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O Texto Sensual
Wladimir Garcia (UFSC)

Este ensaio é uma seqüência de brechas, aberturas de página para vários estudos em torno das relações entre Literatura e Cultura S/M. Neste sentido isto é isto: jogo de figuras de pensamento, entidades orgânicas barradas pela deriva literária, relação entre séries sociais, texto de consulta. Sendo assim, o texto seqüestra leituras de Freud, Foucault, Deleuze, Sade, Masoch, Bataille e algum Buñuel, apontando, no seu final, para relações com exterioridades tais como a moda, questões de gênero e histórias pedagógicas. Portanto, trata-se antes de tudo das cinzas destes autores e de alguns conceitos jogadas no futuro de algum passado sócio-cultural, naquilo a se dizer destes passados, ou, em outras palavras, um discurso disseminado: o texto, o livro, a escrita do outro, transmigra e ocasiona “coexistências” heteróclitas, paisagens éticas.

É conhecida a perspectivação de Deleuze/ Guattari pela qual a Arte é pensada como “um bloco de sensações, isto é, um composto de perceptos e afectos” 1, sendo que estes “seres” de sensação, na sua materialidade, transbordam as percepções e os sentimentos. Neste sentido, eles constituem as paisagens anteriores nas quais o próprio homem não é mais do que um composto de sensações atravessado por estes devires não-humanos. Do vivencialismo da encarnação fenomenológica ao vitalismo deleuziano temos o acréscimo da idéia da carne carregada pela sensação. Tal imagem reclama um texto de sensação que se produza pelo atravessamento destes devires da exterioridade, na conjugação dos sentidos selvagens.

A leitura do texto sensual invoca, como uma deriva primeira, então, composições discursivas invasivas, acoplagem de campos, contato com o corpus , com os corpos das palavras, tendo como efeito o signo de um deslocamento acadêmico: um discurso não-autorizado. Eu me autorizo a falar sobre estes assuntos, produzindo um texto estranho à lei acadêmica disciplinadora, das trincheiras das disciplinas. Ele fala, em última instância, aonde não é chamado. É, portanto, um texto de informação quando tenta verbalizar o som daquele estranho.

Uma primeira lei do deslocamento: uma matéria nunca é suficiente, ela sempre deseja matérias suplementares, como num comparativismo que rejeita a influência, a diferença numérica ou a síntese conciliadora, mas não cessa de elaborar hiper-textos que se movem em séries divergentes, como signos de suplência. Tomando vantagem da cadeia latina supplentia, supplere chega-se rapidamente a supplementu . Ou seja, a função passa a ser definida por ser uma reserva, um alimento. Nada mais real: ser engolido pelo texto ou alimentar um evento. Talvez a leitura da suplência tenha, enfim, este valor sacrificial. Mas também: aditamento, acréscimo, o poder de acrescentar e de substituir na cadeia a que pertence (ou, pensaria um transgressor: o excesso de subjetividade é próprio de toda a experiência transgressiva, a exemplo da fala do suplente). Fica exposto, então, que o texto sensual, aquele que é composto por blocos de sensação, por affectos e perceptos, que convoca os sentidos para as questões da matéria, e, por isto, transforma, cria e compõe matérias, é, sobretudo, um texto da ordem do prazer.

Tomemos dois autores, duas artes e um problema: entre Masoch e Buñuel, para uma recepção apressada, insinua-se dançante a questão do gênero (pornográfico? erótico?). Susan Sontag na introdução da edição inglesa da História do Olho , de Georges Bataille 2, argumenta sobre o conceito de pornografia através de uma tipologia, tomando, também, A História de "O" , de “Pauline Reage”. A diferenciação operada implica em entender a pornografia não somente como um fenômeno de massa, mas reconhece a inexatidão de reduzir o assunto a um sintoma patológico ou a uma problemática social. Contudo, alguns livros desviam o argumento para outros lugares, ultrapassando justamente a denominação moral de “livros sujos”, o que ambiguamente é tanto a sua legitimação esquiva quanto a hipocrisia social em admitir o reprimido sob as cortinas de uma economia de mercado.

