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Travessias Tradutórias em Alejo Carpentier
Tatiana Selva Pereira (UFRGS)
Quanto mais visível se tornar a presença do tradutor no texto traduzido, quanto maior sua visão ou "visibilidade" acerca do processo do qual é agente e promotor, menores serão as chances de que seja ignorado, marginalizado e indignamente remunerado.
Rosemary Arrojo
O objetivo deste trabalho é fazer uma descrição e análise crítica da dinâmica complexa e criadora do processo tradutório operado, em especial, nas traduções feitas para o português de duas obras El reino de este Mundo e El Recurso del Método, escritas por um dos expoentes da literatura latino-americana, o escritor cubano Alejo Carpentier 1. Partindo do pressuposto teórico de que ler é também traduzir, esse autor cubano traduz para sua narrativa uma pesquisa cuidadosa de curiosidades histórico-culturais e antropológicas. Trata-se de uma tradução onde se pensa a identidade e que passa pela alteridade cultural. É, pois, a tradução entendida como leitura da realidade latino-americana.
Sabemos que o ato tradutório não é inocente ou neutro. Trata-se, pois, segundo Even-Zohar (1990) 2, de um procedimento de decomposição e recomposição de um texto de tal forma que se comporte diferente em relação a sua fonte. Teóricos contemporâneos como Derrida já falaram sobre a "irredutível" dificuldade de traduzir 3 e apontam, assim, para o caráter híbrido e bivocal desse ato. Portanto, traduzir significa tornar inteligível aquilo que é estranho para nós, sem perder, como afirma o tradutor Gregory Rabassa, o 'espírito' (grifo meu) desse texto original.
No processo desafiante do ato de traduzir, retomamos neste ponto a noção baktiniana de 'bivocalidade', em Problemas da Poética de Dostoievski, para referirmos àquela voz do 'outro', que além da voz do autor, sempre está presente em toda tradução. É a voz do tradutor que, encarando a 'invisibilidade histórica a que sempre foi fadado' 4, se revela agora com força, transformando o seu trabalho em verdadeiras obras estéticas, dividindo a paternidade/ maternidade da obra em questão com o seu autor.
A partir dos novos estudos críticos em torno do ato tradutório, interessa-nos analisar as traduções para o português das obras literárias El Reino de este Mundo e El Recurso del Método pertencentes ao escritor cubano Alejo Carpentier, precursor do 'real maravilhoso' da literatura latino-americana.
Elena Palmero 5, em Alejo Carpentier: Passos nos caminhos da Identidade, ao referir-se à escrita do autor em El Reino de este Mundo, diz:
"...Carpentier desenvolve, como centro temático e compositivo, temporalidades plurais e conflituosas, correlaciona tempos que uma metafísica da presença e da representação excluiria, põe em crise uma idéia de sujeito homogêneo. Debate, também, uma identidade em mudança e contínua transformação, sempre segundo paradigmas de escrita, em que as coordenadas compositivas de tempo instauram relações narrativas e comunicativas de extraordinária originalidade, sobretudo se pensamos que esse modo de entender a temporalidade do relato institui a metaficcionalidade e a hibridez, marcas típicas de uma narrativa que, por volta da metade do século, está se abrindo para uma nova maneira de olhar-se como literatura e de assumir uma função social". (PALERMO, 2003, 78)
Em El Recurso del Método, múltiplas vozes e diferentes linguagens circulam no texto. A obra caracteriza-se por um processo de carnavalização, entendida como a inscrição na literatura dita 'culta', da literatura popular. Há uma confluência de discursos, uma mistura de registros, de elementos das línguas autóctones e 'regionalismos' dos países da região caribenha na tentativa de criar um idioma latino-americano que contracena com outros idiomas como o francês, o alemão e o inglês. Já em El Reino de este Mundo, a linguagem erudita e metafórica da narrativa também contracena com línguas estrangeiras como o francês, o creole e o latim.
Em relação aos dois romances, podemos fazer referencia à citação de Elena Palmero quando afirma:
"... os textos manifestaram uma notória manipulação lúdica de outros códigos genéricos, em uma espécie de intertextualidade auto-referenciada e contaminação consciente, centralizando a criação metapoética em obras que se auto-representam como arquivos de relatos". (PALERMO, 2003, 77)
O projeto de escrita multicultural e babélico de Carpentier, em consonância com sua postura vanguardista, inclusive em sua proposta de tradução/leitura interpretativa da América, produz toda uma travessia cultural a ser feita pelos tradutores. Esse ousado projeto privilegia a visibilidade do tradutor como transcriador do texto 6. Em suma, o tradutor de Carpentier deverá ser um re-criador, daí que o projeto haroldiano serviria aos propósitos da tradução desse escritor.
