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Câmara Cascudo e a literatura no Rio Grande Do Norte
Humberto Hermenegildo de Araújo (UFRN)

O ensaísta Câmara Cascudo, seguindo uma linha geral do pensamento da intelectualidade brasileira do século XX, promoveu na sua obra uma combinação da literatura com outras disciplinas das ciências humanas, no que resultou um modo singular de perceber o Brasil. A sua visão sobre o patrimônio cultural brasileiro incluía, além do sistema literário nacional registrado nas histórias da literatura sob a forma de cânone, o sistema representado pela tradição da oralidade que ele registrou no livro Literatura oral (1952) 1. Essa visão inclusiva resultou, também, num esforço no sentido de ler a literatura brasileira a partir da produção literária potiguar. Câmara Cascudo demonstrou o desejo de sistematizar a produção literária do Rio Grande do Norte, chegando mesmo a afirmar, segundo... que escreveria uma "História da literatura do Rio Grande do Norte", fato que nunca se consumou. Ao longo da sua obra, vários são os momentos em que o autor investe na perseguição desse objetivo, a começar pelo seu primeiro livro ( Alma patrícia , de 1921, que é composto de notas biobibliográficas sobre dezoito escritores potiguares) 2.

Além de Alma patrícia , a leitura da produção local forma um conjunto de artigos esparsos que, se reunidos, permitem uma visão sobre o modo como o processo literário brasileiro aconteceu em uma comunidade situada na região Nordeste, segundo a perspectiva de um leitor interessado na busca da identidade local, que neste caso denominamos de "potiguar".

Para este trabalho, destacamos um momento significativo entre aqueles sobre os quais o autor opinou. Adotamos uma periodização da literatura brasileira do século XX, segundo Antonio Candido em "Literatura e cultura de 1900 a 1945" 3: o momento correspondente ao período que se poderia chamar de "pós-romântico" e que vai, grosso modo, de 1880 a 1922.

No período pós-romântico, cinco poetas merecem destaque na leitura de Câmara Cascudo: Lourival Açucena (1827-1907), Gothardo Neto (1881-1911), Ferreira Itajubá (1876-1912), Auta de Souza (1876-1901) e Henrique Castriciano (1874-1947). Nesse período, assim como no subseqüente (modernista), existia o desequilíbrio entre "algumas toneladas de poema" e a inexistência do romance, como observa o autor em artigo de 1929 4:

 

O Rio Grande do Norte está à espera do seu romancista. Importa dizer que o romance ainda não foi feito. Há um, velho-velho, do dr. Luís Carlos Wanderley e o de Polycarpo Feitosa. Este melhor se enquadraria nas linhas gerais da novela. O de Wanderley é tétrico. Não me recordo bem do enredo mas sei que é tão complicado como os filmes em séries. (...). O de Polycarpo merece as honras da iniciação. Verdadeiramente o romance começará dele.

 

Os poetas destacados foram valorizados pelo leitor Câmara Cascudo a partir do critério do grau de participação dos mesmos na vida literária da comunidade, haja vista que o então modernista potiguar estava interessado em delinear um mapa literário para o Rio Grande do Norte, estado praticamente sem tradição constituída (se tomarmos como padrão o processo colonial de estabelecimento da tradição, por exemplo, em Pernambuco e na Bahia). Os adjetivos dados aos poetas significam a sua escolha para enquadrá-los enquanto singulares no conjunto de uma geração ou de um aspecto da acanhada vida provinciana, conforme resumiremos nos parágrafos seguintes.

Gothardo Neto foi, segundo Câmara Cascudo, o melhor da geração de 1906 a 1911, sendo o mais lido dos rapazes da cidade, o primeiro sonetista "entre os seus", o representante interessante e único do Romantismo em verso, prosa e vida.

