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Os impasses da lei em "A cidade" de Murilo Rubião
Ana Laura dos Reis Corrêa (UnB)
No conto "A cidade", o personagem Cariba é o único passageiro de um trem que deveria conduzi-lo a uma determinada cidade, mas que, por razões desconhecidas, permanece parado indefinidamente na antepenúltima estação, submetendo o personagem à experiência angustiante do atraso excessivo e inesperado da viagem. A condição do personagem é, em certa medida, emblemática em relação à condição do escritor. O contista mineiro Murilo Rubião, precursor do gênero fantástico na literatura brasileira, encena em seus 33 contos publicados a aporia da antepenúltima estação. Não se trata de voltar atrás, como poderia indicar a retomada de um gênero que tem, em sua estrutura, as marcas do processo de modernização da Europa do século XIX. Tampouco se pode imaginar alguma possibilidade de que o trem siga adiante e chegue efetivamente ao lugar a que se destinava: uma cidade maior. A antepenúltima estação parece ser o lugar do escritor brasileiro que, na segunda metade do século XX, como nos ensina Antonio Candido, adentrou no super-regionalismo, e sofre a experiência dilaceradora da consciência do atraso excessivo, do descompasso fantasmagórico entre o processo de modernização tardia e a permanência das relações arcaicas de exploração entre os sujeitos e as nações centrais e periféricas.
Na dimensão social encontram-se as formas com as quais o escritor deve lidar e que participam da produção da forma literária que dá corpo à narrativa de Rubião. Assim, a dimensão social não é pano de fundo para a narrativa ou tema para o seu enredo, mas é, antes, fator constituinte de sua natureza e estrutura. É nesse sentido que a escolha do gênero fantástico se nos apresenta como um modo de o escritor encenar o conflito modernizador, enquanto marca do momento histórico que alimenta a sua obra. A opção pelo fantástico pode ser entendida, portanto, como uma edição atrasada do confronto vivido durante o processo de modernização europeu. Se na Europa do século XIX esse conflito entre a subjetividade e a mecanização e mercadorização do mundo teve no texto fantástico uma forma de encenação eficientente, no Brasil do século XX, Murilo encontra, na sobreposição entre o insólito e o banal típica do fantástico, a tessitura formal capaz de dar conta de um tempo fora dos eixos, que reúne o antes e o depois num mesmo lugar fantasmagórico: a antepenúltima estação.
Quando a literatura desembarca nesse lugar inesperado e indesejado, o resultado é sempre monstruoso e contraditório. De um lado está o lirismo passadista, de outro a presença burocrática e obscena da lei. Quando Cariba procura saber o motivo do atraso da viagem, não recebe uma resposta direta do empregado da ferrovia, que se limita a apontar para casinhas brancas dispostas assimetricamente num morro. O silêncio do funcionário e o cenário idílico da cidade desconhecida conduzem Cariba ao povoado, à procura de belas mulheres. Na primeira volta de reconhecimento, o personagem não vê o que esperava, ele só encontrará as belas mulheres mais tarde, em circunstâncias bem mais adversas. Embora não possa ver o que buscava, Cariba é visto pelos moradores do lugar que, já pelos seus trajes, o reconhecem como um estranho. A vestimenta de Cariba, ainda que fosse um traje usual em suas viagens, é um sinal da sua diferença espacial e temporal em relação aos habitantes da cidade. Em seus trajes Cariba leva o passado, a história de um outro tempo e de um outro lugar, estranhos aos moradores da antepenúltima estação. As transformações da natureza em matéria-prima e todo o processo de industrialização andam com ele pelas ruas da cidade, nas suas calças de veludo azul, no seu paletó xadrez, na sua valise de couro de camelo. As roupas de Cariba são uma referência histórica, espacial e temporal para o leitor, mas tal motivação realista torna-se suspeita a partir da sua total falta de significação para os moradores da cidade, aqueles que parecem nunca ter saído dali, do tempo fora dos eixos; o passado que veste Cariba não é o passado dos habitantes da antepenúltima estação..
