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Yukio Mishima: perfeição do guerreiro e paixão erótica do escritor.
Lucia Lucena-Guerra (USP)

Stefan Zweig, em sua trilogia O Combate com o demônio , ao analisar as vidas dos escritores alemães Henrich Von Kleist, Hölderlin e Nietzsche deixou-nos uma citação, usada por Yukio Mishima, para definir o lado demoníaco da vida dos seres humanos. “O que chamam de demoníaco é a instabilidade ( U nruhe ) inerente a todas as pessoas, que as lança para fora e para além de si mesmas, em direção a algo sem limites.” 1 Teremos ocasião, nesse estudo, de desvendar atrás das máscaras do escritor por nós escolhido, o seu lado demoníaco, ou simplesmente uma “mascarade”.

Yukio Mishima, peseudônimo de Kimitake Hiroaka, nasceu em Tóquio em 1925. Logo após o seu nascimento, é seqüestrado pela avó paterna, pois no Japão da época, a sogra dispunha de poderes absolutos em relação à nora. E assim, desde seus primeiros quarenta e nove dias, Mishima teve o seu berço colocado no quarto dessa avó doente. Eis o seu depoimento, das lembranças que guardou dessa época da infância: “eternamente trancado e recendendo a mazelas e velhice – e ali me criei, ao lado daquele leito de dores”. 2

A velha e aristocrática avó havia depositado todas as suas esperanças no nascimento de Kimitake, pois seu filho, o pai do garoto, não passava, aos seus olhos, de uma pessoa insignificante. E tudo o que sabemos sobre a educação de Mishima pela avó, nos chegou mais detalhadamente, através da narrativa de sua mãe, Natsuko, em Meu filho Yukio Mishima , estudo biográfico escrito por seus pais, logo após sua morte, e publicado na revista Shokun , em 1972. 3Natsuko, ainda em seu relato, culpa a velha avó de Mishima, de ser a maior responsável pela saúde tão delicada do filho, e das recaídas periódicas, efeito de uma doença inexplicável, que apresentara desde os três anos. Jamais pôde fugir do conhecido aforismo japonês: “O caráter de um homem se define aos três anos de idade”.

Mishima foi mais um escritor do que um pensador, que teria se expressado não só através de suas obras, sobretudo através de seu “modus vivendi”. Tudo o que fora dito, escrito ou feito tinha um lugar definido em sua cosmogonia pessoal, mudando gradualmente através dos anos, e que, eventualmente, induziu-o a tirar sua própria vida.

A literatura ocupou uma posição proeminente nesse cosmos, daí sua grande dificuldade de falar de um sem falar do outro. É difícil compreender a filosofia de vida de Mishima, sem que compreendamos sua atitude em relação à literatura e às artes. Certa vez, escreveu em um de seus ensaios : “[...]Em todas as épocas, a literatura propõe-se à interpretação do universo e à uma profunda percepção da humanidade, por meio da linguagem.” 4 Para Mishima, a linguagem era uma invenção humana, com a qual os povos colocavam forma e ordem à sua natureza selvagem. Essa natureza selvagem permaneceu na vida e conseqüentemente na obra de Mishima, como um mundo imaginário, obscuro, sombrio, repleto de sombras noturnas, onde as feras, ou melhor dizendo, os demônios permaneceriam, acompanhando o escritor ao longo de sua vida. A beleza sombria, muitas vezes cruel da obra de Mishima é devida ao aspecto antagônico, existente entre o corpo e a mente, presentes na vida do escritor.

Bandeira gay para os estudiosos de “gender”, como Oscar Wilde, de quem foi grande leitor, Genet, e Gide, Mishima é visto muito mais por sua homossexualidade, do que pelo seu estilo especial, que lhe foi conferido por seu enorme talento literário. É considerado não só, como o mais brilhante escritor do Japão do século XX, mas também, um dos símbolos da literatura mundial, sendo comparado, devido à sua forma literária, ao escritor irlandês, James Joyce.