Após essa breve descrição do estilo narrativo do autor, e do entendimento sobre o projeto tradutório que a teoria da tradução contemporânea oferece - já que uma tradução literal da obra desse escritor seria impossível - passemos a analisar a dinâmica das traduções operadas pelos tradutores de Carpentier, João Olavo Saldanha e Beatriz A. Cannabrava.
Saldanha, em O Reino deste Mundo 7, dialoga com o autor ao longo de toda a narrativa na busca das melhores escolhas e soluções com o intuito de tornar didática a riqueza estilística da narrativa, isto é, de dar acesso aos leitores brasileiros ao fascinante universo da literatura latino-americana de fala hispânica. Para tanto, realiza uma pesquisa cuidadosa das diferenças culturais e de elementos históricos que conformam a obra, permitindo a passagem da diferença cultural e da história haitiana com sucesso. Saldanha revela seu talento de tradutor/ criador, ao manter o estilo metafórico do autor e, ao mesmo tempo, criar outras metáforas em português.
A seguir, citamos um exemplo de uma metáfora criada pelo tradutor.
- La campana de alba lo sorprendió sentado y cantando, metido hasta la cintura en un montón de esparto frasco, oliente a sol. (CARPENTIER, 94)
- O Ângelus o surpreendeu no posto e cantando, enterrado até a cintura num montão de esparto fresco, que cheirava a sol. (SALDANHA, 41)
Carpentier refere-se, no seu texto, quando fala da 'campana da alba', aos sinos da igreja que convida seus fiéis para rezar logo ao amanhecer. Essa oração religiosa é o Ângelus, rezado regularmente ao amanhecer e, como se pode ver, o fato é inferido e interpretado metaforicamente por Saldanha.
O tradutor faz, também, uma tradução dinâmica dos códigos lingüísticos e culturais para manter o sentido de certas frases da narrativa do autor na língua portuguesa.
- Luego, la sangre, la pólvora, la harina de trigo y el polvo del café se habían amasado hasta constituir la Levadura capaz de hacer volver la cabeza a los antepasados ... (CARPENTIER, 120)
- Depois amassaram sangue, pólvora, farinha de trigo e pó de café, até formar um fermento capaz de reviver os antepassados ... (SALDANHA, 71)
A solução mais adequada para o idiomatismo 'hacer volver la cabeza a los antepasados' é, neste caso, 'reviver os antepassados' em português.
Saldanha, ao traduzir, introduz modificações no seu texto, com o intuito de construir o sentido do texto fonte através da sua própria leitura interpretativa. Vejamos mais alguns exemplos.
- Al cabo de una semana de encierro , la voz del capuchino emparedado se había hecho casi imperceptible, muriendo en un estertor más adivinado que oído . (CARPENTIER, 134)
- Depois de uma semana de encerramento dentro da muralha , a voz do capuchinho emparedado tornara-se quase imperceptível, morrendo num estertor mais adivinhado que propriamente ouvido . (SALDANHA, 84)
No exemplo anterior, o tradutor acrescenta elementos explicativos com o intuito de tornar mais explícito o sentido do enunciado da passagem do espanhol em português. Acrescenta a expressão 'dentro da muralha ao significado de 'encerramento' e o advérbio 'propriamente' para reforçar o sentido de 'ouvido' , isto é, para induzir o leitor a perceber que se trata da capacidade sensorial de 'ouvir'.
- Y desde aquella hora nadie supo jamás de Ti Noel ni de su casaca verde con puños de encaje salmón, salvo, tal vez, aquel buitre mojado, aprovechador de toda muerte , que esperó el sol con las alas abiertas: cruz de plumas que acabó por plegarse y hundir el vuelo en las espesuras de Bois Caimán. (CARPENTIER, 168)
- E desde então ninguém mais soube de Ti Noel e nem de sua casaca de seda verde, com punhos rendados, cor de salmão - salvo talvez aquele abutre molhado que esperava o Sol com as asas abertas: cruz de penas que terminou por encolher-se e mergulhar nas profundezas do Bois Caimán. (SALDANHA, 118)
Neste exemplo constatamos que não foi traduzida a expressão 'aproveitador de toda muerte'. Acreditamos que a decisão de não vertê-la se deva talvez a que, ao mencionar o abutre, tal expressão se tornasse redundante, já que essa característica antropofágica da ave pode ser inferida pelo leitor e concentra-se na descrição que conduz ao desfecho mítico do romance: a metamorfose sofrida por Ti Noel que, como abutre, desaparece nas profundezas de Bois Caimán.