Nós poderíamos pensar em critérios distintivos como, por exemplo, a falta de unidade (diz-se que numa obra pornográfica cada cena tem um valor isolado com propósitos de excitação), o excesso de descrições explícitas, a falta de enredo e a carência de densidade psicológica. Neste caso, a questão subjacente - o que é pornográfico – é desviada exatamente para dentro do âmbito da teoria literária. Sendo assim, Sade, Masoch, Bataille e Buñuel, são privilegiados, antes de tudo, como operadores de ficções que inscrevem a pornografia na arte a partir de projetos pessoais e pela criação de linguagem, o que modifica o senso comum em relação ao pornográfico. Mais adiante, outra diferenciação emerge: em Sade e Bataille, aparentemente, uma reação explícita e bruta parece ocorrer, reação sensacional , que reescreve o corpo erótico. De fato, nós encontramos naqueles autores um tipo de paródia pornográfica de muitos dos relatos anônimos franceses e ingleses, dos séculos XVIII e XIX. Em Sacher-Masoch e em muitos dos filmes de Buñuel, por outro lado, há um processo de esconder o corpo e uma abordagem do erótico pela via das narrativas do inconsciente. Em Este Obscuro Objeto do Desejo , por exemplo, o prazer é adiado e, analogamente, há a punição do corpo em A Vênus de Peles . Fica evidente, portanto, que tais obras chamam a atenção para a suas maquinarias, suas combinatórias únicas, antes do que para as suas afirmações. Nestas obras o corpo é esquecido para se tornar constante, como um sinal da presença na ausência: é rastro, traço ou marca.

O obsceno aparece, nestas obras, filosoficamente, como uma noção primitiva da consciência humana, liberado através da exibição do corpo e de sua agonia. Neste sentido, é possível falar de um “erotismo da agonia” em A História do Olho , de Bataille. Isto decorre de um excesso de perspectiva, onde sexo e morte são identificados um com o outro. Naquele aspecto, Sade e Bataille são semelhantes, embora a escolha estética e retórica de Sade aponte para a descrição da cena até a exaustão e Bataille, ao contrário, proponha um adensamento discursivo das marcas indispensáveis: como no marcado e remarcado aqui A História do Olho - três personagens, um casal e um rico aristocrata inglês, dividindo, através de uma única fantasia, uma ação coletiva e um desejo perverso de abolição das fronteiras sexuais, desenvolvem um ato convulsivo numa seqüência espacial, culminando com o uso do olho como um extremo símbolo transgressor. Em Bataille, é o caso de uma drenagem dos poderes metafóricos: ele muda a função dos objetos, isto é, sua substância por sua obscenidade, gerando estilo. No caso de Sade, o efeito vem por outras vias: conforme Roland Barthes, a linguagem nele resulta de uma combinação enciclopédica, um erotismo enciclopédico que gera um tipo especial de escritura. Entre ambos, entretanto, por estratégias distintas, reafirma-se a qualidade essencial da literatura: sua mirada que transforma cada experiência para dentro de uma linguagem.

O que resta não é, portanto, um tratado moral ou uma ética social, mas o experimento corporal da linguagem, a indicação de suas possibilidades estético-eróticas. Com efeito, não se trata de uma literatura do centro da norma, nem repetição controlada do mesmo pornográfico, mas é literatura de fronteira, texto sensual, basculando entre libido e narrativa. Entretanto, ao jogar com polaridades elas configuram uma disciplina quase religiosa, uma obsessão mística sem valor absoluto.

De fato, nós podemos considerar uma linguagem erótica em Sade e Masoch, elas constituiriam, para usar a expressão de Roland Barthes, uma “pornologia”, na medida em que revelam um conhecimento específico, um saber. Em torno dos discursos de êxtase e de seus representantes (o artista, o louco, o marxista), esta literatura erótica de fronteira orbita. Ela não objetiva exatamente quebrar nenhuma regra, mas produzir uma experiência literária de sensações, o que já é suficientemente anárquico na sua associação de acaso e necessidade. Elas não são produtos de massa, antes elas escolhem seus leitores desde a sua densidade imanente e de seu perigo na cisão do presente.