A narrativa de Rubião, como a viagem interrompida ou desviada de Cariba, é uma experiência da natureza do esclarecimento. A trajetória da literatura brasileira, como o percurso de Cariba, sofre do mesmo descompasso espaço-temporal. O tecido do texto , como as roupas de Cariba, carrega nos seus fios o processo do entrelaçamento dos fios da história da nação em sua experiência traumática da colonização e da modernidade tardia. A narrativa apresenta trechos da história de um processo dialético de esclarecimento: entre a consciência amena do atraso - um lugar idílico, as belas mulheres, o lirismo, o ponto de partida esquecido no passado, a cidade grande para onde se destinava o trem - e a consciência dilaraceradora do atraso excessivo: um lugar em que o simples fato de se fazer perguntas transforma o sujeito numa entidade vazia, que pode ser preenchida por qualquer um que, desavisado, passeie pelas ruas da cidade, pois a lei "não esclarece nada sobre a nacionalidade do delinqüente, sua aparência, idade e quais os crimes que cometeu"(Rubião, 1998:61). O elemento altamente perigoso é produzido por uma lógica perversa, anunciada no texto por Viegas, a prostituta: "- Não me lembro do seu rosto, mas um e outro são a mesma pessoa." (Rubião, 1998:61).
Como participante do processo dialético de esclarecimento, a literatura, na antepenúltima estação, está entre a lógica de Viegas e o desencanto de Cariba que "compreendeu tardiamente que a sedução das casinhas brancas fora um ardil para atraí-lo ao vale" (Rubião, 1998:59). A participação da literatura na dialética do esclarecimento, segundo Adorno, se efetiva pelo seu papel na autopreservação do homem e na dominação da natureza por meio da transformação do dessemelhante, estremecedor e desconhecido no belo artístico, como forma de enfrentar o estremecimento. Tal processo é dialético porque:
"a substância dominada, oprimida e dissolvida pelo instinto de preservação, não é outra coisa senão a única parcela de vida em função da qual se definem os esforços da autopreservação, o que deve, justamente, ser preservado" (Adorno e Horkheimer, 1985:68).
O esclarecimento foi, portanto, a consciência de que o que se pretendia apreender pela dominação da natureza - a liberdade do medo da natureza desconhecida e a autopreservação do homem - havia desaparecido, estava alienado justamente pelo próprio ato da dominação do mundo natural pelo saber. Esse desaparecimento traz de volta a coação e o temor relacionados à ameaça de uma natureza não dominada. Assim, o esclarecimento critica e perpetua a coação e o estremecimento; ao se opor à natureza, a razão, dela excluída, "torna-se novamente natureza, ´regride` à natureza" (Zizek, 1992:39). A arte toma parte na dialética do esclarecimento na medida em que nela ocorre esse mesmo paradoxo.
No caso das literaturas periféricas, como a nossa, essa dialética é de segundo grau, isto é, não se trata apenas de que a literatura garante à nação a inserção no mundo do esclarecimento, mas de que o único modo de fazê-lo é auto-excludente, ou melhor, é preciso incluir-se no mundo esclarecido - o mundo europeu - e ao mesmo tempo tornar-se independente dele, criar um mundo autônomo e original, com o agravante de que só pelas formas literárias e modelos estrangeiros seria possível a emancipação desejada. O método crítico de Antonio Candido, com sua abordagem dialética do regionalismo, reconhece nesse processo de nossa literatura "uma forma aguda de dependência na independência"(Candido,2000:147). "A cidade" de Rubião encena o caráter traumático desse processo de esclarecimento pelo qual passou nossa produção literária. Cariba, ao passear entre os jardins das casinhas brancas, esforçou-se "para dar às palavras o máximo de cordialidade" (Rubião, 1998:58), entretanto seu discurso ameno e lírico, como o literário, não foi capaz de fazê-lo encontrar as belas mulheres e muito menos voltar ao trem e seguir viagem, rumo a uma cidade maior que ficou para depois. Ao contrário do que esperava, Cariba, com suas palavras cordiais e seu interesse pela cidade, paradoxalmente, distanciou-se irredutivelmente daquilo mesmo que buscava. A percepção do engano, veio tardiamente, quando o pegaram "com violência pelos braços e o foram levando, aos trancos, para a delegacia de polícia" (Rubião, 1998:58). O passeio ameno de Cariba tornou-se um pesadelo sem saída num mundo que , ao contrário do que pode parecer, não é sem lei, mas é um lugar em que a lei deixa ver sua desrazão e obscenidade.
