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RPG na internet: a palavra erótica numa modalidade de ciberliteratura
Dinamara Garcia Rodrigues (Unesp-Assis)
Carla Stürmer (IPEM- RJ)

Relatar e investigar algumas sessões de RPG 1 na internet, sob o ponto de vista do erotismo da palavra nessa nova modalidade de literatura é o objetivo primordial deste artigo. Além do livro de sistema de RPG, nomeado Vampiro – a máscara , de Mark Hagen, as sessões basearam-se nos romances que compõem as Crônicas vampirescas , de Anne Rice.

Poucas obras escritas provocaram nossas percepções ou nos fascinaram tanto quanto as crônicas da escritora norte-americana Anne Rice, criadora do Vampiro Lestat e do romance Entrevista com o vampiro , adaptado para o cinema, em 1994, com direção de Neil Jordan. Fique bem claro que, aqui, o termo fascínio não é usado – ao menos não somente – no sentido superficial que parece indicar uma paixão arrebatadora, mas, segundo a concepção de Maurice Blanchot (1987), para quem, o fascínio é a paixão da imagem. Fascinados, já não dispomos do poder de atribuir um sentido àquilo que nos arrebatou, e já não vemos um objeto real, pois o que vemos “não pertence ao mundo da realidade, mas ao meio indefinido da fascinação” (p. 23), onde “o olhar se condensa em luz, onde a luz é o fulgor absoluto de um olho que não vê mas não cessa, porém, de ver, porquanto é o nosso próprio olhar no espelho, esse meio é, por excelência, atraente, fascinante: luz que é também o abismo, uma luz onde a pessoa afunda, assustadora e atraente” (p. 23-4).

Entenda-se, portanto, que, tomados pelo fascínio, entregues à imagem plural dos romances riceanos, experimenta-se a percepção do poder dessa intimidade com a obra, uma intimidade que, segundo Blanchot, é a nossa própria, “transformada numa potência exterior” a que nos submetemos passivamente; sem saber que experimentamos a profundidade das paixões. Assim sendo, vive-se e vê-se a paixão estética pela obra de Anne Rice de modo a reencontrar em suas páginas uma versão ficcionalizada de nós próprios, nosso ser de linguagem, feito nas e das palavras escolhidas pela autora e dadas à experiencialização que, exatamente por intensa e fascinante, não basta dentro da insuportabilidade de suas páginas. Dos vários personagens, passa-se a querer ser Marius, Khayman, Armand ou outros. No meu caso, desejava, pesquisadora e iniciada, como uma criança, brincar de ser Lestat de Lioncourt, o herói das crônicas vampirescas, ou talvez devesse classificá-lo como anti-herói moderno, já aceito como herói na pós-modernidade, juntando-me a outros, iniciados ou não, que criavam seus vampiros ou que retiravam-nos das páginas de Rice, ou ainda baseavam-se nos dela para formar os seus, sob o olhar silencioso e comentários reservados de Carla. Achei o espaço para a ludicidade dessa vivência, ou, melhor dizendo, foi no ciberespaço que encontrei a ambiência para ser cobaia de um experimento literário na internet: os chats de RPG do portal Terra, criando um heterônimo: Daniel Rodrigues e, por esse nome, passando a ser ali conhecido.

Desde dezembro de 2002, venho participando, como pesquisadora e jogadora ( player no jargão dos adeptos, conforme usarei deste ponto em diante), de uma experiência de RPG na internet, em parceria, nas pesquisas, com Carla Stürmer, jornalista e assessora de Comunicação do IPEM-RJ, e, no jogo, com Maria Angélica Spüttzer (estudante de jornalismo), criando a crônica centrada em duas personagens: Bettina von Schaeffer (criação de Angélica) e Lestat de Lioncourt, respectivamente Domme e escravo de BDSM (Bondage, Dominação e Sadomasoquismo). Nos últimos meses (maio a junho de 2004), a criadora de Bettina deixou entrar com maior freqüência em cena outra criação, mencionada desde o início da parceria, mas que veio conquistando destaque cada vez maior: Erasmus Zottarelli, um vampiro romano, declaradamente inspirado em Marius, da obra de Anne Rice, general de Júlio César, transformado ainda em sua época. No século XXI, Zottarelli, vulgo Pescecane (“Tubarão”, em italiano), é um agente duplo, ou melhor, múltiplo, trabalhando para o FBI e outras polícias secretas, mas, também, chefiando secretamente todas as máfias, sendo considerado Il Ca p po dei Cappi . Evidentemente, a maioria das personagens envolvidas não conhece este aspecto de sua vida, fundamental para a compreensão dessa personagem em destaque nas cenas que investigaremos.