Foucault, entretanto, na sua História da Sexualidade 3, é inequívoco: em qualquer caso, numa história posterior à hipótese repressiva, é uma ilusão pensar que está dado às sexualidades ilegítimas qualquer autonomia: a elas somente é dado um lugar de reinscrição, de sobrecodificação eu diria, reterritorializadas seja como objeto no circuito de produção, seja como função definida num aparato de lucro (veja-se os casos das ruas pornô nas cidades licenciadas: Amsterdã, New Orleans, Miami, etc.). Ou seja, mesmo a restituição do prazer ao real, como eclosão de verdade, é “condicionada politicamente”. Ou seja, o Estado na sua face Cientista, ao instalar uma ordem do saber, reinscreve a sexualidade dentro de uma ordem burguesa e capitalista. Mais tarde Deleuze/ Guattari vão explicitar tal modo como uma produção capitalista de subjetividade. Neste quadro, o discurso crítico contra a repressão seria da economia discursiva daquele (o regime de poder-saber-prazer), e menos do que “colocar o sexo em discurso”, o mais divertido (sim, há uma vontade de rir deste jogo de negações) seria pensar o funcionamento das produções discursivas que se organizam em torno do poder e do saber.

Propomos, então, pensar a Literatura na sua associação com a psiquiatria e a psicanálise, a partir do seu papel de máquina de pensar o desejo a partir dos relatos ficcionais, que vai encontrar no texto do sonho e do esquizo, possibilidades ricas e complexas relações. A construção de um entidade, ou identidade, “sadomasoquismo” (que é o que parece estar em jogo aqui, como leitura da desconstrução) é problematizada a partira daí. Freud, por exemplo, em termos gerais, acreditava que o sadismo seria um estágio ativo, um tipo de manifestação de impulso sexual direcionado a fazer outros sofrerem uma dor física ou, alternativamente, um processo de humilhação/ dominação. Masoquismo, por sua vez, seria o estágio passivo, uma espécie de inversão sádica, de forma que a relação entre dor e excitação fosse mais evidente. Não por acaso, Georges Bataille explica que a linguagem de Sade é paradoxal porque é, essencialmente, a linguagem da vítima. Somente a vítima pode descrever a tortura; o torturador usaria a linguagem da ordem e do poder hipócrita. No sadismo, haveria também uma dimensão simbólica, na medida em que efetua uma conexão complexa entre instinto de morte e impulso sexual. Além disto, há igualmente um impulso destrutivo, no sentido que o homem tende a caminhar para a sua própria perda.

Embora originalmente a expressão masoquismo seja derivada da obra de Sacher-Masoch 4, na qual encontramos a submissão masculina à mulher amada, com a procura por sofrimento e humilhação, em psicanálise o masoquismo seria justamente uma forma a mais de promessa da libido. Lacan iria acentuar uma tendência de cada sujeito em direção ao masoquismo, mas ele redireciona tal tendência à formação da identidade: diante da face do Outro, onde o Eu procura pelo significado de sua existência, mas não é respondido, o masoquista faz um objeto de si mesmo e rejeito. Ele tenta, de fato, provocar uma angústia no Outro. Desde aí, temos a opção pelo sofrimento. Numa inversão da equação, o sujeito só existe em face do Outro quando sofre. De acordo com isto, tanto no final de Os Cento e Vinte Dias de Sodoma e Gomorra , de Pasolini, como em A Vênus de Peles , de Masoch, parece haver uma inversão de papéis. Entretanto, neste texto, nós vamos preferir entender tal fato desde a desconstrução deleuziana, na forma de um sub-produto paradoxal: é muito duvidoso que o sadismo de Masoch seja o mesmo que o de Sade, bem como o masoquismo de Sade seja o mesmo que o de Masoch.

Na própria análise das obras de Buñuel e Sacher-Masoch tal esquema pode ser problemático, porque ele pode induzir-nos a acreditar numa mera reversibilidade do sadismo dentro do masoquismo, ficando, por isso, difícil alcançar aqueles dois diferentes sistemas. De fato, a teoria psicanalítica mesma não é conclusiva quanto a isto. Esta é uma história que ainda está sendo escrita, tanto teoricamente quanto socialmente. Pensar o contrário seria alimentar os tristes clichês identitários acerca do assunto.

