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Hermenêutica e Tradução: de Walter Benjamin a Haroldo De Campos
Sara Viola Rodrigues (UFRGS)
Minha dissertação de mestrado 1 versou sobre o tema da Avaliação da Tradução. Estávamos ainda sobre o império da busca da equivalência absoluta de sentido, como norma dominante para uma boa tradução. Naquela época (1985), fora lançada a tradução para o inglês do modelo de Juliane House para avaliar a qualidade da tradução. Trata-se de um modelo eclético, de base lingüística, bastante complexo e pouco prático para uso do professor de tradução, na avaliação de trabalhos de discentes. O trabalho dissertativo consistiu em testar a aplicabilidade do referido modelo num par de línguas diferente do utilizado por Juliane House. O modelo House continua interessante e útil para evidenciar, através da elucidação dos assim chamados erros encobertos , aquelas falhas na tradução que passariam facilmente desapercebidas não fora a leitura do texto traduzido sob o foco no contexto situacional. Em outras palavras, o modelo de House apresenta uma série de critérios (as dimensões situacionais) que permitem enxergar e apontar aqueles erros de tradução originários do contexto situacional onde se insere o texto.
Isso é uma forma extremamente abreviada de referência ao modelo housiano e a utilizamos aqui somente à guisa de introdução para o que realmente interessa neste texto.
Após a aplicação do modelo housiano, a análise exaustiva dos textos do corpus apontava diversos casos que não podiam ser enquadrados nas classificações previstas pelo modelo, apesar de ser destinado para a avaliação dos erros relacionados ao contexto através da referida categoria avaliativa dos erros encobertos . A partir da experiência do não enquadramento de certos erros de tradução no Modelo de Juliane House, empreendi uma jornada de estudos - que poderia receber o mesmo título de um trabalho, de minha autoria, recentemente apresentado: "A Evolução do Conceito de Equivalência nos Estudos da Tradução: da Fidelidade à Recriação" 2
Na realidade, esse é o percurso de quem se põe a andar pelos rumos da tradutologia com ênfase nos anos 60 em diante. Durante tal percurso, encontramos diversas formas de conceber o processo e o ato tradutório, sua função e avaliação. Na década de 60 há a tentativa de converter a tradução em ciência: é só lembrar os trabalhos de Catford (a partir da teoria lingüística de Halliday), Nida ou Mounin. Posteriormente, a lingüística elege o texto como objeto de estudo - Katarina Reiss com o ensaio "Type, Kind and Individuality of Text: Decision Making in Translation" é um marco desta eleição. Não me alongo nesse comentário, porque o faço em outro local.
À época, estava em voga, no meio acadêmico, uma competição entre lingüistas e estudiosos da literatura, com um certo sentimento de desdém dos últimos em relação aos primeiros. Seguramente, trata-se do mesmo tipo de coisa ocorrida entre a lingüística e a tradução, que Vidal (1998:13) 3 chama de "uma relação de amor e ódio". 45
Buscando entender melhor tal relação relativamente à questão do conhecimento, percebi que ambas, Lingüística e Literatura, (como de resto qualquer disciplina do conhecimento) fundam-se na questão da linguagem. Concentram-se especialmente no problema de como tratar dos fenômenos expressos ou encarnados na própria linguagem, o que significa examinar a linguagem em si mesma. Isso parece incrivelmente óbvio. Mas penso que vale a pena referir um caminho individual, porque ele encontra ressonância, como vim a saber depois, no próprio percurso da chamada "virada lingüística" - provocado pela filosofia analítica, a qual muda o paradigma transcendental do conhecimento para o da linguagem 6.
A tradução é o espaço em que aparece o uso da linguagem em toda a sua complexidade, por isso, necessariamente, nenhum campo do saber, seja ele lingüístico, crítico literário, filosófico, psicológico, antropológico, semântico, etc. responderá integralmente a seus problemas. Vidal (1998:11) afirma que necessitamos, pois, de uma teoria holística que considere o uso da linguagem em toda essa sua complexidade .
Com efeito, tudo parece incompleto para a análise da linguagem do século vinte. Escreve Vidal (1998:14):
Ahora el lenguaje empieza allí donde la comunicación está en peligro, leemos en Sexus de Henry Miller. Y es que ha sido también en la segunda mitad de nuestro siglo cuando el lenguaje ha visto cómo, paradójicamente, era entronizado y, a la vez, se tornaba juego posmoderno de significantes, parodia de tiempos pasados en los que prevaleció la metafísica de la presencia. Novelistas como Ronald Sukenick, Donald Barthelme, Kathy Acher, Steve Katz, lo violentaron hasta hacerlo llegar a límites insospechados a los excessos, que com razón critica Umberto Eco, " de la interpretabilidad descontrolada y a la convicción desconstructivista de que il n´y a pas de vrai sens d´un texte".
