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“Migrações em São Paulo no Século XX: Diferentes Tempos de uma Mesma História”
Odair da Cruz Paiva (UNESP)

 

Primeira História:

 

No cotidiano das grandes cidades, as últimas décadas expuseram a existência de uma pobreza incômoda. Se no campo os sem terra denigrem, na perspectiva do poder e da mídia, a paisagem com seus acampamentos às margens das rodovias, nas cidades os pobres degradam o espaço urbano com suas barracas de camelôs, com suas casas de auto-construção e favelas, com suas figuras maltrapilhas nas praças... Nos cruzamentos, nos caixas do bares pedindo esmolas, estão crianças que incomodam nossa consciência.

A produção social da pobreza tem explicações múltiplas e que, muitas vezes, se contradizem. Dentro desse conjunto, podemos afirmar que, como em outros momentos da história do país, as necessidades do capital fizeram com que contingentes expressivos de pessoas se deslocassem de um lugar para o outro. Foi assim com a imigração européia e oriental para o sul e o sudeste, desde final do século XIX e, após os anos 1920, com os migrantes de uma forma geral e os nordestinos no caso paulista.

Nos deslocamentos populacionais e, portanto, no êxodo e nova fixação, residem sonhos e esperanças que são muitas vezes frustradas. A compreensão/apreensão do novo lugar pode significar uma nova exclusão social daqueles que migram, produzindo, assim, a reedição das mesmas condições sociais do lugar de origem. No plano nacional, atualmente, a questão da reforma agrária tem sido colocada como uma possibilidade de equacionamento do dilema das migrações internas. Entretanto, a complexidade de interesses que dificultam sua efetivação demonstra o outro lado dos caminhos da modernização econômica no país. Ela revela uma densidade de alternativas conservadoras postas em prática no transcurso de nossa história - dentre elas a política migratória - que impediram e impedem muitas vezes outras alternativas de desenvolvimento econômico e social; condensam novas contradições às antigas e auxiliam na produção de novas práticas de enfrentamento ou alternativas de sobrevivência.

O aumento do trabalho informal expõe alguns dos limites deste modelo econômico do ponto de vista de sua capacidade de absorção de mão-de-obra, transformando o desemprego num dos grandes problemas da cidade. As perspectivas que trouxeram milhares de brasileiros para São Paulo, tornaram-se referência do passado, conflitando com as tendências do presente. A migração deixa de ser uma alternativa de mudança das condições de vida para muitos brasileiros, embora continue presente no contexto da cidade.

A migração de brasileiros de outros Estados para São Paulo ganha importância econômica no final dos anos 1920 e esteve informada por dois fatores básicos. O primeiro foi o refluxo da imigração para o Estado durante toda a década de 1920; o segundo, está centrado na crise da economia cafeicultora no mesmo período. Ambos os fatores influenciaram uma política oficial que incentivava a entrada de nordestinos em São Paulo.

Em linhas gerais, é possível afirmar que mesmo em crise, a cafeicultura (ou a economia agrário exportadora) continuou a ser o "carro chefe" da economia brasileira após a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque. Era necessário baixar os custos da

produção cafeeira, dada a carência da mão-de-obra imigrante. A opção pela inserção de trabalhadores nacionais oriundos especialmente do nordeste, "dispostos" a trabalhar por baixos salários, foi levada a cabo.

Nesse processo de deslocamento populacional, a contraposição entre o moderno e o arcaico foi latente. A seca foi politizada pelos agentes governamentais na perspectiva de constituir uma imagem do nordeste como o lugar inviável. No polo oposto, São Paulo era vendido como o lugar das oportunidades. A alternativa possível, para a superação das agruras do sertão era o êxodo, a fuga das mazelas da seca.

Inseridos prioritariamente nas regiões produtoras de café e algodão do noroeste do Estado, a partir dos anos 1930 até a década de 1950, estes migrantes sustentaram um setor agro-exportador em crise por várias décadas. Foram aproximadamente 1,5 milhão de migrantes inseridos por uma política oficial de incentivo ao deslocamento Nordeste-Sudeste. Tratava-se, portanto de uma migração rural (nordeste) - rural São Paulo. 1

Paralelamente, outro processo migratório ia se constituindo. Cumpridos os contratos de trabalho, muitos migrantes rumavam para outras fazendas e outras cidades. Essa dinâmica está refletida em sua chegada e fixação na cidade de São Paulo, configurando uma migração rural-rural-urbana. Em São Paulo, eles se transformaram na mão-de-obra por excelência empregada nas indústrias, substituindo, paulatinamente, a mão-de-obra migrante. Também na cidade foram os operários da construção civil num contexto de intensa (re)urbanização da capital.