O RPG vem se desenvolvendo como forma de escritura literária, conquistando territórios no ciberespaço. Algumas de suas manifestações vêm privilegiando narrativas de teor erotizante, em parte pelo conteúdo, e em parte pela preocupação de lidar com a palavra como um objeto plástico, dotado de um erotismo próprio. E parecem configurar-se como uma tendência deste início de século, quando várias publicações na linha erótica ou mesmo pornográfica vêm sendo lançadas no mercado editorial, como Hell , Paris 75016 , de Lolita Pille, e Cem escovadas antes ir para a cama , de Melissa Panarello. Esses textos novos levam a reedições de escritores mais antigos, que já seguiam a mesma linha da palavra erótica, redonda, às vezes, escandalosa, como é o caso de Georges Bataille, que teve seu História do olho , cujo tema são as transgressões sexuais de dois adolescentes, republicado no final de 2003. Muitos dos errepegistas que encontramos nos chats , trilham essa mesma linha, ainda que desconheçam Bataille e os lançamentos aludidos. Entretanto, o mais importante sobre o RPG em investigação não é o foco sobre o erotismo do tema, que pode parecer óbvio, mas o erotismo da palavra escrita e falada, a gostosura do signo verbal, a maleabilidade, a musicalidade, as reentrâncias. Esses e outros processos apontados por diversas teorias consagradas e outras tantas que só descobriremos em nossos textos, incluindo os nossos offs (conversas dos players e não das personagens, pois estas são denominadas on ), fazem parte do que torna esta experiência uma vivência da amplitude e da maleabilidade da palavra acentuada por rapidez, improviso, interatividade e simultaneidade do ambiente telemático. Também há sinais dessa teoria na aparentemente descomprometida ludicidade capaz de nos fazer experimentar o prazer e a fruição barthesianos em nossas posições de autores-leitores ou leitores-autores uns dos e para os outros, além de para players que não participam de nossa crônica, mas que desenvolvem as suas simultaneamente, no mesmo ambiente virtual, além do flerte com um mundo de conto de fadas noir, tenebroso e sensual, ao qual Bataille freqüentemente recorre em seus livros. Na verdade, mais que “prazer”, interessa-nos aqui o conceito de “fruição” proposto por Barthes, já que parece depreender-se das condições artísticas em rede, justamente pela interatividade e ludicidade. Uma redescoberta de um prazer textual desconcertante que põe em cheque não somente a escritura e a leitura, mas, sobretudo, a própria linguagem enquanto elemento da cultura.

Partindo dessa distinção, desejamos averiguar o que se passa em nossa experiência investigando como se dá o trânsito da elaboração intelectual ao prazer, e deste à fruição, em algumas sessões de jogos realizadas nas madrugadas de 29 de junho de 2004 a 3 de julho do mesmo ano, tendo em cena as personagens Lestat de Lioncourt e Erasmus Zottarelli, em torno de uma ação desencadeada por Bettina e outras personagens, em noites anteriores. Lançada de um pólo a outro desse binômio, nossa experiência como players e pesquisadoras se relaciona à constatação de que todos os processos do texto sofrem profundas mudanças por causa da instantaneidade, da emocionalidade que sobrevém à racionalidade possibilitada por muitas revisões.

Por ser a fruição incultural, a-social, atópica, o texto de fruição é aquele que "está de fora". E, no caso da criação de RPG na internet, mais ainda, porque a maioria de nós sequer grava seus textos, freqüentemente limitando-se a criá-los, saboreá-los, oferecendo-os aos parceiros de jogo e deixando que se desfaçam nos fluxos e refluxos da grande rede, morrendo sempre que as salas são fechadas ou a memória RAM dos computadores se apaga. Isto faz dessas criações textos “à margem”. Estar à margem é estar simultaneamente dentro e fora da folha (ou tela), no papel, mas fora do espaço de escrita "regular", oficial. A marginalidade é um apontamento, um aparte, “situa-se no espaço da fenda, afinal nem a cultura nem a sua destruição são eróticas; a fenda entre ambas é que se torna erótica” (BARTHES, p. 40). Situados nas nervuras dessa fenda, por horas e horas, varando as madrugadas, os players criadores de textos de RPG brincam, sem panfletagem, sem ambicionar a vanguarda ou a ruptura, – pois a maioria desconhece esses termos – sem sequer desejarem uma margem ou outra, talvez sendo encontrados pela terceira margem desse rio. A terceira margem poderia ser tida como exatamente o melhor da fruição, que é o caudal do rio, a torrente onde a variedade sobrevive, subvertendo o conceito de “margem” e de “marginal” para essa literatura.