Desde criança, a imagem da Morte o inquieta. Uma das primeiras lembranças infantis vieram através de um livro ilustrado, onde aparecia “[...] Joana D'Arc montada num cavalo branco, erguendo uma espada.[...] ele ( Mishima confundira Joana D'Arc com um jovem cavaleiro, e esta decepção marcou-o por toda a vida) brandia valentemente sua espada contra o céu azul, enfrentando talvez a Morte ou, ao menos a força maligna de algum infortúnio.” 5Mishima viveria sempre obcecado pela Morte, a beleza de uma morte violenta ou terrivelmente penosa. Por essa e outras razões que veremos no decorrer do presente trabalho, foram várias as causas que o levaram a buscar sua própria morte, em 1970, ritualizada pela cerimônia do seppuku.

Mas, o que realmente nos interessará ao longo do presente estudo é a união de dois aspectos tão opostos, que causam todo o seu conflito interior, fazendo surgir O crisântemo e o sabre , ou seja, a sua extrema sensibilidade e vasta cultura, aliadas à disciplina e ao culto à Morte de um samurai, o que resultará numa escritura extremamente erótica.

Marguerite Yourcenar em seu ensaio, Mishima ou La vision du vide , nos diz o seguinte: “Como talvez seja natural em toda autobiografia sincera, escrita por um homem de vinte e quatro anos, o erotismo invade tudo”. 6Encontramos então, os elementos que nos guiarão ao longo desse ensaio: a infância de Mishima, criança doente, criado na redoma pela avó, rodeado de meninas, dificilmente meninos - esses, só no colégio – superdotado intelectualmente, vivendo uma vida completamente irreal, fascinado pelo corpo humano, sobretudo pelo sangue que dele brota, e o mais importante, pela Morte que o acompanhará por toda a vida e pelo imenso desejo de morrer jovem, pois considerará sempre, a velhice uma desgraça.

Yukio Mishima esteve sempre em busca de sua plenitude, porém sempre insatisfeito e carente. A realidade, presente diante de seus olhos jamais o agradou, por essa razão, sempre usou as diferentes máscaras para esconder o seu verdadeiro eu, e também, para construir um mundo só seu, idealizado, partindo das fantasias incutidas por sua avó, além das fantasias que eram fundamentais para prosseguir no caminho de sua vida, com a energia de Eros, mas nunca desligado de Tánatos.

Confissões de uma máscara, obra autobiográfica, seu primeiro grande sucesso, nos mostra a forma como o menino se desenvolve ao longo de sua infância, de sua adolescência e de sua juventude, ora criando, ora escondendo-se atrás das diferentes máscaras do teatro, com as quais irá construir o “seu personagem”, por toda a sua vida. Ao longo de sua carreira de escritor renomado, festejado por onde passasse, Mishima fazia questão de estar sempre atrás de uma máscara, especialmente criada por ele, para a ocasião, fosse por defesa ou por bravata. A sua morte, seu suicídio, deu-se por razões ideológicas, éticas, mas perpetrada tal qual um espetáculo teatral. Até na morte, Mishima preparou seu “seppuku,” conscientemente, detalhadamente, como escrevera a maioria de seus romances.

À semelhança de um grande número de escritores do século XIX, Mishima publicou alguns de seus romances sob a forma de folhetins, em revistas destinadas a um público feminino. Donald Keene é o maior responsável pelos estudos críticos sobre Yukio Mishima no Ocidente.

