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Morto-vivo ou vivo-morto: outras vozes de um sobrevivente-testemunha do nazismo
Roberto Paiva (UNIFIEO)

O objeto desta comunicação versa sobre um fato da comunicação literária que é a necessidade de dizer, descrever e narrar fatos catastróficos. Este ato comunicativo tem sido chamado de Literatura de Testemunho.

O objeto da minha pesquisa tem sido as obras literárias que tiveram como gênese e fontes de inspiração situações de limite psicológicos; pessoas que passarem por traumas; testemunharam situações adversas e, na obra de arte “falaram para esquecer”.

Em seu livro “O livro negro do capitalismo”, Gilles Perrault arrola cerca de 40 fatos catastróficos entre guerras, revoluções, revoltas e suas conseqüências, desde o genocídio indígena com mais de 100 mil mortos nos EUA em fins do século XIX e início do XX, até os massacres étnicos na ex-Iugoslávia provocados pelo recente desmembramento do país. Houve os Goulags , os Campos de Concentração soviéticos nos tempos de Stálin; de acordo com recentes apurações o número de mortos teria sido maior do que o dos judeus nos Campos da 2ª Guerra Mundial. O que nos leva a pensar que, apesar de todos os avanços tecnológicos a que a humanidade chegou; o verniz da civilização não basta para conter a barbárie que alguns, como Freeud, acreditam ser inerentes à espécie humana (In: Obras Completas de Freud . Volume XIV. Reflexões sobre os tempos de Guerra e Morte – 1921. Rio de Janeiro, Imago s/d.).

Respondendo a essas catástrofes que marcaram o século XX, surge um tipo de Literatura de Testemunho sob a forma, preferencialmente, narrativa, o que não significa que não se manifeste em poesia. O gênero surge como as descrições decorrentes das catástrofes do nosso tempo e dá a exata medida de como nos relacionamos com elas, com os traumas oriundos desses eventos catastróficos. E como tal, essas ocorrências não poderiam ser compreendidas, logo temos narrativas de caráter fragmentário na linha do tempo.

É evidente que o testemunho de que estamos tratando não se refere àquele usual nos contextos jurídicos, embora aquele decorra deste. Nesta Literatura, o testemunho advém da compulsão em expressar traumas ligados à catástrofes; também está relacionado com a verdade, com a clareza e a objetividade, entendidas neste caso, porém, como inalcançáveis.

A Literatura Testemunhal de Levi situa-se no centro de forças opostas, tais como dizer e/ou calar, selecionar ou não o que contar, representar o que, por sua gravidade mesma, escapa à representação. Maria Rita Kehl, no artigo O sexo, a morte, a mãe e o mal (In: Nestrovski, Catástrofe e Representação . São Paulo: Escuta, 2000, p.145) coloca que o irrepresentável tem a ver com a nossa experiência de absoluta passividade diante do real que nos invade, nos reduz à condição de coisa.

Por este raciocínio teríamos que considerar testemunhal a grande maioria das obras literárias. Assim, pode-se dizer que toda narrativa literária sempre testemunha algo. É o que também sugere Machado de Assis, ao tentar conceituar o que denomina o “Instinto de Nacionalidade” em literatura, por exemplo; nesse ensaio, ele chama atenção para as marcas, os sinais com que os autores pontuam os textos que elaboram e que remetem para o tempo e o lugar de onde se originam 1 ­­— o que significaria que o texto literário é sempre uma testemunha da época e do país de seu autor.

Sobre essa dificuldade de encontrar palavras que exprimam o fato de atingir o estatuto de literatura parece, não se tratar da especificidade só da literatura de testemunho e, sim, da literatura em geral. São muito freqüentes as afirmativas de poetas e prosadores no sentido de que não encontram as suas palavras. Walter Benjamin, num de seus estudos, exclamou: “Encontrar palavras para o que se tem diante dos olhos ¾ como isso é difícil.” Ora, se é assim com boa parte da literatura, com mais razão naquela que enfrenta o projeto de narrar a Shoah.

