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Sexualidade e Erotismo nos romances de Kate O’Brien:
Mary Lavelle, That Lady e As Music and Splendour
Noélia Borges (UFBA)
Num mundo de identidades em crise e de continuidades fragmentadas, como parte do amplo processo de transformação que vem se operando nas sociedades modernas, posições diversas e identidades deslocadas e descentradas desafiam a suposta identidade fixa e estável.
A proposta deste trabalho é investigar questões relativas a Sexualidade e Erotismo nos romances de Kate O'Brien – Mary Lavelle (1936 ), That Lady (1948) e As Music and Splendour (1958) –, por constatar que as suas personagens femininas são indivíduos que desarticulam preconceitos e estereótipos, abrindo caminho para novos sujeitos com autonomia pessoal e desejos próprios.
Tratar da sexualidade e do erotismo feminino em pleno século XXI não parece oferecer mais o mesmo grau de resistência pública e de censura que na primeira metade do século XX. Ao retomar a história da humanidade, o leitor certamente encontrará as atrações e guerras entre os sexos, os conflitos entre gênero e sexo, os cenários dos idílios entre amantes e a onda de escândalos sexuais de divindades, reis e rainhas e até escritores famosos. Exemplos não faltam e aqui se poderia lembrar alguns nomes que marcaram a história, como Adão e Eva, Maria Madalena, a deusa Afrodite na Antigüidade, depois Calígula, Henrique VIII, Casanova, Oscar Wilde e Virginia Woolf. Vale ainda lembrar que por dezenas de milhares de anos as civilizações e os cultos antigos consideravam a Mãe Terra ou a Grande Deusa 1 como seres supremos. Estas culturas tinham como eixo central a adoração mística à sexualidade, à fertilidade, à morte e ao renascimento. Como a dinâmica biológica da reprodução ainda caminhava em passos limitados dentro delas, a interação entre a essência do masculino e do feminino era a força motriz que dava vida ao seu misticismo e filosofia.
Com o advento do Cristianismo Judaico, houve uma tentativa do homem em ostentar uma posição considerada correta dentro dos padrões morais vigentes e a mulher só era digna de respeito se abdicasse da sua sexualidade. A adoração à Virgem Maria favorecia-lhe a negação da sexualidade e independência de gênero, precipitando-a à subserviência ao poder masculino. Assim a Igreja pode ser apontada como uma das instituições responsáveis pelos estereótipos imputados à mulher, como a falta de inteligência, razão e responsabilidade. A vida sexual dos indivíduos era, então, controlada pelos seus princípios dogmáticos.
Dentro do século XX, os estudos psicanalíticos de Sigmund Freud (1856-1939), pautados nas associações entre sexualidade e patologia, encontram ampla e obsessiva repercussão. A justificava de que as doenças mentais originavam-se na repressão sexual e nas traumáticas experiências sexuais da infância podem ser analisadas como produto do seu tempo e, também, respaldada na sua história pessoal. A contribuição das investigações deste médico vienense no campo do comportamento humano foi, inegavelmente, de vital importância para o início das discussões sobre sexualidade. Outras pesquisas dentro desta mesma área logo se sucederam, como a do seu discípulo Carl Jung (1875-1961) (1980, p. 25-66). No entanto, as idéias de Jung tomaram outra direção, por considerar o ponto de vista do de seu mestre sobre impulsos sexuais e libido reducionista e limitado. Abdicando do racionalismo científico de Freud, Jung propõe que toda experiência humana origina-se a priori na mente que, por sua vez, traduz, filtra, alegoriza e falsifica suas imagens. A mente abriga um mundo de imagens que oferece uma linguagem ambígua a ser decifrada. Embora irrepresentáveis, seus efeitos podem ser visualizados. Essas imagens que estão presentes na mente de todos os indivíduos são chamados arquétipos. Jung não só quis reconstruir e recuperar as crenças dos seres humanos primitivos, mas também apresentar uma nova abordagem científica para o desenvolvimento da psique humana, acreditando que as raízes da mente consciente encontram-se no material arcaico inconsciente. Como se vê, enquanto Freud baseava seu trabalho na teoria sexual e via o inconsciente como uma espécie de depósito para os desejos sexuais reprimidos, Jung considerava o inconsciente uma matriz de onde jorra o material consciente.
