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Impotência: um princípio formal nos romances de Lima Barreto
Irenísia Torres de Oliveira (UECE)
Quando se lê os romances de Lima Barreto, as idéias de um princípio organizador, de rigor construtivo e formal, ou de uma instância centralizadora qualquer, não aparecem no horizonte. Sente-se nessas narrativas, ao invés do princípio organizativo, a dispersão dos elementos, ligados à narrativa com gravidades diferentes, o que pode ser desconforto (a falta de uma visão focada e precisa) e também desafogo. Na imagem usada para descrever o subúrbio visto por Ricardo Coração dos Outros, de sua casa no alto da colina, tem-se a expressão simpática da forma solta com que nos aparece os textos do autor:
Vistos assim do alto, os subúrbios têm a sua graça. As casas pequeninas, pintadas de azul, de branco, de oca, engastadas nas comas verde-negras das mangueiras, tendo de permeio, aqui e ali, um coqueiro ou uma palmeira, alta e soberba, fazem a vista boa e a falta de percepção do desenho das ruas põe no programa um sabor de confusão democrática. 1
Os romances de Gonzaga de Sá e Isaías Caminha nos dão muito mais essa impressão do que o de Policarpo Quaresma, de onde veio esta citação, mas mesmo neste romance as forças organizativas parecem dispersas, pelos pulos de uma área a outra, sem encadeamento forte. Passa-se de uma área a outra, de um assunto a outro, parecendo que, sobretudo, o que manda ali é o tema.
Esta impressão, principalmente quando reforçada pela crítica, talvez decorra da insistência de Lima Barreto em que a obra literária devia discutir os problemas de seu tempo, opondo-se à visão dominante naquela época, cujos padrões de beleza eram convencionalismos estéreis e superficialidades auto-satisfeitas. E também possivelmente decorra da recusa do estilo aceito, que o colocou de sobreaviso contra todo transporte da linguagem e o manteve numa fronteira difícil.
Parece então que se está no reinado das boas idéias e dos temas, motivo talvez pelo qual a narrativa poderia até dispensar a centralidade, a força centrífuga das grandes obras realistas européias do século XIX. A ser assim, a crítica teria bem pouco a estudar em seus romances e deveríamos apenas reforçar a lucidez e a sensibilidade do escritor, realmente admiráveis.
Em atitudes estéticas isoladas (a simplicidade da linguagem, valorização do cotidiano, o perceptível recurso à montagem), nosso escritor seria um precursor dos modernistas. Um inovador a meio caminho, um pré-modernista. A classificação é precária e mostra obviamente a necessidade de se estudar melhor a literatura da época, e aplica-se a Lima Barreto sobre um indício, que entretanto possui outra natureza. A indefinição, o espírito aberto a contradições, a prevenção contra certezas, reveladoras da escrita em tempo instável, não quer dizer falta, mas a refração do lusco-fusco da mudança, uma mudança muito mais profunda e abrangente do que o Modernismo poderia representar em um primeiro momento e que tinha a ver com redefinições importantes em vários setores. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá , o primeiro livro escrito e quase último publicado, é definitivamente um livro de passagens. Ali se vê a preocupação do autor em descobrir redefinições para a literatura, a ciência, a sociedade, o papel dos indivíduos, cuja existência e conceitos a época tornava instáveis.
É possível que problematizações complexas, disponíveis então para um intelectual inquieto como Lima Barreto, crescendo junto com um surto social novo, quando as classes mais baixas começaram a adquirir expressividade, tenham contribuído para o fundo existente e rico, por trás do binômio das questões do tempo mais inovações esparsas. Esse trabalho pretende, portanto, afirmar e mostrar a existência de dinâmicas importantes nos romances de Lima Barreto.
