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O autoquestionamento da literatura em Graciliano Ramos
Maria Izabel Brunacci (CEFET-MG)

Em outubro de 1942, no Rio de Janeiro, por ocasião de um jantar de homenagem a Graciliano Ramos - "noite de reparação", nas palavras de Augusto Frederico Schmidt - o escritor alagoano pergunta aos intelectuais que o homenageavam:

Mas por que estamos aqui? (...) É preciso descobrirmos um motivo para esta reunião. Penso, meus senhores e amigos, que a devemos à existência de algumas figuras responsáveis pelos meus livros - Paulo Honório, Luiz da Silva, Fabiano. Ninguém dirá que sou vaidoso referindo-me a esses três indivíduos, porque não sou Paulo Honório, não sou Luiz da Silva, não sou Fabiano. Apenas fiz o que pude para exibi-los, sem deformá-los, narrando, talvez com excessivos pormenores, a desgraça irremediável que os açoita. É possível que eu tenha semelhança com eles e que haja, utilizando os recursos duma arte capenga adquirida em Palmeira dos Índios, conseguido animá-los. 1

 

Assim é que, nessa noite de desagravo, na presença de um ministro do Governo Vargas, de intelectuais que o apoiavam e de outros perseguidos por ele, Graciliano reafirma o compromisso de sua arte literária com "essas personagens, que, estacionando em degraus vários da sociedade, têm de comum o sofrimento". Ao fazer isso, associou-se aos escritores, artistas e pensadores que o homenageavam "numa demonstração de solidariedade a todos os infelizes que povoam a terra".

A consciência dessa posição do escritor na sociedade por certo configura uma ética que preside a produção literária de Graciliano Ramos, conferindo-lhe a vitalidade inerente às contradições que regem as relações entre a literatura, o escritor e a sociedade. Daí seu esforço por tornar presentes no salão do requintado jantar as figuras emblemáticas de Paulo Honório, Luiz da Silva e Fabiano, cada uma representando a seu modo um degrau diferenciado da sociedade.

Pela aguda compreensão do processo de formação da sociedade brasileira e pela percepção dos elementos conflitantes da modernização do país é que Graciliano Ramos produz uma prosa de ficção fortemente marcada pelo autoquestionamento. Mas não se trata aqui do mero artifício estético de a literatura voltar-se sobre si mesma para perscrutar técnicas e procedimentos discursivos, e sim de questionar sua função enquanto elemento do conjunto das práticas de dominação que se processam no interior do processo civilizatório e são, geralmente, escamoteadas pela historiografia.

Nesse sentido a ficção de Graciliano pode ser analisada como produção de quem se reconhece portador de uma distinção, do escritor como intelectual cuja função na sociedade é distinta das demais, por ser o detentor do poder da linguagem. Na relação com seus textos, o leitor se converte também em crítico, que aceita o pacto ficcional (a distinção que torna o texto literário) e ativa os significados, reconhecendo como também seu o autoquestionamento que a literatura manifesta.

Pode-se dizer, portanto, que Graciliano Ramos é um escritor cuja literatura problematiza sua condição de classe, em busca das implicações de escrever, num país resultante de um projeto de nação gestado nas condições históricas de dominação que marcam a constituição do Brasil como Estado. Isso implica reconhecer que aqui se transplantou de forma assincrônica o processo de modernização capitalista, que inaugurou práticas produtivas novas, mas não logrou extinguir formas atrasadas de relações de produção.

Em outras palavras: implantou-se o processo de modernização pela dominação e pela neutralização do conflito de classes. Essa matéria recalcada veio então a constituir o referente indócil que a literatura - como locus da elaboração de um projeto de nação das elites - tratou de mascarar, mas cuja irrupção fantasmal pelas fissuras desse projeto ela não consegue evitar. É como escritor às voltas com esse referente indócil - dentro do qual foi se aninhar um enorme excedente de exclusão e de genocídios - que Graciliano Ramos recupera a força vital da literatura como espaço privilegiado de manifestação da contradição que marca o processo modernizador do Brasil. O autor parece flagrar em suas obras o descompasso entre a nacionalidade brasileira construída pela literatura e a nacionalidade de fato existente num país que pertence a uma minoria.

Por isso, por mais que Graciliano imprima em sua ficção as marcas de adesão a uma tradição romanesca neo-realista que se consolidou no Brasil na década de 1930 ou por mais que se lhe atribuam semelhanças com Dostoievsky ou Zola, o que emerge de fato em suas obras é a força dessa matéria local. É a literatura de dois gumes de que fala Antônio Cândido, uma prática discursiva do colonizador que não consegue impedir abertura de espaço para a manifestação dos interesses dos dominados.

Dessa perspectiva se constitui o autoquestionamento da literatura, num contexto brasileiro em que essa arte não produziu modelos, mas os importou. A dependência cultural tem relação direta com a duplicidade histórica: perpetua-se na relação do centro do capitalismo avançado com a periferia desse modo de produção.

Duas grandes questões parecem presidir a ficção de Graciliano Ramos: a preocupação com o posicionamento do escritor perante o fato de pertencer a um país cuja grande maioria não tem acesso aos bens culturais, de um lado, e o modo como esse posicionamento se representa na obra, de outro. Tal é o dilaceramento do escritor perante essas questões que seu drama se representa na ficção, por meio dos personagens ou pela mediação do autor-textual, substituindo a encenação do drama da classe popular.

