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Frey Apollonio , de Carl Friedrich Philipp von Martius. Um romance brasileiro?
Luiz Barros Montez (UFRJ)

Trazer à discussão para o público brasileiro um texto ficcional do passado com as características de Frey Apollonio. Um romance do Brasil ( Frey Apollonio. Roman aus Brasilien ), do alemão Carl Friedrich Philipp von Martius, datado de 1831, significa empreender um conjunto de operações que, em seu conjunto, equivalem a um esforço arqueológico de prospecção de vestígios de uma civilização desconhecida. Embora o nome de Martius seja bastante conhecido no Brasil, do ponto de vista da historiografia nacional do século 19, a problemática em que se encerra esta obra literária situa-se, pode-se dizer assim, numa terra quase virgem em termos de crítica literária. Seguindo os passos de Heise 1, resolvi dar prosseguimento aos esforços de Erwin Theodor Rosenthal, que descobriu e trouxe ao conhecimento do público brasileiro o romance até então inédito de Martius.

Heise, em seu trabalho de prospecção da produção literária alemã entre os séculos 18 e 19, propõe cartesianamente uma metodologia de trabalho em três frentes distintas de trabalho. Tais frentes não se sucederiam numa seqüência cronológica linear, mas efetuar-se-iam mescladas umas às outras de forma simultânea. Em resumo, Heise propõe a reconstituição de uma obra literária situada num passado distante com base, respectivamente, na atividade do "arquivista", do historiador e do crítico literário. Ao "arquivista" caberia a tarefa de levantamento e classificação do texto literário e de outras fontes como matéria prima inicial para o trabalho de análise proposto. A ele cabe o instinto da busca e da descoberta, a intuição de estar lidando com pistas que levam a um caminho que desdobrar-se-ão em hipóteses fecundas de trabalho sob diversos pontos de vista científicos e literários. Paralelamente, é imprescindível o trabalho de interpretação historiográfica do achado selecionado, das fontes levantadas, com base no estabelecimento de uma cronologia dos fatos textuais e contextuais e nas respectivas ilações de causalidades. E, por fim, às duas atividades somar-se-ia a do crítico literário que, disponíveis os textos e ordenados em uma relação cronológica comprovada (ou por vezes apenas plausível), toma para si a tarefa de interpretá-los, de decifrá-los partindo de categorias estritamente literárias, tornando-os com isso disponíveis à compreensão do grande público. As constantes descobertas de novos fatos e textos - que, por seu turno, jogam novas luzes às interpretações historiográficas e crítico-literárias estabelecidas - são elementos permanentes que constituem a dinâmica própria deste "processo arqueológico", e vão constantemente abalar as certezas estabelecidas, e naturalmente irão estabelecer novas interpretações e releituras dos achados literários em questão. (Tais abalos certamente tenderão a tornar estes textos mais e mais acessíveis a camadas cada vez mais amplas do público leitor interessado, seja acadêmico ou não.)

Voltando ao romance de Martius: a pequena comunicação que apresentei neste encontro da ABRALIC retoma um trabalho iniciado por Rosenthal que, cumprindo de forma extraordinariamente competente as três "etapas" propostas por Heise, trouxe ao público brasileiro uma obra cuja relevância é indiscutível sob diversos aspectos. O que interessa aqui, evidentemente, é centralmente o aspecto literário da questão.

Falemos um pouco sobre o trabalho de Rosenthal. Entre as obras e textos até então inéditos do historiador, botânico e etnólogo Carl Friedrich Philipp von Martius, cujo espólio foi somente liberado ao público em décadas recentes, encontrou-se o romance Frey Apollonio , escrito em 1831. Martius percorreu o Brasil durante três anos e escreveu o romance sob o impacto da Amazônia, que conheceu entre 1817 e 1820. Nunca publicado, foi encontrado em forma de manuscrito em escrita gótica. Transposto para o alemão moderno, a obra foi publicada em Berlim em 1992. No mesmo ano, o Professor Rosenthal traduziu-o e publicou-o em São Paulo, acompanhado de um importante ensaio. Martius seria, segundo Rosenthal, o autor do "primeiro romance brasileiro".