O último exemplo diz respeito a uma mudança do referencial na representação que Saldanha faz na versão do português de uma das passagens de Carpentier.
- Hecho avispa , se hastió pronto de la monótona geometría de las edificaciones de cera . (CARPENTIER, 164)
- Como abelha , logo se cansou da monótona geometria da colméia de cera . (SALDANHA, 113)
Observamos, no último exemplo, que há uma troca da 'vespa' em espanhol pela abelha em português. Essa troca de referencial não altera o sentido, pois a intenção tanto do autor quanto do tradutor é mostrar o poder de metamorfose do vodu Mackandal. Também, ao tentarmos estabelecer o símile, constatamos que há certos tipos de vespas que possuem formas de organização semelhantes às das abelhas, validando assim a troca. Tanto este último exemplo quanto os outros anteriormente citados já apontam para a visibilidade de Saldanha como tradutor.
Beatriz A. Cannabrava, em O Recurso do Método 8, revela também uma pesquisa cuidadosa dos elementos da flora, fauna, alimentação, folclore e cultura da região da América Central e do Caribe. A sua tradução produz um certo estranhamento ao introduzir elementos que não pertencem à cultura da literatura alvo, isto é, esse estranhamento resulta da travessia de ditados populares, frases idiomáticas e convenções de uma cultura para a outra.
Observemos o seguinte exemplo:
- ... se multiplicaban las funerarias, apretando su cerco de lutos y ataúdes en torno al Palacio Presidencial. - "¡Ahí viene la lechuza!" - exclamaba la Mayorala Elmira, cuando veía aparecer, en la Plaza Mayor, alguna carroza, mortuoria, camino del cementerio. -"!Sola vaya!" - respondía el Primer Magistrado... (CARPENTIER, 152)
- ... multiplicaram-se as agências funerárias, fechando seu cerco de lutos e ataúdes em torno do Palácio Presidencial. "Aí vem a coruja! ", exclamava a maiorala Elmira, quando via aparecer, na Plaza Mayor, algum carro de defunto a caminho do cemitério. "Que vá só!, respondia o Primeiro-Magistrado... (CANNABRAVA, 128)
No exemplo, a tradutora opta por fazer uma tradução de equivalência lingüística ou puramente formal, para apresentar convenções culturais hispânicas, ao invés de fazer uma tradução dinâmica das duas convenções que bem poderiam ser para 'Aí vem a coruja!', 'Lá vem o defunto', (na cultura hispânica, a coruja está associada à morte) e para 'Que vá só.', 'Cruz credo!' em português.
As descrições que a tradutora faz de algumas cenas relativas à mulher violentada, massacrada e a mulher pecadora como objeto sexual são, de certa forma, intensas, e manifestam o preconceito, o lugar marginalizado e banalizado dessa mulher na sociedade patriarcal apresentada pelo autor.
Vejamos os seguintes trechos:
- Al verse casi cercado, Ataúlfo Galván se había refugiado en la otra orilla, dejando de este lado a sus dos veladoras del sueño, Misia Olalla y Jacinta la Negra que, a estas horas, debían haber sido pasadas por las braguetas de medio batallón de Húsares de la Patria, desfilándoles por entre los muslos de uno en fondo. (CARPENTIER, 61)
- Ao ver-se quase cercado, Ataúlfo Galván tinha se refugiado na outra margem, deixando deste lado suas duas veladoras de sono, Misia Olalla e Jacinta la Negra, que, àquela altura, deviam ter passado pela braguilha de meio batalhão de Hussardos da Pátria, desfilando entre as coxas de um em um, a fundo. (CANNABRAVA, 53)
Enquanto Carpentier, no seu trecho, faz referencia ao número de homens que desfilam pelas coxas dessas mulheres, Beatriz reforça, não a idéia do número de homens que passam por elas e sim o tipo de relação sexual que elas mantém com esses homens, ao usar a expressão 'de um em um, a fundo'. Ainda é possível apreciar, na seguinte passagem, uma versão bem mais carregada que a do autor.
