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Scented Herbage Of My Breast: A Figuração do Corpo e a Sexualidade em "Children Of Adam" E "Calamus", Seções de Leaves Of Grass de Walt Whitman
Bruno Gambarotto (FFLCH-DTLLC-USP/ FAPESP)
Falaremos aqui da figuração do corpo em duas seções de Leaves of Grass de Walt Whitman, publicadas em 1860 – “Children of Adam” ("Filhos de Adão") e “Calamus” ("Cálamo"), a primeira composta de poemas escritos entre 1855 e 1860, a segunda inteiramente composta em 1860. Ambas as seções poderiam ser interpretadas a partir da distinção entre relações hetero e homossexuais: a “Filhos de Adão” caberia a primeira, enquanto a segunda se limitaria exclusivamente ao homossexualismo. No entanto, não é nosso objetivo autorizar tais leituras, cuja importância se faz notar na própria fortuna crítica de Leaves of Grass , permeada pela polêmica em torno da opção sexual de seu autor, a quem coube igualmente epítetos díspares como “womanizer” e “the gay bearded poet”, precursor do ethos do homossexual norte-americano segundo alguns de seus críticos. Tomaremos tais questões e polêmicas como constituintes de um discurso que encontra em Leaves of Grass sua palavra autorizada e em Whitman sua autoridade e nosso objetivo, sob esse aspecto, é trazer para esse discurso elementos que retomem seu lugar na cultura que os engendrou.
A primeira e mais abrangente questão que levantamos – a situação do Corpo, já sexualizado, em Leaves of Grass – tem resposta de Whitman, formulada em “A Memorandum at a Venture”, artigo publicado na The North-American Review de 1882 em resposta a certo “Republicano de Springfield” que, em artigo anterior, havia dito “indecente” a exposição e a expressão do sexo em literatura. Ali, Whitman não apenas defenderá o tópico, salientando a importância de seu "Children of Adam" para a composição de Leaves of Grass (obra que, segundo ele, como nenhuma outra abordaria a "completa identidade humana"), como também irá expor brevemente as opiniões correntes em sua sociedade acerca do sexo, agrupando-as em duas vertentes: uma primeira que, “reprimindo qualquer julgamento direto do assunto", só faria crescer a ignorância que se manifestava igualmente pela pornografia, contrapartida do puritanismo que tornava o sexo assunto "furtivo, covarde, venenoso", "mera voluptuosidade dos sentidos”.
Mas Whitman anuncia: viria o tempo “para um novo começo”, “um terceiro ponto de vista” que, em concordância com "os recentes avanços da ciência fisiológica, da arte e dos direitos da mulher", purificaria o sexo e o destituiria da "pena dos vulgares". Nesse sentido, “Filhos de Adão” abordaria o sexo com visada programática, tendo por parâmetro a ciência e por objetivo a legitimação e autorização, via poesia, de um assunto cujo esclarecimento seria de fundamental importância para o sucesso de uma sociedade democrática que observará ali seu corpo a partir do elemento capaz de conjugar Estado, Arte e Ciência - a procriação , que lemos em "Dos Rios de Dor Contrita":
Dos rios de dor contrita,
Dos rios de mim mesmo, sem os quais não sou coisa alguma,
Daquilo que decidi fazer ilustre, mesmo se tiver de terminar solitário entre os
homens,
De minha própria voz resonante, cantando o falo,
Cantando a canto da procriação,
Cantando a necessidade de crianças excelentes e adultos excelentes,
Cantando o impulso muscular e a harmonia de todas as coisas, imiscuidas, (...)
Os rios contritos, cuja confissão pode causar o isolamento e a incompreensão, nada mais são do que impulso da “procriação” responsável por “crianças e adultos excelentes” - aqueles que povoarão os jardins do Novo Mundo. O tom da seção será prescritivo e moralizante, por vezes confessional, como se a verdade só obtivesse legitimidade sob os contornos de um sujeito inteiramente exposto em sua singularidade para, em seguida, estendê-la a todos os homens. Sob esse aspecto, poderíamos acabar com qualquer possibilidade de uma terceira via enquanto ars erotica , na qual, segundo Foucault:
A verdade é extraída do próprio prazer, encarado como prática e recolhido como experiência; não é por referência a uma lei absoluta do permitido e do proibido, nem a um critério de utilidade, que o prazer é levado em consideração, mas, ao contrário, em relação a si mesmo: ele deve ser reconhecido como prazer e, portanto, segundo sua intensidade, sua qualidade específica, sua duração, suas reverberações no corpo e na alma 1.
