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Antonio Candido e o regionalismo
Marcelo Frizon (UFRGS)
O trabalho que ora se apresenta é um resumo da pesquisa que tenho desenvolvido em meu mestrado. Antonio Candido não analisou o regionalismo na literatura brasileira de maneira sistemática, em uma perspectiva de conjunto, embora vários de seus estudos tenham focalizado o assunto. Minha idéia, portanto, é colocar em ordem seu pensamento a respeito do tema. Neste texto, observarei algumas questões importantes nos ensaios Literatura e Subdesenvolvimento e A literatura e a formação do homem .
Literatura e Subdesenvolvimento foi publicado pela primeira vez em 1970, mas aparece em língua portuguesa apenas em 1973 e está incluído no livro A educação pela noite e outros ensaios . Nele, Candido identifica três fases da consciência de atraso da América Latina, em especial do Brasil, relacionando-as com os movimentos literários. A primeira corresponde ao período romântico, no séc. XIX, em que predomina uma consciência amena do atraso, onde os escritores copiavam a forma européia e adaptavam-na com tintas locais. O regionalismo, como tema, aparecia ligado à exaltação da natureza, aos aspectos da terra, tendo na figura do índio o herói perfeito, idealizado. A segunda fase corresponde a uma consciência catastrófica, num período que se estende do Realismo/Naturalismo aos escritores de 1930. Com a revolução estética e temática provocada por Machado de Assis, a literatura brasileira alcança um novo patamar, em que a forma literária está aclimatada, permitindo que as novas gerações de escritores possam experimentar novas formas, temas e linguagens. O regionalismo desse período passa de algo ingênuo, com escritores que exploravam o pitoresco e o exótico (Coelho Neto, Afonso Arinos, etc), a tema de primeira grandeza nas nossas letras, graças ao advento de Simões Lopes Neto e, cerca de vinte anos depois, Graciliano Ramos, mas também com José Lins do Rego e Jorge Amado, entre outros. O terceiro momento corresponde a uma consciência dilacerada do atraso, em que a literatura utilizará elementos mágicos, fantásticos, recriando sua forma para retratar um espaço primitivo, feudal, se comparado à transformação urbana brasileira: é o choque provocado pela obra de Guimarães Rosa, com o sertão como pano de fundo para as obras Sagarana , Grande Sertão: Veredas e Corpo de baile . Poucos anos depois alinha-se a ele João Ubaldo Ribeiro, com seu Sargento Getúlio . O crítico denomina esse período super-regionalista , pensando em surrealismo ou super-realismo.
Em A literatura e a formação do homem , texto de 1972 e reunido em Textos de Intervenção (contemporâneo, portanto, de Literatura e Subdesenvolvimento ), Candido argumenta:
"(...) tanto na crítica brasileira quanto na latino-americana a palavra de ordem é 'morte ao Regionalismo', quanto ao presente, e menosprezo pelo que foi, quanto ao passado. Esta atitude é criticamente boa se a tomarmos como um 'basta!' à tirania do pitoresco, que vem a ser afinal de contas uma literatura de exportação e exotismo fácil. Mas é forçoso convir que, justamente porque a literatura desempenha funções na vida da sociedade, não depende apenas da opinião crítica que o Regionalismo exista ou deixe de existir. Ele existiu, existe e existirá enquanto houver condições como as do subdesenvolvimento, que forçam o escritor a focalizar como tema as culturas rústicas mais ou menos à margem da cultura urbana" 1.
Candido observa ainda que as soluções encontradas por Simões Lopes Neto deram um novo acento à literatura regionalista. Enquanto Coelho Neto, por exemplo, apresentava um narrador em terceira pessoa utilizando a norma culta, e suas personagens reproduziam os coloquialismos regionais quando recebiam o discurso direto, o escritor gaúcho resolveu dar voz a um velho peão, "assegurando uma identificação máxima com o universo da cultura rústica, (...) dissolvendo de certo modo o homem culto no homem rústico" 2.
O regionalismo na literatura, pelo menos desde Simões Lopes Neto, portanto, perdeu seu caráter de exportação e exotismo fácil, para usar as palavras do crítico. Deixou de ser uma maneira de conhecer o interior brasileiro, sua gente, hábitos e costumes, para tratar de assuntos comuns a todos os homens, expondo os problemas de uma nação tão heterogênea quanto o Brasil. Mesmo hoje o regionalismo poderia render bons frutos, já que ainda temos problemas sociais semelhantes aos da época de Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, mas a geração contemporânea de escritores parece mais preocupada em retratar a violência dos grandes centros urbanos do que a trajetória miserável de pessoas do campo (há quem pense justamente que o foco em torno de personagens urbanos marginais representa uma nova fase do regionalismo, mas creio que isso só poderá ser analisado mais claramente com um maior distanciamento histórico).
O pensamento de qualquer pessoa tende a transformar-se com o tempo, e as análises de Antonio Candido não fugiram dessa premissa. Um bom exemplo é o caso de Manuel Antonio de Almeida: comparar o que está registrado sobre o autor de Memórias de um Sargento de Milícias na Formação da Literatura Brasileira , publicada em 1959, com o célebre ensaio Dialética da Malandragem , de 1970, é perceber um salto qualitativo estrondoso na crítica literária brasileira.