A partir do primeiro governo Getúlio Vargas (1930-45) , o padrão agro-exportador foi paulatinamente substituído pelo urbano-industrial e, em São Paulo, provocou mudanças profundas no processo de urbanização. Em outros termos, a migração para São Paulo foi fundamental não só para o esforço de manutenção da economia agro-exportadora, mas também auxiliar para a mudança do padrão de acumulação capitalísta no Brasil.

Dessa forma, o novo rumo da economia paulista - e quiçá a (re)urbanização da própria cidade - apontava a migração como um de seus elementos centrais. O lugar social ocupado por esses trabalhadores, não acompanhou a sua importância econômica. Assim como os imigrantes que para cá vieram no final do século XIX e início do século XX, baixos salários, moradias precárias e dificuldades de inserção num contexto social fizeram parte de seu cotidiano.

O processo de periferização os colocou nas regiões mais precárias e desvalorizadas da cidade; alguns bairros foram se constituindo com um perfil de população majoritariamente migrante, como o caso de São Miguel Paulista (zonal leste) e Santo Amaro (zona sul). Nos anos 1950 e 1960, sua presença já era significativa em novas regiões de desenvolvimento industrial da capital como o ABC. Redes sociais foram sendo criadas entre esses trabalhadores incentivando o aumento do fluxo migratório de forma expontânea. Apesar dessa situação, o crescimento econômico das décadas de 1930 a 1970 em grande medida absorveu esses trabalhadores.

A situação começa a se alterar já a partir do final do início da década de 1970. A crise do milagre econômico e os limites do processo de expansão territorial da cidade diminuem as possibilidades de "absorção" do migrante. As redes sociais, criadas preteritamente e o não equacionamento da questão da seca do nordeste, aliadas à uma certa tradição de migração para São Paulo passaram a tencionar sua relação com a própria cidade. Nesse momento, uma reversão da imagem social do migrante se opera. De trabalhador, este passa a ser visto como problema social.

As contradições do modelo de desenvolvimento econômico brasileiro e também do processo de urbanização da cidade incidem sobre estes sujeitos, apreendidos agora pelo Estado, como um problema social. É emblemático que no mesmo prédio onde funcionava a Hospedaria de Imigrantes - lugar a partir do qual 1,5 milhão de nordestinos e mineiros foram encaminhados durante décadas para as fazendas de café e algodão do interior - passou a funcionar em 1968 a Secretaria da Promoção Social que, de sua forma, buscava propiciar mecanismos de auxílio às novas gerações de migrantes que aqui chegavam.

Ao contrário de uma indicação de emprego, à eles eram oferecidos documentos, alojamento e passagens de retorno para seus Estados de origem. Sua presença no espaço da cidade passou a se constituir como um problema. O aumento da favelização, o trabalho informal, mendicância eram (e são) indicativos do esgotamento das possibilidades de absorção desses sujeitos no cenário urbano. Ao mesmo tempo, uma certa "criminalização" também os cercou, atribuindo-se à sua presença, o aumento da insegurança urbana e criminalidade.

Obviamente, não se trata de uma história na qual a exclusão seja prerrogativa do trabalhador migrante nacional. De fato, a cidade recebeu milhares de outros migrantes oriundos do próprio interior do Estado e não podemos desconsiderar seu crescimento vegetativo. O fato é que a migração para São Paulo desde o final dos anos 1920 já trazia em seu bojo um sentido de exclusão latente. Se num primeiro momento sua absorção no espaço da cidade pode ser compreendido como "inclusão", por outro lado, esta só foi possível por que houve uma geo-politica do desenvolvimento que colocava o nordeste como o lugar do atraso e, portanto, baseava-se na perpetuação da exclusão.

Entretanto, há uma outra história....

Segunda História:

 

No romance O Quinze , Rachel de Queiroz 2 nos leva ao mundo da seca nordestina. Tendo como cenário a seca de 1915, uma das maiores ocorridas no Nordeste, a autora retrata mais que a miséria física de sertanejos espoliados. A vida transcorre numa situação limite na qual, a precariedade material está acompanhada das agruras da perda da dignidade humana. A seca é vivida de forma intensamente trágica pelos seus personagens; o quadro O Quinze, pintado por Queiroz, angustia pela forte ausência de perspectiva no cotidiano vivido por aqueles sujeitos.

Na Paulicéia Desvairada , de Mário de Andrade 3, há um desejo de modernidade latente; vontade de participar das vanguardas, do destino do mundo, de estar em movimento, de fazer a sua realidade... Trata-se de uma obra representativa de seu tempo e de seu lugar. São Paulo dos bondes, dos edifícios, do burburinho urbano, da possibilidade do novo, da ruptura. O cenário urbano dá uma das dimensões do sentido do moderno, da proposição do futuro e assim, o rompimento com o passado.