Imersos na marginalidade daquilo que Hakim Bey (2003) denomina “zonas autônomas temporárias”, buscam o prazer de criar mais livres, longe da mídia, do mercado e das instituições acadêmicas, como se seguissem unicamente o desejo de estar e escrever com o outro, para o outro, numa relação mista de intelectualidade e corporalidade, de conhecimento e volúpia. Volúpia em torno do corpo virtual do outro e do corpo das palavras, tanto as do outro como as suas. Lascívia que reconhece as palavras – nos dizeres de Roland Barthes – como “maquinaria”, “sabor” e “festa”, talvez mais voluptuosa que a produção de palavras para um livro. Até porque, nesse jogo literário que é o RPG na internet, a maior parte dos autores não pensa estar criando um livro, sequer fragmentos de um livro, os textos de RPG são sempre não-nascidos, jamais inteiros, nunca puros ou isolados, sempre em processo de feitura, que pode ser modificado ou interrompido pela queda da conexão ou pelo sono tomando um ou mais boêmios do ciberespaço e ainda pela simples desistência de um dos envolvidos. Fugacidade, incerteza e fragmentação os tornam similares à oralidade, dela eles têm algumas das marcas da carnalidade, muitas vezes sendo confundidos com simples bate-papo ou – pejorativamente, na concepção de muitos – com sexo virtual.

Para muitos teóricos da literatura pós-barthesianos, depois do texto-pele e do texto-carne, resta-nos o texto-respiração, aquilo a que Barthes chama “a escrita em voz alta”, “aquela que procura os incidentes pulsionais, a linguagem revestida de pele, um texto onde se possa ouvir o grão da garganta, a pátina das consoantes, a voluptuosidade das vogais, toda uma estereofonia da carne profunda: a articulação do corpo, da língua, e não a do sentido, da linguagem” (BARTHES, p.116). Será este o futuro da escrita e do texto, sobretudo graças às novas tecnologias? Tornar-se voz, respiração, um teatro de vozes, como propõe Ana Bela Almeida?

Talvez neste início de milênio a escrita em voz alta esteja encontrando, cada vez mais, nas novas tecnologias, uma nova modalidade. Um microfone ligado ao computador? Textos a muitas mãos que, não somente pelo tema, sejam esboços de sussurros, gemidos, volúpias e gozos? Muitas vezes, sem revisão, sem os cuidados que a escrita silenciosa dos autores de livros impressos pode ter graças ao tempo entre a escritura e a publicação de sua obra.

Esse teatro de vozes, experiência de uma outra corporalidade do texto pode ser vislumbrada nas sessões de RPG na internet que nos dispusemos a investigar. Os jogos foram realizados durante cinco madrugadas, de 29 de junho a 3 de julho de 2004, totalizando 12 horas e 34 minutos, totalizando 125 páginas em formato Word. A narrativa trata do romance entre Erasmus Zottarelli (um vampiro do clã 2 Ventrue, ligado ao poder político) e Lestat de Lioncourt (considerado erroneamente como do clã Toreador, clã de diletantes, estetas e artistas). São as primeiras noites de um caso secreto, oculto sobretudo dos olhos perspicazes de Bettina von Schaeffer, a vampira Tremere (clã dos alquimistas ou relacionados à magia e ao ocultismo), noiva de Lestat.