A natureza do testemunho nas narrativas de que trato é diferente. O fato sobre o qual giram é catastrófico e, como tal, traumático; esse fato provocou na testemunho um choque de tais dimensões que chegou, no entender de Freud, no referido texto, as proporções de uma neurose traumática, com conseqüências sobre a memória. Por isso, o testemunho é também, para Freud, o resultado de uma compulsão que as vítimas das catástrofes têm de sempre repetir a situação traumática. Dessa forma, entende-se porque a literatura de testemunho caminha lado a lado com a Psicanálise: ambas têm o trauma como um de seus conceitoschave.

Podemos dizer que cada catástrofe que atingiu parcelas da humanidade tem suas testemunhas que buscam contar os eventos que as envolveram.

Felman estabelece que as dimensões do testemunho no artigo já citado são sempre provenientes de uma crise; o testemunho depende da interação das dimensões histórica, clínica e poética do relato, para que se estabeleça o elemento surpresa, o inesperado.

Até que ponto É isto um Homem? realiza esta interação proposta por Felman? Como este livro documenta o evento que enfoca? Tentaremos, mais adiante, responder a essa pergunta.

No caso da Shoah , outra questão a ser proposta é: até que ponto o registro artístico do trauma em questão tornaria sua lembrança sempre perene, minimizando, assim, a angústia dos sobreviventes que hoje, ao perceberem que estão morrendo, se perguntam e interrogam também aos pósteros: quem contará a história quando seus artífices já não mais estiverem aqui?

 

Em Além do Princípio de prazer (1920) impressionado com o psiquismo traumatizado dos ex-combatentes de guerra, Freud teoriza o possível valor homeopático da neurose. Tendo observado que tais ex-combatentes pareciam se purgar de seus males através de sonhos que se repetiam, identificou nesses pesadelos um modo de controle dos efeitos das cicatrizes da luta na vida prática; desta forma, alguém poderia purgar a periculosidade de suas emoções por meio delas mesmas, falando delas e sobre elas, em suma, expressando-as. Disto se pode concluir que a expressão, como catarse, poderá funcionar como um “remédio” de cura para os traumas.

E as vítimas da Shoah , será que poderiam usar a expressão, em especial a expressão escrita, como uma tentativa de transpor seus traumas — esse princípio funcionaria para tais vítimas? Seria a escrita, para elas, um autêntico remédio homeopático?

Susto, angústia, medo se presentificam na instalação e desenvolvimento de uma neurose traumática — Freud distingue cada um deles estabelecendo suas diferenças embora, às vezes, empregue tais expressões como sinônimos ­­­ ­­­— aí esses termos têm papel fundamental. 2

É isto um homem? , enquanto relato de um trauma, consegue mostrar o papel que susto, angústia, medo assumem na experiência dos deportados e na metodologia nazista de dominação? Como um sobrevivente-testemunha resolveria o conflito em que se debatia entre o narrar e o não narrar? Afinal, o próprio Freud reconhecia:

“Não é do meu conhecimento, contudo, que pessoas que sofrem de neurose traumática estejam muito ocupadas em suas vidas despertas, com lembranças de seu acidente. Talvez estejam mais interessadas em não pensar neles” . 3

 

Freud baseava-se nos relatos dos sonhos dos ex-combatentes de grurra. Reconhece ainda que as lembranças dos traumatizados podem não ser muito fiéis à verdade dos fatos (entendendo aqui verdade como uma conformação com o real): para ele há a possibilidade de o traumatizado não se recordar, justamente, de fatos essenciais. A considerarmos estas observações de Freud, a literatura de testemunho, como representação do real, passa a ser relativa. Por isso, Rosemblum considera que o testemunho de grandes catástrofes se situa entre o silêncio e a falsificação da memória.

Em relação à Shoah, distinguem-se os sobreviventes que, devido ao trauma que sofrido, não têm condições psicológicas de narrar o que lhes ocorreu e os sobreviventes-testemunhas que conseguem, apesar de tudo, encontrar palavras para dar uma tênue idéia do que lhes aconteceu.

