafetos.
MICELI, Sérgio. Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1920-1945) . São Paulo: Difel, 1979.
REBELO, Marques. O Trapicheiro . 2 ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 438.
RAMOS, Graciliano. Cartas . Rio de Janeiro: Record, 1980, p. 174.
ANTELLO, Raúl. Literatura em revista. São Paulo: Ática, 1984, p. 67.
REBELO, Marques. Cenas da vida brasileira. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, s.d., p. 35-36.
REBELO, Marques. A guerra está em nós. 2 ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 466.