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Juan Rulfo e Graciliano Ramos: duas visões trágicas da história latino-americana
Hermenegildo Bastos (UnB)

Quando se trata de estabelecer comparação entre Juan Rulfo e algum escritor brasileiro, o nome que imediatamente vem à mente é o de Guimarães Rosa. Sem querer me contrapor a isso, neste trabalho procuro estabelecer outra comparação: a de Rulfo com Graciliano Ramos, mas não para dizer que há mais traços comuns entre Graciliano e Rulfo, o que não teria pertinência teórica ou crítica. O que pretendo é pôr em discussão os marcos históricos ou as etapas de evolução da narrativa latino-americana. Creio que a idéia de uma nova narrativa, de caráter formal e político-revolucionário - a que pertenceriam Rulfo, Guimarães Rosa e outros - se mostra hoje, passado o momento de grande expectativa de superação de nossa condição colonial, como uma espécie de sinal falso. Isso nos impõe voltar atrás e revisar o processo de evolução da narrativa.

O problema que aqui se coloca é um problema de poética histórica, isto é, procuro fazer uma investigação sobre os significados das mudanças literárias e sobre a possível correspondência entre elas e a vida social.

O conjunto de mudanças pelas quais passou a narrativa latino-americana nas décadas de 50 e 60 recebeu várias designações, entre elas "narrativa transculturadora" (Angel Rama) e "super-regionalismo" (Antonio Candido). Em geral, os críticos e historiadores acentuam a descontinuidade na passagem da narrativa anterior - chamada "regionalismo crítico" - à nova narrativa, o que está plenamente justificado, já que as mudanças foram decisivas para a configuração de outra maneira de narrar e de colocar-se frente ao mundo narrado. Mas o que aqui se busca é ver as mesmas mudanças na perspectiva da continuidade. Busco captar o jogo dialético entre descontinuidade e continuidade.

A visão que teve Angel Rama da evolução literária latino-americana esteve, creio eu, em alguns casos, muito marcada pela grande expectativa de mudança de nossa condição colonial. Hoje, passado esse momento, essa visão deve ser repensada no aspecto de certo evolucionismo segundo o qual a literatura seguiria uma linha de progresso.

A perspectiva que procuro pôr em ação aqui se formula a partir de uma idéia segundo a qual a evolução literária se apresenta ao leitor e ao historiador-crítico como um conjunto de resíduos do passado que podem ser a qualquer momento reativados em decorrência de novos fatos do presente. Haver uma linha evolutiva não significa dizer que o passado está morto e soterrado. Ele está vivo no presente e, no campo da literatura, pode ressurgir nos temas e também nas formas literárias.

É preciso, entretanto, fazer justiça a Rama. A sua concepção histórica é em geral muito mais dialética. A noção de "dupla vanguarda" implica uma idéia de evolução em que descontinuidade e continuidade se relacionam de modo dialético. Contudo, ainda assim, a sua visão da história paga muito tributo à idéia de ruptura.

Nas interpretações de Rama e Candido as mudanças literárias estão diretamente vinculadas a uma nova consciência da dependência latino-americana. Para Candido, ao regionalismo crítico corresponderia a "consciência catastrófica do atraso" e ao super-regionalismo, a "consciência dilacerada do atraso". Rama, por sua vez, chamou "narrativa transculturadora" a narrativa capaz de apropriar-se das novas técnicas literárias cosmopolitas para reativar a expressão das culturas latino-americanas. Tanto Candido quanto Rama pensam a originalidade das literaturas latino-americanas como o resultado de uma luta por não se submeter à imposição cultural: a atividade literária é uma forma de luta pela superação da dependência, literária e também política.

Segundo Candido a "nova narrativa" se define por um refinamento técnico que resulta em transfiguração do regional e subversão de seus contornos humanos. Com isso, os traços antes pitorescos se desencarnam e adquirem universalidade. Esta narrativa está nutrida de elementos não-realistas, como o absurdo, a magia das situações, ou de técnicas anti-naturalistas, como o monólogo anterior, o ponto de vista simultâneo, o escorço, a elipse. Segundo Rama, o narrador transculturador se reintegrou à comunidade lingüística e fala a partir dela e com seus recursos idiomáticos.

As leituras de Candido e Rama têm um fundamento comum: a percepção da literatura latino-americana como um lugar de conflito entre o local e o cosmopolita. A obra de Rulfo é considerada, junto com a de Guimarães Rosa e outros, como uma espécie de coroamento (síntese?) de um processo de depuração, através do qual as culturas locais chegariam a marcar presença na literatura, não mais como o registro da incultura, em geral expresso pelo personagem iletrado, mas como produção de obras de valor universal.