Interessa-nos, pois, examinar como os romances de Graciliano Ramos se constituem a partir dessas questões que, em vez de extraliterárias, são consideradas instauradoras do processo estruturante de suas narrativas, no bojo de uma problematização em que os conflitos de linguagem aparecem como representação dos conflitos de classe.

Vidas secas , mesmo sendo um romance diferente dos demais - Caetés , São Bernardo e Angústia -, por não possuir um personagem narrador que problematize sua condição de escritor na sociedade, permite-nos identificar essa problematização, a partir da dupla historicidade em que se inscreve. Em primeiro plano, o que se poderia chamar de "realidade imediata" da narrativa: o semi-árido nordestino, sua estrutura fundiária dominada pelo latifúndio, a errância das personagens, tangidas pela fome e pela seca. A linguagem literária, nesse primeiro plano, encontra-se em clara correspondência com o repertório de temas e motivos: concisa, seca, dura, áspera, enxuta - adjetivos que logo lhe atribuiu a crítica especializada, ressaltando a estreita correlação entre "forma e conteúdo". Ressaltou-se, também, a relação direta do romance com seu "contexto histórico", nos moldes do enquadramento crítico do chamado "romance de 30".

Mas, num segundo plano, a narrativa nos apresenta uma realidade histórica de longa duração, caracterizada pela manutenção da herança colonial nas relações sociais, subjacente à ideologia do processo modernizador. Formas de exploração pré-capitalistas persistem, misturadas aos objetivos de produção para o mercado. O velho e arcaico emerge em tensão com o novo e moderno. E é possível dizer que o autor-textual toma posição sobre essa segunda realidade por ele instaurada, em atitude de crítica e recusa da própria história brasileira, evidenciando que, nesse segundo plano da historicidade, a tensão das relações sociais que estruturam a obra extrapola o binômio forma-conteúdo para se projetar na relação entre essência e aparência: a essência de um modo de produção baseado na exploração da mais valia absoluta sob a aparência do progresso e da modernização.

Como é possível saber que o autor-textual se posiciona, se há no romance um narrador em terceira pessoa? É que esse narrador está de tal forma integrado ao mundo narrado que se confundem alguns de seus enunciados com os monólogos interiores das personagens. E em vários desses momentos o vemos assumir posições que parece desejar sejam assumidas, por exemplo, por Fabiano, no capítulo "Cadeia":

(...) Era bruto, sim senhor, nunca havia aprendido, não sabia explicar-se. Estava preso por isso? Como era? Então mete-se um homem na cadeia porque ele não sabe falar direito? Que mal fazia a brutalidade dele? Vivia trabalhando como um escravo. Desentupia o bebedouro, consertava as cercas, curava os animais - aproveitara um casco de fazenda sem valor. Tudo em ordem, podiam ver . Tinha culpa de ser bruto? Quem tinha culpa? (grifos meus) 2

 

Os enunciados grifados podem tanto ser atribuídos à personagem Fabiano quanto ao narrador de terceira pessoa. A narração resvala o tempo todo nos desvãos formados pela interseção dos discursos direto, indireto e indireto livre. Pode-se pois pensar que o autor-textual cria esses desvãos no discurso literário justamente em busca do espaço de que necessita para marcar sua posição de crítica e de negação do processo histórico brasileiro. Vejamos outro exemplo, do capítulo "Contas", depois do acerto com o patrão, que o ameaça de demissão por questionar os cálculos:

Olhou as cédulas arrumadas na palma, os níqueis e as pratas, suspirou, mordeu os beiços. Nem lhe restava o direito de protestar. Baixava a crista. Se não baixasse, desocuparia a terra, largar-se-ia com a mulher, os filhos pequenos e os cacarecos. Para onde? Hem? Tinha para onde levar a mulher e os meninos? Tinha nada! (VS, p. 95 - grifos meus)

 

E ainda no mesmo episódio:

(...) Se ele soubesse falar como sinha Terta, procuraria serviço noutra fazenda, haveria de arranjar-se. Não sabia. Nas horas de aperto dava para guaguejar, embaraçava-se como um menino, coçava os cotovelos, aperreado. Por isso esfolavam-no . Safados. Tomar as coisas de um infeliz que não tinha onde cair morto ! Não viam que isso não estava certo? Que iam ganhar com semelhante procedimento? Hem? Que iam ganhar? (VS, p 97 - grifos meus)

 

Como se pode perceber, o grau de integração entre autor-textual e personagem chega a um ponto tal que não permite ao leitor distinguir quem é o emissor no processo de enunciação. E também não permite que se despreze a possibilidade de que, mesmo se tratando de uma narrativa de terceira pessoa, exista nela espaço para o posicionamento desse autor quanto ao autoquestionamento que a literatura permanentemente se faz.

Esses exemplos em Vidas secas são algumas amostras iniciais de uma pesquisa cujo corpus abrangerá também os demais romances de Graciliano Ramos.

 

 

1 V. Schmidt , Augusto F. et al. Homenagem a Graciliano Ramos . Rio de Janeiro: José Olympio, 1943, p 29.

2 RAMOS, Graciliano. Vidas secas . Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 2000, XXX ed, p 35-6. As referências a essa obra serão doravante indicadas entre parênteses pela sigla VS, seguida do número da página.