Lourival Açucena, cantor de modinhas, teve a primazia da voz nas festas e solenidades, durante 60 anos:

 

Lourival era a alma alegre da cidade. Improvisador de festanças, tirada de "Reses", sonetista aos numes da época, marcador de quadrilha, artista dramático, fazedor de brindes, compadre de meio mundo, respeitado e cortejador, era ainda aquele que conhecia -

"Os tristes desvios

d'altivosas criaturas". 5

 

Auta de Souza representa um traço único e vivo nas páginas da literatura norte-rio-grandense, pelo seu misticismo de doçura comovente. Auta é a "... santa familiar do oratório doméstico, acolhedora, romântica, singela, contemplativa", afirma Câmara Cascudo em texto escrito em 1940, onde defende a publicação de uma antologia de poetisas norte-rio-grandenses 6.

Ferreira Itajubá é apresentado como "o derradeiro menestrel do Rio Grande do Norte", poeta publicado em jornais, acolhido razoavelmente bem no meio intelectual provinciano. Poetizado e tornado romântico após a morte, era alegre, gritador, álacre. Cascudo conheceu-o "brigão de horas mortas". Autêntico e popular, o seu livro Terra Natal (1914) seria o único poema genuinamente potiguar no período considerado. Como expressão isolada, de pouca cultura e muito talento, Ferreira Itajubá recebe os seguintes elogios de Câmara Cascudo em Alma patrícia (1921, p.123):

 

É a própria terra que canta pela sua boca rude. É o mar que se anilisa nos seus olhos tristes. No meio doentio, estranho e mórbido da Poesia em Natal, Ferreira Itajubá foi um sopro vindo das montanhas, fresco e vivificante, naquele ambiente abafado de lirismo e de pieguice. Os outros poetas (...) estavam "enfurnados na alma". Era o eterno lamentar de traições, desesperos, falsas juras de amor, sangue e ciúmes, tudo o que se relacionasse com o coração (...). Itajubá rasgou com a sua forte mão de jangadeiro este véu negro de melancolia amorosa. Diante os suspiros e soluços de paixão dos poetas esguios e magros, pôs o grande amor de Branca, os cantos heróicos do desterrado, as descrições dos morros e dos mares, falou de esperanças em dias melhores. Ante o sentimentalismo romântico, abriu a janela larga dos horizontes naturais, mostrando o que é nosso, terra, céu e mar.

 

Esse poeta inculto e rústico, síntese popular e forte de alegria, indispensável nas lapinhas, fandangos e pastoris gastou, diríamos "lamentavelmente", "o oiro da imaginação nas estéreis funçanatas do improviso" 7.

Henrique Castriciano, "Príncipe dos poetas norte-rio-grandenses", aparece como o modelo de intelectual admirado por Câmara Cascudo, que depõe em homenagem à sua memória:

Foi o primeiro escritor, literato , poeta, que conheci e com quem mais longamente privei. Tinha para ele, na minha mocidade indagadora, o exercício da pesquisa letrada. Era homem que viajara, lera, vivera, fundamentalmente diferente dos outros homens na cidade do Natal. Ninguém mais poderia interessar-se pelos meus trabalhos de rapaz atrevido, disputando canto no poleiro literário da província. Livrou-me de admirações bastardas que deslumbravam meus companheiros de idade; dos batuques verbais disfarçando a ausência melódica; do cinismo pérfido representando abnegação, desinteresse, altruísmo. Ensinou-me a construir lentamente a cultura, diária, pessoal, fontes e não antologias, degrau a degrau e não elevador subtâneo. Fez-me compreender e amar, pelo seu exemplo, todas as formas vivas do trabalho humano; distinguir educação de instrução, cultura de inteligência, gordura de músculo. (...)

Graças a esse mundo interior, suficiente e pequenino, fiquei na província e trabalhei sem prêmio. 8

 

A figura de Henrique Castriciano recebe uma atenção especial de Câmara Cascudo, pelo fato de ambos representarem um papel fundamental na criação e consolidação de uma vida literária na cidade do Natal, fator indispensável à constituição de uma tradição de literatura. Com esta problemática em mente, Câmara Cascudo avalia:

 

Literariamente H. Castriciano é o Mestre. (...). Henrique foi o elemento de reação ao condorismo, ao ritmo barulhador e inútil das antíteses e parvoíces sacudidas à gianel em revistas e jornais efêmeros.

