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A “Dita” poesia: Vozes deslocadas
Paulo César García (UNEB/UFSC)

A poesia fala por si própria, aglutinando em sua escrita a percepção do possível numa estrutura aberta na qual a palavra vale por si mesma em sua relação com outras palavras. Capaz de transcender limites do dito, seu estilo torna o contingente e o imprevisível como eventos de ato de fala. Princípios de reflexão pelos quais se criam outros tons para ecoar a fluidez da voz, de quem fala e de quem escuta. Ao permitir assim trabalhar a escrita poética, o poeta concentra em si uma pluralidade de diferenças cujas expressões implicam um modo de ser e o ato de dizer. Ao desafiar um dado senso comum, a poesia se contamina pela embriaguez, como verdadeiro ponto de sublimação da existência, em que sonhos e desejos são revelados e, por esse sentido, opera-se a auto-reflexividade do eu-lírico.

Por esse foco de visualização, o poeta Antônio Cícero 1 capta, em sua obra, as circunstâncias da enunciação pelas quais se recolhem as relações subjetivadas no processo de constituição do ato de si. Ao fazer migrar imagens, dentro de uma estrutura da linguagem, a sua escrita gira em torno do lirismo amoroso, dando preferência à confidência da intimidade. Da forma como constrói o erótico, explicita-se um tom confessional. Não se trata de evocar o eu lírico somente e sim a autoridade do que vem a ser dito, bem como a experiência de verdade quando se afirma, ao seu olhar, como lhe é dito sobre si mesmo na particularidade do uso dos prazeres, pois palavras são “seres libidinosos, escreve-se com o próprio desejo, e não se acaba nunca de desejar”, como afirma Barthes.

A poética de Cícero oferece uma perspectiva de um modo de fala, que o constitui não por ele mesmo, mas para quem percebe como e sobre a qual a fala pretende se subjetivar no momento de leitura. As relações subjetivas são assim vivenciadas no tom da performance, da diversidade do existir, a fim de alimentar, de impulsionar, de testemunhar outros eus revelados. O conhecimento de si, então, está na/pela linguagem, tecida, dobrada cuja forma de se revelar se ancora em outras travessias.

Michel Foucault 2 trata a experiência na qual constitui uma práxis espiritual ou ascética, ou seja, “as transformações que devem experimentar o sujeito para alcançar outras formas de ser, pois no curso da história, o homem não se cessou de se construir a si mesmo, de trasladar continuamente o nível de sua subjetividade, de se constituir numa série infinita e múltipla de subjetividades diferentes que nunca alcançam um final nem nos colocam na presença de algo que pudesse ser homem”.

O desprendimento do prazer pode ser conferido na escrita de Antonio Cícero, uma vez que, em seus versos, não se guardam palavras, elas são colhidas, ecoando em sua estreita maneira de fazer enunciá-las:

Qualquer poema bom provém do amor assino os heterônimos famosos:
narcíseo. Sei bem do que estou falando Catulo, Caetano, Safo, ou Fernando.
e os faço eu mesmo pondo à orelha a flor Falo por todos. Somos fabulosos
da pele das palavras, mesmo quando por sermos enquanto nos desejando.
   
Beijando o espelho d'água da linguagem, a vida ou se a incita ou se é bobagem:
Jamais tivemos mesmo outra mensagem, desejarmo-nos é a nossa desdita,
Jamais adivinhando se a arte imita pedindo-nos demais que seja dita.
   
 
Dita

 

Diante de cultivo de ecos, o ato de si se transfigura pelo olhar do outro. Segundo Silviano Santiago 3, “o gesto que recolhe as palavras é o mesmo que as oferece” na poesia de Cícero. “Tudo se passa a dois e, por isso, a figura da reciprocidade domina o universo amoroso da poesia”: Do ut des (Dou, para que dês). As dobras que sobrepõem a construção do poema refletem o tom do lirismo, pois há nos versos uma estilização de vida:

Quero ser não o poeta Hesitante entre o mar ou a mulher
Ser o verso de Marcelo a natureza o fez rapaz bonito,
Ser a rima de Marcelo rapaz:
Ser esse elo pronto para amar e zarpar.
Entre ar, mar, céu, nome, ser, não ser Marcelo Também ao poeta apraz
  o ser rápido e rapace.
   
Elo
Rapaz

 

A focalização do ato homoerótico reconstrói uma outra imagem, representando um estilo de vida novo, livre de culpa, sem disfarces:

O amante, O amante é devorado.
Cabeça tronco membro Já o amado,
Eretos para o amado, Por mais ignorante e indiferente,
Não o decifra um só instante. Decifra o seu amante
Eu ainda me lembro. De trás pra frente.
   
