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A questão da literatura brasileira diante da pobreza: alguns apontamentos a partir da obra de Roberto Schwarz.
André Matias Nepomuceno (UnB)
É sabido que se pode tomar como uma tese central da obra de Roberto Schwarz a problemática de uma negatividade paradoxal na base da formação da sociedade brasileira. Vista em totalidade como resultado em processo de uma evolução deformada da perversa mistura de escravismo com verniz ideológico do liberalismo europeu. Ainda hoje, em conseqüência diversa, mas concreta no cotidiano de nosso dividido mundo social.
Dessa mescla anômala, ficou estabelecida, a nosso ver decisivamente, a presença da volubilidade como princípio formal estruturante do narrador machadiano(v. Schwarz, 2000). Da relação conflituosa entre base material e sistema ideológico flutuante, resta à exceção do autoritarismo aberto mais ou menos dissimulado a via do favor, para os não-proprietários. Um modo bem brasileiro de exercer a desfaçatez de classe, ou a submissão protegida e paternalista ou o desprezo excludente. Condição esta última em que não haveria exagero em definir por natural, da qual a vítima, até por sobrevivência, se vê forçada a fugir. Mesmo ao preço da anulação de qualquer mérito ou valor do trabalho.
Em brevíssima aproximação, para Schwarz a obra madura de Machado tem por elemento profundo de composição a simultaneidade desigual de parâmetros europeus realizados na particularidade periférica brasileira. Demarcando com muito engenho e acuidade a relativização mútua e recíproco espelhamento encarnados, por exemplo, na suspeitíssima e reiterada alternância de critérios díspares com que o defunto autor se compraz em provocar o leitor.
Por essa dupla via desigualmente combinada podemos inferir a presença de uma reflexão densa, que maximizando o recurso à veia satírica pensa e faz pensar a partir da fratura social os efeitos brutos e simbólicos de nosso colonialismo genético.
Se na formação do sistema literário nacional, culminante em Memórias Póstumas de Brás Cubas , admitimos uma vacilação epistemológica entre ciência da história e acumulação estética, em vista do paralelismo tido como uma nossa característica de ao mesmo tempo ser a literatura contemporânea ativa da consolidação da nação, podemos tomar nessa obra com nota forte o registro da desafinação e do descentramento com lastro na desproporção liberal-escravocrata acima abordada. O que se revela com clareza meridiana, por exemplo, na estilização do limite de contravenções tão brasileiras como: a ingenuidade, a tagarelice, a estreiteza, o servilismo, a grosseria, até a brutalidade aberta, entre tantas outras que desfilam pelo romance e, basta olhar o cotidiano, pelas ruas e interstícios de nosso cotidiano.
O sadismo e o cinismo do narrador volúvel por excelência, constitui um princípio de voz articuladora que desencadeia, sob viés de um membro da classe dominante, uma pluralidade bastante indicativa da presença recíproca de diversas posições de classe; valorando-as objetivamente, se se tem em conta a posição secundária, mas essencial à composição, dos personagens que servem ou dos quais se serve o narrador.
Para além de suas cabriolas retóricas, o tratamento estético dessa diversidade social traduz um realismo intensificado, que objetivamente resulta numa perplexidade incômoda que indaga do grau de cumplicidade do leitor.
Relativizando esse aspecto central de retórica volúvel constitutiva, vemos que perpassa ao fundo do romance a divisão bruta do trabalho, a fundação de uma realidade interna sobre o pilar da violência desmedida.
Isso parece bem provocar a questão da pobreza como problema presente na própria formulação do narrador. Analisar alguns traços desse centro de gravidade como componente crítica a partir da elaboração de Schwarz, seja a respeito de Machado, seja como chave a ser elucidada na composição de outros autores, será o propósito desse trabalho.
Desnecessário dizer, cuja pretensão é apenas de exercitar essa ferramenta analítica, no sentido de reforçar a atenção para o modo em que, guardada a singularidade de cada obra, frente a generalidade histórica brasileira, ela pode se compor como fator decisivo de inquietação ao leitor.
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Já na coletânea organizada nos anos 80, Os pobres na literatura brasileira , Schwarz levantava na apresentação a situação da literatura diante da pobreza como uma questão estética radical, fundamental aos olhos criticamente atualizados.
Ali, em seu ensaio que enfocava a personagem das Memórias Póstumas , dona Plácida, apontava a presença de um nó caracterizado pela falta de garantia para os pobres em nossa sociedade, aos olhos e fatos da elite. Evidenciava o mecanismo de dupla perversidade predominante na hierarquia social: se trabalham, só vem o reconhecimento, e a remuneração, com favor e a muito custo; se não, são mesmo uns desclassificados, e aí é que não merecem crédito.