Algumas palavras sobre Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868). Botânico e naturalista dos mais renomados em sua época, veio ao Brasil na comitiva da Princesa Leopoldina, futura Imperatriz e esposa de D. Pedro I, ao lado de outro grande naturalista alemão Johann Baptist Von Spix, na seqüência das articulações do Rei Maximilian Josef I com a aristocracia portuguesa, após a derrota definitiva de Napoleão em 1815. A obra de Martius compreende, entre outros, a Historia Naturalis Palmarum e a Nova Genera et Species Plantarum Brasiliensium , ambas de 1823. Mas a sua obra botânica principal é, sem dúvida, a Flora Brasiliensis , publicada em Leipzig entre 1840 e 1906, em 15 volumes. Este magnífico trabalho, que testemunha a grandiosidade do empreendimento de Martius no Brasil, descreve 22767 plantas brasileiras diferentes ao longo de 20733 páginas, e possui 3811 telas do próprio punho do autor! A passagem de Martius pelo Brasil deu-se entre 1817 e 1820, sendo que por vários meses na região amazônica, o que lhe inspirou o seu romance de 1831.

As intenções científicas de tais comitivas de naturalistas ao novo mundo são interpretadas por Mary Louise Pratt 2 como tendo como um pano de fundo neocolonial, o que seria um importante aspecto a ser considerado na perspectiva comparatística entre o Romantismo no Brasil e na Alemanha, e particularmente na hipótese que levanto ao final deste pequeno resumo.

Pouco antes do centenário da morte de Martius, em 1968, a família do mesmo doou todo o acervo em seu poder à Biblioteca Estatal da Baviera. Erwin Rosenthal descobriu, num inédito trabalho de "garimpagem", o romance escrito na Alemanha que, segundo a "Apresentação" de Rosenthal à edição brasileira, continha a indicação do próprio punho do autor "Para os amigos, que irão lê-lo em manuscrito". As considerações de Martius sobre o fato de não publicá-lo ainda em vida não são claras, mas podemos constatar que não seriam de ordem estética, dada a alta qualidade e a sofisticação literária de seu romance.

O que importa aqui é a assertiva de Rosenthal, que o apresenta como o "primeiro romance brasileiro". Com base em tal afirmação, e apoiado na leitura consistente e minuciosa do livro de Karin Volobuef 3 traçamos aqui alguns comentários que, espero, am algum momento posterior encontrem um melhor desenvolvimento e aprofundamento teórico e documental que os confirmem. O livro de Volobuef trata de comparar os dois movimentos românticos com base em alguns dos principais autores, e detalha, num exaustivo e convincente trabalho comparativo, as convergências e divergências de ambos os Romantismos.

Rosenthal parte de fatos cronológicos incontestes para estabelecer o caráter de "brasilidade" do romance de Martius: os dois primeiros autores brasileiros, tomados como pioneiros entre nós neste gênero literário, foram Antônio Gonçalves Teixeira e Souza e Joaquim Manoel de Macedo, que escreveram respectivamente O filho do pescador (1843) e A moreninha (1844). Em meu entender, sem embargo, Rosenthal equivoca-se em sua apreciação. Frey Apollonio não pode ser, por diversos motivos, considerado um "romance brasileiro".