A revolução sexual no mundo ocidental nos anos 60, com o surgimento da pílula anticoncepcional, ofereceu novos rumos para a sexualidade feminina, ou seja, as mulheres agora poderiam gozar a liberdade até então conferida apenas aos homens, sem medo de engravidar. A disseminação de informações após a revolução dos meios de comunicação veio também propiciar a revisão de conceitos de gênero, sexo e sexualidade. Os conceitos de feminino, masculino ou qualquer outra posição intermediária sofreram alterações, pois agora dependiam de uma interpretação sociocultural. A sexualidade fica, inexoravelmente, ligada a procedimentos, regras e transgressões psicológicas e não apenas a um processo de interpretação da orientação sexual da libido. Muitas sociedades tiveram que revisar os estereótipos ultrapassados de gênero, sexo e sexualidade. A história deixa o ensinamento de que a ordem social e o conhecimento que o indivíduo precisa para atuar como seres humanos dependem de suas ações e em resposta a suas necessidades.
Partindo do pressuposto de que nada é estático, correto, real ou permanente, acredita-se que tudo muda ou pode ser visto dentro de perspectivas diferentes. Em razão desta premissa, fica claro que a sexualidade do indivíduo está em constante mudança. Ela é dinâmica, apesar de não se ter consciência do que está acontecendo. Sentimentos de culpa e vergonha relacionados à sexualidade que acompanham o indivíduo no mundo ocidental são construtos sociais provenientes de regras e regulamentos criados pelas sociedades para restringir o comportamento dos seus cidadãos. Daí a liberdade de escolha sexual dentro das sociedades patriarcais, conforme registra a história da sexualidade das mulheres, ter sido limitada, a fim de reduzir seu poder e escravizá-las no lar. Homossexuais masculinos, lésbicas, transexuais e outras minorias de gênero e sexualidade têm sofrido ao longo dos séculos discriminações e até punições de ampla natureza por atravessarem as fronteiras do heterossexualismo em que se pautam as suas sociedades.
Impossível seria discutir sexualidade e erotismo sem incluir sexo e gênero. Sexo, gênero, sexualidade e erotismo pertencem à mesma veia identitária do indivíduo. São componentes da identidade pessoal desde tempos imemoriais. Estas partes, naturalmente, sofrem modificações e se moldam de acordo com as perspectivas individuais, tempo e lugar. Ao lado desta cadeia de constituintes não se pode esquecer de que a família, a cultura, a religião, o orgulho nacional e a profissão têm a sua relevância na composição do todo. O tema sexualidade e erotismo é aqui tratado em razão das representações eróticas que se configuram no texto de O'Brien, a exemplo das cenas de tourada em Mary Lavelle , dos elementos sensoriais usados na descrição do quarto de Ana, heroína de That Lady e dos temas das óperas em As Music and Splendour . Estes motivos eróticos que O'Brien importa de outras culturas ou que encontra na própria ou nos indivíduos que cria têm a função de relativizar conceitos absolutos e dogmáticos, incentivando o debate sobre representações preconceituosas e censoras. Sexualidade seria, portanto, a combinação do que existe de sexual no indivíduo – o aspecto físico e erótico do seu ser, de onde é capaz de tirar o maior prazer e satisfação dos seus desejos.
Ao tratar aqui de identidade sexual, alio meu pensamento ao de Lynne Segal em Sexualities, Identiity and Diference (1999) para sustentar a idéia de que fatores genéticos e fisiológicos ajudam a definir as diferenças entre o que denomina “masculino” e “feminino”. Para ela, a identidade é, em primeira instância, uma categoria de gênero, mas suas características são derivadas, fundamentalmente, das diferenças de sexualidade dos gêneros masculino e feminino. Não se pode esquecer que padrões fixos e aceitos de comportamentos e desejos dentro de normas de gênero são expectativas que fazem parte do dia-a-dia das sociedades heterossexuais. Em contraste com este posicionamento, a psicanálise, o pós-estruturalismo e, mais recentemente, a teoria ‘queer' resistem à crença de uma possível estabilidade e consistência de comportamentos sexuais e de desejo, levando-se em consideração que a vida sexual e os códigos sociais são, freqüentemente, assaltados por conflitos, contradições e fluidez. Estas diferentes e controversas leituras sobre sexualidade geraram, então, pensamentos diferentes sobre a sexualidade. As feministas consideram a sexualidade como meio de poder e controle do homem sobre o corpo e o prazer da mulher. A perspectiva Foucauldiana, adotada por teorias gays e lésbicas, sugere ser a sexualidade o lugar ideal para regular e controlar os ditames sociais, principalmente no que se refere à manutenção da unidade da família como núcleo reprodutivo.