Barra-se o encarreiramento honesto e independente, sob o epíteto de presunção; por outro lado, destila-se desprezo, se não alcança essa condição esperada. É a armadilha ideológica que possibilita a concretude dos modos de exercício cotidiano da desfaçatez de classe : informalidade, dependência, favor. Agregação pelo paternalismo, implicando cooptação submissa, conveniência ou conivência. Todos esses fatores pintados com as tintas do pitoresco, da pseudo-cordialidade funcional, mas que não engana o desnível abrupto para o lado dos fracos na hora-da-verdade. Ou seja, quando o ônus do trabalho concreto ou o abuso da força exige definição de objeto.
As idas e vindas, viravoltas, dessa narrativa machadiana alcançam uma função iluminadora ao enfatizar essas piruetas ideológicas sobre e dentro de um fundo material. Das tensões existentes, localizáveis na obra, entre a brutalidade pura e as estratégias de adaptação, cooptação e relativa resistência, bem como, pelo inverso, no exercício ao fim taxativo da força pelos de cima, resulta uma prospecção não-dogmática que solicita o debate sobre as classes sociais e sua conformação histórica no Brasil.
Considerando que a volubilidade tão caracterizada no romance de Brás Cubas é traço atualíssimo de nossa realidade presente, esse viés de análise assentado na verificação dissimulada ( até onde possível ) da violência de classe sob capa liberal, temos um instrumento valioso de conhecimento pelo confronto, pelo contraste do qual importa analisar o que sobra e para quem. Ou seja, quando ao pobre não é facultada a possibilidade de autonomia, de qual democracia se pode falar?
Pelo amálgama da crise literária, num estilo que não se estabiliza na tonalidade clássica de um narrador sincero ou minimamente coerente, somada a crise social
representada na ausência de lugar digno para o trabalho num ambiente social de origem parasitária, mais a crise de consciência de um personagem que tem de racionalizar todo o tempo mesmo quando renuncia a tanto e assume o arbítrio baseado na prática de classe, põe-se o leitor também em crise : sobre quais alicerces ele próprio repousa suas convicções e ações cotidianas, em que é vítima ou beneficiário da volubilidade? A qual, contudo, não relativiza a propriedade como valor definidor de poder.
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Em Conversa sobre Duas Meninas (1999), Schwarz reforça a análise da estruturação interna para diferenciar a posição política da crítica em relação à produção no plano da análise estética, vista como ponto de partida.
Após ressaltar que considera a análise da posição dos pobres e sobretudo da elocução dessa posição na composição, reforça que "Seja como for, o passo da generalidade bem-intencionada ao esforço real de conhecimento é difícil de dar."(p. 231)
Ou seja, o problema da relação de classes na situação narrativa passa pela prevalência da forma como evidenciadora de contradições. Como reitera em Outra Capitu(1997,p.98), a organização subterrânea da narrativa é traçada pela"pauta secreta" dos antagonismos de classe, independentemente da intenção autoral. Diferenciado em plano de pretensão de elaboraçao estética e formal literária, em relação a Minha vida de menina , de Helena Morley, o Dom Casmurro de Machado, trabalha o enredo como "instrumento de prospecção"(id., p.99).
Ao sintetizar essa composição a voz reveladora se revela e descortina o narrador atrás do narrador. Pelas resultantes dos elementos de força, tais como a dominação e a exploração, de comportamentos, bens, trabalho e a própria trajetória de existência, o recorte feito por esse último narrador afinal, determina a hegemonia que predominará no texto. Tanto no caso de Bentinho, como no de Brás Cubas, membros da elite que dão a sua versão dos acontecimentos e justificam a necessidade de narrar como um ajuste de contas, que no entanto não se sustenta diante das inconsistências perpetradas, por exemplo, entre sua posição de proprietários e supostas idéias, digamos, humanitárias de cunho universal.
Está claro na análise schwarziana sobre os dois romances que o engodo de fidelidade à linguagem, o recurso ao crédito pelo bem executar da fatura e da concatenação da história, exigido como petição de valorização pelos personagens-narradores cai por terra quando, pela composição do segundo narrador, o narrador implícito, se percebe que aquela alegada credibilidade de uma autonomia da linguagem choca-se com sua contradição frente à relação social. O narrador não pratica o que diz, e aliás, diz contradições até logicamente incoerentes.
É em boa parte desse choque que se pode mapear como fator decisivo de análise a especificidade das relações sociais na obra de arte literária, como mecanismo social que se estrutura internamente, sistema social implícito que toma a ideologia como presença na configuração da forma.