Fez a aplicação de Taine, Spencer, Carlyle. Prefaciou, consagrando no berço, uma geração de plumitivos.

(...) Henrique tem influído, não coordenado. No Brasil os Mestres não têm discípulos que lhes continuem em fora vida, a obra encetada. 9

 

Os adjetivos relacionados aos poetas destacados ganham sentido quando inseridos no contexto da vida literária e social delineada na leitura cascudiana. Trata-se da vida literária de uma cidade vista pelo prisma de um cronista saudoso de um tempo diverso daquele em que são escritos os textos que analisamos. Nesta perspectiva, a leitura dos poetas referidos é também uma leitura da cidade do Natal, e o tom saudoso aumenta de intensidade à medida que aumenta a distância entre a cidade moderna e a antiga. Neste sentido, comparamos os textos publicados durante a década de 20 com outros publicados na década de 40 e de 60.

Seja o caso da descrição do poeta Gothardo Neto. No texto incluso no livro Alma patrícia , de 1921, é sugerido que o autor de Folhas mortas (1913) sofre de tal forma a influência do meio que a sua tristeza romântica seria determinada pelo aspecto mórbido da rua e da casa onde morava, lugar de reclusão durante os cinco últimos anos da sua vida, quando escreveu versos doentios. Trata-se de um espaço romanesco:

A rua em que morava (...) era neste tempo (1890 a 1911 e ainda hoje, 1920) uma sarjeta lúgubre (...). No inverno era intransitável, lama, pedras e o eterno redemoinhar do vento encanado. No estio, poeira sufocante, um calor abafado de mormaço, sem um pedaço de casaria branca, sem um pouco de vegetação, onde o espírito atribulado do poeta repousasse contemplando a placidez serena das velhas árvores, o tranqüilo esvoaçar dos galhos, o balanço das folhas, o enovelar onduloso das relvas. (...).

Durante a noite, esta rua assemelha-se a uma página do Rei Peste, de Poe. A rua torna-se sepulcral e tétrica. Calçadas altas e cheias de lodo escorregadio. As fachadas negras e decrépitas, o enxurro sussurrante das imundices, o bruxulear das luzinhas elétricas que mal iluminam dois metros em volta, tudo isto mais acerbava o ânimo doentio, o desejo ansiado de sofrimento e de mágoa, que enchia o espírito de Gothardo. Tornava-se o seu quarto uma cela solitária da Trappa, o silêncio era quase palpável, ao longe é que se ouvia o burburinho das troças, das festinhas, de muito longe é que vinha o som longínquo das bandas de música. (p. 134-135)

 

Já em texto publicado em 1940, tem-se como eixo de apresentação a saudade, e o tom é de crônica sobre a sofrida vida do poeta dos longínquos tempos do romantismo, morador de uma casa de aspecto colonial, preservada por reformas e envolvida "numa [sic] palor irreal e romântica" ( O livro das velhas figuras - VII , 2002, p. 119). Ao final do texto, o saudosismo se revela no seguinte parágrafo anunciador da transcrição de um soneto do poeta: "Passo devagar pela sua janela que o luar de maio aquece e deslumbra. Daí ele versejou e sofreu. E me vem, trazidos pelas aragens da noite maravilhosa, seu grito soberbo, de sofrimento, de rebeldia, de descrença e de virilidade mental" ( O livro das velhas figuras - VII , 2002, p. 120-121).

A casa evocada, de aspecto colonial, permanece como símbolo de um tempo em que a cidade do Natal existia apenas no mapa administrativo da colônia. Segundo o mesmo Câmara Cascudo, a cidade manteve-se longe do progresso entre o ano de 1810 (apenas 700 habitantes) 10 e a época da proclamação da República. Fundada ainda no século XVI (1599), a cidade merecia, quase trezentos anos após a sua fundação, o trocadilho irônico: cidade Natal; cidade - não-há-tal 11.

