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Estranhas travessias: a narrativa fantástica brasileira
Sandra Regina Chaves Nunes (UNIFIEO-LEI/USP)
A estranha ausência, que constata Sérgio Buarque de Holanda, em Visão do Paraíso , do “gosto da maravilha e do mistério”, nos escritos quinhentistas portugueses, pode ser sentida, também, nos nossos estudos literários sobre as narrativas fantásticas. Poucos ainda são os trabalhos que se dedicam a este gênero.
As narrativas fantásticas brasileiras ainda são pouco conhecidas aqui, no Brasil, e na América Latina. Murilo Rubião só torna-se um autor consagrado na década de 70, com o livro O Pirotécnico Zacarias , apesar de ter iniciado sua carreira literária em 1947. E apesar de ser o escritor mais importante do gênero no Brasil, a tradução da sua obra para os leitores hispano-americanos ainda não aconteceu. Dos críticos hispano-americanos somente Jorge Schwartz dedica um livro à obra do escritor mineiro. 1 Os estudos sobre a prosa fantástica latino-americana estranhamente não incluem a obra de Murilo. Nem o trabalho de Seymour Menton, Historia Verdadera del Realismo Mágico 2. que pretende ser a “verdadeira história do realismo mágico” inclui o autor. O crítico americano cita J.J. Veiga, mas desconhece o escritor mineiro. Nem mesmo Monegal, o maior dos críticos hispano-americanos, cita o autor. E o que causa estranheza é que outros autores brasileiros foram objeto de estudo do crítico uruguaio.
Recentemente, a editora Casa da Palavra lançou uma boa coletânea de narrativas fantásticas, Páginas de Sombra, Contos Fantásticos Brasileiros , recuperando histórias de alguns de nossos principais escritores – Carlos Drummond de Andrade, Orígenes Lessa, Lygia Fagundes Telles entre outros – e contradizendo a afirmação de que não há uma forte tradição do gênero nas Letras Brasileiras. Não podemos negar que o fato fantástico tem habitado os textos nacionais desde a primeira metade do século XIX, com Noite na Taverna , de Álvares de Azevedo. Encontramos suas marcas nas obras de escritores como Joaquim Manuel de Macedo, Machado de Assis, Monteiro Lobato, João do Rio, Mário de Andrade, Érico Veríssimo, Campos Carvalho, José Cândido de Carvalho, Otto Lara Resende, Guimarães Rosa, Osman Lins, entre outros. E, ainda, na obra de escritores como Murilo Rubião, J.J. Veiga, Jorge Miguel Marinho e Nelson de Oliveira.
Ao optar pelo fantástico , em O Ex-Mágico , o escritor mineiro Murilo Rubião causa a impressão de ter enveredado por um gênero sem antecedentes na literatura brasileira, e consegue, em certa medida, criar a ilusão de ser “iniciador” de uma tradição. Esta ilusão deve-se ao fato de Murilo Rubião ser o primeiro escritor a dedicar-se completamente ao gênero.
O fenômeno do boom , que causa dúvida quanto a sua característica – se é um fenômeno editorial ou literário, lança para o mundo -, com sua explosão, autores como Cabrera Infante, José Donoso, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Julio Cortázar entre outros. Um grupo de autores, com obras bastante díspares, torna-se internacionalmente conhecido. Monegal adverte que não é o boom internacional que torna estes escritores bastante lidos na América Latina. Para o crítico argentino, houve um boom interno que propicia o externo. Seguramente, é este boom , que invade a década de 70, o impulsionador da leitura de Murilo Rubião no Brasil. O livro O Pirotécnico Zacarias estoura em vendas após seu lançamento em 1974. E o autor que, neste momento, já havia publicado dois outros livros, torna-se conhecido do público leitor brasileiro.
A estréia literária, em 1947, de Murilo Rubião, é recebida com bastante surpresa pelos críticos da época, pois sua obra surge num momento em que a literatura brasileira está marcada pela prosa de cunho regional. Na leitura das primeiras críticas, percebe-se a impossibilidade de definição do que são seus contos 3, e um certo espanto, misto de incômodo, que provoca uma obra “tão diferente” no cenário da literatura nacional. O crítico Moacir de Andrade 4 comenta que a única coisa que se pode dizer com precisão é que são “contos de Murilo Rubião”. A afirmação fica mais clara quando observamos a diversidade da nomenclatura usada pela crítica para abordar o tratamento dado ao “real” pelo autor. Sua obra foi definida como pertencente ao fantástico, ao realismo mágico, ao absurdo, ao surreal 5.