Os tempos mudaram, a crítica literária tomou vários caminhos, e hoje certamente torna-se impossível passar por cima da imensa trama de fios, que compõem cada faceta na obra do escritor. No caso de Yukio Mishima, no momento em que coleto dados para minha pesquisa, vejo o caleidoscópio de possibilidades que se abre diante de mim. Por exemplo, Mishima esteve no Rio de Janeiro, onde passou o carnaval de 1952. Marguerite Yourcenar foi uma das raras escritoras ao verem o escritor, criado de forma tão isolada, misturar-se às multidões. “Novamente, a mesma imagem orgiástica reaparece, mas desta vez observada por uma testemunha, a de Mishima durante uma de suas primeiras grandes viagens, hesitando duas noites diante do magma humano do Carnaval do Rio, e somente se decidindo na terceira noite a mergulhar nessa massa, enroscada e amassada pela dança”. 7Não existe nenhuma alusão ao fato, em registros da Embaixada japonesa, assim, meus caminhos deverão passar pelos órgãos federais de imigração.

Nota-se claramente que, todos os críticos do escritor e de sua obra, sobretudo Keene e Makoto Ueda 8, ao mergulharem, mesmo profundamente, no universo de Yukio Mishima, em momento algum, ousaram abordar aspectos que nos parecem muito claros na obra do escritor: a personalidade antitética do escritor, o erotismo transcrito nas páginas de suas obras levado ao seu ápice, o culto do corpo, do sangue, da morte. Afinal, não é a Morte o “Caminho do Samurai?” O Hagakuré , o tratado japonês do século XVIII sobre a ética samurai, pregava vários conceitos, tais como a ética, a amizade, a cultura, o amor entre os samurais. Entretanto, uma pequena frase revela bem a sua essência, donde a sua grande importância na vida de Mishima: “Morrei em pensamento a cada manhã, e vós não temereis mais a morte!”. 9

Uma outra pergunta não para de soar em nossos ouvidos, Mishima seria ou não homossexual? Ninguém ousou penetrar no cerne da questão. Sentimos em nossa leitura dos dois críticos em cujas obras trabalhamos, que ambos chegaram à beira desse delicado abismo, porém não quiseram explorá-lo. Respeito ao escritor mais famoso do Japão, do século XX? Uma velha e rançosa moral? Difícil de responder, porém, mais uma vez, gostaria de afirmar, que, nesse pequeno estudo não é minha intenção discutir as opções sexuais de Mishima. Porém, iremos analisar certos relatos e certas imagens trazidos pelo texto, cautelosamente.

Em passagens de sua obra capital, Confissões de uma máscara 10, biográfica, sem a menor dúvida, teremos a ocasião de observar, nas imagens refletidas sobre as águas profundas e obscuras, a erotomania do jovem, cujo delírio é produzido pelo amor sensual, as imagens eróticas contidas nas passagens de sua obra literária - que nos remetem, sem dúvida alguma, à obra de Georges Bataille, L'Erotisme 11 - nas quais, sofrimento, dor, deságuam em sangue, e, de forma mais trágica, em morte. Essas imagens estarão presentes, em suas formas e cores magistrais.

Faremos uma viagem através do universo que é Yukio Mishima. O menino Mishima, visto por ele mesmo, que ainda não compreende bem certas coisas de sua vida infantil, porém, intui que é diferente dos demais.

“Na minha infância eu lia todo tipo de contos de fada que me caísse nas mãos, mas não gostava das princesas. Só gostava dos príncipes. E, sobretudo, daqueles que eram assassinados, ou aos quais o destino reservava a morte. Amava todos os jovens que eram mortos. Ainda assim, não conseguia compreender por quê, dentre todos tantos contos infantis de Andersen, apenas aquele belo rapaz de O elfo das rosas – apunhalado e decapitado pelo vilão com uma faca enorme, enquanto beijava a rosa que ganhara como lembrança da amada – cobrira meu coração de sombras densas”. 12

Seguindo a trajetória do escritor, vejamos o que Mishima nos conta, quando estará preparando sua história de vida pessoal.