Somente com a República a cidade passaria a ter vida social. O século XX marcaria, segundo Cascudo (1986), o nascimento da cidade fundada quatro século antes. Em tal contexto, Câmara Cascudo pode ser considerado como um dos fundadores da cidade moderna. Juntamente com Henrique Castriciano, ele apresenta aos patrícios a vida cosmopolita. Não por acaso, todos os poetas evocados tiveram seus livros - póstumos - publicados nas duas primeiras décadas do século XX 12, época em que, especialmente na década de 20, os dois intelectuais moravam no bairro do Tirol, em Natal, numa vizinhança estimuladora da prática cosmopolita do consumo de livros (Cf. Nosso amigo Castriciano , 1965).

A imagem de Ferreira Itajubá, envolta num véu de saudade, é semelhante à de Gothardo Neto, no mesmo processo de verticalização temporal. Se na década de 20 ganha destaque o Itajubá que só tinha tempo para serenatas e lundus, embebedando-se nas noites enluaradas e dando contornos poéticos ao cenário local, na década de 40 firma-se a imagem que revela o desejo cascudiano: Ferreira Itajubá simbolizaria a cidade parada no tempo, absolutamente alheia ao surdear dos aviões que a invadiriam dali a quatro anos, com a grande guerra. Nesse texto evocativo, Câmara Cascudo escolhe um recanto solitário da cidade, de frente para o mar, para denominá-lo de "Retiro Itajubá". Trata-se de um lugar escondido, de onde o cronista observa o presente:

Daquele ponto, a vida passa, como num cortejo. Ali estão as praias de banho, povoadas de automóveis, as choupanas cinzentas, o formigueiro humano que luta pelo pão e pelo amor, incessante e vário. Na atmosfera, quase sempre límpida, o azul do céu é profundo e distante, riscado pela nódoa rápida dos vôos fulminantes. Dali Natal mostra sua pobreza e seu futuro; sua multidão álacre e viva, seu combate no tempo, sua vitória no espaço.

( O livro das velhas figuras - VII , 2002, p. 187-188)

 

Esse recanto sem nome é escolhido para fixar a imagem saudosista de Itajubá:

 

(...) Ficou olhando, de costas para a cidade, o mar, os jangadeiros, as praias, os coqueiros oscilantes, as violas enfeitadas de fitas, os ventos largos que passam cantando nas areias e enxugam os grandes tresmalhos estendidos. Na sua poesia sonora e rude, ainda zumbem as cigarras do estio tropical, correm as "lavadeiras", sobem as sombras dos pau-d'arcos vestidos de ouro, e os montes se cobrem de platina nos luares românticos de agosto. Passa o olor agreste das resinas, recendem os bugaris e resedás amenos. Nos alpendres, balançam as redes, olhando o mar que sacode as jangadas afoitas. Naturalidade, nitidez, emoção, simplicidade. Todos os temas da poética de Ferreira Itajubá estão imóveis, fixados nesse recanto que Natal desconhece.

( O livro das velhas figuras - VII , 2002, p. 188)

Este trajeto, ainda que parcial e resumido ao máximo, é suficiente, acreditamos, para concluir que o principal elemento de apreensão da leitura de Câmara Cascudo é uma espécie de "critério de nacionalidade" aplicado à valorização do elemento local. Repercutem os traços da chamada crítica nacionalista de origem romântica, e ao mesmo tempo impõem-se elementos estéticos como definidores do juízo de valor.

