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Imagens suspensas
Cláudia Leão (UNIFIEO)
A superfície da imagem fotográfica é real e possível de aproximação, por isso é tátil. È substituta da ausência. A fotografia possui mais do que uma realidade, uma irrealidade que é imanente a ela, pois é a que encobre e descobre, estende e encurta uma verdade dos fatos que estão ali inscritos. Não mostra por inteiro o que está por trás de uma fotografia colecionada dentro de um álbum de família ou mesmo das imagens feitas a esmo, durante uma viagem, ou um passeio no parque, na praça, onde todos parecem tão felizes.
Assim, a fotografia deixa de revelar os conflitos e a complexa e imbricada estrutura familiar, constituída também dos desentendimentos, da falta de contato físico entre parentes, do desafeto, da violência dos pais, das brigas de casal, da concorrência entre irmãos, enfim. Naquela imagem fica somente o registro de poses felizes feitas para aquela fotografia.
Para penetrar no campo das imagens táteis, devo entrar na permeabilidade das imagens fotográficas que ficaram e que não estão mais onde poderiam estar. As fotografias pertencentes aos álbuns se encadeiam numa narrativa paralela, constituindo histórias de uma vida, de um tempo sobreposto àquele impresso no papel. Essa imagem poderia, até certo momento, ser um evocador, ter a possibilidade de sentir ou ser a presença de quem “está” ali e, com isso, permitiria àquele que a observa recuar no tempo e sentir o prazer de uma breve recordação, vinda ao coração por meio das imagens procuradas e achadas-perdidas, desencontradas entre tanto tempo, entre pequenas coisas.
Ainda assim, guardamos o hábito de carregar uma fotografia para fazer presente aquela coisa ou aquela pessoa para que, de algum modo, possamos estar próximos dela, e fazendo da fotografia a própria pessoa ali presente, impregnada de todos sentidos 1. Essa proximidade material ajuda a rememorar, em parte substitui, sem deixar de ser (nem a coisa nem a imagem). Esse modo de presentificar deve-se ao fato de que dentre as técnicas de captura de imagem (vídeo, cinema ou imagem digital necessitam de aparelhos transcodificadores da imagem para o suporte), a fotografia é tátil por excelência; ela é gerada para ter materialidade em sua origem e sobre ela podem passear, com proximidade, as mãos e os olhos.
Roland Barthes, acerca desse acontecimento, coloca a fotografia justamente nessa condição, quando diz que o passado passa a ser tão presente quanto o que se vê no papel fotográfico, quanto ao que se vem tocar. Essa corporeidade da fotografia a faz ser o que é: o real e o irreal num limite muito tênue e mais ainda, porque é possível tocar essa imagem.
Nesse campo, entre a imagem fotográfica e a realidade do acontecimento, as coisas passam a se confundir, ou melhor, fundem-se, uma vez que vão sendo constituídas as histórias, atados os laços que as prendem ao passado. As duas maneiras de lembrar doem. Uma, pelo que está ausente do circuito familiar; a outra, pela presença das mulheres num lugar de ausência: o asilo.
A extensão das lembranças, porém, é bem maior na velhice. Esse tempo é quando se tem a possibilidade de absorver dois tipos de memória: a de curto e a de longo prazo. James Hillman considera esse fato “um dos efeitos mais notáveis desse momento da vida”. Essa divisão entre as duas memórias faz-se uma vez que a capacidade de retenção da memória de curto prazo ou de acontecimentos recentes vai se atrofiando. São esquecidas datas recentes, um remédio a tomar, um rosto novo, um livro em cima de algum lugar, o que fazer, o que lembrar, o que esquecer.
Por outro lado, a memória de longo prazo vai ficando mais apurada, pois lembrar se torna um dos hábitos mais banais e mais presentes, sedimentando o que ficou para trás: o idoso lembra-se do amigo que morava na rua quando eram crianças, do quarto da casa que habitaram, do caminho que percorriam para a missa do domingo, da cor dos sapatos da escola, da beleza da mãe que já morreu, de um olhar, dos cheiros, de sentimentos, enfim, as coisas retornam, sempre retornam, por mais afastadas que estejam.
