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Transpondo Fronteiras: Memórias Póstumas de Brás Cubas em Múltiplas Traduções para a Língua Inglesa
Válmi Hatje-Faggion (UNIFRA-RS)

As retraduções de obras literárias muitas vezes estão vinculadas à idéia do ´envelhecimento´ do texto traduzido (por exemplo, no caso da linguagem e de aspectos culturais), especialmente quando se trata de cânones de dada literatura. Por isso, uma obra pode ser re-apresentada de tempos em tempos de forma melhorada, mais organizada, melhor interpretada ou redigida e com características próprias, ou então há, por exemplo, a necessidade de se re-apresentar um texto que seja mais adequado aos leitores de uma outra época em outro lugar para permitir aos leitores de outra língua o acesso a essa obra literária.

As várias traduções de dado texto, enquanto um 'novo' texto passam a existir num outro contexto, numa outra época e, ganham vida própria, com formas e faces diversas a partir do momento em que elas se transformam nos títulos de livros publicados nos países para cujas línguas foram traduzidos.

No caso da tradução de um texto, neste estudo, do português para o inglês, pode-se dizer que o texto em português 'se apaga' na sua comunidade cultural, e em sua época com o objetivo de dar lugar a uma outra escritura (ou tradução) do mesmo texto.

Essas várias leituras, interpretações, enfim, traduções vão estar , então , sempre atreladas diretamente ao tradutor (leitor) situado em um contexto histórico, social e político específicos. Sob uma perspectiva pós-estruturalista (não-tradicional), pode-se dizer que quando se reflete sobre os mecanismos da tradução, está se lidando também com questões fundamentais sobre a natureza da própria linguagem, posto que a tradução, uma das mais complexas atividades realizadas pelo homem, implica necessariamente uma definição dos limites e do poder dessa capacidade tão 'humana' que é a produção de significados. Afinal, como Rosemary Arrojo 1 também destaca, não é por acaso que até hoje, não há nem a mais remota possibilidade de que uma máquina venha substituir satisfatoriamente o homem na realização de uma tradução.

Jacques Derrida 2 sugere que, o que acontece em toda tradução é uma transformação: uma transformação de uma língua em outra, de um texto em outro (recriar, transformar e por isso não podemos falar em fidelidade). Igualmente, pode acontecer uma transformação dentro de uma mesma língua, de um texto em outro (outro sujeito enunciador, tradutor, editora).

Um exemplo de retraduções de uma mesma obra é encontrado na produção literária de Machado de Assis que conta com traduções de romances e contos publicados nos Estados Unidos e na Inglaterra há mais de 80 décadas. Dos nove romances publicados pelo escritor, seis já estão em múltiplas traduções no mundo anglo-americano ( Iaiá Garcia (2), Quincas Borba (2), Dom Casmurro (3), Esaú e Jacó (2), Memorial de Aires (2)) e Memórias Póstumas de Brás Cubas / MPBC (3).

Neste estudo o objetivo é examinar algumas dessas questões que envolvem as três traduções de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) produzidas e publicadas em inglês no período de 1951-2004 (USA, 1951, 1952; UK, 1955; USA e UK, 1997) 3. Ao comparar e contrastar essas múltiplas traduções será possível verificar algumas das questões mencionadas anteriormente.

As razões e as formas de reapresentar uma obra podem ser diversas. No caso da terceira tradução de MPBC (1997), produzida e publicada pela Oxford University Press, os editores da serie LOLA (Library of Latin América) em sua 'series editor's Introduction', por exemplo, declaram que o objetivo da coleção é traduzir e publicar não apenas obras do famoso Machado de Assis, mas também de autores cujas obras nunca forma traduzidas para o inglês ou obras de autores que não tenham sido traduzidas recentemente. No caso de Machado de Assis e de sua obra MPBC esses editores estão, na verdade, equivocados ao ignorar as duas traduções para o inglês anteriores à de 1997, produzidas e publicadas em 1951, 1955 e em diversas novas edições e editoras (brochura).

Os tradutores William Grossman (1951), Percy E. Ellis (1955) e Gregory Rabassa (1997) adotam estratégias diversas para traduzir as mesmas questões de língua e cultura presentes em Memórias Póstumas de Brás Cubas em diferentes lugares e épocas. Esses tradutores produzem versões diferentes do 'mesmo' texto, pois cada um deles lê o texto fonte, interpreta esse texto e o reescreve, podendo ir inclusive além do texto fonte. Não há, pois, como controlar o conteúdo e os limites de um texto. O tradutor se manifesta discursivamente de uma forma ou outra no texto que ele próprio reapresentou.