Não é, assim, nos conteúdos que o sistema da boa obra literária se estrutura. Resultados conceituais reveladores decorrem, nos bons escritores, dessa tensão, desse choque constitutivo na e da própria forma como contradição entre o dito e o feito. No caso dos dois romances citados de Machado, na estapafúrdia construção de um discurso racional moderno ou civilizatório de modelo europeu,
calcado frente ao exercício arbitrário e aleatório da força e do privilégio, somados à manobra matreira de induzir a auto-absolvição pela inversão da vitimização.
Destacada essa matriz de traços derivados da tensão entre discurso e realidade objetiva social, muito evidenciada pelo avanço da literatura brasileira, desde sua formação, até hoje, bem como de sua crítica, podemos nos perguntar sobre qual a forma do Brasil contemporâneo.
Fica então posta ao estudo crítico de nossa literatura mais que a análise, a responsabilidade potencial em estabelecer traços simbólicos de nossa constituição social de base histórica extremamente perversa. Essa potencialidade da crítica literária atenta aos antagonismos de classe na própria estruturação da obra, delimita-se com mais clareza na perspectivação com as ciências sociais brasileiras, até hoje carentes de um realizador a altura de um Machado, por analogia em relação à formulação de nossa complexidade cultural peculiar, e a nosso pensamento histórico.
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É por considerar a extensão e profundidade da especificidade das relações sociais brasileiras, e seus conflitos específicos, como quesito fundamental, que Roberto Schwarz aponta lucidamente a análise da posição social do narrador, e em particular da presença dos pobres na literatura brasileira, como programa de estudos: "A retomada e a exploração literária, em verso quanto em prosa, da especificidade das relações sociais brasileiras até aqui praticamente não foi objeto de pesquisa. Insisto nisso porque vejo aí um programa de estudos". (op. cit., 1999, p.230-1).
Para ele, a invenção da forma é livre, mas não arbitrária.
Formulação que reconhece precedente em Antonio Candido, também como programa executado com destaque em seu marcante ensaio Dialética da Malandragem, sobre Memórias de um Sargento de Milícias .
Conforme analisa o procedimento de Candido, conclui tratar-se de 1)captar as peculiaridades de um modo-de-ser; 2)identificar o fundamento histórico-social desse modo; e, 3)realizar o confronto comparativo ( no caso com formas de vida puritana que a ficção norte-americana correspondente tratava ) entre a descolonização incompleta e o ufanismo(v.Outra Capitu, 1997, p. 134 ).
No sequenciamento desses passos, como no exemplo demonstra a peculiar luta dos homens livres para (sobre)viver entre a ordem sistematicamente iníqua da herança colonial e seu desfile de horrores a desmentir a falácia do modelo de racionalidade burguesa, e a desordem na qual o trato com a lei ou sua ausência conveniente demanda malícia, coloca-se ao crítico posto nessa posição crítica a argúcia de procurar "(...) saber o que temos para oferecer ao mundo e o que lhe queremos tomar."(id.,135)
Pergunta que se transporta como problema de nosso presente mais 'da hora'.
Voltando a Memórias Póstumas , a volubilidade como constituinte formal
ganha vulto como sintoma e artifício, por justamente não poder intervir sobre a realidade materialmente formada, ela própria enrijecida na contradição de assimetria social brutal. Da contingência adversa de que parte o escritor, chega-se, passando pela acumulação estilística e temática da tradição romanesca anterior e pela injunção de formas modernas dissonantes, à formalização literária de contradições ideológicas, culturais e morais ( num sentido amplo comportamental ) a uma forma objetiva.
O narrador bem sucedido não pode escapar a salientar o ingrediente político do antagonismo social, e chama assim, pelo choque das incongruências, o leitor à "vida desperta".
Nesse percurso, a ironia e o sarcasmo, bem como a auto-ironia são ingredientes de peso destinados a incomodar o leitor que procurasse mero 'alheamento' romanesco.
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Em chave diferente, por não pretender a elaboração literária em grau superlativo superador da tradição, o diário de Helena Morley, Minha vida de menina , analisado por Schwarz no já mencionado Outra Capitu ( In: Duas Meninas , 1997 ),
assume um tom de um encanto peculiar , de poesia sem aviso prévio, ao mesclar o gênero de diário familiar, redação escolar e conversa alegre.
A comparação com Capitu deve-se, na origem, ao caráter comum de personagens femininas pobres que não capitulam, entram em ação, estabelecendo um contraponto emancipatório na economia do texto, mas não só, pois referem, de modo diferente, aspectos sociais também externos.