Para o sobrevivente-testemunha narrar seu drama pode se constituir numa catarse. Tenta, assim, se livrar do horror experimentado; colocando sua experiência em palavras, pensa que ela possa se tornar mais leve pois passaria a ser partilhada e ele, assim, se aliviaria. Mas, expressar seu trauma pode ter também suas desvantagens, como nos aponta Rosenblum, é: “... se rapprocher des brûlures de l'enfance, déboucher sur une exposition publique de la haine éprouvée pous d'autres victimes, reaviver la honte et la culpabilité.” 4 Por isso, ainda segundo essa mesma autora, há textos testemunhais que podem precipitar a morte de seus autores, e outros que permitem a sobrevivência dos mesmos.

Podemos talvez pensar que Paul Celan e outros não conseguiram a “purificação” (entendida aqui como a libertação do trauma 5). Primo Levi, Sarah Kofman, suicidaram-se. Já Jorge Semprun, pelo contrário, saiu-se bem ao escrever e, assim, sobreviveu. Logo, a purificação através da expressão escrita pode representar uma utopia.

Este é outro aspecto crucial a ser examinado pela Psicanálise: pode-se sobreviver a uma catástrofe e testemunhá-la sem que isso conduza o sobrevivente-testemunha à morte?

A expressão escrita do trauma, decorrente da Shoah , por um sobrevivente-testemunha se processa por conta do conflito que se estabelece entre a necessidade de narrar o trauma e, ao mesmo tempo, a impossibilidade de o fazer. É este conflito que gera, no relato, a tensão dialética entre memória e esquecimento. A maioria dos sobreviventes não se dispôs a servir de testemunha – escolheram o silêncio para poderem continuar a viver.

Um outro problema em que se debate o sobrevivente-testemunha, no caso da Shoah , diz respeito à visão da experiência narrada: ela é dele, do sobrevivente-testemunha que conseguiu achar as palavras para narrá-las, ou pertence a todo o grupo concernido? Como deveria tratar o individual e o coletivo no seu relato? E a recepção do relato? Como conviver com a incredulidade do leitor de relatos testemunhais?

Andrea Lombardi 6 situa nos limites da Ética o problema central da literatura de testemunho; nela, o tema da ética é constante e surge direta ou indiretamente. Se a narrativa testemunhal é feita por um personagem-protagonista-testemunha, por princípio, pode-se deduzir que o leitor vai funcionar como juiz que, por certo, avaliará os aspectos comportamentais e religiosos do testemunho e decidirá por sua validade ou não. Que padrões éticos se evidenciam em É isto um Homem? ?

O fato é que a morte caminha lado a lado com a literatura de testemunho; o sobrevivente-testemunha é o que ultrapassou a morte, mas foi penetrado por ela e condenado a alimentar um sentimento de culpa tão intenso por ter “escapado” que nem a expressão escrita foi capaz de libertá-lo desse jugo. Entende-se pois a declaração de Robert Antelme: “ Le fait d'avoir trouvé les mots pour écrire ‘ L'espèce humaine ' m'a définitivement blessé (R. Antelme, 1996) ” 7 ou de Semprun quando afirma em seu livro L'écriture ou la vie (1994) que é preciso escolher entre o “ silence bruissant de la vie et l'exercice ‘meurtrier' de l'écriture ...” 8 Por isso o sobrevivente-testemunha dificilmente não se suicida, podemos pensar.

Toda catástrofe é, pois, nesse sentido, inacessível, a Shoah não foge à regra. Apreendê-la e cifrá-la através de palavras, de frases, é tarefa árdua, que requer engenho e arte por parte de quem pretende testemunhá-la. A tarefa exige também, paradoxalmente, certo embotamento do narrador já que o trauma decorrente da catástrofe apresenta feições nitidamente pessoais, e ao mesmo tempo, interpessoais. A memória deve dar conta de tudo isso. Daí Nestrovski referir que o sobrevivente-testemunha segue: “... repetindo, como pode, o que não foi compreendido 9. Sim, a catástrofe e seu trauma são incompreensíveis, não fora assim eles poderiam ser explicados e até mesmo justificados — ainda na esteira de Nestrovski — e, em se tratando de Shoah, nada há que justifique.