Cada tradução ou 'novo' texto traz uma marca de sua localização no tempo e no espaço. As três traduções de MPBC são diferentes entre si dependendo da época e da comunidade cultural para a qual foram produzidas. Ao analisar ou avaliar a qualidade de uma tradução será preciso considerar que não é possível evitar que o julgamento das diferentes traduções se realize a partir das próprias suposições e convicções daquele que julga. Por isso, a tradução de 1951/1952 realizada por um tradutor que pertence a uma dada comunidade cultural dos USA em 1951/1952 não é mais totalmente aceita e, por isso, uma nova tradução aparece, provavelmente, na 'mesma' comunidade cultural alguns anos depois. Com a reescritura do texto de Machado de Assis, MPBC passa a ser lido num contexto e numa época diferentes (mesmo sendo nos USA o contexto é outro, porque a época é outra e, por isso, diferente). Isso mostra que seria impossível que uma tradução (ou leitura) de um texto fosse definitiva e unanimemente aceita por todos, em qualquer época e em qualquer lugar. Isso também pode ser confirmado quando Rosemary Arrojo 4 declara que, 'as traduções, como nós e tudo o que nos cerca, não podem deixar de ser mortais'.

O tradutor lê, interpreta, traduz/transporta uma carga de significados, interferindo nela sempre que julgar adequado. Essa decisão pode ser própria, da editora ou do revisor/editor do texto.

Para ilustrar como questões de linguagem e alguns elementos culturais presentes no texto fonte foram tratadas nas diferentes traduções serão apresentados, a seguir, alguns exemplos retirados de Memórias Póstumas de Brás Cubas .

No Capítulo 20,

Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião ; era um acadêmico estróina, superficial, tumultuário e petulante, dado às aventuras ... (Machado de Assis, 1984, p.42)

I had won at Coimbra a great reputation as a playboy ; I was a harebrained scholar , superficial, tumultuous , and capricious, fond of adventures of all kinds.. (Grossman, 1952, p.65)

In Coimbra I had won a considerable reputation for giving expensive entertainment I was a jovial , superficial, harum-scarum and extravagant student, given to adventures ... (Ellis, 1955, p.73)

In Coimbra I'd earned a great reputation as a carouser . I was a profligate , superficial, riotous , and petulant student, given to larks . (Rabassa, 1997, p.46),

 

Gregory Rabassa é o único dos três tradutores a utilizar contrações, recurso usado na linguagem oral na língua inglesa que não existe no português - essa opção pode indicar que o texto está 'modelado' aos gostos de um leitor específico, ao do leitor anglo-americano do final do século XX começo do XXI. Na língua inglesa escrita formal não se costuma usar contrações.

Na caracterização da personagem Brás Cubas as escolhas variam nas três traduções para a língua inglesa. Os termos ou as expressões mais antigas tendem a ser modernizadas e as formais a ficar mais informais (marcadas).

No exemplo a seguir, ainda no Capítulo 20,

... Deixo- vos com as calcinhas da primeira idade ... (Machado de Assis, 1984, p.41)

. You may have my swaddling clothes . (Grossman, 1951, 1952, p.65)

. to you I leave my swaddling clothes of infancy . (Ellis, 1955, p.73)

. I leave you with the short pants of childhood . (Rabassa, 1997, p.46)

 

o pronome 'vos' empregado para indicar formalidade (expressão de hábito mais antigo), aspecto que não é explicitado em inglês quando todos os tradutores escolhem o pronome 'you'. Há muito que não usamos mais esse pronome em uma situação como a que ocorre na obra quando Brás Cubas conversa com Marcela, uma prostituta. Para traduzir a expressão 'calcinhas da primeira idade' os tradutores apresentam formas menos marcadas em inglês.

No século XIX e no começo do século XX, época de Machado de Assis, era comum as famílias mais abonadas mandarem seu filhos -homens- para Portugal, por exemplo, para de lá voltarem 'doutores' (note-se que apenas com a graduação/ faculdade de Medicina ou de Direito), independente do tipo de profissional formado. Isso está explícito em MPBC , Capítulo 20, quando Brás Cubas confessa que se achou de algum modo enganado no dia em que a universidade lhe concedeu o diploma mesmo tendo ele estudado muito pouco.

