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O rio do tempo na Rosa do povo
Luís Bueno (UFP)

Não é preciso reiterar o quanto a publicação de A rosa do povo consolida a imagem de Drummond como poeta engajado - o poeta do tempo presente que se anunciara em Sentimento do mundo . A resenha do mais lido crítico do momento, Álvaro Lins, e o famoso artigo de Otto Maria Carpeaux, publicado ainda antes, em 1943, bastam para indicar o que o passar dos anos parece apenas confirmar 1.

Mais do que sua existência em si, é a natureza desse engajamento - e desse apego ao acontecimento do dia, por assim dizer - que merece discussão renovada, para além das exigências da recepção imediata, sempre tão sensível ao problema da perecibilidade da arte engajada, que sempre desperta discussões sobre o clássico dilema: a arte deve atender às necessidades ideológicas ou às estéticas?

Antonio Candido, em texto da década de 60, já tratou da natureza do engajamento em Drummond a partir de uma tensão que ele assim caracteriza: "se [o poeta] aborda o ser, imediatamente lhe ocorre que seria mais válido tratar do mundo; se aborda o mundo, que melhor fora limitar-se ao ser" 2. É exatamente da indissociabilidade entre os problemas do ser e sua relação com o mundo que nasce a poesia engajada de Drummond - além de lhe garantir uma posição bastante peculiar no interior de sua geração, a dos escritores surgidos na década de 30. Foi, segundo a formulação do próprio poeta, um "tempo de partido,/ tempo de homens partidos" 3, tempo em que tudo era visto a partir das grandes divisões ideológicas de um mundo em que o liberalismo parecia de todo fracassado e haveria de ser substituído por diretrizes ou radicalmente de esquerda ou radicalmente de direita. A história literária brasileira já discutiu muito a grande divisão que decorre desse estado de coisas no plano do romance, chegando até mesmo a exagerar quando consagra duas vias estanques, praticamente incomunicáveis: a do romance psicológico e a do romance social ou regional.

No caso da poesia, as polêmicas daquele período ocuparam menos os historiadores da literatura. Pouco se tem dito sobre a divisão que nesse campo também se esboçou, entre a poesia do sublime e a poesia do cotidiano. A primeira, voltada para os problemas do ser e da eternidade, é associada a um pensamento de direita, geralmente católico, e tem como nomes centrais Augusto Frederico Schmidt, o primeiro Vinícius de Moraes e o grupo reunido em torno da revista Festa ; a segunda, de tendência materialista e com apego aos aspectos usualmente tidos como "menores" da vida, foi associada ao pensamento de esquerda e escrita por poetas como Mário de Andrade, Manuel Bandeira, o primeiro Murilo Mendes e, é claro, o próprio Drummond.

Em 1936, um Murilo Mendes já convertido ao catolicismo procura analisar o estado atual da poesia brasileira em um artigo em que não falta nem mesmo a previsão altissonante da restauração dos valores cristãos segundo a qual a "arte e a poesia encontrarão de novo a Força e a Graça que escreveram a Divina Comédia , que levantaram as catedrais, que inspiraram o canto gregoriano" 4. Para ele, essa restauração parecia não estar muito distante, já que faz questão de apontar em todos os poetas que faziam algo de interessante no Brasil, até mesmo em Bandeira que, segundo ele, detestava o catolicismo, uma iminente aceitação dessa força e dessa graça, já que em todos identificava um desejo de "abstração do tempo" - o que para ele equivalia a um desejo de retorno ao eterno que só poderia ser um retorno para Cristo.

A idéia de "abstração do tempo" proposta por Murilo Mendes pode ser muito útil para a compreensão da dupla solicitação que atravessa a poesia de Drummond. É evidente que a associação direta entre o desejo de superar as limitações do tempo - especialmente o curto tempo de uma existência humana - não precisa ser associado diretamente a uma concepção católica da existência e não pode ser confundida com uma aspiração de comunhão como o corpo místico de Cristo, como Murilo Mendes procura nos forçar a admitir.