Jorge Schwartz, em “A Ferida Exposta de Murilo Rubião”, artigo publicado em 1987, no Suplemento Literário do jornal Estado de Minas, diz que “a total ausência de uma tradição narrativa fantástica no Brasil cria um impasse quanto à definição do gênero no momento em que ele nasce das mãos de Murilo Rubião”. Nem o próprio escritor sabe como definir seus contos. Para o crítico é surpreendente a forma como, em 1943, Mário de Andrade tenta, através de suas cartas a Murilo Rubião, resolver a questão, dizendo que “para todos os efeitos vamos chamar de fantasia o que você mesmo ficou sem saber como chamar”. 6
As sugestões dadas pelo próprio Murilo Rubião, e por Mário de Andrade, para nomear a sua obra não incluem o termo “fantástico”. O que fazem é colocar a obra em sintonia com as tendências artísticas da época, como o surrealismo, com a livre associação das técnicas psicanalíticas, com o simbolismo e a alegoria. A estranheza aumenta pelo fato de Murilo Rubião surgir, em plena década de 40, sem conhecer Kafka, e outros hispano-americanos, e produzir contos na moderna tradição do gênero fantástico.
A inquietação que a obra muriliana provoca na crítica passa para o leitor, que num primeiro momento também não compreende bem o que é essa obra. Das inquietações provocadas por esta obra resta uma para ser pensada: como, em uma cultura que tem o elemento mágico presente em várias de suas expressões, há a ausência da percepção desse elemento em nossa tradição literária?
Sobre o papel da crítica, a observação de Octavio Paz 7 de que na América Latina como um todo há um descompasso entre a criação literária e a reflexão crítica sobre essa criação parece ainda válida. A deficiência ou a estagnação do discurso crítico é vista pelo autor como conseqüência da falta de diálogo, do isolamento de idéias e da desconsideração de projetos interpretativos de terceiros por parte dos intelectuais latino-americanos. Em função desses fatores, há uma continuidade de propostas críticas sem uma reflexão adequada nas discussões sobre questões de cultura e literatura latino-americanas.
Parece ser exatamente essa a impressão que temos quando nos deparamos com a crítica às obras de Murilo Rubião e, posteriormente, de Jorge Miguel Marinho. As reflexões sobre o fantástico e realismo mágico têm um distanciamento considerável entre elas. Notamos um traço comum no que se refere à obra de Murilo Rubião e que depois parece voltar nas críticas à obra de Jorge Miguel Marinho: a estranheza face ao fato fantástico. Em relação a Murilo Rubião, percebemos como a crítica se depara com uma obra inusitada sem saber ao certo como nomeá-la: surreal, fantástica, realista-mágica etc. Em Jorge Miguel Marinho, a estranheza desaparece, mas fica a confusão da nomenclatura, e a crítica se repete sem uma análise mais profunda do que o fantástico representa na nossa literatura. 8
Cabe a observação de que, no caso de Jorge Miguel Marinho, mais que em Murilo Rubião, estamos diante da crítica jornalística que tem apenas o limite preciso de uma coluna semanal, não havendo, portanto, possibilidade de uma análise mais aprofundada da obra. Mesmo assim, nos quase cinqüenta anos que separam as obras de Murilo Rubião e de Jorge Miguel Marinho, vemos poucos trabalhos que se dediquem a tocar no que representa o fato fantástico na nossa literatura.
Os artigos publicados após o lançamento de O Ex-Mágico falam da semelhança entre Murilo e o escritor tcheco Kafka 9; essa comparação, contudo, será deixada de lado posteriormente, nos trabalhos que se voltarão para a obra do escritor mineiro e suas particularidades. A multiplicação, a metamorfose e a esterilidade, sem dúvida características marcantes, também foram citadas em diversos artigos, assim como a condenação de personagens que não conseguem sair do círculo vicioso criado por eles próprios. Fica também muito marcado pela crítica seu gesto de escrever e reescrever seus contos, além da questão do “gênero” de sua literatura.
Em um dos primeiros artigos sobre a obra do escritor mineiro, Álvaro Lins, em 1947, no artigo “Os Novos” 10, aponta para a originalidade e a unidade da obra do escritor mineiro. O crítico ressalta sua qualidade de precursor da literatura fantástica no Brasil. Aponta também para a semelhança, em alguns momentos, entre o escritor mineiro e Kafka. Essa semelhança se daria no tratamento objetivo e exato do imaginário, e na criação de um mundo que se difere, pelas situações de movimento, tempo e causalidade, do mundo “real”, embora tenha em si as mesmas coisas e pessoas deste. No entanto, para o crítico, a aproximação com a perfeição do universo kafkiano não se faz completamente; Murilo não conseguiria animar completamente esse estranho mundo de ficção, por não haver uma transposição de planos que consiga lançar o leitor diretamente nessa transfiguração. O leitor fica, a seu ver, insatisfeito com os resultados literários, humanos e psicológicos dessa ficção, pois o autor não concretiza a ilusão, que deve ser total para que a mágica não caia no espaço do pitoresco e do gracioso. Para ele, a ilusão em Murilo só é absoluta em contos como “A Noiva da Casa Azul” e “Os Três Nomes de Godofredo”.