Para Seligmann-Silva, a literatura de testemunho situa-se na fronteira entre o real e o ficcional, havendo entre a linguagem e o real, neste tipo de literatura, um espaço; assim ela não dependeria, simplesmente, da realidade, mas da capacidade de alguém percebê-la e simbolizá-la — isto acarretaria para o sobrevivente mais um drama (além do que ele já passou) que é o drama da irrepresentabilidade, o que para M. Kehl está ligado ao processo de “coisificação” a que a pessoa é submetida, conforme já referimos anteriormente. A língua está diretamente relacionada com a representação deste real ou com a lembrança dele. E se em literatura a pluridimensionalidade do real entra em choque com a unidimensionalidade da linguagem, acarretando problemas de representabilidade, como sublinha Barthes 10, esta dificuldade de passagem entre a linguagem e o real mais se potencializa numa narrativa literária testemunhal.

Assim, aos conflitos em que se debate a testemunha de uma narrativa testemunhal — do tipo: dizer o indizível, retratar o irretratável, representar o irrepresentável — acrescem-se aqueles tópicos da literatura que se quer, ao mesmo tempo, realista (porque tem o real como objeto de desejo) e irrealista (pois acha sensato desejar o impossível que é retratar o real) – ainda seguindo Barthes.

É o próprio sobrevivente, pois, quem reencena a criação da língua, é ele quem mobiliza a memória. Então, “num esforço supremo consegue rememorar para tentar se livrar das lembranças através da narração.” 11

A concepção de realidade da Shoah é vista através do trauma e, como tal, anula as noções de passado e futuro; inclusive a morte que, geralmente, é um ponto de referência e na organização simbólica deixa de sê-lo: por isso o além e o aquém se confundem com o aqui, conforme observa Seligman-Silva. 12 Por isso os sobreviventes que conseguiram testemunhar se consideram mortos-vivos, atravessaram a morte. Esta particularidade é intensa nos relatos testemunhais sobre a Shoah visto que todos os prisioneiros foram submetidos a um processo de desidentificação, de desumanização tão forte que muito contribuiu para que eles se sentissem como mortos-vivos.

Quando conseguem narrar suas experiências, estas vêm tão carregadas de realismo que se tornam, paradoxalmente, não-reais. Este paradoxo, o sobrevivente-testemunha teve que enfrentar: assim como eles, nos Campos, não acreditavam no que estava acontecendo, os que, mais tarde, ouviam ou liam seus relatos também tinham a sensação de irrealidade. Desta forma, o trabalho de rememoração e de reintegração da cena traumática ficava prejudicado. Por isso Cathy Caruth 13 considera desafiadores os métodos de ajuda para aliviar o sofrimento do traumatizado-testemunha: é preciso entender a natureza do sofrimento sem eliminar a força e a verdade da realidade que está sendo transmitida aos leitores. Geralmente, a veracidade do que é narrado é questionada em virtude de o relato se apoiar na memória, pois segundo Caruth, há memórias cujas lembranças são sugestionadas e há outras que relatam fatos tão desconhecidos (de quem lê) que podem dar a impressão de serem falsas – esta última possibilidade pode se enquadrar no excesso de realismo já referido anteriormente.

Mas, sabe-se que, da Shoah não há memória heróica possível: os que narram as lembranças e os que as lêem ou as ouvem não se identificam nem com os vencidos nem com os vencedores (como pode ocorrer nos relatos que giram em torno da guerra de 1914/18, por exemplo); ao contrário, as lembranças deste genocídio estão indelevelmente emolduradas por um sentimento de culpa marcante, tanto da parte de quem testemunha (por ter sobrevivido) como por parte de quem lê ou ouve (por não ter protestado, por não ter feito alguma coisa para o impedir) – pode-se afirmar que houve, por parte da humanidade em relação a Shoah, uma complacência passiva, uma cumplicidade criminosa que desaguou numa colaboração ativa para com os métodos nazistas. Por isso, todos estão sujeitos à dupla injunção: lembrar e esquecer — “ C'est à la collectivité tout entière d'assumer la necessité de la mémoire contre l'aspiration à la méconnaissance qui éviterait à la fois le souvenir et l'oubli 14.