- "! Pongan caras de contentos!"- decía a los soldados, luego de cambiar una placa, al apretar la pera de caucho. "Dos pesos cincuenta la media docena, tamaño postal... No se muevan... Ya está... Otra, ahora... Con los cuatro ensartados de allá... Otra con los colgados esos... A la mujer, bájenle la falda para que no se le vea la conejera ... (CARPENTIER, 82)
- "Façam cara de contentes!", dizia aos soldados, depois de trocar uma placa, ao apertar a pêra de borracha. "Dois pesos cinqüenta a meia dúzia, tamanho postal... Não se mexam... Já está pronto... Outra, agora... Com os quatro espetados de lá... Outra com esses dependurados... Á mulher , abaixem-lhe a saia para que não se veja a xoxota . (CANNABRAVA, 69)
A significação de 'la conejera', em espanhol designa os genitais femininos de forma figurada; enquanto a solução da tradutora dada a essa linguagem figurada já tem uma significação direta e prosaica. É esse matiz prosaico da palavra que acaba sendo, na versão de Beatriz, mais uma agravante na indolência mostrada pela figura do fotógrafo da passagem.
A diferença de Saldanha, cuja visibilidade aponta mais para a marca textual, a tradutora projeta a sua visibilidade para o âmbito social quando imprime a sua identidade de sujeito feminino atuante na tradução.
Se considerarmos a noção de Lawrence Venuti 9 de tradução como locus da diferença, pois é a presença textual do tradutor, isto é, sua visibilidade no texto alvo que garante a passagem e revelação das diferenças culturais, veremos que, tanto o projeto tradutório de João Olavo Saldanha quanto o de Beatriz Cannabrava comportam a marca da alteridade, embora cada um deles tenha optado por projetos diferenciados. O tradutor optou por uma tradução mais aclimatada do que estrangeirada e a tradutora, por uma tradução estrangeirada.
Uma vez desvendados os ritos da passagem (segundo Walter Benjamin em A Tarefa do Tradutor ) desses dois romances de Alejo Carpentier; ritos que manifestam traços e a própria voz do tradutor, isto é, a sua identidade, podemos concluir que, através de diferentes travessias, os dois tradutores firmaram-se como criadores textuais conscientes e, ao mesmo tempo, garantiram a passagem de dois momentos significativos da produção textual de Carpentier para a literatura brasileira. Acreditamos também que, através da leitura interpretativa que realizaram dos textos do autor e do diálogo que estabeleceram durante todo o processo tradutório, possibilitaram aos leitores um melhor entendimento e desvendamento textual.
CARPENTIER, Alejo. El Reino de este Mundo. Colección Narradores de Nuestro Mundo. Librería del Colegio. Buenos Aires, 1975 e El Recurso del Método. México, España, Argentina, Colombia: Siglo Veintiuno, 1974.
EVEN-ZOHAR, Itamar. Translation and Transfer. In. Poetics Today 11:1, 1990, pág. 73-78.
HERMANS, Theo. Outro da Tradução: Diferença, cultura, auto-referência. Trad. Neusa da Silva Matte. In. Cadernos de Tradução . Instituto de Letras, no. 1, novembro 1998, 2ª edição, pág. 7-24, p. 8.
Venuti, Lawrence. The Translator's Invisibility: A History of Translation . Routledge. London and New York , 1999
PALMERO, Elena. Alejo Carpentier: Passos nos Caminhos da Identidade. In. Americanidade e Transferências culturais . BERND, Zilá (org.) POA. Movimento, 2003.
HATTNHER, Álvaro L. Tradução e Identidade: o tradutor como transmorfo. In. Letras 8 . Universidade Federal de Santa Maria. Jan/Jun. - 1994, pág. 31-37.
CARPENTIER, Alejo. O Reino deste Mundo. Editora Civilização Brasileira S.A. Rio de Janeiro, 1985. Trad. João Olavo Saldanha.
CARPENTIER, Alejo. O Recurso do Método. São Paulo: Marco Zero, 1984. Trad. Beatriz A. Cannabrava.
VENUTI, Lawrence. Escândalos da Tradução: por uma ética da diferença. Bauru, SP. EDUSC, 2002. Trad. Laureano Pelegrin, Lucinéia Marcelino Villela, Marileide Dias Esquerda, Valéria Biondo; revisão técnica: Stella Tagnin.