A conectividade entre as novas e velhas experiências (entre a memória curta e a memória longa) só ocorre ou faz sentido quando elas se entrecruzam, formando novamente um entrecruzamento entre imagens interiores e exteriores, ou seja, quando o acontecimento recente age como evocador, iniciando o processo de relembrar. É que, para (re)significarem, esses elos precisam ser atados.
Nesse período, o idoso passa a rever, sua vida, a refazer caminhos, a vasculhar, a procurar alguns pedaços para, então, imaginar e passar a existir dentro do circuito de lembranças e mais lembranças que se formam. Sem esse ato compensatório não seria possível viver, porque são essas histórias que constituem a vida o mundo precisa significar para atestar sua existência. Existimos nesse mundo de coisas que significam, porque damos um rosto a elas, oferecemos sua anima. Assim, lembrar significa, pertencer.
Conforme Luria e Sacks, alterações no córtex frontal e visual causam a perda prematura ou temporária da memória recente ou da experiência. Observaram isso nas chamadas síndromes de Karsacov e de Anton 2. Durante o tratamento são travados grandes embates para o retorno da memória, porém nem sempre vitoriosos. Nesse caso, lembrar e rememorar são ações sem profundidade, estanques e finitas. Assim, os portadores dessas síndromes vivem solitariamente dentro de um mundo com espaço e tempo próprio.
Ao que se deve, contudo, essa vontade , essa urgência de manter a memória longa tão extensa, tão viva e tão presente, uma vez que o corpo passa a ser o agente de tantas irresponsabilidades, perceptíveis nas ações mais corriqueiras, não respeitando os comando mais simples? Segundo estudos neurológicos, isso ocorre porque:
As áreas intelectuais mais altas do córtex cerebral têm um grau significativamente menor de desaparecimento de células (...) pode ser até que os neurônios em menor número aumentem sua atividade (...) Pesquisas recentes sugerem que certos neurônios corticais parecem tornar-se mais abundantes depois da maturidade (...) as ramificações filamentosas (os dentritos) continuam a crescer em idosos saudáveis (...) os neurocientistas podem ter descobertos a fonte daquela sabedoria que, gostamos de pensar, podemos acumular coma idade avançada. (apud, HILLMAN, 2001: 115)
Na verdade, o valor do envelhecimento deveria estar ligado àquele que detém um acervo de experiência, de vivência, de sabedoria, são as sua história que é também a história de outros. Esse é o verdadeiro sentido de envelhecer. O velho é quem pode não deixar que a narratividade de nossas histórias se extinga. Outrora, a pessoa mais velha de um grupo era respeitada por sua condição de ancestralidade, pelas marcas que trazia no rosto, pelo que carregava sobre e sob sua pele. O tempo de vida de uma pessoa está impregnado de sua força, de sua fragilidade, de sua sabedoria, ou seja, daquilo que James Hillman chamou de a “força do caráter”.
Em algumas culturas, o geronticídio é autorizado legalmente; em outras, os velhos são mortos para antecipar o inadiável: a morte. Nas culturas “desenvolvidas”, o respeito ao velho se faz na via inversa dessa condição. Nesse caso, ninguém mais envelhece, as pessoas pensam ter poder para adiar a ação do tempo e tentam permanecer jovens “para sempre”, visto que envelhecer é tornar-se feio, mal cheiroso, morto, vagaroso, decrépito, esquecido. Depreciar uma pessoa mais velha virou uma atitude corriqueira. Uma das conseqüências mais visíveis desse estado é perceber sua insignificância, vendo-a em restos humanos, dignos apenas de maus-tratos seguidos, muitas vezes, de violência e morte 3.
Com a perda da memória de curto prazo, a mente idosa abre espaço à repetição. Não se lembra dos acontecimentos recentes, e conta a mesma história, faz a mesma pergunta diversas vezes, retornando a uma rememoração constante, irritando o adulto que não suporta ouvir de novo.