Após a leitura do poema Terra Natal , de Ferreira Itajubá, reconhecendo imperfeições - "Erros, lacunas, falhas, poucas imagens, repetições de figuras, as mesmas recordações, glissades em gramática, vocabulário apoucado, monotonia em rimas, tudo isto se encontra a cada passo (...)" ( Alma patrícia , 1921, p. 123) - e identificando como ponto alto o cenário "nosso" - mar, jangadas, pico do Cabugi, luar, morros, cajueiros e mangabeiras, areia alva, canto dolente de lenhadores, multidão desconhecida de miseráveis... -, o leitor Câmara Cascudo compara Itajubá aos outros, para valorizá-lo:

 

(...) Gothardo Neto é um Casimiro de Abreu tendo lido Haeckel, Auta de Souza, suave mística, donzela hipersensível, não nos podia dar um livro regional, H. Casctriciano não é um poeta local, isto é, não tem escola genuinamente nossa, que o caracterize. Não possui um cenário que seja nosso. É um influenciado de Baudelaire, Mallarmé, Verlaine, Hugo, Lamartine, Leconte e o divino Heredia. Só Itajubá é nosso.

(Alma patrícia , 1921, p. 122-123)

 

A leitura dos pós-românticos parece ter sido fundamental para a produção poética do momento seguinte, pois foi a partir de uma tradição poética local, vista aqui mais como repercussão da tradição nacional constituída, e menos como uma tradição propriamente dita, autônoma, do processo nacional, que a poesia do primeiro modernista do Rio Grande do Norte - Jorge Fernandes - encontrou um meio de fixar uma raiz local, fugindo aos estereótipos regionalistas. Se ressoaram nos pós-românticos as vozes nacionais de Fagundes Varela, Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Raimundo Correia, Bilac, Alberto de Oliveira, e os portugueses, é no primeiro poema do Livro de poemas de Jorge Fernandes , publicado em 1927, que ressoa a voz dos seresteiros natalenses: "Sou como antigos poetas natalenses/ao ver o luar por sobre as dunas", afirma a voz lírica que, de forma irônica, irá desmanchar muito do véu saudoso que se formou em torno daqueles antigos poetas.

A esta altura, vale salientar que a mesma leitura dos pós-românticos foi de fundamental importância para o posicionamento crítico do Câmara Cascudo modernista. Os seus "mestres do passado" foram também potiguares e ele, talvez graças àquelas leituras, tenha enveredado mais tarde pela pesquisa do elemento local como um modo de atingir os objetivos de definição da brasilidade modernista.

A recuperação dessas leituras tem o propósito de verificar o modo como se formam as dominantes - construtivas, segundo TINIANOV 13; culturais, segundo JAMESON 14 - de uma época, fundamentais para os processos de formação das tradições literárias. Neste caso, confirma-se a hipótese de que o movimento modernista brasileiro valorizou, com vistas ao seu projeto de brasilidade, determinados registros poéticos que iam ao encontro desse mesmo projeto.

O "derradeiro menestrel do Rio Grande do Norte" chegou a participar de um fluxo de circulação nacional, através de uma rede de leitores que, de forma descentralizada, permitiu uma visão da literatura brasileira a partir da produção local, sem que o chamado localismo significasse regionalismo. Pelo menos dois leitores reclamaram a inclusão do seu nome no circuito da literatura brasileira lida nacionalmente. Um deles foi o crítico João Ribeiro que, a partir da leitura cascudiana, afirma: "Eu quisera, pois, que se fizesse alguma justiça retrospectiva a esse poeta que não quis repetir os lugares comuns da mitologia arcádica nem o pedantismo da chamada literatura sertaneja, nem a ênfase do mendubi torrado na Paulicéa". 15

O outro leitor foi Mário de Andrade que, de passagem por Natal em janeiro de 1929, registrou no seu diário de O turista aprendiz 16 a leitura que fez de Ferreira Itajubá:

 

Leio Ferreira Itajubá um dos nomes da poesia norte-riograndense. Dizem que era muito ignorante e felizmente parece mesmo. As idéias dele não vão além da conversa, o que inda pode ser uma pena, porém os versos não têm no geral requebros da poética que deslustram a naturalidade do lirismo. ( p. 280)

 

Recuperar tais leituras para a discussão atual significa dar andamento, de forma continuada, a um projeto de estudo da história da literatura brasileira: não se trata, no caso, de um projeto de escritura de histórias das literaturas estaduais ou regionais, e sim de um projeto de leitura dessas literaturas, com vistas a uma (re)leitura da(s) história(s) da literatura brasileira enquanto um sistema já consolidado e com uma tradição em processo, nos termos definidos por Antonio Candido 17.