  De trás pra frente

 

A possibilidade mesma de experimentar o prazer de trás pra frente, de frente para trás se desdobra como no jogo onde o suporte técnico encontra-se na relação aberta a novos posicionamentos. A estratégia do poema de tocar não somente o tema amoroso homossexual, mas do instrumento da linguagem que lhe serve de voz. Essa operação alimenta as sensações emitidas num dado tempo, o tempo no qual as descrições tangenciam e articulam em linhas do verso o teor do acontecimento, que é apreendido na outra margem do verso, repetindo em cada seção o decifrar do corpo no ato de desvelar o outro.

Em muitas imagens refletidas do eu lírico, recoloca-se a questão fundamental: como as relações consigo próprias e com o outro são construídas. O desafio aos próprios limites parece vir à tona. Nessa perspectiva, a aspiração ao sujeito do desejo se desloca na escrita, exercitando um estilo e um modo de experiência. Sendo assim, a presença do homoerótico masculino na poesia de Cícero é lançada sob o olhar nostálgico e menos compulsivo, mas movido numa dimensão na qual o sujeito exerce sobre si mesmo os efeitos de relações vividas e sobre as quais se constitui.

Segundo Heloisa Buarque de Hollanda 4, “o novo tempo seriam de ascese na economia, no amor e na literatura. À distância, a produção poética contemporânea se mostra como uma confluência de linguagens, um emaranhado de formas e temáticas sem estilo ou referências definidas. Nesse conjunto, salta aos olhos uma surpreendente pluralidade de vozes. Na trajetória das estratégias das representações das subjetividades nas últimas décadas, nota-se que a nova produção poética é, ainda que com perfil próprio, um claro desdobramento da literatura e da cultura pós-68”.

Com esse emaranhado de formas, temáticas e confluências de linguagens, sobre os quais se constroem a poesia contemporânea, na visão de Heloisa Buarque de Hollanda, vejo que a intensidade da experiência poética mostra o eu lírico se superpondo e encenando-se, procurando, também, diante das lentes dos flashs, revelar-se em instantes, ficcionalizando-se. Nos curtos momentos, nas linhas dos versos, o imediatismo vai de encontro com um cotidiano experimentado em um setting de locais e coisas.

A poesia de Cícero se compromete com recursos de expressão no plano visual no qual o design urbano se oferece aos reflexos das posições do indivíduo, promovendo a escrita que busca significar valores e contingências em torno de si.

À noite ele vai ao parque

Com toda amabilidade no sentido do relógio,
entre mar e a cidade ele joga a rede e fere as luzes de Niterói
e o precipício de céu as águas da noite suave a escuridão e a Urca
e o abismo do seu eu. e colhe o que lhe oferece: e sobre ela o Pão de Açúcar;
     

tão cálido e apaixonado

e há vultos à beira-mar e seu desejo encarnado
e em meio a certas folhagens e amantes à meia-luz na mão de certo moreno
sabe-se lá o que fazem e à superfície do mar depois, pistas de automóveis
uns atletas quase imóveis; um azul que tremeluz que é louco pelo sereno
e finalmente o que há    
é a via láctea a jorrar    
no alto do firmamento    
e a seus pés sem fundamento.    
     
    O parque

 

Como a maioria dos poemas de Antonio Cícero é variante de letra escrita para melodia, letra e música se acoplam ao ritmo que, por sua vez, tanto garante a articulação do corpo como movimento, quanto à qualidade físico-sensual da voz humana. É interessante notar como as vozes se estruturam, restaurando experiências sob o ponto de vista do corpóreo, quer dizer, o corpo ressoa na escrita, como exercício mesmo da persona. O gozo da leitura não é o que está dizendo tão somente e sim a forma pela qual se produz o jogo da operação, bem como a técnica de como vem a ser formulado o dito ou a maneira como irá ser percebido.

A maneira como a expressão de si é buscada no corpo condiciona em torno do ato de fala. Como, nas canções do compositor-poeta, sua escrita opera o modo de materializar a linguagem em estado manifesto, em ato de dizer “bruto”. Ou seja, a escrita traz em si novas subjetividades marcadas pelo tom que são dadas e formuladas. Nessas textualidades, portanto, o corpo gesticula, encena, acena e articula o vínculo com um lirismo amoroso e homoerótico.