Na primeira noite, levamos duas horas e 31 minutos apenas para focalizar o início da estadia de Lestat na residência de Erasmus e a grande tensão de um diálogo em que o francês alude ao lado mafioso do amante, sendo, sem palavra alguma, repreendido, dissuadido de tocar nesse assunto, para sempre, o que magoa muito o francês. Trata-se de uma cena que privilegia a focalização interna, sondando pensamentos e sentimentos das personagens. Angélica e eu discutimos muito sobre essa tensão e suas justificativas, o que dá à sessão de RPG um caráter simultâneo de produção e making off . Muitas vezes é possível notar a necessidade que temos de ir construindo uma teoria sobre nosso fazer errepegístico. Das muitas alusões, citações, intertextualidades e releituras que o jogo nos leva a fazer, note-se, na cena abaixo, o diálogo com o pensamento de Michel Foucault, em livros como Vigiar e punir , sobretudo vê-se aqui uma alusão ao panóptico. No fragmento abaixo, pode-se notar que Erasmus, personagem ligada ao poder, se empenha em traçar limites, como os dispositivos de vigilância o fazem e também fala do mundo panóptico e, mais, de um panoptismo que, de tão intrínseco no dia-a-dia das pessoas comuns, virou brincadeira de criança:

Erasmus Zottarelli 00:24:55
fala com Lestat de Lioncourt

 

*Erasmus bem notara o amuamento do outro. Era tão flagrante! Não que se apagasse, mas aquela luz cegante de Lestat parecia, nas ocasiões em que se desgostava, ofuscar-se, diminuir, encolher a ponto de virar um menino como Marcel. Entretanto, não poderia haver volta. Uma fronteira teria que ser marcada e o assunto Máfia era esse limite. Fixar essas linhas sempre era um trabalho doloroso para quem as recebia e quem as fincava e a dor, então, teria que ser enfrentada, por mais que a vontade fosse de acolher o louro como a uma criança, de dar-lhe colo e dizer que não foi nada. Era! Era, sim! Era a diferneça entre pensar e verbalizar, que é toda em um mundo cheio de câmeras, de grampos. Um mundo em que crianças como Goutton compravam "kit pequeno espião" pelo correio, pela internet, mundo em que tudo é passível de rastreamento. E, não, não era paranóia. Era realidade. O romano se debruça sobre as próprias pernas e pega o queixo de Lestat. Sorri de canto, encara-o e demora-se a falar. O silêncio podia dizer muito. (cont)

 

 

Mais à frente, era final de 1 o de julho, na verdade já eram quase 2, depois de breve tagarelar inicial, mais para testar a possibilidade de interação, focalizamos mais uma vez a intimidade de Erasmus e Lestat, do ponto onde paramos na madrugada anterior, a cena em que o Narrador de Angélica informa que Erasmus e Lestat iriam fazer “coisas de homens”, no quarto. Só para que se observe melhor a interação sexual entre eles, transcreveremos algumas cenas de destaque, finalizando a amostragem, misturando trechos encenados em 2 e 3 de julho:

Erasmus Zottarelli 00:04:07
reservadamente fala com Lestat de Lioncourt

 

*O Ventrue se ria daquele jeitinho absolutamente cativante do louro. Abraça-o e levanta-o um pouco do chão. Os beijos... Nenhum dos beijos das muitas bacantes era assim... Nem mesmo de vestais... Virgens não tinham beijos de mel como os de Lestat. O romano mordisca-lhe o lábio, suspira de leve, excita-se. Com sofreguidão, eles roçam os corpos, gemem. Ainda abraçados e se beijando, caminham às cegas em direção ao quarto. Erasmus conduzia ambos, batendo, por vezes, nas paredes, em vasos de plantas. Felizmente, o estilo do lugar era minimalista... Um corredor, ainda que largo, repleto de objetos decorativos, seria estragado por aquela ânsia. Chegam à porta do quarto. Erasmus o abre sem deixar o amante, sem abrir os olhos. Quase caem para den tro do cômodo. Vão para a cama e o romano passa a, delicadamente, desabotoar-lhe a camisa. Tantos botões, tantas amarrações! A vontade era de arrancar-lhe cada uma das peças de roupa do corpo, de começar logo a sentir e dar prazer.*

 

 

 

Lestat de Lioncourt 00:14:18
fala com Erasmus Zottarelli

 