A minha questão está em avaliar o passo do regionalismo crítico ao super-regionalismo. Carlos Pacheco, por exemplo, entende que, se a definição de transculturação como nova etapa contrasta com o regionalismo precedente, isto não implica, entretanto, um rompimento drástico. Pelo contrário, os transculturadores são uma manifestação renovadora da tradição regionalista. 1

Segundo Carlos Pacheco, o contraste com a tradição regionalista precedente está na eliminação da distância entre a "correção", "o bom tom" (gramatical, ético, ideológico, cultural em geral) do narrador interno e as peculiaridades do universo regional representado. O controle autoral é abandonado. Mas Pacheco afirma que não se trata de uma expressão direta ou "desde adentro" de vozes e perspectivas populares, já que esta expressão só poderia ser exercida pelos membros das comunidades rurais respectivas.

Se na avaliação da passagem à transculturação prevalece a idéia de superação, o entendimento é de que houve um avanço ou uma conquista das culturas populares. Isso teria sido possível graças à superação do horizonte do realismo, dos paradigmas racionalistas burgueses, de cujo universo se excluiriam as culturas orais. Pelo contrário, no universo transculturador, o irracional e mágico, próprios das culturas orais, seriam o lócus de afirmação da voz subalterna.

Assim, essa nova narrativa seria, como afirma Martin Lienhard, uma "narrativa bicultural", capaz de criar uma ilusão de "oralidade escrita" ou "escritura oral". Lienhard afirma também que essa escrita não pode representar diretamente a voz das sociedades marginalizadas. Contudo, ainda que não seja a literatura dos setores marginalizados - pondera ele -, é possível que a esteja preparando ou mesmo antecipando. 2

A dificuldade está, penso, em identificar a antecipação o, ou que parece ser mais forte, a preparação. Haverá nas obras desses escritores, e em particular na de Rulfo, elementos formais que possam e devam ser tomados como tais? A questão que aqui coloco é, então, saber se a ficção de Rulfo, que representa um avanço no sentido da presença na literatura da voz popular, corresponde a algum avanço concreto na história social da América Latina. Em outras palavras: o avanço estético e literário conceituado na idéia de transculturação corresponde a algum avanço efetivo das classes populares na luta por sua independência?

No caso de Candido, penso que caberá algum dia empreender uma longa discussão sobre o papel que o conceito de síntese desempenha na sua crítica. Observe-se, de imediato, que não há crítica mais dialética que a sua. Aí a evolução literária é sempre a da retomada do passado para configuração do presente. Entendo que tomar ao pé da letra a concepção crítica de Antonio Candido implica conceber o processo histórico como um movimento de constante reabertura das sínteses, o que leva ao surgimento de novas teses. Se Machado de Assis é a síntese de seus predecessores, como pensar o processo que reatualiza José de Alencar em Mário de Andrade e Guimarães Rosa, senão nessa perspectiva?

Para equacionar a questão, elegi contrapor a obra de Rulfo à de Graciliano Ramos, procurando entender se, em contraposição à ficção realista, a narrativa de Rulfo pode se tomada como uma forma de antecipação de avanços sociais efetivos.

Na obra de Graciliano, o silêncio do personagem contamina a linguagem do narrador. Duas características de Graciliano - o laconismo e a aspereza de linguagem - não decorrem de uma escolha estilística, mas de uma ocupação do espaço da literatura pelo iletrado. Como diz Antonio Candido, o narrador de Vidas secas é uma espécie de procurador do personagem. Desta forma, o personagem está legalmente presente, mas ao mesmo tempo ausente. 3 Sobre Vidas secas , Antonio Candido assinala ainda a aparente neutralidade do narrador. 4

O narrador de São Bernardo é um homem iletrado e rude, incapaz de levar a cabo o desejo da escrita. Poderia ser tomado como inverossímil. A verdade é que encarna uma forma de ficcionalização da oralidade. É um artifício de escrita que permite ao autor aproximar-se da linguagem popular.

Como se pode ver, também Graciliano maneja a linguagem com o propósito de garantir um lócus de enunciação à voz popular. Se assim é, ou ampliamos as datas do começo da transculturação ou nos dispomos a reconsiderar a validez do próprio conceito.

Nesse direção se coloca o crítico Neil Larsen, para o qual não existem bases suficientes para que se possa assegurar que a ficção rulfiana é a encarnação da literatura da voz popular. Diz ele que a idéia de transculturação serve para dissimular, com um tipo de jogo demagógico, uma representação reacionária e patológica da cultura rural.