Rachel de Queiroz e Mário de Andrade revelam tempos aparentemente opostos. De um lado, o Nordeste do início do século XX, cujo retrato social se confunde com o tempo da natureza. A seca, as carências materiais, a exploração e a falta de oportunidades impõem ao homem do sertão uma existência cujas mudanças se diluem quase ao imperceptível. Geração após geração, década após década, século após século... o ritmo de uma história lenta sujeita a vida de muitas das personagens de O Quinze .

Por outro lado, a paulicéia representava o vivido num tempo frenético. São Paulo da riqueza do nosso ouro negro , das indústrias, das ferrovias, da urbanização autofágica que consome no presente as marcas do passado. Uma sociedade que se refaz a cada nova leva de imigrantes, que se repensa na arte, que critica a si mesma a cada nova greve operária. Nesse frenesi, a existência é composta de bruscas mudanças.

O Quinze e a Paulicéia Desvairada são mundos opostos! Nem tanto. A reflexão sobre o tempo na história - particularmente a história do século XX - consolidou entre os historiadores a compreensão que o tempo é múltiplo, diverso, contraditório e complementar. Em outros termos, há diferentes temporalidades constitutivas do real. Marc Bloch, Fernand Braudel, Henri Lefebvre, entre outros historiadores, filósofos e sociólogos, dedicaram-se à reflexão das múltiplas dimensões do tempo na história e sua relação com a dinâmica das sociedades.

No Brasil, José de Souza Martins 4, defende a idéia que a história do país é regida pelo poder de uma história lenta. Instituições políticas, estrutura agrária, elites dominantes e a relação Estado-Sociedade modernizam-se de forma conservadora, perpetuando assim, sob novos rótulos, velhos dilemas políticos, sociais e econômicos. Por modernização conservadora, compreendemos a dinâmica de um tempo histórico que se assenta na perpetuação de estruturas arcaicas, e fazem dela o norte para um sentido de progresso.

Essa dinâmica é criadora das ambigüidades e paradoxos presentes na sociedade brasileira. Como exemplo, o termo Belíndia, cunhado décadas atrás, que procurava explicar o país como uma simbiose entre o primeiro e o terceiro mundo, apontava para a necessidade de compreensão de uma realidade aparentemente paradoxal.

 

Nordestinos em São Paulo: Diferentes Temporalidades

Chegou ontem à Hospedaria de Imigrantes, uma família composta de marido, mulher e nove filhos, procedentes de Vila Velha Estado da Bahia, de onde saíram no dia 22 de abril próximo passado, fazendo a pé todo o trajeto até Belo Horizonte. Vão com destino a Monte Santo e acham-se todos bem dispostos, nada tendo estorvado sua marcha de 4 meses e 8 dias até esta capital. 5

 

O tema Migrações em São Paulo no Século XX: Diferentes Tempos de uma Mesma História se refere, à especificamente, à migração de brasileiros de outros Estados para São Paulo, entre os anos 1930-1950 e nos auxilia a pensar a complexidade da relação entre o tempo e a história. De breve, o fluxo migratório para São Paulo se intensifica a partir dos anos 1930. Até os anos 1950 aproximadamente 1,5 milhão de trabalhadores oriundos do Nordeste entraram em São Paulo, incentivados pelo governos estadual e federal a trabalharem nas fazendas de café e algodão e também nas indústrias em São Paulo.

Nesse processo de deslocamento populacional, a contraposição entre o moderno e o arcaico foi latente. A seca foi politizada pelos agentes governamentais na perspectiva de constituir uma imagem do Nordeste como o lugar inviável. No pólo oposto, São Paulo era vendido como o lugar das oportunidades. A alternativa possível, para a superação das agruras do sertão era o êxodo, a fuga das mazelas da seca.

Numa perspectiva macroestrutural, tratava-se da montagem de uma geopolítica do desenvolvimento nacional na qual a junção entre o arcaico e o moderno se realizava num Nordeste reservatório de mão-de-obra e no Sudeste como o arauto da modernidade agrária e industrial . O tempo da história lenta e a modernidade se complementavam num processo cuja modernização é erigida a partir do arcaico . Nesse sentido, o arcaico é moderno e o moderno é arcaico.

Nessa perspectiva, a migração nordestina para São Paulo era funcional aos interesses das elites, tanto do Nordeste quanto do Sul. Para os primeiros, tratava-se em abrandar a tensão social e econômica nas áreas em que a seca produzia constantes levas de migrantes que afluíam às cidades ,promovendo saques e desordens. Frederico Neves 7 narra dois casos análogos ocorridos em Fortaleza nas grandes secas de 1877 e 1915. Na primeira - que promoveu um êxodo significativo para a Amazônia - afluíram à cidade aproximadamente 100 mil retirantes, numa época em que a população da Capital cearense não ultrapassava 30 mil habitantes.