“Faltava-me o meu leito de ócio. E ali naquela casa, sem que ninguém dissesse ou mencionasse coisa alguma, cobravam-me que fosse um menino. Era o início de uma representação que não agradava. Foi a partir dessa época que comecei a compreender vagamente o mecanismo segundo o qual o que parecia ser uma representação aos olhos das pessoas, era para mim expressão de necessidade de retornar à minha própria essência, ao passo o que parecia a todos o meu jeito natural era, na realidade, uma encenação.” 13

 

E assim, a trajetória prosseguiu através das múltiplas e surpreendentes descobertas feitas a partir de coisas que, só agora, sua imaginação se dava conta.

“Era a primeira vez que via aquele tipo de livro. [...] Abri uma página no final do livro. De um canto, surgiu então uma pintura que senti estar lá só por minha causa, me esperando: não conseguia pensar em outra explicação. Era uma reprodução do “São Sebastião”de Guido Reni [...] Supus que fosse uma pintura de um mártir cristão. Mas aquela morte de São Sebastião,[...] exalava um forte odor de paganismo.[...] Exibia [...] juventude, luz, beleza e prazer. Sua nudez alva, incomparável, cintilava contra a escuridão ao fundo. [...] Não era a dor o que rondava aquele peito projetado, o ventre contraído, os quadris algo contorcidos, e sim um lânguido meneio de prazer, como música. [...] As setas rompiam a carne rígida, fragrante, jovem e, por dentro, o seu corpo estava prestes a ser consumido por chamas de agonia e êxtase supremos .” 14

 

Segue-se então, a grande descoberta de Mishima,

 

“Naquele dia, ao olhar para a pintura, todo o meu ser estremeceu, movido por certa agonia pagã. O sangue disparou, meu órgão ficou cor da fúria. Aquela parte de mim crescera, que parecia prestes a explodir, aguardava com ansiedade inaudita que eu tomasse alguma providência; repreendendo-me por minha ignorância, ofegava enraivecida. Inconscientemente, minhas mãos começaram a fazer movimentos que ninguém jamais lhes havia ensinado. Senti que algo oculto e radiante subia de dentro de mim a passos alados, pronto para o ataque. E enquanto eu devaneava, jorrou, trazendo consigo uma embriaguez estonteante ...

[...] havia borrifos de um branco fosco sobre o título dourado de um dos livros didáticos [...] Alguns desses objetos gotejavam preguiçosos, lentos; outros brilhavam insensíveis, como olhos de peixe morto. [...] Foi a minha primeira ejaculação, e também o início do desajeitado e impremeditado ‘mau hábito' ”. 15

 

À narrativa do menino, que ao escrever o livro sobre sua infância, tinha apenas vinte e quatro anos, vem se juntar uma obsevação feita pelo próprio escritor, resultante de alguma pesquisa. Para Mishima, tratava - se de uma pura coincidência o fato de Hirschfeld 16 ter mencionado que, dentre as pinturas e esculturas prediletas de invertidos, as que retratavam são Sebastião estariam em primeiro lugar. Essa observação, por parte do próprio Mishima, nos faz supor com facilidade que, na maioria dos casos, nos impulsos invertidos e os sádicos estejam ligados de modo inextricável, especialmente ao se falar em inversão congênita. “Ao classificar os invertidos, Hirschfeld denominou andrófilos aqueles que só se sentem atraídos por adultos, e efebófilos os que amam meninos ou jovens de faixa etária estendendo-se desde a infância até a mocidade”. 17

Mishima e o complexo de Édipo já foi analisado, quando abordamos a sua criação perto da avó doente, tirana, obsessiva, que o criou como uma menina, frágil como um cristal, segundo suas próprias palavras. Após a morte desta avó, seria sua mãe o seu esteio, discutindo com ela seus maiores problemas, e esta, estaria sempre perto deste filho, cuja fragilidade ela bem conhecia.

