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Imagens e deslocamentos
Orlando Maneschy (PUC-SP)

Um dos elementos mais poderosos empregados na constituição da cultura foi e ainda é a imagem. Através dela significados são estabelecidos e se constituem mediações no território da cultura. Este tipo de relação vem ocorrendo desde o momento em que os primeiros hominídios 1 passaram a desenvolver sistemas de representação visual.

Os procedimentos serviram como forma de mediação com o ambiente que os cercava, estabelecendo estruturas nas quais determinadas representações passaram a deter significado a partir do impacto e da importância com que certas experiências se davam.

Assim, repertórios vêm sendo constituídos e linguagem visual é estabelecida e empregada, de forma complexa, para mediar a vinculação com o mundo. Estas imagens transformam-se em signos que se desdobram em palavras, suscitando outras imagens que se organizam em textos e fomentam o surgimento de novas imagens. Desta maneira, o homem veio estabelecendo a compreensão de seu território e lançando mão das mais variadas técnicas e linguagens para se relacionar com ele.

Esta conexão se dá, originalmente, dentro de uma perspectiva mágica 2, onde as imagens são acionadas e utilizadas dentro de uma perspectiva circular, sendo os elementos constituintes da imagem pontos de vinculação que vão se associando para gerar significado.

Ao longo da história, a imagem e o desenvolvimento de suas técnicas, calcado na busca de representação do “real”, vai se tornando mais e mais complexo, propiciando a sofisticação dos métodos de reprodução de imagem. O homem busca, através delas, estabelecer elos entre os elementos a sua volta e representar aquilo que significa.

A imagem ocupa, neste papel, o papel daquilo que falta, de algo que não está presente, que não é possível de se deter no tempo. Ela preenche o espaço de uma vacuidade. De uma forma de representação simbólica utilizada na linguagem visual, ela vai ganhando desdobramentos extremamente intrincados, ao longo de sua sofisticação no que tange a representação do “real”. Com isto, ela passa a ter uma certa “autoridade” sobre aquilo que representa.

Esta potência que a imagem emana, por sua capacidade de significar algo que “existe” e por representar isto em sua ausência, vai adquirindo maior força a partir de seu emprego no campo da vinculação. Através da imagem é possível estabelecer um relacionamento com aquilo que é desejado, mas que não está disponível, e com sua utilização é possível superar a própria morte.

Poder que foi se tornando mais e mais explícito, com o desenvolvimento de inúmeras técnicas de representação, cujo objetivo era maior apuro visual em relação ao “real”. Assim, mecanismos foram sendo aplicados, de maneira sofisticada, para garantir uma maior aproximação com aquilo que se vê a olho nu.

Com o advento da câmera escura e seu desdobramento na fotografia, a imagem obtém um status de veracidade até antes jamais experimentado com tamanha dimensão. A partir de então, a realidade passa a ser abstraída e o homem começa a experimentar uma outra forma de relacionamento com o mundo, que se dá através de imagens que substituem a experiência.

As fotografias se legitimam e passam a exercer um estatuto de “verdade”. Já não existe mais a necessidade da vivência, uma vez que, estarão disponíveis imagens para serem consumidas, sem a necessidade de deslocamentos físicos. E a própria relação com o tempo se transforma, pois no objeto fotografia o tempo é instantaneizado. O antes vira o depois e o depois vira o antes, no ciclo do eterno retorno no tempo do agora instaurado e fixado. Ao se olhar uma imagem fotográfica o observador mergulha imediatamente num deslocamento temporal, que se reinicia ao olhar cada detalhe, sucessivamente investigado.

A fotografia aparenta contemplar ao homem a tão desejada superação da morte, ao firmar em sais de prata, metal nobre, seu duplo. Sua fidelidade a este pacto é mantida para além da existência do indivíduo. Se o tempo congelado no metal não garante a vida eterna ao homem, ele possibilita a sobrevivência do seu duplo, forjando um objeto de vinculação a algo que existiu.