A partir do momento em que Cariba é preso e toma consciência das condições em que se encontra, o conto, o mais kafkiano de Rubião, passa a ter como cenário a delegacia; aparecem as testemunhas, a autoridade, o delegado, o sargento, o indiciado; começam os interrogatórios e os depoimentos. Como não se encontrasse uma prova definitiva e o único ponto unânime entre as testemunhas era o fato de que nenhuma delas sabia descrever o aspecto físico do acusado, sua estatura, sua cor e em que língua lhes falara, o delegado encerra o assunto de forma instigante; ele diz: " - Tragam a Viegas, ela sabe!" (Rubião, 1998:60).
A presença de Viegas, a prostituta, é decisiva para o processo. Seu encanto seduz inteiramente Cariba, que, inicialmente, sequer pode escutar as palavras da mulher. Viegas narra uma história marcada pelo desencontro entre a narrativa e o fato. Aos poucos, Cariba, reencontrando-se com a realidade, consegue acompanhar o depoimento de Viegas. A prostituta narra um encontro que oscila entre o erotismo e a conspiração. Cariba, escutando-a, sente inveja daquele homem que teve o corpo de Viegas nas mãos, sem se dar conta de que esse homem era ele, conforme a própria Viegas sentenciou depois, fixando os olhos maliciosos em Cariba: "- Sim, é ele." (Rubião, 1998:61). Esse desencontro, essa inveja daquilo que não se viveu e que, simultaneamente, é computado como vivido é uma experiência que só pode ser vivenciada na antepenúltima estação. Se na vida cotidiana dificilmente podemos ou suportamos dar conta do antagonismo de nossa realidade, do profundo antagonismo de classe que determina as formas sociais, pela ficção é possível divisar os mecanismos invisíveis que estruturam a nossa sociedade. A literatura, como esse lugar da antepenúltima estação, supõe os antagonismos de uma genealogia histórica que, embora seja resultado de um passado literário, de um excedente de significado, de uma versão de Viegas, e ainda que tal genealogia não tenha existido, historicamente foi contada como uma ilusão compensadora, muito bem expressa no título de Novo Mundo, dado à América pelos colonizadores. No texto de Murilo, entretanto, a ilusão já não é compensadora, pois toda a promessa de gozo e de emancipação que ela encerra é claramente reificada. Murilo escreve de um tempo em que a mercadoria "ocupou totalmente a vida social" ( Debord, 1997:30) e, ainda, as práticas culturais. Na vigência da forma-mercadoria, no seu fetichismo, as promessas de gozo se fazem em bases fantasmagóricas. O caráter fantasmático dessas bases não enseja, é preciso asseverar, exatamente um elemento transcendente ou ausente, ao contrário, seu núcleo é o objeto, precisamente aquele que Marx descreve como metafisicamente físico, isto é, o objeto do qual não se pode gozar. A associação entre a lei e a prostituição - Viegas é aquela que dá a sentença final no inquérito sobre a prisão de Cariba - é uma marca dessa contradição projetada na troca de mercadorias e que designa a relação de dominação e servidão entre os homens aparentemente livres e, também, a aparente globalização do conhecimento e dos mercados entre as nações. No mundo da mercadoria, o gozo é uma obrigação. Com a sentença de Viegas, o conto se torna o espetáculo mecânico que transforma a violência num gesto estético imposto ao personagem e ao leitor, impedindo qualquer saída para fora do golpe. Não há vida, a literatura não apresenta nenhuma forma de redenção ou de prazer. Cariba não sairá da antepenúltima estação. Lá, não há carência exatamente, há o excesso e a mecanização que instauram a presença obscena e irracional da lei pelo gesto violento da narrativa que se repete como obrigação, escondendo o seu caráter repressor sob a sua forma de excesso imperativo. Todos os dias Viegas vai visitar Cariba na prisão; todos os dias ela lhe repete a mesma sentença, "- É você." (Rubião, 1998:63); todas as vezes " Cariba sente o imenso poder daquela prisão." (Rubião, 1998:63). Finalmente, Cariba recebe a visita das belas mulheres que procurava, elas de fato habitam a cidade e levam-lhe cigarros na cadeia, mas notam nos olhos dele o desespero por não poder abraçá-las.
Se para Cariba é impossível seguir viagem e fazer perguntas significa continuar aprisionado, para o leitor de Rubião a narrativa é uma maneira de se confrontar com os antagonismos que constituem a nossa literatura e a nossa nação.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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