No caso do Diário, calcado num interregno histórico de formas de liberdade e afrouxamento da dominação social no interior de Minas Gerais. Entre a abolição e a decadência econômica ( da mineração que era centro de gravidade ), o período possibilitou florescer um grau assinalável de trabalho livre ainda não alienado. Condição que levou a uma "harmonia precária", decorrente da pausa no ritmo da exploração mercantil.
Por uma série de fatores elencados pelo crítico, a narradora alcança uma tensão de racionalidade acima da esperada crônica de província, tecendo a consideração de pontos de vista socialmente complementares num viés anti-segregacionista, revelador de uma capacidade de individuação reflexiva. O que possibilitou uma elocução autônoma e que, segundo o crítico, nos deixa, sem favor "(...)diante da multilateralidade abundante e diferenciada que distingue o grande romance realista."(op.cit.,p.87)
Nessa multilateralidade está como diferencial a reflexão singela centrada na prática do cotidiano, no qual pela acuidade e tonalidade da prosa, leve mas séria em suas tomadas de pontos de vista, desperta a atenção para as imposturas da superioridade de classe no arremedo de simpatia aos humildes.
Desvela assim o otimismo ingênuo da cooptação pelo apadrinhamento, pela anedota sobreposta ao moralismo de fundo autoritário tradicional; desmonta o preconceito, o privilégio, o patriarcalismo e a carolagem. Essa visão desassombrada, simples mas revestida de complexidade pelo caráter relacional de tratar o destino coletivo do pobre, e de todos, numa narrativa ágil, irrequieta, indicadora de uma indignação que beira o romântico sem descambar para o sentimentalismo ou a literatice patrioteira com pitadas de pitoresco localista apriorísticos, leva a um sentimento de solidariedade ativa e abertura a um brasileirismo interior "diverso e melhor".
Nesse interregno de afrouxamento do torniquete mercantil extrativista ( traço de exploração colonial ), uma adolescente parte também da contingência para elaborar numa forma peculiar a verdade social por meio do contraste. Novamente vemos o estilo, o tom e o ritmo, bem como a matéria social, implicarem-se mutuamente na formação estética sobre a formação social, e na presença desta no interior daquela, configurando obra do mais bem sucedido realismo literário.
Diferentemente de Brás Cubas, no qual a alta elaboração literária era fim e conseqüência desde a origem, Minha vida de menina guarda um frescor
e uma agilidade oposicionista que chegam até os dias de hoje carregados de um certo gosto de utopia brasileira libertária, nada ingênua, mas instigante exatamente por historicizar com graça as determinações da barbárie que predomina entre nós.
Certamente, esse acento positivo e simpático, bem diferente de Brás Cubas e Bentinho, por meio dos quais muitas vezes da vítima se faz carrasco e vice-versa,
deve-se em boa medida ao fato de que "(...) o viés da desbarbarização no caso não é anti-popular."(id., p.129)
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No ensaio Cidade de Deus ( Seqüências Brasileiras , 1999), Roberto Schwarz comenta o romance de Paulo Lins como "um acontecimento".
O mérito do livro estaria em reunir em mescla particular as pautas clássicas da vida popular brasileira, tratando do contraste entre o sonho algo entorpecido de um futuro ( que não vem, ou chega como pesadelo ), das contradições entre a boa intenção, a ambição modesta, a busca de conselhos paternais(ou paternalistas) e de proteção mística, vis-a-vis as irregularidades e crimes cometidos ao arrepio da lei.
Aliás, no recorte ficcionalizado da favela cidade-de-deus, espaço no qual circula a quase totalidade da narrativa, a lei é outra, ou não é.
A forma da crueldade impera nas múltiplas modalidades de assaltos, assassinatos, crimes sexuais, mutilações, matança e/ou violência generalizada por disputa pelo tráfico, rixas de quadrilhas, afirmação de liderança de bandidos ( e aqui se destaca a positivação da atrocidade pela afirmação midiática, sem, é claro, cachê, mas como ganho de 'performance' bandida ), conflitos com a polícia corrupta ou brutalizada. O que chega a configurar uma certa monotonia repetitiva, cuja função escatológica cabe ao leitor valorar, mas que faz parte da ênfase pretendida do conjunto. A trivialização da morte agudiza a situação de modernidade perversa, jogando na cara a intimidade com o horror.
O tom inicial, e perpassado por vezes em rasgos líricos alinhavados pelo narrador, diretamente ou pela mediação de alguns de seus personagens, permite confrontar a constelação de um certo otimismo progressivamente esmaecido frente ao paroxismo de pobreza,desemprego,cadáveres,favela desprovida de bem público.