Não estamos diante do segredo que caracteriza o erotismo; pelo contrário, o corpo em Filhos de Adão fala, produz sua verdade, retira de si o peso da "infâmia" e encontra sua purificação na autoridade da ciência - a fisiologia responsável pela instauração de um corpo em permanente estado de anatomia, da qual depreendemos não o erótico mas o sexual, campo da scientia sexualis - ciência do sexo - saber que se projeta sobre e a partir do corpo, o esquadrinha e faz, mais do que até mesmo falar, significar, sendo assim posto na ordem do discurso, como lemos no mote de “Eu Canto o Corpo Elétrico” - aqueles que corrompem seus corpos segregam a si mesmos - onde discriminação social e saúde física estão associados.
Os nove poemas que compõem “Eu Canto o Corpo Elétrico” operam uma enorme digressão no ciclo de “Filhos de Adão”, que em seu conjunto mantém-se coeso sob um tênue enredo: a história de amor entre um homem que parte em busca de uma resposta a sua ânsia de saber e uma mulher que dele se despede no cais do porto depois de uma noite em que “é fecundada” e passa a esperar seu retorno. Em “Corpo Elétrico” o sujeito poético passa de confesso a auditor dos corpos, que a ele se expõem mediante a descrição anatômica, procedimento científico estilizado com vistas a tornar a voz lírica detentora de uma verdade purificadora. Tal verdade, ligada à instrução que os poemas fornecem, avalia o corpo segundo uma equação que levará em conta a normalidade e a eficiência dos corpos.
Assim, o corpo despojado de toda a infâmia é a extensão do que um rosto expressa , rosto tomado aqui não só como algo pertencente ao corpo, mas também àquela parte que dá concretude a sentimentos e opiniões. O " corpo perfeito" de Whitman, que vemos em uma mãe que amamenta, em um bebê que engatinha e ainda nos nadadores, nos fazendeiros, nos remadores e nos bombeiros, com os quais o sujeito lírico compartilha as tarefas, deixa de ser um simples e tímido suporte para a cabeça. O corpo bem-formado também expressa . Faz-se signo . Signo de uma natureza específica. Como o médico, que avaliando sintomas chega às partes de um todo que vem a ser a doença, valendo-se para isso de procedimentos metonímicos, Whitman escande o corpo de seus homens e de suas mulheres bem-formados ; em cada membro descrito, ou ainda em cada enumeração efetuada, estarão presentes as evidências que, colecionadas, formarão um corpo potencial ou, num sentido mais próximo do que encontramos em “Eu Canto o Corpo Elétrico”, ideal , como se por meio de tais operações o corpo, materialidade indispensável, recebesse a alma, significado que irá preencher ossos, conferir-lhes ligamentos e revesti-los de uma forma que só encontrará plenitude na própria instância que os irá coletar – o próprio sujeito-lírico – pela qual sabemos a vocação dos corpos: o da mulher – de “loucos filamentos”, de “um florescer incontrolável” e divino que aparece por seu cabelo, por seu peito, por seus quadris e pela curva das pernas – formado para ser atingido pelo desejo e receber os “jatos límpidos e ilimitados de amor quente e imenso, a trêmula geléia do amor, o sopro louco e o sumo delirante” do corpo masculino, de “ação e poder”. A perfeição do encontro amoroso, que perfaz “o fluxo do universo” contido em ambas as formas transcende todas as categorias sociais; tal natureza, avaliada de modo a formar o corpo, ultrapassa imigrante e nativo, humilde e soberbo, o que justifica o leilão impossível dos corpos do escravo e da prostituta, anulado pela verdade indelével da “natureza” formadora:
Um corpo de homem à venda na praça,
(Pois antes da guerra ia muitas vezes ao mercado de escravos e assistia à venda)
Eu ajudava o pregoeiro, o relapso não sabe metade de seu serviço.Senhores, olhem para esta maravilha,
Quaisquer sejam os lances dos compradores, eles não serão suficientemente altos
para ela,
Pois o globo há milhões de anos o vem preparando sem um animal ou planta,
Pois os ciclos evolutivos constantemente levam a ela.
Ao subverter, por meio de uma natureza do corpo, a ordem escravista vigente, Whitman inscreve o corpo nas tensões do poder político, processo que toma todo o percurso desse corpo elétrico, cujos membros descritos e catalogados não têm o preço do trabalho compulsório, mas servem sob medida à “divina lista” das ocupações liberais. A libertação do corpo, que coincide com a purificação do sexo, encontra seu ápice na libertação do escravo, cuja figura não só insere a poesia de Whitman em um circuito de idéias próprio à identidade de um Norte liberal em oposição aos desígnios escravocratas do Sul confederado, voltado à cultura e economia européias, como também abarca os fundamentos de um discurso que visa a defender “o vigor físico e a integridade moral de um corpo social” 2. Tal vigor e tal integridade estarão nos “poemas”, partes do corpo humano assim chamadas e enumeradas, “a rica realização da saúde”:
Ó eu digo: essas não são as partes e os poemas do corpo apenas – são também as partes
e os poemas da alma,
Ó eu digo agora: são a alma!
