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A tríade erótica (autor/narrador/personagem) de A Hora da Estrela em três segredos: A Maca, o S.M. e a titulação fálica.
Ligia Maria Winter(UNESP)
O presente trabalho prima pela iluminação de um aspecto pouco abordado em A Hora da Estrela 1 , qual seja, a camada erótica desde sua faceta mais referencial até seu movimento centrípeto, enquanto a primeira instância de um estudo em vias de desenvolvimento que analisa as multíplices relações de sentido que se estabelecem na homologia entre os sistemas erótico, pictórico, musical e literário, nessa narrativa que, como está dito na própria obra, contém segredos (p.13).
Partindo da trajetória de Macabéa, a personagem apresenta-se, superficialmente, em seu papel social ( sou datilógrafa e virgem, e gosto de coca-cola; p.36 ) como a única virtuosa, seguidora de princípios morais e religiosos, sobrevivendo em uma sociedade viciada. Pensando na fábula, Macabéa passa pela educação da tia sádica ( ao bater gozava de grande prazer sensual; p.28 ), apaixona-se por Olímpico de Jesus, que a maltrata e também era sádico ( Meter a faca na carne o excitava; p.53 ) e seu último contato em vida é com uma cartomante ( eu era muito forte e gostava de bater (...) eu gostava de apanhar; p.74 ).
Estabelece-se, com isso, uma relação interpessoal que exige um ator (o narrador) e a presença de, pelo menos, um objeto, mesmo que imaginário (Macabéa) . De um lado, o narrador exercita, como ator, a encenação da linguagem pela qual experimenta o sofrimento do outro encenando o seu próprio, num movimento tensivo de aproximação e distanciamento. Por outro lado, e nquanto objeto, Macabéa guarda o primeiro segredo a ser apontado nos anagramas escondidos em seu nome: cama e maca . Maca no paradigma da dor, como a cama daquele que sofre, o narra-dor, e cama no paradigma do prazer. Ambos (a cama e a maca) são suportes inertes, que jazem, mas que devem ser perfurados ou deflorados ( doloroso reflorescimento; p.84) para que o narrador se veja livre da inércia da representação e participe ativamente no jogo de lances em que as fronteiras entre eu e outro vão se tornando cada vez menos definíveis:
Eu queria chafurdar no lodo, minha necessidade de baixeza eu mal controlo, a necessidade da orgia e do pior gozo absoluto. O pecado me atrai, o que é proibido me fascina. Quero ser porco e galinha e depois matá-los e beber-lhes o sangue. Penso no sexo de Macabéa, miúdo mas inesperadamente coberto de grossos e abundantes pêlos negros - seu sexo era a única marca veemente de sua existência. Ela nada pedia mas seu sexo exigia, como um nascido girassol num túmulo. (p.70)
O erotismo se dá pela manipulação imaginativa e reinvenção da força vital sexual em uma terceira realidade, nem de todo social e nem de todo natural, e, portanto, marginal, que se opera pelo conflito fundamental entre as margens do eu e do outro , na ânsia do narrador libertino em ser mais do que pode ser, ânsia que se identifica com a ânsia do escritor, o que nos leva à questão da autoria. Pensando na qualidade de margem da cerimônia erótica, voltemo-nos ao narrador.
O grande segredo do narrador Rodrigo S.M., segundo segredo a ser apontado, parte da sigla que o nomeia, sobre a qual não encontramos apontamentos da crítica. A sigla, e então nossa grande surpresa, é usada para se referir às práticas sado-masoquistas, em que, para o libertino, prazer é dor, e dor é prazer, fronteira tênue entre sensações opostas que se insere na mesma fronteira indefinível da tensão entre eu e outro . Guardando esse segredo, as margens em que se aloja o narrador se identificam com as margens em que se aloja o libertino para a realização das práticas não aceitas socialmente:
Que mais? Sim, não tenho classe social, marginalizado que sou. A classe alta me tem como um monstro esquisito, a média com desconfiança de que eu possa desequilibrá-la, a classe baixa nunca vem a mim. (p.18).
A marginalização social e o isolamento no quarto ( faz calor neste cubículo onde me tranquei e de onde tenho a veleidade de querer ver o mundo; p.22) demarcam a posição do narrador tanto no plano social quanto no plano erótico. Não bastante, as margens estendem-se para o plano pictórico, com a perspectiva enviesada e seu efeito de tontura ( preciso dos outros para me manter de pé, tão tonto que sou, eu enviesado ; p.9). Vejamos, ainda, um apontamento de Arnaldo Franco Júnior 2 :
O sadismo de Rodrigo S.M. em relação à sua criatura é o recurso utilizado para conter o apelo sentimental que, deste modo, afirma-se pelo avesso. Ao tornar risíveis a personagem e seu destino infeliz, o distanciamento crítico produzido, via comicidade, pelo tratamento sádico conferido a Macabéa e sua história, termina reduzindo Rodrigo S.M., no entanto, ao nível das demais personagens que submetem a heroína à violência.