Quando tentei a análise do Triste fim de Policarpo Quaresma , na época do doutorado, estava muito impressionada pela análise de Roberto Schwarz 2 dos livros da primeira fase machadiana, em que se revela o ambiente sufocante, a pequena margem de manobra dos dependentes, a armação do conflito familiar, distribuídos os respectivos pesos individuais. Partindo dessa reflexão, foi a desenvoltura de Policarpo que mais me chamou a atenção na análise do Triste fim de Policarpo Quaresma . Desta se depreendeu um conceito ou uma imagem, a de liberdade inútil , pela qual se revelava ou consolidava, ao lado das muitas possibilidades de ação do protagonista, a impossibilidade de mudar o que quer que fosse.
Não pode passar despercebido o fato de que as ações de Policarpo são rigorosamente esterilizadas no livro. Mesmo o sítio, já em parte modificado por sua ação, volta a se encher de mato, quando ele está na guerra. Policarpo já está na prisão, não o veremos mais e ainda nos aparece Olga, desesperada com a impossibilidade de libertá-lo. Não há compensações, pequenas vitórias que pudessem ser usadas para dizer que valeu a pena o sacrifício do major. A única compensação aceita é a de que outros já lutaram e outros ainda vão lutar. Apenas essa linha, essa tenaz tradição dos que lutam, aparece como possível justificativa para a disposição de Policarpo não cair no vazio.
É claro que Policarpo fracassa porque calcula errado as possibilidades, porque parte de abstrações, ideologias e ilusões. Mas a impotência do protagonista serve não apenas para mostrar o quanto ele está errado, mas também como as ideologias são inadequadas e como a estrutura do real se arma e cristaliza. Na verdade, o imobilismo da estrutura econômico-social brasileira é o núcleo atingido e desvelado nesses mundos de impotência, que são os romances de Lima Barreto.
No romance Recordações do escrivão Isaías Caminha , o fracasso do protagonista é relativo, mas encontramos a mesma impossibilidade de passar pelos controles sociais e mudar as estruturas vigentes. Isaías é um jovem mulato pobre, vindo do interior, que chega a repórter na grande imprensa do Rio de Janeiro e desfruta da proteção do dono do jornal em que trabalha. Mas seus planos iniciais eram outros. O rapaz queria cursar a faculdade de direito, tornar-se "doutor", tendo sido desestimulado por alguns obstáculos materiais e principalmente pela má vontade de todos, que viam seu desejo como uma pretensão. Depois de curtir fome na cidade, ele é indicado por um jornalista conhecido para trabalhar de contínuo no jornal, chegando depois de uma série de acasos, a repórter.
Perto do fim do romance, já muito desencantado, mas de maneira alguma em má situação financeira, Isaías dirá: "Lembrava-me da vida de minha mãe, da sua miséria, da sua pobreza, naquela casa tosca; e parecia-me também condenado a acabar assim e todos nós condenados a nunca a ultrapassar." 3 A inclusão do seu destino no da mãe é um dos pontos altos do livro. Inicialmente Isaías identificava-se com o pai, que era branco e respeitável, mas não o assumira como filho por ser padre. Logo depois dessa passagem de volta solidária à origem, Isaías assiste à prisão de uma prostituta, que conhecera como amante de um deputado, avançando a seguir, de maneira sutil e complexa, para uma espécie de consciência de classe.
O romance termina assim com algum bom auspício, indicando a formação e a maturidade do protagonista pela compreensão de sua situação no mundo, ainda que agônica. Sabemos, entretanto, já desde o prefácio, que Isaías depois disso se tornará deputado e entrará no jogo. Aquele momento alto de compreensão é o fim do romance (quando o leitor é chamado a captar o sentido da vida, na famosa reflexão de Benjamin 4), mas não o fim da vida de Isaías, da impossibilidade de tomar o rumo de seus objetivos, baseado em uma consciência profunda.