Alguns consideram a repetição, tanto no idoso quanto na criança, enfadonha. Não entendem por que as histórias precisam ser tantas vezes recontadas. Essa postura é equivocada, visto que a repetição é um componente essencial para imaginação. É ela que junta a criança e o velho. No caso da criança, ela precisa disso para criar seus vínculos, suas significações para um mundo cheio de tantas possibilidades. Segundo Walter Benjamin, a repetição é a grande lei que rege o mundo e que para a criança é a “essência da brincadeira”. O que lhe confere prazer de “brincar outra vez” 4 , não porque está repetindo, mas por estar fazendo de novo, pois refazer é um ato criativo. Além do mais, a tradição oral é mantida pela repetição das histórias transmitidas ao longo das gerações.
É por essa condição de relembrar as ações ao longo da história ou das que devem ficar perdidas, porque causaram algum infortúnio, que a memória longa impede esse apagamento das lembranças difíceis, parecendo que a perda do contato é capaz de acalentar uma dor. Essa, porém, não parece ser a melhor saída; o que está suspenso é trazido como lembrança corporal de uma vivência indivisível do corpo que a possui. Por mais que a ação de lembrar se faça aos pedaços, como se cada imagem fosse um fotograma, em algum momento essas imagens se juntam e retornam, criando uma nova narrativa que não se apaga, que não se desfaz. Há dois os únicos desvios que conduzem ao caminho do apagamento: é o esquecimento, chamado por James Hillman de “maravilha da mente humana”, e a morte.
Ainda assim, as lembranças permanecem suspensas, escondidas dentro de um corpo que hesita em lembrar, por mais que elas estejam ali prestes a entrar, a cruzar com acontecimentos que, de algum modo, voltam a evocá-las. Assim, mesmo que as fotografias tenham sido rasgadas, perdidas, desencontradas, quanto mais longe dessa memória tátil, mais próximas as lembranças ficam delas, vindo tocá-las à noite por meio dos sonhos. E o que é a fotografia senão “uma imagem mental do mundo (...) cuja a impressão sobre o papel seria apenas um fenômeno secundário” (apud LEITE, 1998:38). Isso é o que afirma o fotógrafo esloveno e cego Evgen Bavcar. A materialidade da fotografia é um fato, mas é também a materialidade de nossas lembranças que delimita a existência física de cada um de nós.
As recordações mais distantes estão enterradas dentro de seus corpos para serem escavadas, rasgadas e abertas as fendas que separam o lembrar do esquecer. O passado retorna forte e cravado como é, tomando o lugar do presente, e não há escolha, pois ele está ali. Quando o passado se ausenta, o presente vem como uma cortina de fumaça, tentando encobrir as dores inapagáveis. Dona Lina sempre retorna à imagem de sua mãe, sempre sonha com ela, sempre sente muitas saudades dela. Todas as vezes que conversamos, sua mãe sempre esteve presente em algum lugar, em algum sonho. Sua falta é pela ausência de alguém que ela não tem, de alguém que pudesse cuidar dela até a morte, porque ela foi assim com a mãe; por isso, dona Léa sempre volta. Quando perguntei como havia sido sua primeira noite ali, ela me respondeu: “Eu não dormi bem. Passei a noite sem sono, acordei no meio da madrugada... sonhava com minha mãe... Tenho muitas saudades dela, muitas. Eu cuidei dela até o dia da sua morte.”
Referências Bibliográficas
BAITELLO, Norval. Com os sonhos o homem alcança a imortalidade . www.cisc.org.br.
São Paulo.1997.
BARTHES, Roland. A câmara clara - Edições 70. Lisboa. 1980
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Obras escolhidas vol. I. Editora
Brasiliense. São Paulo. 1989.
CYRULNIK, Boris. Os alimentos do afeto . Editora Ática. São Paulo, 1995.
ELIAS, Norbert.. A solidão dos moribundos seguindo de envelhecer e morrer.