A Era Vitoriana é um período histórico de relevante importância para o tratamento do tema em questão. Deve-se ao século XIX as restritas interpretações de gênero, em que o homem era o elemento dominante dentro das sociedades e a mulher um ser com inteligência limitada, portanto sem condições de abraçar nenhuma carreira profissional, a não ser a maternidade e os afazeres domésticos. Kimberley Reynolds e Nicola Humble em “Sightless Seers: Decadence and Representations of Femininity”, publicado em Victorian Heroines (1993, p. 62-97), afirma que o desejo feminino, na Era Vitoriana, era classificado, oficialmente, como experiência anormal e rara. Embora imagens eróticas de mulheres possam ser encontradas em grande número nas artes plásticas da época, elas acontecem com intuito de realçar o apetite sexual feminino como algo aberrante ou não natural. Em geral, as vitorianas eram vistas como frígidas ou insaciáveis, daí a necessidade de medicação para combater tais desvios da sexualidade. Mesmo depois da Segunda Grande Guerra princípios que norteavam as questões entre certo e errado ainda faziam parte da insegurança da mentalidade das sociedades ocidentais. O silêncio ou as codificações metafóricas substituía o conhecimento sobre sexo. Temia-se falar abertamente a verdade sobre sexo ou coisas afins, pois tal atitude poderia causar pânico. Naturalmente havia setores da sociedade que falavam de sexo num quase ar blasé , mas, em geral, eram proibidas e censuradas as discussões públicas sobre sexo e sexualidade.
Diante do quadro exposto acima, resta analisar agora a sexualidade e o erotismo das mulheres nos romances Mary Lavelle , That Lady e As Music and Splendour . Escrito em 1936, um ano antes da Constituição de De Valera, Mary Lavelle já interroga a premissa desta constituição que confina a mulher dentro do espaço doméstico, enquanto que alinha o desejo heterossexual ao homossexual, como provenientes de uma única fonte. As mulheres de O'Brien têm consciência dos seus desejos e se deliciam com o erotismo que deles emanam, sem se inibirem do conhecimento do pecado. A impossibilidade da realização do amor entre Mary e Juanito e do amor de Agatha e Mary se nivelam e tanto a paixão heterossexual quanto a homossexual se manifestam de forma declarada, sem os subterfúgios dos preconceitos. A representação dos desejos sexuais das heroínas Mary e Agatha como impulsos naturais questiona, assim, o discurso das convenções irlandesas, quando impõem às mulheres o papel de mãe e esposa. Reconhece-se, também, essa mesma naturalidade em As Music and Splendour , através do relacionamento de Clare e Luisa, assim como nas diversas escolhas heterossexuais de Rose e no bissexualismo de Luisa. O erotismo que sustenta a representação desses desejos é verbalizado ou apresentado através do olhar ou de metáforas.
O erotismo na obra de O'Brien é um estado de estímulo à sensibilidade e às emoções que se manifestam através do corpo como parte da natureza humana, independentemente de valores morais, leis ou cultura. O corpo é o ‘locus' através do qual o indivíduo expõe para os outros e para si mesmo o que é e sente, assim como forma de atuar no mundo. O que um sujeito acha erótico, outro pode não assim considerar ou considerar tolo ou desestimulante. Portanto, os determinantes do erotismo são arbitrários, contingentes e podem variar de indivíduo para indivíduo.
Nenhuma manifestação de erotismo em Mary Lavelle acontece com traços tão dinâmicos, sedutores e, principalmente, aterrorizadores como o espetáculo da tourada. A tourada é um esporte, mas também uma arte milenar da tradição espanhola, em que o astro principal não é o touro, mas o toureiro ou matador, considerado, muitas vezes, como ídolo nacional ou herói. O'Brien encena aqui a tourada como uma representação metafórica extravagante e anunciadora da relação sexual entre Juanito e Mary. A teia narrativa da cerimônia, as emoções, excitações, curiosidades e apreensões das personagens diante da expectativa de assistir à ‘corrida'; as sensações olfativas emanadas do ambiente da ‘Plaza de Toros', toda uma gama de aparatos sensoriais erotizantes prepara o leitor para a representação metafórica do momento em que Mary também terá seu campo de batalha, o momento de enfrentar a sua alteridade, os seus desejos sexuais. A justaposição de movimentos e elementos fálicos e denunciadores, como cavalos, as espadas, o próprio touro e o sangue derramado completam a representação do ato sexual na brutalidade animalesca e dramática da tourada:
The matador drew his enemy to his breast, and past it, on the gentle lure; brought him back along his thigh as if for sheer love; let him go and drew him home again. He took the bull's blood on his coat, but never looked up out of his zone of silence to advertise the decoration. Again and again in classic passes he allowed the horn to skim him, then drawing back from the great, weary but still alert antagonist, he profiled and went over the horn, as gently as an angel might, to kill. The sword sank where the stud ribbons fluttered, in to the hilt, as bravely driven as if the dealer believed himself to have dipped in Achilles' river [...] He stood, his muleta almost furled, very closed to the bull's shoulder while it staggered to its knees, and tried with savage nobility to rise again. But this bauble, this gleaming hilt among the ribbons, darts and streams of blood, was the last honour. He rolled over, dead, and the matador stood unsmiling at his side (1936, p.114-115).