Lúcia Miguel Pereira considera exagerada a tese motivadora do romance, a de que os mulatos estivessem condenados ao fracasso 5. De fato, a interpretação guiada para o romance de tese, nos moldes naturalistas, logo perde o chão, pois o livro de Lima Barreto não busca determinações, caminhando sim para um complexo de escolhas e responsabilidades, retratando menos os fatos da realidade e mais uma estrutura de controles sociais ativos; provava não a impossibilidade de ascensão dos negros, mas a impossibilidade da mudança de estruturas no país. Quando se identifica com a mãe e diz, mesmo estando em boa situação, "todos nós", vê-se que o problema é mais profundo, pergunta por uma estrutura social capaz de incluir os negros, os pobres, os párias sociais, como as prostitutas, em condições de dignidade. Para além da exceção, o texto quer sondar e problematizar a estrutura excludente.
Para ele (Loberant, o dono do jornal), como para toda a gente mais letrada do Brasil, os homens e as mulheres do meu nascimento são todos mais ou menos iguais, mais iguais ainda que os cães de suas chácaras. Os homens são uns malandros, planistas, parlapatões quando aprendem alguma coisa, fósforos dos politicões; as mulheres (a noção aí é mais simples) são naturalmente fêmeas.
(...) Não tive grande trabalho em o fazer modificar o juízo na parte que me tocava. Mas não me dei por satisfeito. Percebi que me viam como exceção... 6
A insatisfação de Isaías assume, portanto, dimensões maiores que o caso individual. A impossibilidade de agir e alcançar seus objetivos tem muitos matizes. É enfocada numa zona difusa, a da expectativa em relação ao destino das pessoas negras, onde as responsabilidades se distribuem pelos vários segmentos da sociedade, em graus também variáveis. O próprio Isaías se atribui uma responsabilidade, pois se considera fraco, de uma fraqueza que por sua vez também tem ressonâncias sociais. A impotência de Isaías é muito complexa, assim como seu fracasso, que apenas ele julga dessa forma.
Não é, portanto, a imperícia do escritor Lima Barreto que torna este romance instável, mas a impossibilidade do protagonista, como indivíduo, não apenas de perseguir seu projeto, mas a de se manter íntegro. Por isso, na parte do jornal, ele some. A máquina de fabricar ilusões é muito mais forte e interessante, roubando o primeiro plano desse sujeito que logo foi reduzido pela má vontade social. Isaías é uma palha na cidade. A impotência individual, que coincide com a falta de instâncias sociais efetivas, tem implicações na formação da consciência e da narrativa. Não conseguindo o que desejam, na medida que seus desejos contrariam estruturas e formações dominantes, essas personagens descrevem a imobilidade brasileira dentro de um tecido social viscoso, da mesma consistência gelatinosa que se atribui a Floriano Peixoto no livro de Policarpo.
A impotência de Isaías é complexa porque passa dentro dele mesmo, indivíduo, em uma zona difícil de separar o que é individual do que é social. Isaías em parte fracassa porque é fraco, mas sua fraqueza também tem ressonâncias sociais, não se podendo jamais definir até que ponto. A narrativa vive muito objetiva e estruturalmente as conseqüências desse impasse.
Na tentativa de mudar as coisas, e não apenas para si mesmos, a mais forte e obstinada das personagens de Lima Barreto, também fracassa. Policarpo morre tragicamente como a mais forte personagem desse mundo da impotência.
Gonzaga de Sá não é tão forte como Quaresma, mas tem uma possibilidade valorosa em relação aos outros dois: a capacidade de lembrar, uma mistura de memória pessoal e familiar de quatrocentos anos da história da cidade do Rio de Janeiro. Este homem remanescente dos antigos, o historiador artista, o narrador oral, pode pensar a cidade como um organismo vivo, andar familiarmente por todo lugar e deixar sua riqueza invisível como legado ao amigo mais jovem, pobre e mulato. Há um movimento integrador da história, da natureza e do indivíduo.
A possibilidade antiga de relacionar passado e presente, entretanto, possui o seu lado dilacerante, porque constitui, junto à inteligência viva e livre de Gonzaga de Sá e seu biógrafo Augusto Machado, a possibilidade crítica. No percurso histórico, vivido como memória, o indivíduo pode ver as várias formas da dominação, que se apresenta diferente em cada época. No aburguesamento do Rio, na moda que pretende ensinar os novos valores do dinheiro, os prazeres do consumo, da elegância e da ostentação, os dois amigos podem perceber formas novas da velha colonização. Assim, no luxo dos chapéus que ondulam pela rua do Ouvidor, Augusto Machado vê o movimento de antigas caravelas, em um novo momento de conquista.