 

 

CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura oral no Brasil . 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia/São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1984.

CASCUDO, Luís da Câmara. Alma patrícia : crítica literária. Natal: Typ. M. Victorino, 1921.

CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade . 6. ed. Rio de Janeiro: Ed. Nacional, 1980.

CASCUDO, Luís da Câmara. Para fazer um romance... . A República , 08 dez 1929.

CASCUDO, Luís da Câmara. Introdução. In: AÇUCENA, Lourival. Lerênio (Joaquim Eduvirges de Melo Açucena). Versos reunidos por Luís da Câmara Cascudo. 2. ed. Natal: Editora Universitária, 1986, p. 25-26.

CASCUDO, Luís da Câmara. Uma antologia de poetisas norte-rio-grandenses. In: . O livro das velhas figuras - VII . Natal: Sebo Vermelho, 2002. p. 49-51.

CASCUDO, Luís da Câmara. Joio : páginas de litteratura e crítica. Natal: Off. Graph. d' A Imprensa , 1924. p. 108.

CASCUDO, Luís da Câmara. Nosso amigo Castriciano, 1874-1947: reminiscências e notas. Recife: Imprensa Universitária, 1965. p. 29-30.

CASCUDO, Luís da Câmara. Henrique Castriciano: educador, literato e político. A Imprensa , Natal, 09 ago. 1922.

Neste ano, o inglês Henry Koster descreve a "cidade". Cf. KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil . Tradução e notas de Luís da Câmara Cascudo. São Paulo; Rio de Janeiro; Recife; Porto Alegre: Companhia Editora Nacional, 1942.

Atribuído por Câmara Cascudo a J. C. Fernandes Pinheiro, que escrevera o trocadilho em dezembro de 1871. Segundo o mesmo autor, em 1872 o Dr. Henrique Pereira de Lucena via Natal como "uma vila insignificante e atrasadíssima do interior" (Cf. CASCUDO, 1986, p. 19-20).

Os póstumos são: Versos (Lourival Açucena, 1920), Folhas mortas (Gothardo Neto, 1913), e Terra Natal (Ferreira Itajubá, 1914). Horto (1900) de Auta de Souza, teve uma segunda edição em 1910. Henrique Castriciano constitui exceção, uma vez que já publicara Iriações (1892), Ruínas (1898) e Mãe (1899). No começo do século, publicou ainda Vibrações (1903) e O aboio (1904).

TINIANOV, j.. Da evolução literária. In: TOLEDO, Dionísio (Org.). Teoria da literatura: formalistas russos. 4. ed. Tradução de Ana Maria Ribeiro Filipouski [et al]. Porto Alegre: Globo, 1978. p. 105-118.

JAMESON, Fredric. Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. Tradução de Maria Elisa Cevasco. São Paulo: 1996.

RIBEIRO, João. O poeta da terra Natal. A República , Natal, 06 abr. 1926.

ANDRADE, Mário de. O turista aprendiz . Estabelecimento de texto, Introdução e notas de Telê Porto Ancona Lopez. 2. ed. São Paulo: Duas Cidades, 1983. 1983

CANDIDO, em: Formação da literatura Brasileira (Belo Horizonte; São Paulo: Itatiaia; Ed. da Universidade de São Paulo, 1975); Literatura e sociedade (Rio de Janeiro: Ed. Nacional,1980); A educação pela noite e outros ensaios (São Paulo: Ática, 1987. p. 140-162: Literatura e subdesenvolvimento).