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Notas para uma biografia literária de Haroldo de Campos
Thelma Médici Nóbrega (PUC-SP/UNIVEM)

Baroque (.) means at the same time hybridism and creative translation 1.

 

O interesse de Haroldo de Campos pelo Barroco parece ter estado presente durante toda a sua vida. Tanto na entrevista concedida a mim, em 16 de maio de 2003, exatos três meses antes de sua morte,como em sua última aparição pública, no Colégio São Bento, em junho, Haroldo voltou apaixonadamente ao tema. Na homenagem, prestada a ele no colégio onde estudou durante sua infância e adolescência, Haroldo lembrou sua afinidade com o Barroco, desde os bancos da escola. E contou, divertido, que seu estilo, já naquela época, havia sido identificado por um clarividente professor como "gongórico".

Depois, ao longo de sua extensa produção poética e teórica, o Barroco seria sempre uma referência, explícita ou subjacente. Traçando um breve e não-exaustivo percurso, já em Teoria da Poesia Concreta (1965) ele formula o conceito "neobarroco", depois retomado por Lezama Lima, entre outros. :Em "Poesia Sincrônica", texto fundamental de 1969, Haroldo explicita o eterno divisor de águas na crítica literária - de um lado, a crítica historicista, que categoriza a literatura segundo épocas e períodos, diacronicamente, e do outro a minoritária crítica estética, que analisa a literatura em termos de traços estilísticos inovadores, sincronicamente. E aproveita para resgatar não só o barroco Gregório de Matos como outras figuras esquecidas do Romantismo e do Simbolismo brasileiros.

Em O Seqüestro do Barroco (1989), obra em que dialoga abertamente com o autor de A Formação da Literatura Brasileira , aponta o que considera um equívoco - o apagamento do Barroco na historiografia da nossa literatura. É um diálogo que, aparentemente, permaneceu em contínua elaboração, e que ele retomou, com argumentos renovados, na entrevista de maio.

Essa defesa apaixonada e constante pode surpreender quem vê em Haroldo apenas um dos fundadores do Concretismo. É preciso considerar, no entanto, que a Poesia Concreta, por mais importante que tenha sido para a literatura, não só brasileira, foi apenas o episódio mais marcante de sua luta vitalícia pela invenção, por tudo que fosse novo e vital na literatura. Vitalidade que ele via no nosso Barroco, para ele não um momento de segunda grandeza no percurso da literatura, tanto brasileira como mundial, mas um de seus pontos de maior brilho.

Portanto, a defesa do Barroco, para Haroldo, não era algo de momento, feita apenas para ir contra a corrente crítica dominante, mas algo que tem suas raízes na sua infância, no tempo do Colégio São Bento, nos seus anos de formação, e que permeia todo o seu pensamento sobre literatura e tradução. Se as polêmicas exaltadas causam alguma espécie, é preciso lembrar que, para ele, esse resgate sempre esteve ligado a um combate renhido, de vida ou morte, pelo literário na literatura, contra leituras que pretendiam (e pretendem) reduzi-la a reflexo, por vezes apagado, do social.

Mas que não se veja nessa defesa uma tentativa de instaurar um novo centro para a literatura, agora na América Latina, como alternativa ao classicismo europeu. De fato, a teorização de Haroldo sobre o Barroco está integrada à teoria sobre a literatura e sobre o papel da tradução como instrumento crítico que ele sempre desenvolveu. Em ambas, a ênfase é na concreção sígnica, na invenção formal, na priorização da função poética, por um lado, e na apropriação de códigos e procedimentos, por outro. E ele encontra essas qualidades em autores tão diversos como Hegel e Goethe, Pessoa e Gregório, em Homero e nos textos bíblicos, aproximando-se do ideal da Weltliteratur sonhado por Goethe.

 

CONCRETO BARROCO

Essa insistência do poeta-tradutor, em sua pós-maturidade, em nos lembrar sua vinculação com o Barroco nos sugere a chave da abóbada, o deslinde de seu estilo. Mas a questão não é tão simples assim, pois o barroco não se define por um estilo específico, mas por uma mescla deles. Por definição, ele se apropria de códigos anteriores, modificando-os. Dá um novo sentido a formas tradicionais, perturbando-as. Pressupõe, mais uma vez, uma ausência de centro, uma multiplicidade vertiginosa.

É essa veia barroquizante que encontramos já em seu primeiro escrito publicado, em 1947 - seu discurso como orador da turma em sua formatura, aos 18 anos - em que neologismos pontuam uma linguagem preciosa e elevada:

Quando, nos rígidos tempos vetustos da Média-Idade, um mancebo atingia a pleniposse de seu vigor e de sua pujança, armavam-no Cavaleiro...

(...)

A Vida, estranhíssima esfinge de monalísico sorriso e gesto imperscrutável, nos está a fitar com seus olhos de abismo, onde todas as imagens se refletem... 2

 

Note-se também, nesse pequeno excerto, a preocupação cosmológica, aléfica, já nessa precoce idade, e que se acentuaria em poemas como A Máquina do Mundo Repensada .