Numa ocasião Brás Cubas almeja uma grande reputação, uma posição superior, um título universitário obtido em Coimbra na faculdade de direito que trazia consigo o título de doutor, sem querer se tornar, necessariamente, advogado. O exemplo indica que essa idéia de doutor/titulação, aspecto cultural brasileiro, não é repassada de forma explícita ou enfatizada nas três traduções. Apenas Rabassa deixa isso mais evidente na seleção lexical no exemplo a seguir:

... A Universidade esperava-me com as suas matérias árduas; estudei-as muito mediocramente , e nem por isso perdi o grau de bacharel ... (Machado de Assis, 1984, p.42)

. The university was waiting for me with its long list of difficult subjects. I studied them with profound mediocrity , which did not prevent my acquiring a bachelor's degree . (Grossman, 1952, p.65)

. The university awaited me with its arduous studies. I applied myself to them with moderation and, nevertheless, gained my degree . (Ellis, 1955, p.73)

. The university was waiting for me with its difficult subjects. I studied them in a very mediocre way , but even so I didn't lose my law degree . (Rabassa, 1997, p.46)

 

Grossman e Ellis não atentam para o fato de que Brás Cubas queria se tornar advogado. Já, Rabassa aponta para uma leitura diferente ao explicitar a profissão.

De um modo geral, as diferentes reescrituras indicam que os tradutores foram obrigados a tomar uma decisão para resolver sua tarefa nos mais diferentes momentos. O título do capítulo 'doutor em leis' adotado por Machado de Assis representa um aspecto cultural relevante no Brasil, na comunidade cultural do final do século XIX e começo do XX. Nessa época, no Brasil, ser 'doutor em leis' era algo para muito poucos... idéia que perdura até hoje, mas que, aparentemente, já está bastante modificada devido ao fato de que atualmente é prática comum de muitos acadêmicos, depois da Graduação, optarem por continuar sua carreira acadêmica e fazer um curso de pós-graduação (doutorado) para somente então se tornarem 'doutores' de forma efetiva.

Os exemplos indicam que os tradutores são visíveis no texto que eles criaram/reescreveram, e mostram também que a interpretação é um produto da época deles, tanto dos anos 50 quanto dos de 90.

Poderíamos nos perguntar, por exemplo, a que deveria ser 'fiel' a tradução de 'bacharel' no texto de Machado de Assis. Deveria ser ela fiel ao contexto em que (supomos que) o texto tenha sido escrito, isto é, deve a tradução levar em conta que o texto tenha sido escrito no Rio de Janeiro no século XIX e começo do XX? Na verdade, o tradutor não foi fiel ao texto de Machado de Assis enquanto representante e produto de um determinado autor e seu contexto histórico. Grossman e Ellis decidem transcrever o grau obtido na faculdade enquanto grau para qualquer curso/faculdade. Entretanto, Rabassa vai além e oferece uma interpretação considerando a questão cultural (um enfoque diferente) que deu a expressão 'bacharel'. Os tradutores reescrevem o texto repetindo ou apagando o contexto histórico, cultural, econômico (somente quem tinha dinheiro) e social (status para os mais abonados), suas circunstâncias, suas intenções e motivações.

Com relação à mudança de sentido da palavras, alterações através do tempo, pode-se citar o caso do emprego do termo 'toilette' em Memórias Póstumas de Brás Cubas , Capítulo 63.

... Virgília... perguntou se o camarote era de boca ou de centro, consultou o marido, em voz baixa, acerca da toilette que faria . (Machado de Assis, 1984, p.79)

. Virgilia... asked what opera was playing, and consulted her husband in a confidential whisper about her toilette for the occasion . (Grossman, 1952, p.121)

. Virgilia... asked if the box were at the side or in the centre, asked her husband in a low voice about the way she should dress . (Ellis, 1955, p.155)

. Virgília... asked if the box was on the side or in the middle, consulted her husband in a low voice as to what she should wear . (Rabassa, 1997, p.102)

 

Ao traduzir o termo francês 'toilette' com o sentido de roupas os tradutores decidem por seleções lexicais diferentes nos três casos. Grossman mantém a palavra 'toilette' em itálico para mostrar, por exemplo, que a palavra é estrangeira no inglês ou para apontar o significado diferente. Ellis e Rabassa explicam a palavra. O interessante, no entanto, é o fato de que Grossman e Ellis selecionam estratégias diferentes para traduzir a palavra na mesma década com uma diferença de apenas quatro anos. Isso parece sugerir que a estratégia adotada é mais uma questão de escolha pessoal do que uma que estivesse atrelada às normas vigentes.

Isso tudo acontece porque todo leitor ou tradutor não pode evitar que seu contato com os textos de Machado de Assis seja mediado por suas circunstâncias, suas concepções, seu contexto histórico e social (seu repertório individual, crenças, experiências e vivências). A opção por uma determinada tradução é sempre mediada pela visão do leitor/tradutor com base naquilo que ele ou ela consideram verdadeiro e que está determinado por todos os fatores que constituem a história pessoal, social e coletiva.