Em entrevista recente realizada pelo professor Luís Augusto Fischer, da UFRGS, e ainda inédita, o crítico faz uma breve revisão do papel que o regionalismo desempenhou na literatura brasileira (a resposta é um pouco longa, mas vale a pena sua reprodução):
"A questão tem vários aspectos e já escrevi sobre alguns deles. Esquematicamente, seria possível, forçando um pouco, identificar três modalidades sucessivas no regionalismo brasileiro. Primeira, a de predomínio da incorporação; segunda, a de predomínio da exclusão; terceira, a de predomínio da sublimação.
No tempo do Império, ele foi um instrumento de revelação do Brasil aos brasileiros, incorporando à experiência do leitor das cidades o espetáculo da vida nas regiões afastadas. Penso em autores como José de Alencar e Bernardo Guimarães. O ânimo de integração por parte deles pode ser verificado na maneira de escrever: ambos praticavam uma escrita ajustada à norma culta, com o mínimo indispensável de modismos regionais, o que aproximava o homem rural do homem urbano, mostrando a unidade sob a diferença.
No tempo da Primeira República e do incremento da urbanização o regionalismo foi, ao contrário, fator de afastamento e mesmo estranhamento entre ambos, como se a intenção dos autores fosse marcar a diferença, acentuando o exotismo do homem rural e, assim, marcando a condição superior do homem urbano. Foi um processo de folclorização do regionalismo, visível na diferença entre o discurso civilizado do autor e o discurso rústico, quase caricatural dos personagens, excluídos de certo modo da norma culta. Era o tempo dos detestáveis "ocê tá bão?" e da redução reificadora do campesino a elemento pitoresco da paisagem. Penso em autores como o Coelho Neto de Sertão.
Depois de 1930 houve uma fecundação do regionalismo em duas direções, que ocorreram sucessivamente. A primeira foi devida sobretudo a ficcionistas do Nordeste e consistiu em superar a alienação folclórica por meio da consciência social, que problematizou a vida rural e, por outro lado, procurou aproximar o homem rústico do homem da cidade, invertendo de certo modo a natureza do discurso da fase anterior, ao tentar uma injeção equilibrada da simplicidade coloquial na norma culta. A segunda direção, que denominei "super-regionalismo" (pensando em "surrealismo", ou "super-realismo") foi uma literatura de sublimação, na medida em que incorporou o experimentalismo modernista. Um autor como Guimarães Rosa privilegiou a função poética da linguagem e viu a sua tarefa como invenção, não reprodução pitoresca. Coisa paralela se deu em outras literaturas da América Latina, o que levou o saudoso crítico uruguaio Angel Rama a apontar a inesperada originalidade dessa solução paradoxal, consistente em fundir as práticas de vanguarda (que encaram o presente e são esteticamente revolucionárias) com os temas regionais (que tendem ao realismo e a uma preservação conservadora do passado).
A tipologia acima é aproximativa e visa sobretudo às predominâncias, mas é preciso lembrar que as três tendências podem ocorrer em grau maior ou menor. Pensemos, por exemplo, que na fase dominada pelo pitoresco alienante Simões Lopes Neto prenuncia a etapa posterior graças à sua inventividade peculiar" 3.
Enquanto em seus primeiros estudos Candido observa o regionalismo como um tema mal resolvido pelos autores, por tratarem de determinada região com distanciamento (o que é uma visão simples), em ensaios importantes da década de 70 o crítico mostra que o grande regionalismo na literatura brasileira se deu quando os autores adquiriram a consciência de que precisavam tratar seus espaços e tramas com mais realismo. Ou melhor: o exotismo não era suficiente para apresentar as especificidades da região, muito menos o tratamento pitoresco dado às personagens era interessante, afinal região é uma coisa, personagem outra. E uma personagem bem construída, como Blau Nunes, o narrador de Contos Gauchescos , ou Riobaldo, de Grande Sertão, Veredas , é outra bem diferente.
Bibliografia:
CANDIDO, Antonio. Textos de intervenção . Org. Vinicius Dantas. São Paulo: Editora 34, 2002.
CANDIDO, Antonio. A educação pela noite e outros ensaios . 3ª edição. São Paulo: Ática, 2000.
CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira; momentos decisivos . 8ªed. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Ed. Itatiaia Limitada, 1997. 2 vols.
CANDIDO, Antonio. O discurso e a cidade . São Paulo: Duas Cidades, 1993.
FISCHER, Luís Augusto. Entrevista com Antonio Candido . Inédita. Porto Alegre: 2004.
CANDIDO, Antonio. Textos de intervenção . Org. Vinicius Dantas. São Paulo: Editora 34, 2002. p. 86.
CANDIDO, Antonio. Textos de intervenção . Org. Vinicius Dantas. São Paulo: Editora 34, 2002. p. 90 e 91.
FISCHER, Luís Augusto. Entrevista com Antonio Candido . Inédita. Porto Alegre: 2004.