Gilles Deleuze, por exemplo, comentávamos, ao desconstruir a entidade, investe na potência dionisíaca da arte, relendo como literatura, os trabalhos de Sade e Sacher-Masoch. Ele constrói dois sistemas diferenciados. Em seu brilhante ensaio Coldness and Cruelty ele escreve: "Uma piada popular fala do encontro entre um sádico e um masoquista; o masoquista diz: me bate. O sádico responde: não. Esta é uma piada [comenta Deleuze] particularmente estúpida, não somente porque é irreal, mas porque tolamente reivindica a competência de julgar sobre o mundo das perversões. É mesmo irreal porque um sádico genuíno nunca toleraria uma vítima masoquista" 5.

Há muitas diferenças literárias entre Sade e Masoch, as quais tornam impossível uma dialética clínica do sadomasoquismo no plano de composição da arte onde os elementos não são sintomas. Ou seja, a despeito de algumas reduções, a arte não é uma patologia, mesmo que agencie formas patológicas. Quando nós lemos um livro de Sade, podemos perceber que ele envolve, como recorrência, muitas histórias curtas, permeadas por descrições meticulosas de cada tortura, seguidas por uma justificação legal e racionalista, filosófica, em última instância. Este ritual de exaustão é fielmente retomado por Pasolini nos 120 dias , e também por Buñuel em algumas digressões detalhadas, mostrando o absurdo por meio de uma sintaxe do absurdo. Chegamos, então, à configuração de uma vida nua, a pessoa como “objeto” ou “coisa” re-sexualizada, o corpo é isolado como função e emerge um inventário de infinitas possibilidades. Um catálogo ou enciclopédia localizado num tempo presente infinito onde qualquer moral externa é suspensa. São obras que tangem a impessoalidade e a indeterminação nos seus devires intensos.

Neste sentido, em Sade, nós temos uma compensação do processo de distância entre o pessoal e o impessoal, direcionado para uma ação sobre o primeiro apenas para ecoar o segundo. O prazer seria proporcional à aceleração daquilo. Durante a exibição da violência, usualmente são expostas incansáveis teorias e o algoz mantém, inclusive, uma conversação filosófica com as vítimas. Nós poderíamos pensar, então, em uma violência da linguagem, um golpear da repetição, que configura uma violência que questiona uma civilização marcada pela violência. A despeito disto, a narrativa parece não querer exatamente persuadir o leitor acerca de qualquer coisa. Em Sade, antes do que unificar o leitor, a linguagem o divide. Não há lugar, neste caso, para relações contratuais.

De outro modo, em Masoch nós podemos encontrar um papel de “educador', na medida em que o herói tenta persuadir a heroína a estabelecer um contrato entre eles, aonde ela vai performar o cruel ideal da mulher na trama masoquista. O contrato objetiva, neste sentido, proteger o fantasista e o universo simbólico que herói e heroína vão construir. Deleuze distingue contrato de um dispositivo institucional - um atributo do universo sádico - ao defini-lo como um “consentimento livre de contrato entre partes e determina entre eles um sistema de recíprocos direitos e deveres; ele não pode afetar uma terceira parte e é válido por um período limitado...o contrato, de fato, gera uma lei, mesmo que esta lei sobrepõe e infringe as condições que a fizeram possível'. A idéia de contrato como literatura – aquele lugar onde se pode dizer tudo, até mesmo negar a lei que a institucionaliza - motoriza a fantasia masoquista: há sempre implícito ou não um contrato que produz um lento ritual. Todas as coisas são estabelecidas, prometidas e cuidadosamente descritas antes de serem realizadas. Há suspense no sentido de uma ação suspensa que permanece cristalizada, ainda que tensa. Por isto, talvez fosse possível falar de um outro gênero aqui, um gênero do suspenso, que é também o gênero do leitor, onde é possível uma outra economia, o mais-relato. De fato, o ideal de Masoch inclui tal extensão de erotismo, conduzindo a uma filosofia estética elaborada em torno do que chama “ultra-sensualismo”. O texto do gênero do suspense é tântrico na sua suspensão, é um texto “ultra-sensual” no seu mais-relato. Antes do que a deserção simples do Eu – como via Freud - há um contínuo aprofundamento de subjetividades compósitas entre o par da cena. Vale dizer, junto com Deleuze, que se forma um movimento de mão-dupla: de-sexualização e sexualização da história da humanidade (religião, política e sociedade). Neste sentido, dentro do projeto idealista de Masoch o prazer é sempre adiado - e aguardado -, o que favorece a permanência de um estado místico e um estado latente de contemplação. Isto é o que Deleuze chamaria de atmosfera opressiva em Masoch, uma suspensão das imagens. Esta dicotomia entre o externo e o interno é estendida nas ficções masoquistas. Regularmente, esta cena é interna, aquela câmara aquecida mencionada anteriormente. Ao contrário das ficções sádicas, marcadas pela reiteração sistemática do ato, como vimos, Masoch privilegia o fetiche, a suspensão e o estilo. Em Sade tais funções não são relevantes, antes, ele estimula os vetores do discurso e da descrição da ação. Para Deleuze, a construção da mulher na fantasia de Masoch é decisiva; menos do que rival, que reforçaria um par diacrítico, ela é a composição de um monstro antropológico.