Todorov, ao estudar o comportamento de sobreviventes de Campos de Concentração em seu livro Em face do Extremo, 15refere que um sobrevivente deste tipo não pode jamais fazer um relato heróico (entendido aqui como de corte clássico): ele mal sabia falar pois se debatia no conflito entre o dizer e o não dizer quanto mais, gritar; e o herói precisa gritar, com ódio, pateticamente. E num relato heróico de corte clássico devem estar presentes o ódio ao inimigo, a exaltação de si mesmo. Assim, a literatura de testemunho passa ao largo do relato heróico.

A literatura de testemunho, ainda segundo Seligmann-Silva no estudo citado anteriormente, está muito ligada à tradição hebraica, que pode funcionar como uma forma de cultuar seus mortos, de dar sepulcro aos judeus que foram dizimados pela “ Solução Final” de Eichman.

Explorar a ambiência de guerra em narrativas não constitui novidade no quadro literário ocidental, basta lembrar as grandes epopéias da literatura universal, a começar pela homérica. Assim, também a Shoah tem sido tema de vários autores. Escreveram sobre ela, dentre outros, e nos mais variados gêneros, Anne Frank (com o Diário de Anne Frank ), Elie Wiesel, Claude Lanzmann ( Shoah), Alain Finkielkraut ( “Memória Vã” e “ Humanidade Perdida”), para não referir filmes, documentários, ensaios e monumentos. Aliás, na década de 60, tivemos uma verdadeira avalanche de textos relativos a esse acontecimento. E ano a ano, em datas significativas como a que marca o fim da 2 ª Guerra ou a da chegada dos russos na Alemanha, realizam-se eventos, lançam-se filmes, enfim, promove-se uma série de acontecimentos para que a Humanidade jamais esqueça o episódio e, principalmente, para que o judeu jamais esqueça o inesquecível.

Ora, em meio a tudo isso, surgem produções que parecem ser fraudes. Dentre elas, destaquemos a obra Fragmentos: Memórias de uma infância 1939-1948 , de Benjamin Wilkomirski 16. Talvez estimulado pela notoriedade e consideração que todos votavam aos sobreviventes-testemunhas da Shoah, Wilkomirski resolve elaborar um “falso texto verdadeiro” em que relata suas supostas experiências, texto esse, mais adiante, dado por inverídico:

 

“Inquirido por Raul Hilberg, um dos poucos que desconfiou da veracidade do conteúdo do livro de Wilkomirski, se o seu livro pertencia à esfera da ficção, este negou enfaticamente a possibilidade; Hilberg havia percebido certas contradições entre o que Wilkomirski conta e os fatos históricos. Mas, em 1998, o escritor e jornalista suíço Daniel Ganzfried desvendou a completa verdade sobre o personagem Binjamin Wilkomirski, que na realidade se chamava Bruno Doessekker, que não é judeu, nem tem ascendentes judeus, e só conheceu os Campos de Concentração (de Auschwitz e Majdaneck) como turista.” 17

 

As reações diante deste fato perturbador divergem. Seligmann-Silva, após considerar o livro Fragmentos “um dos exemplos máximos da Literatura de Testemunho, uma das maiores contribuições que o século XX deixará para a rica história dos gêneros literários” 18 — acredita ter compreendido o porquê das cenas detalhadas de tortura minuciosamente descritas por Wilkomirski, afinal, para esse estudioso da literatura de testemunho, “trata-se de imagens de extrema violência escritas a ácido na tela da sua memória” (1998, p.22).