No processo de transculturação, qual é o termo - cidade ou campo, escrita ou oralidade - que tem o papel ativo? A verdade é que cidade e escrita são os termos mediadores, campo e oralidade são os mediados. 5 De acordo com esse raciocínio, o abandono do controle autoral a que se refere Carlos Pacheco não é um sinal de ascensão da voz subalterna à superfície do texto.

Segundo Larsen, a força de Rulfo deve pouco ou nada à questão da experiência cultural e muito à questão da experiência histórica. A obra de Rulfo é uma ficção sobre a história, não sobre a cultura. É a experiência histórica de uma não-contemporaneidade o que está na origem do estilo de Rulfo. O que temos é a história de um lugar subterrâneo ou recalcado, a história de um passado que não tem conexão com o presente a partir do qual se revive, um passado que se torna o próprio presente. Rulfo rechaça a crença no presente da modernização. É esta negatividade que dá a sua escrita uma verdade artística profunda.

Creio que devemos estudar a tensão entre presença e ausência de oralidade como uma contradição própria do fenômeno literário em situação colonial: o texto literário como a escrita de uma contradição ou uma escrita contraditória. O texto, dizem Balibar e Macherey, é materialmente incompleto, chocante, incoerente, porque resulta da eficácia conflitiva, contraditória, de um ou vários processos reais superpostos que não ficam abolidos nele salvo de modo imaginário. 6 Em nosso caso, os processos reais superpostos são a escrita e a oralidade enquanto práticas discursivas exercidas, de modo desigual e conflitivo, no interior das sociedades latino-americanas.

A literatura, dizem ainda Balibar e Macherey, começa como uma solução imaginária das contradições ideológicas irreconciliáveis, com a representação de uma tal solução. O "escribir como se habla" de Rulfo pode ser tomado como a solução imaginária da contradição?

Em Rulfo temos a confrontação de várias culturas. Seus elementos são as partes hierárquicas e contraditórias de uma realidade cultural heterogênea. A confrontação das diferentes culturas é a escrita da reconciliação ou a escrita da impossibilidade de conciliar?

As respostas de Rulfo e Graciliano ao processo de modernização imposto pelos países centrais é radical. Cada etapa da modernização na América Latina vem agravar os problemas da etapa precedente. A literatura é também uma crítica dessa modernização. Mas não escapa à perversão que quer denunciar. Disso resulta algo que é decisivo em Graciliano e Rulfo: a questão da literatura, a literatura como questão. O autoquestionamento literário consiste em tomar a literatura como parte do processo de modernização que ela mesma denuncia.

Segundo Candido (em "Literatura de dois gumes") e Rama (em A cidade letrada ), a literatura sempre esteve comprometida com os interesses dos colonizadores. A literatura exercida nessas condições é sempre uma literatura que se questiona. Não é uma atividade inocente, não é um instrumento neutro. O que temos é uma literatura contra a literatura.

O que chamo visão trágica da história latino-americana é uma visão da história como a de uma impossibilidade ou de uma possibilidade que, passado o seu momento histórico, se esgotou. Considerando a situação atual das culturas populares na América Latina, o avanço literário característico da narrativa transculturadora de fato não corresponde a nenhum avanço histórico efetivo das classes populares. Não cabendo na noção de transculturação, a ficção de Graciliano e a de Rulfo podem ser entendidas nos termos da consciência dilacerada do atraso, mas mesmo assim teríamos que rever as datas e os cortes.

 

(A minha participação no IX CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC foi possível graças ao apoio da FINATEC - Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos).

 

 

- Pacheco, Carlos. "Trastierra y oralidad em la ficción de los transculturadores". Revista de Crítica Literaria Latinoamericana. Año XV, núm. 29, 1989, p. 32.

- Lienhard, Martin. "El substrato arcaico em Pedro Páramo : Quetzalcóatl y Tláloc". In: Rulfo, Juan. Toda la obra . Madrid, Paris, Buenos Aires, São Paulo, Rio de Janeiro, Lima: Colleción Archivos, 1996, p. 128.

- Candido, Antonio. Ficção e confissão. Ensaios sobre Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992, p. 106.

- "Literatura, espelho da América?". Remate de males. Número especial, 1999, p. 112.

- Larsen, Neil. "Rulfo and the transcultural: A revised View". In: Determinations. Essays on Theory, Narrative and Nation in the Americas. London-New York: Verso, 2001.

- Balibar y Macherey. "Sobre la literatura como forma ideológica". In: Althusser, Poulantzas et alli. Para una crítica del fetichismo literario. Madrid: Aka. Editor, 1975, p. 33.