Nós deveríamos considerar que Masoch é filosoficamente informado: seus rituais têm uma base idealística ou mística relacionada à tradição platônica (não por acaso ele escreveu uma novela chamada O Amor de Platão ). De Platão ele toma a técnica da reversão dialética que vai constituir a sua mulher ideal: mesmo que ela tenha um papel dominador, ela reproduz, hesitantemente, como um aprendiz de escritor, os ensinamentos do educador.

De qualquer forma, o contrato masoquista gera uma lei sistêmica interna que nos direciona diretamente a um ritual. O contrato tem a função de proteger aquele universo simbólico previamente mencionado: a criação daquela fantasia consiste de uma neutralização do real e implantação do ideal dentro da fantasia. Por causa disto, não é possível pensar que o masoquismo seja material ou moral, mas principalmente formal. O fantasista é obcecado pelo seu ideal. Em Masoch, como em Buñuel, o suspense que emerge é estrutural.

Como nós vimos, este sistema duplo que está implícito na expressão S/M é um duplo sistema de linguagem. Tal sistema é construído sobre a artificialidade dos sinais e produz uma cultura específica. Nós poderíamos estender esta abordagem para ver a relação entre cultura S/M e outras prática culturais, chamando àquelas de ficções sociais, na medida em que elas assimilam estruturas artísticas para dentro de seus sistemas de sinais.

Entre aquelas ficções sociais nós poderíamos caracterizar um cruzamento invertido: práticas que inscrevem a si mesmas dentro da lei, mas fora do consenso, e práticas que inscrevem a si mesmas dentro do consenso, mas fora da lei. Na primeira situação nós apontamos, numa possível seqüência do estudo, por exemplo, para o sistema institucional inglês de punição do período vitoriano ou alguns elementos da moda de roupas no presente. Na segunda situação, poderíamos falar sobre alguns livros anônimos do século XIX ou de fatos e aspectos jurídicos envolvendo práticas sadomasoquistas e cultura queer na Inglaterra dos anos 90. De qualquer forma, fica insinuado isto: o texto sensual suplementa aquele com-sensual, invocando uma ética do par, que se desdobra no texto-leitor, no jogo invertido ou revertido dos papéis estabelecidos, nos laços libidinais formados, nas parcerias do como viver junto, vinculando uma anarquia dos micro-agenciamentos, naquilo em que se alimentam de um pensamento selvagem e desejante.

 

DELEUZE, Gilles; Guattari, Félix. O que é Filosofia? . 2.ed. Rio de Janeiro: Editora 34, 1997. 288 p.

BATAILLE, Georges. Story of the Eye . London : Penguin Books, 1982. 127p.

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: a vontade de saber . 13.ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1999. 152 p.

SACHER-MASOCH, Leopold. Venus in Furs , in Masochism . 4. ed. New York : Zone Books, 1991. 293 p.

DELEUZE, Gilles. Coldness and Cruelty , in Masochism . 4. ed. New York : Zone Books, 1991. 293 p.