No diálogo entre erotismo e escrita, poesia e música, o exercício da linguagem é explorado de modo que sobressai uma postura mais rica e mais fluente quando se tomam as sínteses pessoais. Segundo Ítalo Moriconi 5, “o pluralismo de vozes e tendências incentiva o ecletismo como solução individual; a poesia de Antonio Cícero herda o caráter dionisíaco no qual assim desemboca a política do corpo”.

Por essa demanda, nas dobras do falar e do escrever, dissemina-se um excessivo meio de poder ecoar os prazeres. Na fruição sonoro-lingüística, a vitalidade da prática de si se fazendo presente no poema afeta uma ética na qual acusa-se sentidos antídotos em sua aversão ao cotidiano. Em busca de uma outra recepção do mundo, a palavra dispersa e inquieta a fala do mesmo, deixando aparecer outras existências.

Guarda-se, na poesia, alguma coisa que não se escapa e nem tudo silencia. “Uma fórmula simples para guardar a poesia de Antônio Cícero? Está no poema ‘Dita'. A poesia é dita. Dita: particípio passado do verbo dizer. Dita: fartura, destino. Dita: casa de detenção. Eis a fórmula simples: dizer o destino do homem na casa de detenção da poesia. Ali se guardam todas as palavras, as dele e as alheias, é ao mesmo tempo, herdeira das superfícies e das profundezas, está exposta à visitação dos olhos de Narciso, como uma radiografia do (próprio) coração, um mapa das (próprias) emoções ou um (impróprio) cadáver. Tudo se passa a dois e, por isso, a figura da reciprocidade domina o universo amoroso da poesia”, como deduz Silviano Santiago 6.

Também, creio na Dita poesia de Antonio Cícero delimitar uma ordem “fora de si”, firmada em sua base estrutural de fala, de escrita. Desse ponto de vista, evoca-se um fluxo de experiência, que se desdobra na esfera do prazer. Para isso, reitero a concepção crítica de Foucault 7 para a qual “se em uma tal experiência é preciso passar para ‘fora de si', é para finalmente se reencontrar, se envolver e se recolher na fascinante interioridade de um pensamento que é legitimamente ser e palavra”.

Assim, a experiência é pensada como hesitação e a distensão do dizer de si tomando forma, atingindo seu próprio limite. O prazer ressurge como estilo de vida sobre o qual a modalidade de fala gira na proporção de afetar a subjetivação e sua constituição no tempo vivido. Se a poesia de Cícero exterioriza um jeito de não silenciar os segredos, a via expressa do eu-lírico torna-se paralela, mão dupla infinita para jogar as verdades, erotismo falado e à medida de quem fala. Para Foucault 8, “todo discurso puramente reflexivo arrisca na verdade reconduzir a experiência do exterior à dimensão da interioridade; a reflexão tende, irresistivelmente, a reconciliá-la com a consciência e desenvolvê-la em uma descrição do vivido em que o ‘exterior' seria esboçado como experiência do corpo, do espaço, dos limites do querer, da presença indelével do outro”.

Fica evidente que a poesia de Antonio Cícero se revela nos limites do escrito cuja presença do eu-lírico se desprende, rompe na horizontalidade, arriscando, nos elos entre ser e linguagem, experiências em transe. Em Baitaille, “quando pensamento, em vez de ser o discurso da contradição ou do inconsciente, se torna o limite, da subjetividade rompida, da transgressão” 9. O foco do olhar passageiro e instantâneo é assim construído:

Que divisa o olhar desse moreno?

obliquamente e ao mesmo tempo em cheio
Namora os tênis atrás da vitrine? e mesmeriza, e sinto meio como
Ou a vidraça que os devassa e inibe se eu o despisse e ele mal percebesse.
os seus reflexos serve-lhe de espelho Quando olha para trás um instante, atino
e ele recai na imagem de si mesmo, sonhar e, salvo engano, ter nos olhos
igualmente visível e intangível? cacos de um campo de futebol verde
É assim tantálica que ela me atinge feito o pano das mesas dos cassinos.
   
  Vitrine

 

A poesia, enquanto acontecimento de linguagem, se equivale da experiência como fonte de renovação, ou seja, significa determinar mesmo os limites entre o dito e o não dito, servindo-se da materialização da palavra, como forma de produção e de superação de forças. De acordo com essa concepção, o discurso visa a não funcionalização do dito, de modo que o acesso ao texto é compartilhado quando o reconhecimento de si é reformulado a partir dos recuos e de uma ordem destituída. Por esse critério, o ato de fala – seu procedimento e técnica pelos quais são elaborados –, é exposto como mecanismo de propor a si mesmo como objeto de conhecimento e, nesse ato, as práticas se permitem, se renovam ou transformam seu próprio modo de ser.