Embora essa crítica deixe evidente o mérito de precursor de uma obra sem antecedentes, enfatiza, no entanto, uma suposta impossibilidade da obra muriliana de realizar a sua proposta através da escrita. A visão de Álvaro Lins, como observará Davi Arrigucci Jr. posteriormente, não consegue adentrar no universo muriliano e perceber que essa impotência é tema da própria obra.
Entre os diferentes textos críticos sobre o escritor mineiro, Sérgio Milliet tocará na angústia do escritor, ao não conseguir encontrar a palavra “exata”, ou não conseguir controlar a sua linguagem. Nelly Novaes Coelho fala dessa condenação à repetição eterna de fatos, levando a uma eternização temporal, ou a um suposto presente contínuo. Eliana Zagury cita o jogo de contrários que é a própria obra do escritor mineiro e mostra como seus contos fazem um movimento de ida e volta, de afirmação e negação, afirmando-se e cancelando-se a um só tempo. Benedito Nunes também fala desses contrários, presentes em uma mesma literatura, ou como escreve, com eloqüência, “da particular coerência do discurso narrativo e a particular incoerência da matéria narrada”.
Se Murilo Rubião foi comparado pelos primeiros críticos a Kafka, Jorge Miguel Marinho, por sua vez, é comparado a Julio Cortázar, Gabriel García Márquez e Murilo Rubião. Como a obra do escritor paulista surge na década de 80, o parâmetro de comparação são esses escritores latino-americanos, nesse momento já consagrados. Isso se deve a um outro contexto, em que a literatura hispano-americana e a obra de Murilo Rubião - impulsionada por aquela, com seus escritores “fantásticos” - passa a ser reconhecida em todo o mundo. Mas ainda vemos um mínimo de estranheza com relação às suas personagens. O artigo de Marisa Lajolo declara isso com o título do seu artigo “Estranhas Personagens”. O de Mário Sérgio Conti também tratará das “situações esquisitas vividas pelos personagens” de Jorge Miguel Marinho.
A impossibilidade de precisar uma terminologia quanto ao gênero adotado por Jorge Miguel Marinho é a mesma que a vista em Murilo Rubião. Lígia Chiappini Moraes Leite pergunta-se como definir o livro Escarcéu dos Corpos : “conto? (...) conto fantástico? realismo mágico?”
A resposta que o restante da crítica dá é: surrealismo, realismo fantástico , fantástico , realismo mágico . Assim, vemos um escarcéu de definições, sem que haja uma posição consensual. E o mesmo pode ser dito para a obra de Murilo Rubião. Neste intervalo de mais de 35 anos entre a publicação do primeiro livro do escritor mineiro, O Ex-Mágico , e o de Jorge Miguel Marinho, Escarcéu dos Corpos , a crítica ainda parece cair na armadilha das repetições.
Talvez essas Estranhas Narrativas ainda sejam motivo de inquietação, criando o paradoxo familiar e estranho. E é exatamente nesse paradoxo familiar e estranho que se dá a inserção da obra de Murilo Rubião e Jorge Miguel Marinho na literatura brasileira.
Há o livro de Audemaro Taranto Goulart sobre a obra de Murilo Rubião, mas este só aparece em meados dos anos 90.
Menton, Seymour. Historia Verdadera del Realismo Mágico . México: Fondo de Cultura Económica, 1999.
No Diário da Tarde, em 1947, Guimarães Alves chamará de “conto poético” esse tipo de narrativa que se opõe ao romance realista. Poético, pois a imaginação se sobrepõe à imitação.
Andrade, Moacir de. Estado de Minas . 3.12.47.
No momento de estréia, a obra de Murilo Rubião é vista por Oscar Mendes, em O Diário , 1947, como inédita, “a impressão de realização literária dum quadro de Picasso ou de Salvador Dali”, mas ao mesmo tempo monótona pela continuidade dos temas delirantes.
Cabe ressaltar que Jorge Schwartz foi o primeiro a lançar um livro inteiramente dedicado à obra do autor. Murilo Rubião: A Poética do Uroboro. São Paulo: Editora Ática, 1981.
Apud Chiampi, Irlemar. O Realismo Maravilhoso . São Paulo: Perspectiva, 1980.
Em Confluências Críticas: Murilo Rubião e Jorge Miguel Marinho, há um levantamento da crítica sobre a obra destes dois escritores. Confluências Críticas: Murilo Rubião e Jorge Miguel Marinho. Tese de Doutorado. Pontifícia Universidade Católica, 2002.
José Augusto de Carvaho dirá que o escritor mineiro tem muito de Kafka, Poe e Bradbury, apesar de seu mundo cheio de sonho, colorido e poesia, que o afasta da morbidez do primeiro, da patologia do segundo e da secura do terceiro.