*A cada perolazinha que Erasmus libertava do lacinho de cetima aveludado, Lestat gemia de levinho, arrepiado. O tórax ia se revelando, arfante, róseo-bronzeado, a escassa pelugem loura toda ereta e elétrica. O toque das mãos fortes sobre a pele dele lhe causava, já, um prazer intenso, ele movia, leves, os quadris. Olhava o rosto do amante* Posso perguntar de quando estavas na Roma de Júlio César, posso? *A voz era baixa, respeitosa, havia um certo receio de errar novamente. Sob o tecido sedoso da calça negra e fina se via o volume do sexo.O lourinho estava entregue ao desejo que aquele homem milenar lhe provocava como ninguém mais fizera antes. Algo no ar perfumado do quarto parecia indicar novas eras, em que Lestat se daria a ver como jamais, parecia estar reaprendendo tudo, ou desaprendendo para vivenciar melhor. Os pés dele acariciavam as canelas do amante, de modo regular e suave, explorando músculos e pêlos.* [cont]

 

Erasmus Zottarelli 00:24:28
reservadamente fala com Lestat de Lioncourt

 

*Como dizer ao amante, tão carinhoso e vivo, que poderia, sim, perguntar-lhe sobre tudo o que quisesse, sobre todas as épocas? Principalmente, se os lábios ainda deslizavam naquela pele com toque de veludo e um brilho acetinado muito superior à melhor fotografia de qualquer cineasta? Ah, porque a realidade é sempre mais linda que a fantasia fabricada, pronta, encaixotada e distribuída para o consumo... A realidade particular, íntima, amorosa era sempre melhor, já há milênios, e continuaria a sê-lo por todos os outros que ainda viriam. Enquanto desabotoa o cós da calça do louro, Erasmus beija-lhe o pescoço, mordisca-o devagar, geme um pouco, de olhos fechados, com a toalha já esquecida no canto da king size - diligentemente dobrada, aliás - e mostra-se todo em pêlos, pele e músculos a Lestat. Cinqüenta minutos jamais se pareceram tanto com cinco segundos! E era de lament... Não! Não era de se lamentar! Era de se agir, era de se beijar, abraçar, amar, era de se acabar em líquidos, em carinhos, em gemidos e gestos de amor. Por isso, um "u-hum" de concordância, entre tantos beijos, é tudo o que Lestat ouve.*

 

 

Depois de fazerem as pazes, Lestat pergunta a Erasmus sobre as transas com soldados, nos acampamentos romanos, e, mais à frente, de modo um tanto infantil, feminino e titubeante, faz outra pergunta ao romano: se ele jamais havia tocado o sexo de um homem. O general responde monossilabicamente, parecendo envergonhado, e as cenas explodem em contenção e erotismo, este vai se tornando cada vez mais visível, atingindo algo de pornográfico:

Erasmus Zottarelli 00:29:24
reservadamente fala com Lestat de Lioncourt

 

*O rosto ainda queimava quando abra çara Lestat daquele jeito apertado, íntimo, com os membros roçando um no outro, misturando líquidos transparentes como pareciam, agora, translúcidas as almas, os desejos dos homens. Beijavam-se longamente o beijo molhado como o do corredor. Erasmus queria, agora, o poder de cessar o tempo, de segurar a Terra, os ponteiros dos relógios que, mais que nunca, pareciam excessivamente pesados, inclementes com os amantes. Não queria tirar Lestat daquele abraço de almas, mais que de corpo. Sentia o corpo inteiro pulsando, sentia o membro se inchando ainda mais... Gemia de ânsia e felicidade. Beijos, beijos e mais beijos. Jamais deixaria de beijar o louro, não o soltaria. Mas o olhar suplicante, lindo, do moço, faz com que ele o solte daquele enlaçar. Recebe, então, o carinho da boca úmida e quente do jovem amante. Geme mais alto e segura a cabeça de Lestat com algum carinho, mas com firmeza. Apóia-o nos movimentos. Geme, quase grita. Os olhos firmemente cerrados, a boca entreaberta com o pescoço voltado para cima, pernas afastadas, joelhos dobrados, (cont)

 

Erasmus Zottarelli 00:33:54
reservadamente fala com Lestat de Lioncourt

 

(cont) Erasmus deitara-se com a barriga para cima, ofegante. Entre um e outro gemido, sussurrava, cada vez mais alto, um "assim... assim..." até que, quando está quase por se vir, rapidamente segura o rapaz, deita-o com as costas sobre os lençóis de seda e penetra-o, sentindo o membro rosado de Lestat na barriga, beijando a boca que, há pouco, sofregamente mamava-o.* Te amo... te amo... *Mordiscava o lábio do louro, mas sem nunca deixar de investir com força para dentro dele.* Não... não... a... güento muito mais... Vem comigo... *Um suspiro profundo e, depois, um grito junto com a torrente de esperma que invadia o íntimo de Lestat.*