Apoio-me, em minha discordância, não basicamente no fato de não ser Martius um brasileiro. O grande naturalista declarou diversas vezes ser o Brasil a sua "pátria espiritual", e daí ter escrito o seu romance vários anos depois de seu retorno à Alemanha, com base nas lembranças autobiográficas de sua estada na Amazônia. Considerar a Martius e a seu romance como "brasileiros" seria realmente uma honra para nós; mas é igualmente indiscutível o fato essencial de que o Romantismo praticado por Martius em seu romance atém-se antes aos padrões estéticos - e, até certo ponto, mesmo temáticos - do Romantismo alemão que aos padrões brasileiros. O narrador é um homem claramente europeu, e praticamente não o esconde. Martius deixou indicações claras de que o narrador / personagem Hartoman seria precisamente o seu alter-ego. Inicialmente batizado como "Suitram", Martius logo mudaria de idéia, talvez por achar demasiadamente banal batizar um personagem com a simples inversão anagramática de seu nome - Martius / Suitram. (No romance, por algumas vezes os indígenas tratam Hartoman como "Don Calo", referência óbvia a "Carl".) Ademais, todos os personagens, como bem o demonstra Rosenthal de modo cabal, teriam tomado parte no círculo de pessoas que conviveram com o naturalista alemão. O próprio personagem Apollonio teria sido inspirado pela existência de religioso português conhecido por Martius nas entranhas da floresta amazônica. Portanto, toda a narrativa do romance apóia-se sem sombra de dúvidas, direta ou indiretamente, em vivências do próprio autor.

Mas a questão principal não é saber se o romance é ou não brasileiro. Minha discordância do grande germanista da USP, o Professor Rosenthal, não é o que fundamentalmente importa nesta comunicação; mas sim, como veremos, o fato de que a atitude romântica essencialmente alemã - portanto subjetivista, e não contaminada por propósitos identitários nacionalistas - de Martius garante ao romance do grande naturalista alemão uma aproximação muito mais profunda da natureza amazônica em si do que o permitiria o predominante "naturalismo" (aqui tomado enquanto atitude literária) da narrativa romântica brasileira.

Não foi por outro motivo que, alguns anos mais tarde, Martius venceria o seu adversário marcadamente "positivista" no concurso instituído pela Instituto Geográfico e Histórico Brasileiro, respondendo à questão de "como se deveria escrever a história do Brasil". A construção da identidade nacional brasileira teria de ser necessariamente, antes de mais nada, uma construção metafísica, amparada antes por um olhar arquetípico que se apropria do que vê, e não o contrário. Ou seja, qualquer proposta que tentasse forjar uma identidade nacional a partir dos fatos positivos da história pregressa, tentando extrair um mitologema a partir do que existira e até então se via, se podia perceber objetivamente (a partir de parâmetros objetivistas , empíricos ), estaria fadada ao fracasso.

Tomo aqui neste aspecto como referência fundamental à atitude apropriadora de Martius o tratamento literário que dispensou à natureza - seguindo fielmente a atitude fundamentalmente contemplativa dos românticos alemães (de Jena a Heidelberg, e mesmo Berlim). Como vimos, não obstante o precípuo interesse de Martius, como botânico e etnólogo, em estudar sistemática e cientificamente a flora e o indígena brasileiros, não obstante a sua atitude em princípio eminentemente cientificista e detalhista da descrição e catalogação racional das diferentes espécies botânicas (e étnicas), o tratamento literário dispensado no romance ao meio-ambiente, à flora e ao homem nativo é no sentido de incorporá-los, subordinando-os integralmente às impressões estéticas e metafísicas do "eu" narrativo que sente, impressiona-se, intui, deslumbra-se, se expressa como mônada fundadora do texto. Toda a magnificência da paisagem selvática, do luar, de toda a infinidade de formas, de tons, toda a atmosfera põe-se a serviço de uma profunda dimensão metafísica da criação, do sentimento de totalidade do eu narrador.

Sabemos, com Karen Volobuef, que no Romantismo brasileiro predomina uma visão essencialmente distinta. Enquanto no Romantismo alemão a natureza humaniza-se, no brasileiro o homem naturaliza-se, torna-se natureza, confunde-se com ela no que esta tem de mais afeito à physis , a tudo o que as mãos e os olhos podem alcançar, pegar, percorrer. O alemão afeiçoa-se, em sua atitude contemplativa (tão combatida por Goethe), antes à metaphysis .