Trata-se com isso de reunir em torno da forma pela qual o sujeito é engendrado inserido e inscrito, como também o momento pelo qual a escrita é disposta como instrumento de exercício e excitação naquilo que se toca e como toca questões formuladas sobre si. Assim, a manifestação do eu-lírico aflora pelo viés do duplo em busca de uma reflexão, matizada pela linguagem e pelo seu processo produtivo.

Diante dos versos do poeta, “entre ser e não ser Marcelo” e em “Vitrine”, o sujeito se desloca nos entrelugares, em outros centros de ecos, em fronteiras ou labirintos de imagens. Por intermédio dos reflexos possíveis e imagináveis, e em seus instantes, o indivíduo passa a ser revisto. Poder-se-ia reportar essa questão ao sentido da experiência, tratado por Benjamim, sobre a qual a propõe como possível, graças ao movimento de abertura na própria estrutura do narrar (e aqui visto sob o viés da poesia), isto é, esta passa a ser vista ao pensar um acontecimento, que aspire, que se liberte de toda experiência na qual a linguagem acusa outros vestígios e impressões da realidade.

Quer dizer, a fruição da poesia se configura na forma de não apenas sublimar o gesto do dizer, ou de “guardar” as palavras, como são espelhadas em Antonio Cícero. O prazer da sua escrita advém como objeto de “transformação”, em tê-lo como hábito de uma experiência devastadora, segundo o pensamento de Benjamin. O fazer e o refazer das palavras são sintomáticos de algo impregnado de desejo e do prazer que esses atos emergem e imergem em sua poética. Por intermédio de detalhes, prevalece o texto da apreensão mais profunda, do projeto de uma experiência verdadeiramente descentrada pela qual o novo e o efêmero são notáveis, compreendidos assim para revelar a persona estranha a um sistema familiar e previsível.

O ritmo e a instantaneidade do ato de si de transportar um dado sentido não importam tanto. O que vale é o princípio que neles estão permeados, como suas formas instigam, falam e são canalizadas para/com o que se faz e o que se é. Segundo José Miguel Wisnik 10, “estamos mergulhados numa poesia extraordinariamente reflexiva e ao mesmo tempo de um frescor imagético incomum, do mais maduro viço e ainda capaz (de revelar o homoerótico) das mais límpidas declarações de amor que temos visto”.

Sem dúvida, a retomada da aparição do homoerótico se estrutura dentro de um processo irredutível, sendo a linguagem o principal eixo para (des)armar o previsto e o temporário, que os instantes do olhar nos proporciona. É por essa passagem que o eu-lírico move-se, marca-se, expõe-se, no plano diferencial, constituindo sua sensibilidade e sua afetividade flagrantes e presentes.

Trata-se de um homoerótico que se quer buscar a si próprio na possibilidade de uma linguagem, que joga por si mesma, e cujo elemento do acaso é instaurado na escrita. Segundo Bataille 11, o erotismo é visto como uma prática pela qual se produz a contestação, a desintegração com o sistema, pois o acaso é o “outro” do sistema. “A sexualidade humana obtém seu zênite como uma transgressão (regulada) de tabus”.

Se, em Bataille, o erotismo torna-se o caminho para a continuidade do ser na morte, então, “como indivíduo, cada pessoa é descontínua, como uma violação dessa descontinuidade, é uma fonte fundamental de angústia; pois isso é também a violação ou transgressão, de proibições; a proibição é tornada conhecida pela transgressão. O erotismo confirma assim a ruptura de limites e fronteiras, e leva a uma fusão de seres, uma fusão que dá margem à comunicação da angustia baseada em uma perda da integridade” 12.

Por esse viés, alguma coisa nasce, se diz, se reduplica incessantemente, “conforme o murmúrio que se retoma, uma multiplicação e um espessamento fantásticos em que se aloja e se esconde nossa linguagem de hoje” 13. Nesse sentido, creio que o homoerótico na poesia de Antonio Cícero se constitui na superposição na qual insurgem vozes, tons, palavras. Sua escrita de vislumbres do acaso, e da embriaguez dos desejos converge na obstinada exposição de se fazer ver, do eu se conhecer. Também, não aquele que fala, e sim aquele que se toma por ele, produzindo e disseminando gestos que se desdobram a fim de refletirem a si mesmos.

 

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