 

 

Amor, prazer, pornografia e vida são os temas que se podem averiguar nas poucas cenas que transcrevemos das citadas 125 páginas, tendo o assassinato e a morte como temas implícitos, pois as personagens são vampiros. Das entrelinhas do tema incorporado à pulsação das palavras e frases, desejaríamos que, nesta polifonia ecoassem novamente as vozes de Roland Barthes e Ana Bela Almeida e que, acrescentando sua voz a estas outras tantas, nosso eventual leitor deixasse em sua percepção repetirem-se estes sussurros: “A escrita em voz alta, nas palavras de Roland Barthes, é ‘aquela que procura os incidentes pulsionais, a linguagem revestida de pele, um texto onde se possa ouvir o grão da garganta, a pátina das consoantes, a voluptuosidade das vogais, toda uma estereofonia da carne profunda: a articulação do corpo, da língua, e não a do sentido, da linguagem' (BARTHES, p.116). Será este o futuro da escrita e do texto, sobretudo graças às novas tecnologias? Tornar-se voz, respiração, um teatro de vozes?”.

 

BIBLIOGRAFÍA

BARTHES, Roland. O prazer do texto . Trad. Maria Barahona. Lisboa: Edições 70, 1996.

BATAILLE, George. História do olho . Trad. Eliane Robert Moraes. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

BEY, Hakim. Caos : terrorismo poético e outros crimes exemplares. Trad. Patrícia Décia e Renato Rezende. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2003.

BLANCHOT, Maurice. O espaço literário . Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir : nascimento da prisão. Trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis:Vozes, 1999.

HAGEN, Mark Rein. Vampiro: a máscara - “um roleplaying game” de horror pessoal. Trad. Sylvio Gonçalves. São Paulo: Devir, 1994.

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa . 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

PANARELLO, M. Cem escovadas antes de ir para a cama . Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

PILLE, L. Hell, Paris 75016 . Trad. Julio Bandeira. São Paulo: Intrinseca, 2003.

RICE, A. Entrevista com o vampiro . Trad. Clarice Lispesctor. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

___. O vampiro Lestat . Trad. Celso Vargas. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

 

LINKOGRAFIA

ALMEIDA, Ana Bela. “ O prazer do texto de Roland Barthes: take a walk on the wild side”. Disponível em http://www.ciberkiosk.pt/arquivo/ciberkiosk9/ensaios/barthes.html , acessado em 30 de maio de 2004.

 

VIDEOGRAFIA

DRÁCULA, de Bram Stoker. Produção de Francis Ford Coppola. São Paulo: Columbia Pictures, 1992. 1 Videocassete (127 min): VHS, Ntsc, son., color. Legendado. Port.

ENTREVISTA com o vampiro. ProduçãoDavid Geffen e Stephen Wooley. São Paulo: Warner Bros. 1994. 1 videocassete (122 min): VHS, Ntsc, son., color. Legendado. Port.

NOSFERATU. Prod ução: Enrico Dieckmann e Albin Grau. New York : Film Arts, 1989. 1 Videocassete (80 min.): VHS, Ntsc, son, P&B. Mudo.

 

 

RPG é a sigla para role playing game, ou jogo de representação de papéis, e se refere a jogos de criação e encenação de personagens e narrativas, tendo como ponto de partida livros de sistemas e regras para elaboração de roteiros de crônicas e narrativas que serão vivenciadas normalmente em torno de uma mesa, por grupos de jogadores, freqüentemente adolescentes e jovens adultos. Existe também a versão live action que consiste em ações encenadas ao vivo, pelos jogadores, em uma espécie de teatralização de improviso. Nos últimos anos, surgiu a versão virtual, no formato de jogos eletrônicos de interação dramática, e uma outra, de criação de histórias escritas coletivamente, em chats apropriados, pela internet. É sobre esta última que este artigo se debruça para a investigação da experiência a que alude.

A classificação do vampiros em clãs é baseada no livro de sistemas de RPG denominado Vampiro – a Máscara , de Mark Rein Hagen.