Pouco depois ele publicaria seus primeiros poemas em O Auto do Possesso, em 1950. . Neles, nota-se a presença de Góngora e também de Mallarmé na sintaxe complexa, no léxico culto e pesquisado. A exuberância barroca também atravessa poemas como Thálassa Thálassa, de 1952, em que o mar-linguagem se move em ricas e encapeladas metáforas, ou Ciropédia: a Educação do Príncipe, erótico poema de formação salpicado de palavras-valise e outras invenções lingüísticas. Até explodir nas Galáxias , ápice de sua obra e do Barroco em sua obra. Também barroca foi sua ensaística, de requintada sintaxe, pontilhada de neologismos e ironias, muitas vezes labiríntica e circular. Haroldo só se absteria do banquete lingüístico barroco durante a fase geométrica do concretismo, quando então sua poesia ficaria reduzida a dimensões minimalistas..

Mas é o Concretismo a estética à qual o estilo de Haroldo costuma ser mais associado. Noutra entrevista, ele se queixava de que poucos pareciam se dar conta de que, em sua poesia, existe um "antes" e um "depois" em relação ao concretismo. Ainda se considerava concreto, mas insistia que deixara de fazer poesia concreta, no sentido estrito, desde o final dos anos 60, lembrando que já começara a escrever as Galáxias em 1963, texto "que tem ligação com a poesia concreta, no plano micrológico, microestrutural, mas são uma experiência exatamente de sinal oposto, porque, em vez de ser a compactação minimalista, são a expansão neo-barroca, na sua pulsão mais veemente. Entretanto, algumas pessoas - muitas delas, inclusive, no meio acadêmico - ficaram com a idéia errada e são as que mais lentamente assimilam as coisas novas, quando assimilam" 3.

Muito além do concretismo, a partir de 1960, depois de ter absorvido as vanguardas, ele passou a traduzir poesia das mais variadas e remotas matrizes, num percurso sincrônico que levava, segundo ele, à "confluência de toda poesia na e sobre a linguagem", aludindo, mais uma vez, à Weltliteratur. Inclusive, essa mesma atividade multidevorante e onívora, de Homero ao Romantismo e deste à "tradição moderna" coloca em cheque a própria divisão da literatura em períodos e gêneros estanques.

Em suma, o estilo de Haroldo também não se reduz ao concretismo, embora tenha guardado dessa estética a composição rigorosa e a atenção extremada ao significante. É antes um estilo que pratica, por meio da tradução, um diálogo com a tradição, em que esta também é modificada pela nova leitura praticada por ele (afinal, hoje dificilmente leríamos Pound, Mallarmé e Maiakovski, por exemplo, sem ser pela ótica dos irmãos Campos). É nesse sentido, de confluências e afinidades, que deveríamos entender a formação do estilo haroldiano. Uma afinidade que não se dilui na repetição, mas que se pauta pela diferença aliada ao diálogo.

De certa maneira, pode se aplicar a Haroldo o que ele escreveu a respeito de Gregório de Matos: "Gregorio lança mão da paródia e da sátira num jogo intertextual carnavalizado, onde elementos locais se mesclam com 'estilemas' universais, num processo contínuo de hibridização" 4.E, nesse processo, a tradução tem papel crucial como dispositivo crítico, como apropriação transgressiva, "como a prática dialógica de expressar o outro e expressar a si mesmo através do outro, sob o signo da diferença" 5.

É também a prática da tradução que ele destacou em suas últimas entrevistas, em coerência com o que vinha escrevendo desde "A Tradução como Criação e como Crítica", de 1963. Para ele, somente teorias da tradução balizadas pela prática, pelo corpo-a-corpo com o texto, podem levar a um verdadeiro conhecimento da matéria poética e a uma necessária crítica da tradução.

Uma biografia de Haroldo de Campos não pode deixar de levar em conta as estreitas relações entre vida e literatura tecidas por ele. E ressaltar como essa veia barroca permeou toda sua trajetória, criando um estilo híbrido, plurilíngüe, marcado pela livre apropriação de formas e temperado por uma boa dose de ironia e humor. E em que tudo que é vida, matéria vivida ou lida, também se transforma em texto, levada pelo fluxo irresistível e contagioso da linguagem.

 

Campos , Haroldo. "Tradition, Translation, Transculturation: The Excentric Viewpoint", em Tradtem, 4 , 2o. semestre de 1997, p. 11-18.

Anuário do Colégio de São Bento de 1947, p. 64.

Entrevista concedida a Rodolfo Mata em agosto de 1994, disponível no site www.secrel.com.br/jpoesia/rmata01c.html

Campos , Haroldo. "Tradition, Translation, Transculturation: The Excentric Viewpoint", op. cit., p.12

Idem, p. 13.