É inegável que há, na poesia de Drummond a manifestação de, no mínimo, uma angústia causada pela severa limitação que representa a curta duração da vida. Só que, no poeta mineiro, essa angústia jamais apontará para o eterno, pelo menos no sentido adotado por Murilo Mendes em seu texto. Apontará para uma espécie de transcendência na imanência - se é que isso pode fazer sentido - instrumentalizada pela memória: inicialmente a memória pessoal e familiar e, mais tarde, a grande memória coletiva que é a história.

O que chama a atenção para aquilo que interessa aqui é o fato de essa angústia e essas formas de superação do tempo surgirem na poesia de Drummond juntamente com a consciência mais aguda da necessidade de sair de si e olhar para o mundo e mergulhar no presente: em Sentimento do mundo e José .

É significativo que a tematização da chegada da idade madura, um tema diretamente associado ao impulso de abstração do tempo que seria amplamente revisitado pelo poeta, apareça pela primeira vez em Sentimento do mundo de tal forma que o poema paradigmático da adesão ao presente, "Mãos dadas", em que o eu-lírico declara ser sua matéria "o tempo presente, os homens presentes, a vida presente" (p. 111), surja entre as duas primeiras referências à velhice feitas na obra de Drummond: antes, aparece naquele "Pouco importa a velhice, que é a velhice?" (p. 111), de "Os ombros suportam o mundo", e depois em todo o poema "Dentaduras duplas".

Em A rosa do povo , como se verá, tal ordenação de certa maneira se repete, o que talvez seja um bom indício de que o caráter de livro algo desordenado, mais de uma vez aplicado a ele, pode ser revisto.

Vamos tratar aqui da segunda metade do livro, que tem dois núcleos, ambos de cinco poemas, em que a abordagem do mundo claramente se sobrepõe à do ser. O primeiro desses núcleos é composto por "O caso do vestido", "O elefante", "Morte do Leiteiro", "Noite na repartição" e "Morte no avião". São todos poemas narrativos nos quais a reflexão ensimesmada cede lugar à construção ficcional de diferentes modos de vida que figuram as misérias e o sem-sentido do tempo presente. Somente em "O elefante" aparece uma abordagem mais direta do eu - mas se trata de um eu "faminto de seres" (p. 168), todo ele voltado para o mundo, em luta por adaptar-se, integrar-se a ele.

Note-se que este grupo é precedido pelo poema que está no centro do livro - é o 28 o de um total de 55 - e que mais facilmente pode ser entendido como pertencendo àquele impulso de "abstração do tempo": "Resíduo". A memória, que exala um mau cheiro insuportável e somente disfarçável às custas da abertura de vários vidros de loção, domina o mundo inteiro, de tal forma que de absolutamente tudo algo permanece. Embora aqui o ponto de partida seja o ser, em certo sentido ser e mundo se igualam nessa angústia do fim e nessa certeza de permanência, que se manifesta principalmente nas coisas miúdas - como, aliás, já se formulara no poema "Ontem".

Em contrapartida, o último dos poemas desse núcleo, "Morte no avião", ao mesmo tempo em que encerra esse salto para fora do ser, já prepara o leitor para a transição que o livro está para fazer, voltando-se novamente em direção do ser e suas limitações. Já no texto seguinte, "Desfile", retoma-se a idéia de que o tempo é inabstraível e que o fim está próximo: "Vinte anos ou pouco mais, tudo estará terminado" (p. 180). Nesse sentido, a única atitude a se tomar é fechar os olhos "para ensaio" (p. 180). Da perda completa de tudo - amores, amigos, infância, mocidade - também trata o poema seguinte, "Consolo na praia". Com esses dois poemas, um ciclo de A rosa do povo se fecha. Da permanência de tudo, uma vitoriosa abstração do tempo, em que o ser parece sobreviver à maior da limitações a ele impostas, chegamos ao ponto oposto, a uma declaração da impossibilidade de produzir essa abstração - tudo intermediado pela reiterada preocupação com o que está fora do ser.