[...] “Mas sem querer, meus olhos focalizaram o rosto de minha mãe. Estava um pouco pálida, sentada distraidamente, com o pensamento longe. Quando nossos olhares se cruzaram ela baixou os olhos. Compreendi. Lágrimas turvaram minha vista. O que eu havia entendido naquele momento, ou fora obrigado a entender? Será que o ‘remorso como prelúdio ao pecado', o leitmotiv dos anos posteriores, começava a despontar? Ou será que compreendi como o isolamento parece grotesco aos olhos do amor, ao mesmo tempo que aprendia o avesso da lição: minha própria incapacidade de aceitar o amor? “ 18

 

A educação de Mishima super protegida por sua avó paterna, que além de ter podado toda a sua vida normal, levou-o a ter uma saúde frágil, um físico franzino, sofrendo de tuberculose, e por esta razão, impossibilitado de fazer tudo o que as crianças normais faziam. Donde sua admiração, sua fixação em certos tipos masculinos, totalmente díspares de sua realidade. E assim foram, o colega de turma, Omi, assim admirado pelo jovem Mishima:

“Com certeza, eu não era o único a observar com olhos cheios de inveja e amor aqueles músculos dos ombros e do tórax, delineados com nitidez sob o uniforme de sarja azul-marinho. [...] Naquele rosto, pressentia-se o fluxo de sangue abundante por todo o corpo. O que se via ali era a vestimenta de uma alma indômita. Quem poderia esperar dele um lado íntimo, oculto? A única coisa que se esperava encontrar em Omi era o molde daquela perfeição esquecida que abandonamos num passado remoto.” 19

Devido às dificuldades que tivera com a saúde, foi durante a sua viagem em 1952, na qual viria ao Brasil, “no convés do navio [...] troquei um aperto de mão conciliatório com o sol. A partir desse dia, nunca mais consegui me afastar dele.” 20 No ano de 1955, Mishima começou um intenso treinamento físico, tornando-o, anos depois, semelhante a um samurai. Sua grande ambição era ser atleta, mas não dava para o atletismo. O narcisismo, às vezes, se tornava incômodo e era atribuído à uma mera idiossincrasia de temperamento. Mas não resta a menor dúvida que sofria de um grande mal: seu romantismo doentio. Como entender que um homem tão brilhante pudesse passar tantas horas por dia cuidando e admirando o próprio corpo, como se tratasse de um verdadeiro templo. Mishima, em sua obra Sol e Aço ( publicada em outubro de 1968), diz o seguinte: “Uma morte nobre e romântica requer uma constituição forte, de dimensões épicas e músculos esculturais”. 21

Entretanto, foi em 1960 que Mishima decepcionado com a acolhida pelo grande público de Casa de Kyoko , mergulhou numa roda viva de inúmeras atividades. No começo do ano, rodou um filme sobre gangsteres, Um sujeito impassível. Em 1963 posou para um álbum de fotografias, tiradas por um celebro fotógrafo da época, Eiko Hosoe. O álbum, A tortura das rosas , mostra as fotografias de um Mishima completamente nu, encostado em ornamentos barrocos em pleno jardim, com uma rosa vermelha na boca, ou caída no peito. Seu narcisismo parecia, para a maioria das pessoas, irrelevante à sua obra literária. Nem mesmo o célebre retrato, caracterizado de são Sebastião, despertou grande interesse. Tirado em 1966 por Kishin Shinoyama, mostrava o escritor na pose escolhida por Guido Reni para o quadro renascentista, conforme já descrevemos anteriormente, por ocasião de seu primeiro orgasmo.

À medida que se aproximavam os seus quarenta anos, mostrava-se preocupado com a forma física. Mas, até sua morte, aos 45 anos, Mishima sempre manteve uma forma invejável. Dois meses antes de morrer, pousou para uma sessão de fotografias com Shinoyama. Essas fotos sairiam num álbum intitulado A morte de um homem ( inédito) e numa das fotos, Mishima aparece praticando haraquiri. Coincidência? Ou tudo já estaria delineado?