O ato dramático de mutilação do corpo do touro representa, de forma simbólica, não a mutilação do corpo da heroína, mas da sua identidade e a metafórica implicação da morte do touro, o fechamento de um ciclo da sua vida – fase de transformação e mudança da inocência e ignorância à do conhecimento. O conhecimento aqui não apenas exterior, relativo à Espanha e às experiências de mundo, mas aquele que Jung denomina de lado negro do inconsciente, onde abrigam os desejos mais reprimidos, tabus e frustrações. Desta forma, a fascinação da escritora, não diferente de tantos outros irlandeses, com a questão da busca constante da identidade realiza-se através da oportunidade que oferece à heroína – o diálogo com as diferenças, com a alteridade.
Em That Lady , O'Brien dá, mais uma vez, as costas à Irlanda como cenário para a história e a assenta, exclusivamente, em terras estrangeiras – Espanha. O fascínio pelo Outro, pelo diferente, serve-lhe de leitmotiv para o desenvolvimento da identidade da heroína. Aqui o leitor se defronta com a mais madura de todas elas – aquela que permite viver mais plenamente a sua sexualidade, decidindo as suas ações e obrigações e aprendendo a resistir às pressões e exigências da monarquia absolutista. Ao escolher um relacionamento ilícito, Ana passa a acreditar ser este o único relacionamento verdadeiro e moral. Assim O'Brien converte as exigências de domínio público em exigências do privado de forma política. Como se vê, enquanto Ana verbaliza e dá vazão aos seus desejos eróticos, entrelaçando-os com carinho e caridade, o anti-herói, o rei Felipe II, silencia e sufoca a paixão por Ana, pondo o despotismo do poder e o puritanismo das suas convenções religiosas acima da sua própria individualidade. O erotismo maior do romance emana não só da consciência dos desejos da heroína e da sua própria energia vital, mas também dos recursos sensoriais de que o narrador intruso se apropria e não se esquiva de expressá-los.
Ao examinar As Music and Splendour sob o ponto de vista do erotismo, o leitor há de observar que os desejos eróticos das personagens entram em comunhão com a produção operística, – pano de fundo que sustenta o enredo da história – como resultado da complexa interação entre natureza e cultura. Em outras palavras, as inclinações sexuais das principais personagens femininas – Clare, Rose e Luisa – interagem com a especificidade de seus talentos vocais e do prazer musical que seus desempenhos propiciam a elas próprias e ao seu público. Encontro de amantes, sexo e erotismo – temas preferidos dentro da literatura – logo começam a servir de mote para as óperas. A opulência das formas físicas dos cantores, geralmente caracterizada pela fartura de carnes e peitos, somada às vozes que procuram sempre atingir zonas auditivas nunca antes exploradas (notas que causam impacto muito graves ou muito agudas, trinados, vocalizes, novas seqüências e ritmos) constituem desafios que evidenciam a capacidade do autor e dos intérpretes. Aliada a toda esta profusão hiperbólica, sentimentos e fortes emoções precipitam-se dos seus temas, disseminando o prazer erótico nos seus cantores com ressonância nos espectadores. Como se pode constatar no texto, esta relação libidinosa e intensa entre cantoras, temas e público reflete-se na obra de O'Brien através dos vínculos de amor entre Clare e Luisa:
[...] and as the light went out and they turned and ran to their dressing-rooms, hand in hand, they went on singing. The music they both loved had carried them far tonight, together and above themselves. Their descent was slow and reluctant, and their hands did not fall apart when they paused in Clare's doorway (1958, p. 113).