De fato, considerando Fragmentos uma obra testemunhal, entende Seligman-Silva que nela houvesse um certo embotamento da linguagem, visto se tratar das recordações de uma criança. Por esse prisma, justifica ele também o caráter caótico das recordações. Mas quando se conscientiza da fraude de Wilkomirski, pergunta-se:

 

“Como ler os Fragmentos como se tratassem de uma ficção? É só tentar para que o leitor se depare com uma obra que não funciona mais e até mesmo beira o mau gosto: o que se espera e se acha admissível na leitura de uma obra autobiográfica de um menino que conheceu Auschwitz e Majdanek torna-se imediatamente má literatura de ficção.” 19

 

Será que o texto de Wilkomirski deve ser tão veementemente condenado só por não se tratar de uma obra de testemunho e, sim, de ficção?

Por sua vez, depois de reconhecer que: “Do ponto de vista da história o mascaramento (voluntário ou não) de uma ficção por uma biografia seria inaceitável [ ... ] mas do ponto de vista da literatura a questão é de natureza diversa” , devido às implicações de identidade entre autor x narrador que a ficção tanto considera, Nestrovski 20 considera a fraude de Wilkomirski como reflexo do nosso tempo que ainda se debate com problemas de autoria, testemunho e responsabilidade. E conclui:

 

“ ... os ‘Fragmentos' assumem assim uma estatura exemplar na literatura do fim-do-século e definem, pelos olhos da incompreensão de um menino, mais um fim de literatura, no fim de um século um tanto pior do que os outros” 21

 

Isso tudo serviu para que estudiosos da Literatura de Testemunho reconhecessem que não deveriam se debruçar sobre o assunto de maneira ingênua; frente ao assunto, a razão jamais deverá ser abandonada, como reconhece aliás, o próprio Seligmann-Silva. Serviu também para evidenciar o quanto, em matéria de Literatura de Testemunho é desejável a adequação da narrativa à realidade para dar veracidade à autobiografia.

Essa noção de realidade, muito próxima da concretude, nos é fornecida por Maria Rita Kehl quando diz: “real é aquilo que fala ao corpo, prazer capaz de aplacar a carne, ameaça capaz de destruir a vida ou mutilar, danificar, modificar essa nossa morada temporal ”; e mais adiante complementa: o “real é tudo aquilo que o código de uma determinada cultura aceita como tal” [....] “é todo objeto e toda relação que a cultura a que pertenço reconheça como tal.” 22

Esse código, que pode ser o mesmo da representação da realidade do autor pode alcançar um âmbito social, ideológico e psíquico. Por esse raciocínio é possível perceber e compreender os Fragmentos de Wilkomirski. Seu campo de representações, externas ao seu psiquismo, lhe permitiu uma certa confiança em que aquilo que “viveu” faz parte do que o Outro aceitaria como realidade, e, portanto, é como se assim fosse .

O mesmo percebe-se na obra de Jean Genet ao que parece. De fato, o autor recriou um novo padrão de comportamento, à margem do mundo dito “normal”, reconfirmando, pelo avesso, os valores aceitos por ele, “ao fazer do assassino um herói e dignificar a traição” 23. E agora, anos depois da sua morte, sabemos que:

 

“Ao escrever Esplêndidos , em 1948, Genet já era o autor de romances autobiográficos Nossa Senhora das Flores (1944), Pompas Fúnebres (1947) e, em teatro, As Criadas (1946), talvez sua peça de maior repercussão. Ou seja: aos 38 anos, esse homem para sempre enigmático estava pronto para desaparecer atrás da imagem pública que construíra ... Coerentemente, sua dramaturgia, também toda feita de disfarces, encontra neles sua fonte e seu impulso ... Nela, todos trocam de identidade, porque mascarar é inventar uma realidade na qual, diz Genet, o real e o falso coexistem como uma ‘obra de arte que não é do domínio moral corrente (cujos fins são sociais)'. Para tanto, continua, é preciso que a ação ‘seja suficientemente evasiva, mas não vaga, para deixar o espectador face a si próprio'.... Genet morreu em 1986. Descobriu-se com o tempo que ele não foi tão marginal como propalou, não teve uma infância miserável, foi bom estudante e tinha sólida base de leituras. O livro de Jean-Bernard Moraly, Jean Genet, A Vida Escrita, prova que, pela escrita, ele inventou uma vida.”