No contínuo dialético do livro, no entanto, o fim de tudo pode ser apenas o primeiro passo para uma nova superação, e a esses dois poemas se segue um grupo de quatro outros, dedicados à memória. No primeiro deles, "Retrato em família", há uma clara superação das limitações do tempo: "Já não distingo os que se foram/ dos que restaram" (p. 181). "Interpretação de dezembro" se desenvolve todo a partir do "menino/ suspenso na memória" (p. 181) que o abre. Por fim, dois poemas dedicados à memória do pai, retomando a figura através da qual se inauguram, com "Viagem em família", de José , os grandes mergulhos da obra de Drummond no passado familiar.

Mas o movimento continua, e logo o refluxo se faz sentir. Em "Idade madura" e "Versos à boca da noite", novamente as limitações suplantam as idéias de permanência. É preciso dizer que estes dois poemas são particularmente importantes na medida em que instauram uma visão da maturidade que seria depois cristalizada em Claro enigma , com poemas como "A ingaia ciência", "Campo de flores" e até mesmo "A máquina do mundo". Para além do fluxo do tempo e da perspectiva de fim iminente, que já apareciam em "Desfile", o que se desenha aqui é o esfriamento dos desejos e das sensações, que a maturidade traz. É por isso que, em "Idade madura", chamado a agir, pois "havia fogo na mata", o eu-lírico não se move: "Nada pude fazer,/ nem tinha vontade./ Toda a água que possuía/ irrigava jardins particulares/ de atletas retirados, freiras surdas, funcionários demitidos" (p. 187). Ou que, logo na abertura de "Versos à boca da noite", a sensação do contínuo fluir do rio do tempo e de seus efeitos se confunde com um inevitável conformismo: "Sinto que o tempo sobre mim abate/ sua mão pesada. Rugas, dentes, calva.../ Uma aceitação maior de tudo,/ e o medo de novas descobertas" (p. 188).

Mas, como ocorrera em Sentimento do mundo e na série de poemas do presente que sucede a "Resíduo", esta imagem de um ser sem saída apenas prepara a entrega mais radical ao interesse pelo mundo e pelo presente que há em A rosa do povo : a dos também cinco poemas dedicados aos acontecimentos da Segunda Guerra. A novidade, neste caso, é que a transição do ser ao mundo é mais lenta, desenvolvendo-se por quatro poemas intermediários. No primeiro deles, "No país dos Andrades", o eu se volta para o passado, encontra-o vazio e dele se despede: "Adeus, vermelho/ (viajarei) cobertor de meu pai" (p. 190). Nos outros dois, o ser enuncia sua necessidade de ligação com o mundo: com os mortos dele separados pelo "mar e os telegramas" (p. 190) e com toda a América, através do compartilhamento da solidão. Por fim, já anunciando o núcleo de poemas da Guerra, "Cidade prevista" constitui um salto para o futuro, para o mundo que surgirá depois - bem depois - de toda a destruição e, sobretudo, da ameaça afastada de destruição maior.

Porque é exatamente do afastamento do perigo maior e da oportunidade de reconstrução, em que o presente representa uma espécie de abstração do passado ameaçador, que trata este grupo de poemas, tal como aparece sintetizado em "Visão 1944":

 

Meus olhos são pequenos para ver

o mundo que se esvai em sujo e sangue,

outro mundo que brota, qual nelumbo

- mas vêem, plasmam, baixam deslumbrados. (p. 201)

 

Como se vê, novamente o ser se vê muito menor que o mundo. Mas a pergunta a se fazer aqui é: onde desemboca todo esse abandono do ser ao mundo? Num retorno sem remédio ao ser. Como se o impulso de sair de si representasse apenas uma suspensão, parênteses abertos em meio à obsessão do ser, reinicia-se a especulação sobre a madureza, mais ou menos no mesmo tom em que ela se instaurara em "Idade madura": "Dos três empregos de tua noite escolherás: nenhum" (p. 203) se dirá em "Indicações". É certo que, tanto aqui quanto no poema seguinte "Onde há pouco falávamos", limitação e abstração do tempo se misturam, compondo um quadro de melancolia menor do que aquele que se pinta em "Idade madura" e "Versos à boca da noite", já que a permanência pela memória reaparece: o presente ainda é injusto mas está impregnado de imagens do futuro que contaminam o ser.