Jorge Zahar Editores. Rio de janeiro. 2001.
FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaio para uma futura filosofia da
fotografia . São Paulo. Hucitec. 1985.
HILLMAN, James. A força do caráter e a poética de uma vida longa . Objetiva. Rio de
janeiro. 2001.
KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. Uma fotografia desbotada: atitudes e rituais do
luto e do objeto fotográfico . Coleção Cadernos GREM, nº02. Manufatura/GREM. João Pessoa. 2002.
MORIN, Edgar. O homem e a morte . Imago. Rio de Janeiro. 1997.
MONTAGU, Ashley. Tocar: o significado humano da pele . trad. Maria Silvia Mourão
Netto. São Paulo. Summus Editorial. 1988.
SAMAIN, Etienne. Um retorno à “câmara clara”. Roland Barthes e a antropologia
visual . in O fotográfico. Hucitec. São Paulo. 1998.
SACKS, Oliver. O homem que confundiu a mulher com um chapéu . Companhia das
Letras. São Paulo. 1997.
WULF, Christoph. Imagem e Fantasia. www.cisc.org.br. São Paulo. 2002.
A significação que uma fotografia adquire depende do sentido que ela passa a ter quando a imagem passa a ser a verdadeira substituição da perda. Desse modo, uma fotografia ganha uma condição quase viva. Em Uma fotografia desbotada – Atitudes e rituais de luto e objeto fotográfico , o autor relata o caso de uma mãe que, depois da perda de seu filho, passa a trazer consigo uma fotografia do garoto guardada em seu peito. Em seu depoimento, ela relata: “E ficava olhando o retratinho dele. A foto não saía da minha mão, do meu olhar. Às vezes, eu a guardava no meu peito, como se ele na foto, fosse de fato ele. Não sei dizer, nem o que você vai achar, mas acho que a foto terminou pra mim virando meu filho”. (KOURY, 2002:57)
As síndromes de Karsacov e de Anton, estudadas pelos neurologistas Alexander Luria e Oliver Sacks são agnosias da memória ou da experiência. O paciente portador dessas síndromes adquiridas por acidente ou pela atrofia do cérebro passa a viver num mundo isolado e de acontecimento restrito, pois só é retida a memória retrógrada ou o que seria parte da memória longa. Ambas hoje são pouco estudadas, ainda que a primeira tenha sido descoberta na década de 1880. É o caso da síndrome da Karsacov narrada por Oliver Sacks, em O homem que confundiu a mulher com um chapéu , onde ele conta a história de “Um marinheiro perdido”, que só mantém a memória anterior a 1945. Quando se recorda, o restante é desconectado do tempo do acontecimento. Para estudar o caso desse marinheiro, Sacks escreveu para Luria perguntando o que deveria fazer, uma vez que eram poucas as esperanças de recuperação. Luria respondeu: “mas um homem não consiste apenas de memória. Ele tem sentimentos, vontade, sensibilidade, existência moral (...)”. No entanto, quem não tem memória não tem apego, não consegue guardar muitas vezes nem sua própria existência.
Segundo James Hillman (46:2001), “Os maus-tratos a idosos tornaram-se uma síndrome disseminada nos Estados Unidos. (...) Em geral nos Estados Unidos odiamos envelhecer e odiamos os idosos por personificarem o envelhecimento”.
Em São Paulo, um senhor idoso foi encontrado preso em um quarto imundo vivendo no meio de lixo (noticiário de televisão, outubro de 2002);
Uma senhora de 92 anos morreu, vítima de traumatismo craniano, 48 horas depois de ser espancada por sua dama de companhia. Sua morte foi filmada por seus filhos, que para provar que a mãe estava sendo espancada, a expuseram pela última vez. (noticiário de televisão, novembro de 2002).
“a raiz mais profunda do duplo sentido da palavra alemã spielen (brincar e representar): repetir o mesmo seria seu elemento comum. A essência da representação, como da brincadeira, não é “fazer como se”, mas “fazer sempre de novo”. Benjamin (1993:253),