Nesse sentido, o “Republicano de Springfield” ficaria menos surpreso com os pormenores anatômicos do que pela verdadeira generalização que esses mesmos argumentos instituem ao conferir um corpo àqueles que não o tinham. Antes de demarcar normas e desvios, antes de prescrever os regimes de uma população e diagnosticar em indivíduos isolados os males de uma comunidade inteira, os saberes do corpo estiveram intimamente ligados àqueles que o incitaram e criaram, por seu meio, uma verdadeira tecnologia do corpo, em meio à qual a sexualidade assume um papel primordial, não para conter, dissuadir ou reprimir os prazeres em nome da pureza do corpo, mas sim para exaltá-lo, potencializá-lo, intensificá-lo. Em outras palavras: antes de reprimir, tal saber tinha como objetivo maximizar a vida 3 daqueles que o detinham e conservavam à maneira de um elixir divino. A anatomia pura e simples não causava tanto horror como ver esse fogo, o corpo , reconhecido em todos os homens, igualando-os por ascendência e descendência, fosse negro, nativo ou imigrante. Sendo propriedade de uma minoria, é a ela que Whitman deve suas proporções de Prometeu.
A igualdade jurídica e política reivindicada e aprovada em “Memorandum” é justaposta à complementaridade dos sexos: a saúde da mulher revela sua plenitude, seu sentido e finalidade, diante do homem que nela deposita a matéria que “dá início aos filhos e às filhas aptos aos Estados”. A descendência exigida é um importante ponto de situação das estratégias utilizadas por Whitman dentro dos limites de dispositivos que, antes de serem rechaçados, recebem sua confirmação. Dispositivos, uma vez que o corpo empírico, em Whitman, se torna a instância de atuação do poder, sendo alienado em nome do sentido e da finalidade impostas a um corpo social ainda incipiente e cujas formas são esboçadas em Leaves of Grass , apontando para uma sociedade que só seria concretizada após a Guerra Civil, momento em que as tensões formadoras da América são “apaziguadas” em nome de uma política de Estado, discurso em que as tensões políticas seriam desfeitas pela aliança , nome dado pelos amantes à União, que em “Filhos de Adão” assumirá as cores da fertilidade e a força de uma raça, de bardos e heróis, as crianças perfeitas a quem é imposta a continuidade, a exigência da perpetuação “nos mil anos do porvir”.
Tanto a aliança da família como a homogeneidade assumida pelo corpo social a partir da formação de uma "raça democrática" (na qual se observam natureza e ética sobrepostas) serão bons argumentos para a leitura de "Cálamo", seção que no século XX ganha destaque principalmente entre os adeptos da crítica homoerótica, responsáveis pela reconfiguração da auctoritas whitmaniana mediante a leitura do manly love , amor masculino celebrado nos poemas do ciclo em que vemos surgir a imagem que dá título a esta comunicação, erva perfumada do peito em que floresce a nação estranhamente negada pelo poeta:
De fato Ó morte, Penso que estas folhas dizem precisamente o mesmo que tu,
Crescei altíssimas, doces folhas, para que vos possa ver! Crescei de meu peito!
Ali florescei para longe do coração segregado!
Não vos dobreis por sobre vossas púrpuras raízes, tímidas folhas!
Vinde! Estou pronto a desnudar este largo peito meu, por tempo demais sufocado,
por tempo demais afogado;
Vos deixo, emblemáticas e caprichosas folhas da relva, vós não mais me servis,
Direi o que tenho de dizer por mim mesmo,
Farei reverberar apenas a mim e aos camaradas, nunca mais invocarei algo que não seja
sua invocação (...)
Atribuídas ao corpo do poeta, as folhas são negadas como a própria vida: o assunto aqui será da alçada do espírito e da morte, configurando-se assim uma ordem que, embora se apresente diametralmente oposta a de "Filhos de Adão", ainda remete ao corpo, que aqui assume as proporções do Estado corrompido pela cupidez dos homens e cindido pela guerra iminente. Em confronto com tal situação, "Cálamo" canta a mesma Democracia que serve, em "Filhos", para formar a coesão e homogeneidade da raça, bem como a perpetuação do Espírito que, em sua unidade eterna, configura uma Nova Cidade dos homens:
Sonhei num sonho que via uma cidade invencível diante dos ataques de todo o
resto da Terra,
Sonhei que essa era a nova cidade dos Amigos,
Nada era maior ali do que a qualidade do amor robusto, ele guiava todo o resto
E era visto a todo momento nas ações dos homens daquela cidade
E em todos os olhares e palavras.