No Capítulo 59 de MPBC , os três tradutores adotam estratégias diferentes nas traduções do termo 'angú,' ('a cooked dish made with corn, manioc or rice flour, salt and water', Fish 5). Enquanto Grossman descreve o termo 'angú' como 'corn meal' dish', Ellis não traduz o termo e o coloca em itálico, e Rabassa descreve-o como sendo algo feito com 'manioc flour'. Com relação à unidade monetária 'vinténs' tanto Ellis quanto Rabassa mantém o nome da moeda brasileira enquanto que Grossman a traduz como 'cents'. Um aspecto curioso é o fato de que nenhum tradutor indica o gênero marcado (feminino) ao traduzir o termo 'quitandeir as .'

A tradução do trecho é a seguinte:

... dinheiro sim, porque é necessário comer, e as casas de pasto não fiam. Nem as quitandeiras . Uma coisa de nada, uns dois vinténs de angú, nem isso fiam as malditas quitandeiras . (Machado de Assis, 1984, p.75)

. money; and I want it only because I have to eat and the restaurants don't give credit. Neither do the food vendors in the streets. Almost nothing, just two cents' worth of corn meal , and the damned peddlers won't even trust me for that . (Grossman, 1952, p.116)

. money, yes, for I need to eat and the eating houses do not give credit, nor the restaurants, nor the shops - a miserable nothing, two vintens of angú , and even then they won't give credit, the cursed shopkeepers . (Ellis, 1955, p. 146)

. money, yes, because I have to eat and eating-places don't give credit, greengrocers either. A nothing, two vinténs worth of manioc cake , the damned greengrocers won't even trust you for that .(Rabassa, 1997, p. 96)

 

Na 'Introduction' de sua tradução de Memórias Póstumas de Brás Cubas , Grossman 6 indica o leitor que ele tem em mente, ao fazer referência à 'moeda americana, o dólar: 'a conto ... as the equivalent of about five hundred dollars.'. No Capítulo 123, Grossman omite a referência ao 'real', Ellis traduz o termo como 'a cent' e Rabassa como 'a penny'.

O trecho recebeu as seguintes traduções:

Em suma, poderia dever algumas atenções, mas não devia um real a ninguém (Machado de Assis, 1984, p.124)

[Omissão de todo o trecho] (Grossman, 1952, p.193)

In fine, he might be owing in attentions, but he did not owe a cent to anyone. (Ellis, 1955, p.258)

In short, he may have been owing in a few courtesies, but he didn't owe anyone a penny . (Rabassa, 1997, p.171)

 

Neste estudo foram abordadas algumas formas de como questões relacionadas à linguagem e aspectos culturais foram traduzidas para o leitor anglo-americano nas três traduções de Memórias Póstumas de Brás Cubas . De um mesmo texto, então, foram criados, no caso de MPBC , pelo menos três 'novos' textos em tradução para o inglês e todos como instituições únicas e independentes, visto que foram produzidas e publicadas em lugares, contextos e épocas diferentes, cada qual com características e vidas próprias garantindo a 'sobrevida' da obra brasileira além fronteiras. Nestas inúmeras ocasiões (traduções), a obra em desconstrução entra em circulação e é disseminada.

 

Arrojo, Rosemary. Oficina da tradução . São Paulo: Ática, 1992.

Derrida, Jacques , L'Oreille de L'autre . Montreal, VBL Editeurs, 1980, p.87.

Machado de Assis, Joaquim Maria, Memórias Póstumas de Brás Cubas , 10 ed. São Paulo: Ática, 1984.

Arrojo, Rosemary. Oficina da tradução . São Paulo: Ática, 1992, p.45.

Fish, Warren, R., Changing food use patterns in Brazil , Luso-Brazilian Review , 15, 1978, pp.69-89, p.74 e p.78.

'Introduction', Grossman, Epitaph , p.14. In: Machado de Assis, Joaquim Maria. Epitaph of a Small Winner , tradução de William L. Grossman. New York : The Noonday Press, 1952.

 

____. The Posthumous Memoirs of Brás Cubas , tradução de William L. Grossman. São Paulo: São Paulo Editores, 1951.

____. Epitaph of a Small Winner , tradução de William L. Grossman. New York : The Noonday Press, 1952.

____. Epitaph of a Small Winner , tradução de William L. Grossman. London : W. H. Allen, 1953.

____. Posthumous Reminiscences of Braz Cubas , tradução de E. Percy Ellis. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1955.

____. The Posthumous Memoirs of Brás Cubas , tradução de Gregory Rabassa. New York and Oxford : Oxford University Press, 1997.

____. Epitaph of a Small Winner , tradução de William L. Grossman. London : Bloomsbury , 1997. (brochura)