Diante desta necessidade e desejo, milhões de cenas, objetos e pessoas vêm sendo captados e duplicados em película e sais, na busca de fixar a vida e congelar o momento. A fotografia detém, em si, um valor de posse que lhe garante uma sobrevivência para além daquilo que registrou. Ela não apenas vincula alguém que desejou reter o tempo à cena reproduzida, mas conecta o desejo da humanidade de permanecer à própria potência de vida.

Só que estes objetos bidimensionais – e até mesmo nulo-dimensionais 3, se formos pensar nas imagens virtuais, que circulam na rede –, frutos do medo da morte 4, tem parte de seus conteúdos esvaziados quando se encontram perdidos, descontextualizados, desvinculados daqueles que os desejaram e propiciaram seu surgimento.

Entretanto, esta desconexão não garante a destruição de seu poder, apenas faz com que, em alguns casos, seus imbricamentos mais diretos com a “realidade” que representa sejam diluídos, perdendo total ou parcialmente seu conteúdo direto. Em algumas situações já não se sabe o que motivou o registro de uma fotografia, ou não é possível reelaborar seu significado, mas sua permanência garante uma relação com a própria vida, uma vez que é prova de algo que ocorreu.

Mesmo que a constituição de uma imagem seja fruto de uma ação criativa, e sua existência se dê em um plano bem distante de uma fotografia captada com finalidades documentais, ela articula simbolicamente no campo dos desejos, tal qual ocorreu com nossos antepassados.

Se hoje se dispõe de complexas ferramentas, técnicas e sistemas que podem ser muito mais sofisticados no emprego de linguagem, os desejos que acionam a imaginação humana ainda transitam por questões que sempre estiveram presentes. A percepção do universo expandiu-se, a compreensão do tempo se transformou, mas ainda existem as mesmas necessidades de vinculação, desde que passamos a construir cultura. Através de imagens o homem dá forma para suas relações mais íntimas. E os artistas irão desenvolver sistemas particulares de reorganização para suas experiências.

Este tipo de produção surge como oásis, num cenário onde o uso da imagem se torna tão excessivo e virulento, apresentando formas de percepção que não estão articuladas dentro de um senso comum ou constituídas por valores de consumo mediáticos, mas que viabilizam outros acessos ao mundo, através de imagens que se desdobram para além do espetáculo, estabelecendo novas vinculações com o que se chamou de realidade.

 

 

1 “O que distinguia o homem dos animais era a capacidade humana para o pensamento simbólico, capacidade essa inseparável do desenvolvimento de uma linguagem em que as palavras não eram meros sinais, mas significantes de algo além delas mesmas.” In: BERGER, John. Sobre o olhar . Portugal: Editorial Gustavo Gili,AS, p.16.

2 O filósofo tcheco Vilém Flusser analisa a natureza das imagens de forma decisiva: “O caráter mágico das imagens é essencial para a compreensão de suas mensagens. Imagens são códigos que traduzem eventos em situações, processos em cenas. Não que as imagens eternalizem eventos; elas substituem eventos por cenas. E tal poder mágico, inerente à estruturação plana da imagem, domina a dialética interna da imagem, própria a toda mediação, e nela se manifesta de forma incomparável.” In: FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002, p.08.

3 As imagens em sua constituição são abordadas de forma pertinente no trabalho do Profº Dr Norval Baitello Júnior, através das disciplinas ministradas no COS: A Crise da Visibilidade, 1º semestre de 2001; Teoria da Mídia, 1º semestre de 2002; Sistemas Visuais/Espaciais: A "Medientheorie" de Dietmar Kamper, 1º semestre de 2003 e no Seminário de Estudos Avançados: Vilém Flusser e as Versões do objeto, no 2º semestre de 2003.

4 Ver: KAMPER, Dietmar. O futuro da visubilidade Disponível na World Wide Web:< http://www.cisc.org.br/html/modules.php?name=Downloads&d_op=viewdownload&cid=1 > Acesso em: 07 julho 2002. WULF, Christoph. Imagem e fantasia . Disponível na World Wide Web: < http://www.cisc.org.br/html/modules.php?name=Downloads&d_op=viewdownload&cid=1 > Acesso em: 07 julho 2002.