É sintomático que os escalões superiores, como governo e mercado, não aparecem. A fratura social é expressa com a ausência institucional do espaço público. Um território deserdado da lei supostamente universal.
Ao elemento negativador de perpectivas pela pobreza, soma-se a injustiça flagrante e conflagrada na insistência com que, ao cabo da leitura o que se depreende é que os "bichos soltos" revelam-se meninos negros mortos. O que não é fator acidental, e faz perguntar qual é a perspectiva histórica possibilitadora de um tal enredo calcado na destrutividade intransitiva e socialmente confinada.
Por reunir todos esses elementos em um longo fôlego, a forma do romance ganha peculiar feição de arte compósita. Agrega cotidiano, imaginação, pesquisa organizada; gênero mesclado entre naturalismo, antropologia, sensacionalismo, crônica da bandidagem e do tráfico, da brutalidade e da terminologia policial.
Cabe ainda aduzir a presença de uma nota lírica como recusa : poesia para fazer frente à miséria. Mas mesmo esse traço parece não vingar, pela adversidade face a uma bandidagem de motivação ora anti-social; diferente do passado, já tantas vezes romanceado sob a figura ambígua, algo romântica e versada do malandro.
Nessa faceta confinada da modernidade degradada e alienada, os pobres aí retratados são um exército de "sujeitos monetários sem dinheiro"(p.171), e o móbile de sua ação caoticamente destrutiva é o sonho regressivo comum da apropriação direta dos bens de consumo contemporâneos.
Cujo apelo motiva também a apropriação direta, mais ou menos criminosa, pelos 'de cima'. Sob a capa da legalidade e da mesma publicidade anuladora de repressão face aos deserdados pela ausência do espaço público, mas filtrada pela continência à autoridade ou status instituídos aos da ordem, como mediador do narcisismo selvagem.
Como bem anota o crítico, não é o atraso a causa, mas o resultado do progresso
que faz a permanência da clivagem antagônica do escravismo, em sua decorrência moderna de classe, agora abandidado ao bruto crime.
Mas qual o leitor que não se identifica com essa selvageria em parte fetiche da quebra imaginária de limite de nossa impotência? O que prende a atenção, além da curiosidade alimentada pela mescla composta de tantos fatores dispostos em particularidade singular, é a percepção de que a distância do romance evidencia uma paz de cera, uma violência de pavio curto. Cidade de Deus é Brasil explosivo para todos.
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Como vimos nessa trajetória com proposta de esquema, as idéias fora de lugar implicam a inserção peculiar de mecanismos sociais na estrutura da composição literária. No caso da obra crítica da qual abordamos alguns pontos referenciados mais diretamente na situação dos pobres como fator da narração em si, ressalta a importância da consecução de uma configuração de pluralidade na prospecção de conflitos, no modo pelo qual o narrador os elabora e diante dos quais se posiciona.
Como parte integrante, e como inventor autônomo mas não aleatório a trabalhar a forma literária na forma social, o escritor não pode se furtar a objetivar a composição como fatura realista. Ainda que pela ausência, deliberada ou relativa.
Do grau de maior sucesso nessa operação, depende o alcance do sentimento da História. Imaginação e composição, ritmo e movimento da sociedade (real e não retórica), portanto, são complementares na felicidade estética da obra literária, considerada também sua nota local.
O programa que eleva a generalidade do crítico ao conhecimento é, então, derivar dessas especifidades novos conceitos. Agregar valor de análise ao problema estrutural da cultura brasileira : curar ou disfarçar a ferida aberta pela economia colonial.
O interesse fundamental do crítico, como procurei traçar, ainda que tangencialmente, a partir de alguns exemplos da crítica de Roberto Schwarz, é a superação dessegregadora, a mobilização de uma reflexão emancipadora que integre a literatura brasileira, e sua análise, com a proposição de um processo civilizador para todos.
Ou que se revirem os defuntos leitores com a culpa e a cobrança da impagável, mesmo sob os prodígios da maior volubilidade, dívida da nossa desfaçatez de classe.
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Schwarz, Roberto. Os pobres na literatura brasileira (Org.). São Paulo: Brasiliense, 1983.
______________ . Outra Capitu. In : Duas Meninas . São Paulo: Cia. das Letras, 1997.
______________ . Cidade de Deus. In : Seqüências Brasileiras . São Paulo: Cia. das Letras, 1999 (pp. 163-71).
______________ . Conversa sobre Duas meninas. In: Seqüências Brasileiras. Cia. das Letras, 1999 (pp. 227-38)
_______________. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis . São Paulo: Duas Cidades; Ed.34, 2000.