Em "Sonhei num Sonho" lê-se a formação de um novo corpo social, firme e atado contra toda e qualquer invasão ou impureza que tente se impor. Seu espaço é o da comunhão, tradução conceitualmente possível para a adhesiveness formadora daquele "amor masculino". Em Whitman o termo ganha destaque em sua abrangente definição de Democracia, que considera o Governo e as instituições um aspecto menor e eleva o que considera seu aspecto espiritual e religioso, “lei superior” que está na mesma ordem das Leis que regem o Universo, congregando os homens de todas as nações e religiões em uma única família e irmandade, na qual aquele individualismo fomentado pelos bons governos é só uma metade:
Há uma outra metade, que é a associabilidade ou amor, que funde, amarra e agrega, fazendo camaradas as raças e confraternizando-as. Ambas devem ser vitalizadas pela religião (o mais valioso elemento de elevação do homem ou do Estado), respirando dentro dos altivos enredos materiais, sopro de vida. Pois digo que o cerne da Democracia, finalmente, é o elemento religioso. Todas as religiões, novas e velhas, estão ali 4.
Para a figuração dessa metade, o corpo do homem assume uma posição ambígua, a um só tempo refratária e agregadora. Longe de exibir o vigor da democracia por meio de cada um de seus membros, anatomia e fisiologia que configuram o signo inequívoco da América, sua materialidade só será levada em conta à medida que é ultrapassada ou falseada como ilusão. O corpo, assim, não assume a voz que uma ciência biológica de "Filhos de Adão" lhe confere. Pelo contrário, o corpo carrega o silêncio dos abraços, dos olhares e das mãos atadas, mediante os quais aquela comunhão entre os homens - fundamento espiritual da Democracia - é alcançada. Exemplo dessa comunhão silenciosa é o que lemos em "Um Relance":
Um relance pego num interstício,
De uma multidão de trabalhadores e condutores de carruagem num bar ao redor
de um braseiro tarde da noite num inverno e eu discretamente sentado num
canto,
De um jovem que me ama e que eu amo, se aproximando em silêncio e se
sentando perto, para que pudesse segurar a minha mão,
Um longo tempo por entre os barulhos de entra e sai, de copos e pragas e
sacanagens,
Lá nós dois, contentes, felizes por estarmos juntos, falando muito pouco, talvez nem
uma palavra.
É preciso, pois, transcender o corpo da mesma forma que se ultrapassa o Estado. No entanto, o corpo mantém-se como estrutura ordenadora, signo em que se inscrevem as tensões e os desígnios da sociedade, conclamado tanto para erigir como para somente estruturar, assumindo configurações concretas ou abstratas segundo a argumentação de que se necessita. No caso de "Cálamo", o corpo é a um só tempo a materialidade desfigurada pelo conflito e a realidade última para o ressurgimento da nação, paradoxo que se apresenta por aquela cidade erguida em sonho, na qual palavras e gestos estão baseados em uma mesma substância silenciosa, comunhão democrática, amor espiritual que ultrapassa a matéria para inscrevê-la no futuro e na Utopia de uma Nova América - aquela cujos Estados, em potência, espírito e princípios, encontrariam novo sítio no Oeste ainda selvagem e pouco povoado - como lemos em "Uma Promessa para a Califórnia", poema de "Cálamo" com que encerramos este artigo:
Uma promessa à Califórnia,
Ou no interior do país às enormes Planícies pastoris em direção ao Pacífico e ao
Oregon,
Demorando-me no Leste, logo viajo em vossa direção, para ficar, para ensinar o
robusto amor Americano,
Pois bem sei que eu e o amor robusto encontraremos pertencimento entre vós, no
interior e ao longo do Mar do Oeste;
Pois estes Estados inclinam-se ao interior em direção ao Mar do Oeste e eu farei a
mesma coisa.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber . Rio de Janeiro: Graal, 1988, p. 57
FOUCAULT, Michel. Op.Cit. , p.54
FOUCAULT, Michel. Op.Cit ., p.116
WHITMAN, Whitman.“Democratic Vistas”. In WHITMAN, Walt. Poetry and Prose . New York : Library of America College Editions, 1996, p. 995