Ao lado de toda essa riqueza, ao mesmo tempo integradora no tempo e crítica pela compreensão que proporciona, inclusive das cisões do real, volta o problema da impossibilidade de ação das personagens.
Já disse antes que o livro de Gonzaga de Sá é um livro de passagens. O protagonista, ou biografado, perto de morrer vive uma crise. Com o arrimo de um modesto emprego público, tinha dedicado toda a sua vida ao estudo, não era casado, não tinha filhos, carreira ou consideração social. No entanto, tinha a sua riqueza de memória e compreensão do mundo, considerada a tal ponto que chega a perguntar-se, quando morre um seu compadre, um operário mulato, que vida teria tido ele, obscuro, ignorante, sem capacidade de reflexão. A partir desse momento, a crise de Gonzaga se aprofunda e ele caminha para a morte. Pouco antes, entretanto, passa a questionar o sentido de sua própria existência, um homem que tinha vivido apenas para dentro, cuja inteligência e compreensão do mundo eram estéreis. A única tentativa de ação para fora tinha sido a de melhorar o nível intelectual dos colegas, levar-lhes leituras, que resultara inútil. Os colegas estavam mais interessados no aspecto externo e pavoneante da erudição, por um lado, e na pragmática dos cargos, por outro. A volubilidade, como bem conhecemos, desde a análise machadiana de Roberto Schwarz.
Ao lado do aristocrata que deseja melhorar os colegas, colocar o espírito em movimento, sem sucesso, como vimos, está o homem instruído, de inteligência livre, que descobre com angústia a impossibilidade de atuar no mundo, de modificar o seu próprio destino, de mudar a si mesmo ou aos outros.
O limite é sempre a mudança profunda, estrutural; outras coisas podem ser conseguidas: Policarpo pode fazer todas as tentativas que quiser, Isaías pode subir na vida, Gonzaga pode conhecer e criticar o mundo, mas nenhum deles pode transformá-lo.
A impotência pode ser compreendida como princípio formal por relativizar todas essas outras possibilidades, a partir de um materialismo rigoroso, que não dá chance para auto-determinações ilusórias ou realização do indivíduo pela interioridade. A pressão sobre a consciência individual desse mundo impossível de mudar, modificando-a, reforça também a idéia de princípio formal.
A impotência como experiência do mundo contemporâneo, nos romances de Lima Barreto, implica a referência do ponto de vista nas camadas baixas, que emergiam como segmento social na época e já dispunham de algumas possibilidades de radicalização, com os movimentos trabalhistas e as idéias anarquistas e socialistas que nos chegavam. Ligados a essa experiência, no plano da narrativa, também estão o esforço de constituição do ponto de vista de baixo, que não está dado de maneira alguma, e a representação complexa da formação social brasileira sob a perspectiva da falta de instâncias sociais e coletivas, no sentido rigoroso do termo, relacionada ao imobilismo estrutural do país.
BARRETO, Afonso Henriques de Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma . Rio de Janeiro: Ediouro, /s.d./, p. 61.
SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas . 5 ª ed., São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2000.
BARRETO, Afonso Henriques de Lima. Recordações do escrivão Isaías Caminha . Rio de Janeiro: Ediouro, /s.d./, p. 142.
BENJAMIN, Walter. O narrador. In: Textos escolhidos . Col. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 57-74.
PEREIRA, Lúcia Miguel. Prosa de Ficção (de 1870 a 1920): História da Literatura Brasileira . Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1988, p. 288.
BARRETO, Afonso Henriques de Lima. Recordações do escrivão Isaías Caminha . Rio de Janeiro: Ediouro, /s.d./, p. 135.