Talvez a evidência mais gritante do tratamento romântico eminentemente alemão dispensado por Martius à temática tratada seja o modo de se ver o indígena. Claramente eurocêntrico - no que, aliás, não se difere basicamente dos românticos brasileiros, de Alencar a Bernardo Guimarães, de Macedo a Gonçalves Dias -, Hartoman / Martius solidariza-se inteiramente com os esforços de conversão dos indígenas ao cristianismo. Apenas revela-se cético, como protestante, às projeções e expectativas dos padres católicos. Em certa altura da narrativa (p. 193), o narrador descreve o assassinato de um indígena convertido por outro indígena (numa atitude de clara resistência, que alguns chamariam hoje de "terrorismo anticolonial") como um ato inominável de barbárie.

No entanto, o indígena real no romance de Martius não é idealizado; é o antípoda do europeu, e não se presta de forma alguma à construção de algum tipo "nacional", tal como este emerge e se tenta cristalizar no projeto romântico brasileiro. Aliás, o Romantismo no Brasil tenta por diversas vezes precisamente apropriar-se de características indígenas para forjar, ou de alguma maneira contrastar uma identidade nacional supostamente brasileira com o homem "puramente" europeu. Se Peri não é um aimoré que "arreganha os dentes" como um bicho selvático qualquer, pronto para atacar a sua presa, ele tampouco é um gentleman português - se é que isto existe. Seria ingênuo supor isso em Alencar. Mas Martius, ao contrário de Alencar, expressa em diversas passagens a nostalgia à "pátria Europa" (note-se aqui uma aversão ao nacionalismo alemão, pois não se fala em Alemanha, Portugal etc., mas na Europa como um todo, quase que de forma metafísica, que expressa antes uma cultura ou um estágio cultural desgeografizado), uma elegia ao "ser europeu".

Fato fundamental aqui, no entanto, é o tremendo paradoxo com o qual encerro o presente resumo, e com ele tento levantar uma hipótese que me parece bastante plausível: a atitude romântica de Martius, marcadamente racional exatamente na medida em que põe em questão o primitivismo e o caráter ancestral, atávico do indígena brasileiro, é exatamente a que lhe permite uma aproximação mais realista, mais isenta, e, portanto, mais sincera e despojadamente solidária com o drama da ameaça à integridade da civilização indígena e da eminência de sua extinção. Hartoman chora porque sente de fato a dor da perda da índia Esperada; lamenta-se pelo destino que prognostica para os índios, pela eminente catástrofe ecológica que ronda todo aquele mundo que idealiza. Se compararmos esta atitude do narrador com a da idealização do indígena promovida pela narrativa de ficção romântica no Brasil, podemos claramente perceber o paradoxo. A construção narrativa do Romantismo alemão, ao qual inegavelmente o romance de Martius está filiado, mostra-se mais habilitada, mais capaz de penetrar no âmago da civilização indígena amazônica do que a atitude pré-concebida dos romances indigenistas do Romantismo brasileiro. Toda a multiplicidade, toda a infinita variedade de espécies botânicas catalogadas por Martius - e até hoje existentes no Jardim Botânico de Munique, dirigido por décadas pelo grande naturalista -, toda a riqueza própria da cultura doméstica das tribos indígenas, das mulheres, todos estes aspectos puderam ser preservados em seu romance, com uma riqueza e isenção narrativa impossível de ser igualada pela narrativa ficcional romântica no Brasil, ainda que aquela esteja eivada de eurocentrismo. Tal é o paradoxo na obra ficional de Martius que merece ser mais bem explorado.

 

 

HEISE, Wolfgang. Realistik und Utopie. Aufsätze zur deutschen Literatur zwischen Lessing und Heine . Berlin: Akademie-Verlag, 1982, p. 9-35

PRATT, Mary Louise. "Pós-colonialidade: projeto incompleto ou irrelevante?". In: VÉSCIO, Luiz Eugênio & SANTOS, Pedro Brum. Literatura & História . Bauru: EDUSC, 1999, p. 17-54

VOLOBUEF, Karin. Frestas e Arestas. A Prosa de Ficção do Romantismo na Alemanha e no Brasil.São Paulo: Editora da Unesp, 1999