Aqui fantasia e realidade se entrelaçam e continuam além do palco, dissolvendo, por um certo tempo, as fronteiras entre os extremos. A paixão e a sexualidade das emoções que ganharam vida no desempenho operístico continuam a existir num outro espaço, num espaço mítico, sem a maquiagem fársica e estática da arte cênica. Na verdade, a possibilidade da culminância dos seus desejos não se materializa, mas assume uma natureza tão fluida e contingente quanto à do próprio momento da arte.
Diante dos posicionamentos acima, acredito que não há na obra de O'Brien espaço para se configurar um visão reducionista de gênero. As estratégias de representação de identidade sexual das personagens são simples simulacros que dão margem à conjecturas e fazem com que os modelos simulados coincidam com o real. A diferença soberana entre o território e os mapas dá o encanto às abstrações, gerando a magia dos conceitos, das representações imaginárias. Esta simulação – aspecto que ameaça a diferença entre verdadeiro e falso, real e imaginário – constitui a pior forma de subversão e se adequa com precisão à cosmovisão da escritora. A recorrência orbital do modelo metonímico da homofobia e invisibilidade do erotismo entre mulheres demonstra a preocupação em assentar o fato de que as mulheres nem sempre foram passivas ao domínio do homem e da compulsiva heterossexualidade, mas criaram espaços sociais e culturais para viver os seus desejos. A teia de sinais artificiais é tão autêntica quanto os elementos do real, de maneira a não se poder isolar a realidade das ilusões do desejo, dando espaço para um hipertexto. Torna-se, portanto, artificial categorizar ou rotular as suas personagens que nutrem desejo pelo mesmo sexo como lésbicas, considerando apenas as manifestações ditadas pelas funções do seu corpo, semelhantes às de comer ou sentir dor. Por outro lado, fica muito difícil, diante dos matizes que caracterizam a sexualidade humana, ser muito taxativo e definitivo, dada uma infinita gradação de interesses, gostos e vontades, que variam de pessoa para pessoa e dentro da mesma pessoa.
O'Brien representa a realidade do mundo feminino de uma forma mais ousada e ampla. As personagens principais das suas histórias não se acomodam dentro do limitado espaço da vida doméstica, nem pautam as suas vidas nos tradicionais parâmetros e expectativas da sociedade patriarcal, mas resistem aos seus modelos, inaugurando, muitas vezes, de forma velada e, posteriormente, mais aberta, comportamentos que, embora não deixem de fazer parte da realidade do indivíduo, contrariam, reconhecidamente, o modelo prescrito para a mulher, – aquele que ameaça desestabilizar princípios de moral e inverte papéis já consagrados. Ao ousar temas que subvertem a ordem social, como adultério e homossexualismo, e ao conferir liberdade à mulher, ou seja, permitir-lhe livre movimentação não apenas nos espaços físicos, mas também para fazer as suas próprias escolhas, Kate O'Brien ultrapassa, através da sua obra de ficção, as barreiras da posição de mulher e de escritora. Assim, em vez de acentuar a representação dicotômica entre os sexos, reforçando a experiência de alienação feminina, O'Brien descentraliza e desestabiliza as práticas discursivas das vozes monoglóssicas, estimulando o conclave dessas com outras vozes.
Referências Bibliográficas
JUNG, Carl G. The Archetypes and The Collective Unconscious . Vol. 9, Part 1. Trans.
R.F.C. Hull , New York : Princeton University Press, 1980.
O'BRIEN, Kate. As Music and Splendour . New York : Harper & Brothers Publishers,
1958.
______ . Mary Lavelle/ Talk of Angels . New York : Miramax Books, 1997.
______ That Lady. . London : Virago, 1996.
REYNOLDS, Kimberley , HUMBLE, Nicola. “Sightless Seers: Decadence and
Representations of Femininity”. In: Victorian Heroines. Representations of Femininity
in Nineteenth-century Literature and Art . Harvest: Wheatsheaf, 1993, p. 62-97.
SEGAL, Lynne. Sexualities, Identity and Difference. Kathryn Woodward Ed. London :
SAGE Publications Ltd. 1999, p. 184-228.
1 Divindade poderosa, associada com os simbolismos da serpente, retratando a vida eterna e a reencarnação. Outras atribuições lhe foram conferidas, como, por exemplo, um ser macabro associado à morte e à desintegração. Também freqüentemente ligada aos prazeres sexuais, ao arquétipo da sombra e à Eva.