O fluxo em massa de uma população faminta e, em muitos casos, doente, assustou os agentes do poder público. Na grande seca de 1915, que deu origem ao romance de Rachel de Queiroz, criou-se um campo de concentração sob a alegação que ele facilitaria o auxílio à população - comida, medicamentos... Para Neves, este campo, denominado Curral dos Bárbaros no imaginário citadino local, materializou um elo simbólico entre a cidade e o campo. A população urbana queria ser afastada da seca, da miséria e do atraso social. A partir de 1915, operou-se uma mudança de termos, o retirante de 1877 foi rebatizado como flagelado.

A migração sugere, assim, a sobreposição de diferentes tempos e a explicitação, num processo de deslocamento populacional, da modernização conservadora. A modernização econômica em São Paulo nas primeira metade do século XX, cujo carro-chefe, num primeiro momento, foi a cafeicultura e, posteriormente, a industrialização, sustentava-se na permanência de relações arcaicas em outra região do país: o Nordeste. Assim, O Quinze e A Paulicéia Desvairada encontram-se explicitando suas relações e negando-se enquanto totalidades apartadas.

Desse encontro, momento em que o outro cruza a fronteira, constituiu-se a necessidade do reconhecimento mútuo entre diferentes tempos. No caso da migração nordestina para São Paulo, uma expressão da Paulicéia Desvairada desdenha de O Quinze , como podemos observar no excerto transcrito abaixo. Trata-se da avaliação de um fazendeiro de São Manuel, que justificava dessa forma seu pedido de trabalhadores

Em traze-los para S. Paulo, prestamos serviço relevante de patriotismo não só no sentido do aproveitamento das forças econômicas que eles representam, como também cooperamos para um não menor esforço eugênico no sentido do levantamento intelectual e físico destes infelizes. 8

 

O encontro é paradoxal. Se por um lado, houve uma política que incentivou - e mesmo subsidiou - a inserção de trabalhadores nordestinos no mercado de trabalho (agrícola e industrial) paulista, por outro, sua chegada expôs a existência das fronteiras, cuja recusa se dava não pelo valor econômico do homem força de trabalho , mas pela negação do outro enquanto sujeito.

O paradoxo nada mais é do que o conflito entre diferentes tempos, que se expressam na ação dos sujeitos envolvidos no processo migratório. O (des)encontro explicitou a existência da fronteira, do outro tempo , do estranhamento, enfim, os dilemas daquele tempo presente, daquele tempo histórico.

Há um diálogo peculiar entre Rachel de Queiroz e Mário de Andrade, suas obras viram mundo , adquirem autonomia de seus produtores. Suas personagens encontram-se numa realidade econômico-social, matrizada pela modernização conservadora, pelas múltiplas temporalidades 9, enfim, num encontro marcado pela história.

Ambas as histórias explicam, a seu modo, os diferentes tempos de uma mesma história. Ao tentarmos reconstruir a teia do fato 10, nos deparamos com a necessidade da escolha. No caso em questão, as migrações para São Paulo possuem, como todo fato social, níveis explicativos que se complementam. Estas são apenas duas, das infinitas histórias que podem ser contadas. A reconstrução ou reinterpretação constante da história a coloca numa perspectiva sempre aberta ao novo, às novas possibilidades. O tempo não para... e a história o segue.

 

PAIVA, Odair da Cruz. Caminhos cruzados: a migração e a construção do Brasil moderno. 1930/50. Baurú: Edusc, 315 p. 2004

QUEIROZ, Rachel de, O Quinze . Rio de Janeiro, José Olympio, 160p. 2004

ANDRADE, Mário. Paulicéia Desvairada. São Paulo, Landmark, 160p. 2003

MARTINS, José de Souza. O Poder do Atraso: ensaios de sociologia da história lenta . São Paulo, Hucitec 215p. 1994

Excerto de matéria publicada no jornal o Estado de São Paulo em 1 º de setembro de 1899.

PAIVA, Odair da Cruz. Brasileiros na Hospedaria de Imigrantes: a migração para o Estado de São Paulo (1888-1993) São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura/Memorial do Imigrante,.68p. 2001

NEVES, Frederico de Castro. Imagens do Nordeste: a construção da memória regional. Fortaleza, Secult, 128p. 1994

Processo Secretaria da Agricultura. Pedido de Trabalhadores. Hospedaria de Imigrantes. Série A. n. 3.472 de 2/09/1935.

REIS, José Carlos. Tempo, história e evasão . Campinas, Papirus/Unicamp, 204p. 1994

VESENTINI, Carlos Alberto. A teia do fato. Uma proposta de estudo sobre a memória histórica. Hucitec, São Paulo, 219p. 1997,