A frieza do narrador, inibindo apelos sentimentais ( não quero ter sentimentalismo e portanto vou cortar o coitado implícito dessa moça ; p.47) afirma o distanciamento crítico e guarda semelhanças com o estado final de apatia do libertino amante da morte, bastante presente nas obras do Marquês de Sade, escritor cujo nome originou o conceito de sadismo . A frieza, porém, tem sua contrapartida na dor ( dolorosamente frio ; p.13), na aproximação analógica, no rir de nervoso e na impossibilidade do riso.
Por fim, mesmo interpessoal, o erotismo é percebido enquanto um jogo de reflexos, em que o eu olha-se no espelho e se representa, e em que, sem o outro, não existe erotismo porque não existe espelho ( Vejo a nordestina se olhando ao espelho e - um rufar de tambor - no espelho aparece o meu rosto cansado e barbudo. Tanto nós nos intertrocamos ; p.22). Uma solidão irremediável advinda desse jogo passa a envolver tanto o narrador ( Sim, minha força está na solidão ; p.18), quanto sua Maca ( Qual foi a verdade de minha Maca? p.85). Nas palavras de Octavio Paz 3 :
A transparência erótica é enganosa: nós nos vemos nela, nunca vemos o outro. (...) Contradição insuperável: por um lado o objeto erótico não deve ter existência própria, pois tão logo a tenha, volta a ser consciência inacessível; por outro, se extirpo essa consciência, meu prazer e minha consciência, meu próprio ser, desaparecem. O libertino é um solitário que não pode prescindir da presença dos outros.
Voltando-nos a Macabéa, percebemos que sua sensualidade, sem uma prévia experiência de êxtase ( faltava o núcleo essencial de uma prévia experiência de - de êxtase ; p.38), é trágica e intransitiva ( o que ela queria mesmo ser não era a altiva Greta Garbo cuja trágica sensualidade estava em pedestal solitário. O que ela queria, como eu já disse, era parecer com Marylin ; p.64). Parecer com a Marylin é concretizar a sensualidade em vida, porém apenas na morte isso acontece ( se iria morrer, na morte passava de virgem a mulher; p.84). A morte é a entrega total que o narrador, amante da morte, chama de agonia do prazer (p.83), ápice da dor e do prazer, tendo na pré-morte sua intensa ânsia sensual (p.84).

Os títulos parecem se dispor numa forma fálica em que a seqüência vertical central “OU” representaria o canal pelo qual o projétil (o sêmen) passa. O fato de o título A Hora da Estrela aparecer duas vezes se justifica, nesse sentido, por uma tratar do momento da morte, a agonia do prazer na narrativa, e a outra, separada um pouco acima dos outros títulos, seria o próprio projétil, o sêmen que origina a obra e a si próprio: o êxtase do corpo literário. Há, ainda, a assinatura da autora, sua mão presente virtualmente, estrategicamente posicionada sobre o símbolo, estimulando-o, o que nos daria uma interessante análise sobre a questão da autoria na quebra das fronteiras entre os diversos níveis de eu e outro .
Tendo feito o levantamento geral da camada erótica na obra e tecido alguns apontamentos, vale encerrar frisando que perceber tais segredos na obra não deve ser um fim em si mesmo, ou sobraria à crítica o papel de revelar verdades. Objetivamos, com esse primeiro estudo, levantar dados que nos permitam mergulhar na complexidade da camada erótica na obra, em que os signos dor e prazer esfacelam-se em contato com os sistemas artísticos mencionados, realizando um movimento centrípeto de ênfase à linguagem que nos permite observar a atenuação, até o máximo grau, da fronteira entre opostos, partindo da própria fronteira entre autor, narrador e personagem, imposta pela tradição literária.
1- LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
2- FRANCO JÚNIOR, Arnaldo. Mau gosto e Kitsch nas obras de Clarice Lispector e Dalton Trevisan . São Paulo, 1999, p.244.
3- PAZ, Octávio. Um mais além erótico: Sade . São Paulo: Mandarim, 1999, p.78 e 79.
BIBLIOGRAFIA
FRANCO JUNIOR, A. Kitsch na obra de Clarice Lispector . São Paulo, 1993 .
FRANCO JUNIOR, A. Mau gosto e Kitsch nas obras de Clarice Lispector e Dalton Trevisan . São Paulo, 1999.
FUKELMAN, C. Escrever estrelas (ora, direis). In: LISPECTOR, C. A Hora da Estrela. 23 ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.
LISPECTOR, C. A hora da estrela . Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
LISPECTOR, C. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres . Rio de Janeiro: Sabiá, 1969.
PAZ, O. A dupla chama, amor e erotismo . São Paulo: Siciliano, 1994.
PAZ, O. Signos em rotação . São Paulo: Perspectiva, 1996.
PAZ, O. Um mais além erótico: Sade . São Paulo: Mandarim, 1999.
PICCHIO, L.S. Epifania de Clarice. In: Remate de Males, Campinas, n.9: 17-20, 1989.