Encerrarei mostrando o plano da morte do escritor. O Bunburyodo (dupla doutrina de Arte e Ação, presente também no Hagakuré, manual dos samurais) exigia que Mishima, ao mesmo tempo que avançasse pelo caminho da morte, se empenhasse na Literatura e na Ação militar, como pode ser comprovado por um diário de suas atividades entre 1965 e 1970.

1ª. Fase: No outono de 1966 termina sua obra Neve de Primavera ( literatura) ao mesmo tempo que solicita treinamento ao Jeitai ( ação).

2ª. Fase: No verão de 1968 termina de escrever Os Corcéis Desenfreados (literatura), ao mesmo tempo que forma seu exército, Tatenokai (ação).

3ª. Fase: Na primavera de 1970, ao mesmo tempo que conclui O Templo da Aurora , forma um grupo de ação dentro do Tatenokai, visando um golpe de estado.

E finalmente, a quarta fase acontece no dia 25 de novembro de 1970, quando entrega os manuscritos da última parte da Derrocada do Anjo , completando, assim, O Mar de Fertilidade.

Eros e Sangue que sempre andaram lado a lado na literatura de Yukio Mishima, consolidam-se em sua vida, nesse mesmo dia 25 de novembro 1970. “Quero transformar minha vida em poesia” havia escrito aos vinte e quatro anos. Era parte de seu acentuado caráter narcisista. Sempre quisera morrer de forma belíssima, e a doutrina estética que usou durante toda a vida fora: Morte, Noite, Sangue. O haraquiri representou para o escritor a ápice do ato sexual – “a masturbação máxima”, como confidenciara a alguém próximo, no verão de 70. A essa altura, com quarenta e cinco anos, acreditando como sempre acreditara que nada era mais belo do que a morte violenta de um jovem, o tempo urgia.

A explicação da morte de Mishima nos é dada através de sua própria vida.

 

 

Zweig, Stefan in Mishima Yukio, Confissões de uma máscara . São Paulo, Companhia das Letras, 2004. p.84

Mishima, Yukio. Confissões de uma máscara. São Paulo, Companhia das Letras, 2004. p.11

Scott Stokes, Henry. A Vida e a Morte de Yukio Mishima . 2ª. Ed. Porto Alegre, L&PM Editores, s/d. p.68

in Ueda, Makoto. Modern Japanese Writers and the Nature of Literature. Stanford, Stanford University Press, s/d p.220

Op.cit . p.15

Op.cit. Paris, NRF, Gallimard, 1980. p. 24

Yourcenar, Marguerite. Op.cit. . p.17

Ueda, Makoto. Modern Japanese Writers and the Nature of Literature , Stanford, University of Stanford Press, 1976

Mishima, Yukio. Le Japon moderne et l'éthique samuraï . Appendice. Sagesse du Hagakuré. Choix de textes. NRF,

Gallimard, 1985. pp145-148

Op.cit. São Paulo, Companhia das Letras, 2004

Bataille, Georges. In Oeuvres Complètes vol. X. Paris, Ed. Gallimard, 1987. pp.11-270

Mishima, Yukio. Confissões de uma máscara. São Paulo, Companhia das Letras, 2004. p.23

Op.cit. pp. 27-28

Op.cit. pp. 37-38

Op.cit . pp. 37-38

O Dr. Magnus Hirschfeld tabalhou com uma equipe de médicos e criou o Instituto de Sexologia, no qual eram estudados

os casos de transexualismo. Apesar de ter tido seu instituto destruído pelos nazistas em 6 de maio de 1933, o Dr.

Hirschfeld teve importância capital para a abolição do Artigo 175, do Código Penal Alemão. O referido artigo dizia

respeito aos homossexuais, durante a segunda guerra.

Op. cit p. 98

Op..cit . p. 21

Op.cit. p.54

Stokes, Henry Scott . Op. cit. p. 206 .

Op. cit. p. 209