 

O mecanismo das identidades trocadas ou falseadas até e o travestimento estão exemplarmente mostrados em várias peças.... O clima de constante simulação, nota Del Rio, tinha um objetivo para Genet: ‘Qualquer representação teatral é uma féerie ', ou reflexo do reflexo em que o espectador encontra desordem e inquietação onde poderia esperar descansar nas certezas das imagens e da ficção.” 24

Enquanto isso, Wilkomirski, numa declaração ao jornal suíço Tages-Anzeiger, coloca: “Cada leitor pode deduzir do posfácio do livro que os meus documentos não coincidem com as minhas memórias” [....] “O leitores sempre estiveram livres para aceitar o meu livro como literatura ou como documento pessoal.” 25. Percebemos aí o desejo de Wilkomirski de tornar real sua experiência imaginária e ficcional. Na condição de sujeito desejante, sua obra é real, porém, não-verdadeira historicamente, fugindo da condição daquele que testemunhou, presenciou e sobreviveu, sem para tanto, ter nada a dizer que represente a verdade:

É nesse campo, das representações da realidade, que podemos falar não O desejo, mas Do desejo, desviado de seus fins primários, obscuros para o sujeito, em direção a objetos secundários que aparecem para a consciência como objetos possíveis cujo alcance depende pelo menos em parte de nossa ação voluntária, consciente 26.

 

Com isso, sua obra ficcional não poderia entrar para o rol da literatura de testemunho. Ora, ficam aqui as perguntas: isso lhe roubaria seu caráter de bela obra literária? Seria o texto, por isso, menos literário? A obra, menos obra?

 

ASSIS, M. “Instinto de Nacionalidade” In : Crítica Literária –Obras Completas, Rio : Jackson Ed. s/d

FREUD, S. Além do princípio do prazer Trad. De Cristiano M. Oiticica, Rio : Imago Ed., 1998. p.15

Idem p.16

Rosenblum , Rachel. Peut-on mourir de dire? Sarah Kofman, Primo Levi . In: Revue Française de Psychanalyse. 1- Devoir de mémoir: entre passion et oubli. Tome LXIV-Puf: Paris, 2000. P.114.

Apud Rosenblum, R. Op. Cit.

LOMBARDI, A. .” A Ética da Memória!. In: CULT Revista Brasileira de Literatura . Ano II , No. 23, junho/1999

Ibidem. P. 115

Ibidem.

Ibidem. P.87

BARTHES, R. Aula . Trad: Leyla Perrone-Moisés, São Paulo : Cultrix, 1978

Seligmann-Silva, M. Literatura de Testemunho. In: Cult nº 23, ano II. 1999.

Idem A História como Trauma In: Pulsional, Anos XI e XII, São Paulo, 1998/1999.

CARUTH, C. Trauma: explorations un memory. Baltimore/US : JHV Press, 1995

ANGELERGUES, WEIL – “Argument” In: Revue Française de Psychanalyse, Tome LXIV: Puf,Paris00

TODOROV, T. Em face do Extremo , São Paulo : Papirus Ed., 1995

WILKOMIRSKI, B Fragmentos Memórias de uma infância 1939-1948. São Paulo : Cia das Letras, 1998

C.f. Seligmann-Silva , M. “ Os Fragmentos de uma farsa” . In: Cult – Revista Brasileira de Literatura, nº 11, junho de 1998, ano II.

Ibiden: “Estilhaços de Memória” . In: Cult, n . 11

In: Cult, nº 23, p. 63

NESTRÓVSKI & SELIGMAN-SILVA (orgs.)- Catástrofe e Representação, SP : Escuta, 2000. p.204

Idem p.205

Kehl , Maria Rita. O Desejo . Novaes , Adauto (org.). São Paulo: Companhia das Letras, 1990. P. 363/382.

DEL RIOS, Jefferson. Revista Bravo: Notas . Outubro, 2000, p. 17.

Ibid, pp 18

Apud Seligmann - Silva . Op. cit

Kehl , M. Op. Cit. p.363