Como se pode ver por essa rápida leitura da segunda parte de A rosa do povo , o interesse da poesia de Drummond pelos problemas do ser e do mundo é pendular. Há uma clara ordem na aparente desordem do livro. Um interesse conduz ao outro. Da prisão do ser ao campo aberto do presente, e de volta para o impasse do eu: esse é o movimento que se percebe. Da mesma forma como ocorrera no breve trajeto entre "Os ombros suportam o mundo" e "Dentaduras duplas", de Sentimento do mundo , a ordem dos poemas de A rosa do povo - embora menos rígida do que a que encontraremos em Claro enigma - constrói um caminho claro, de tal forma que qualquer alteração causaria sérios danos a esse sim-livro.

Mais do que o movimento pendular, no entanto, o que o livro de 1945 traça é um desenho do interesse social da poesia que só encontra paralelo, quando se pensa na literatura brasileira do século XX, no romance de Graciliano Ramos. Embora por vezes considerado, por críticos de esquerda, como capitulação aos valores da literatura de direita, o interesse profundo de Graciliano por aquilo que se pode chamar de psicologia humana confere a mais alta importância às ditas preocupações sociais, já que a sociedade penetra o mais fundo da constituição do indivíduo - como se vê no drama de Luís da Silva ou na visão de mundo de Fabiano.

Com o interesse pelos problemas do ser em Drummond se dá o mesmo. O estar no mundo é um problema existencial e social ao mesmo tempo. Quando fala de si, de sua finitude, de seu anseio de permanência pela memória, de suas culpas, o ser não fala de si somente, fala do mundo, de tal maneira que o engajamento acaba ganhando um caráter existencial nesta poesia. É também por isso que certas leituras de Claro enigma como um livro de desistência do interesse pelo coletivo são equivocadas. Afinal de contas, é lá que se dá o salto da idéia de superação do tempo pela memória familiar - cujo caráter é coletivo, mas diretamente ligado à constituição do indivíduo - para a memória histórica, coletiva, em que o ser e o mundo aparecem definitivamente unos.

É também por isso que, em A rosa do povo o fato de ainda não ter chegado o tempo da justiça, mais do que um sofrimento por um outro, é o sofrimento de quem vê interditada sua própria possibilidade de felicidade e, sobretudo, de quem não pode deixar de notar que seu fim é próximo. Iniciar a construção desse tempo de justiça é urgente, e a tendência à imobilidade trazida pela chegada da velhice é um problema não só por colocar o fim do ser à vista, mas também porque dificulta a ação sobre o mundo, necessária para essa construção. Urgência existencial e urgência social são uma única coisa. Não é por outro motivo que, antes de se voltar para a Guerra que termina e para a necessidade de começar a recomeçar tudo do zero, o poeta vá adiantar-se ao tempo, construindo sua cidade perfeita que, no entanto, permanece apenas prevista:

 

Irmãos, cantai esse mundo

que não verei, mas virá

um dia, dentro em mil anos

talvez mais... não tenho pressa. (p. 195)

 

 

V. LINS, Álvaro. A poesia moderna e um poeta representativo IV - Um poeta revolucionário. In: . Os mortos de sobrecasaca . Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963, p. 25-32; CARPEAUX, Otto Maria. O poeta e a realidade social. In: . Origens e fins . Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1943, p. 329-333.

CANDIDO, Antonio. Inquietudes na poesia de Drummond. In: . Vários escritos . São Paulo: Duas Cidades, 1970, p. 95.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Nosso tempo. In: . Poesia completa e prosa . Rio de Janeiro: José Aguilar. 1973, p. 144. Todas as citações de poemas de serão feitas a partir desta edição, da qual indicaremos apenas o número da página.

MENDES, Murilo. O eterno nas letras brasileiras. In: Lanterna Verde . Rio de Janeiro, 4, nov. 1936, p. 48.