O limite da interpretabilidade torna-se a grande questão. Examinemos, pois, como a interpretação tem sido tratada no campo da teoria da tradução. Permanecendo no século XX apenas, período em que os Estudos da Tradução emergem como um campo acadêmico, tomemos as seleções de nomes essenciais para o estudo da nova disciplina feitas por Schulte & Biguenet (1992) e Lawrence Venuti (2000) 7. Dentre esses nomes, destaquemos aqueles que endereçam suas reflexões para o tema da interpretação.
Comecemos por Walter Benjamin, com o texto "A Tarefa do Tradutor" , surgido em 1923. No que tange ao referido tema, Benjamin afirma que a tradução garante a sobrevida do original ao fornecer uma interpretação que se adeqúa ao momento histórico de sua recepção. Tal concepção está intimamente ligada a duas outras, a da traduzibilidade e à língua pura. A da traduzibilidade diz respeito à significação específica inerente ao original, a qual é expressa na tradução. Em outras palavras, é a característica de certos originais de permitirem uma nova tradução a cada época. Nem todos os textos detêm tal qualidade. Benjamin exemplifica o fenômeno da traduzibilidade com a seguinte comparação: assim como as manifestações da vida estão intimamente vinculadas ao fenômeno da vida sem serem essenciais para esse fenômeno, a tradução, nascida do original, é uma manifestação datada desse original, e é o que garante sua sobrevida nos tempos. Tal manifestação "apresenta uma transformação e uma renovação de algo vivo"que vem a ser o texto original - em novas tendências e formas, imanentes no próprio original. Pois, como explica Benjamin até as palavras com significado fixo podem sofrer processo de maturação. Um determinado estilo literário de um autor pode, com o tempo, desaparecer e surgir(em) outra(s) tendência(s) imanentes no texto literário original (Venuti, 2002: 74).
A vinculação entre as diferentes línguas - a do original e as das traduções - em diferentes épocas, dá-se pela conexão supra-histórica entre as línguas, baseada na intenção subjacente a cada língua, intenção esta que só se realiza completamente por meio da soma de todas as suas manifestações nas diversas línguas. Em outras palavras, essa intenção só se completa na " língua pura "(p.75). Portanto, em termos da interpretação, a tarefa do tradutor é, para Benjamin, descobrir uma intenção do original e achar um modo de passá-la para a língua alvo, como se fora um eco do original . Benjamin esclarece que esse processo de complementaridade, em fluxo permanente, das inúmeras traduções da(s) intenção(ões) de um texto para as diferentes línguas ficará idealmente completo, quando puder emergir como "língua pura" a partir da harmonização desses diversos modos de intenção (as diferentes traduções).
Ezra Pound é outro dos nomes destacados por Schulte & Biguenet e também por Venuti, para o estudo desse período. Na verdade, Pound se ocupa mais com os experimentalismos literários, característicos do Modernismo. Nesse sentido, sua preocupação fundamental, ao traduzir poesia, é buscar uma "equivalência estilística", um peso verbal que corresponda ao do original (apud Venuti, 2002: 12). Seguindo a apresentação de Venuti e o próprio ensaio de Pound "Guido´s Relations", percebe-se que, à primeira vista, sua preocupação maior seria com a referida equivalência. Só que, ao fazê-lo, o interesse de Pound reside em eleger e preservar um dos valores presentes no texto original (o que corresponderia à "intenção" benjaminiana). Nesse sentido, a tradução apresenta uma autonomia que, na visão de Pound, pode assumir duas naturezas: a "interpretativa", ou a "escrita original". A primeira refere-se àquela que apresenta o original ao lado, e que leva o leitor à comparação lingüística, à conferência do léxico, ou à verificação de alguma particularidade qualquer. Nesse ensaio, Pound vê o arcaísmo como uma estratégia reveladora das diferenças literárias e históricas do italiano de Cavalcanti. O ensaísta está perfeitamente consciente de que o discurso tradutório que escolheu para Cavalcanti - o da poesia inglesa pré-Elizabetana - não se equivale ao toscano medieval. Entretanto, emprega tal método para preservar o caráter "cantante" do soneto italiano. Sabe que o faz em detrimento de outros aspectos.
A segunda modalidade de autonomia para o tradutor enquadra-se nos domínios da "escrita original". Trata-se dos casos em que o "tradutor" está definitivamente escrevendo um novo poema.
No entendimento de Gentzler (apud Vidal: 73), para Pound, o que permanece estável nos textos através dos tempos não é o significado das palavras ou dos temas, mas a forma :
Interessa-o sobretudo o dinamismo e a força da matéria; considera que o significado de uma obra de arte seja, tampouco, estático, mas que se transforma na medida em que se transforma a linguagem; o que cada palavra conota, altera-se, conforme se altera o contexto temporal e cultural. A linguagem tem vida própria, está plena de energia graças à melopoeia (a propriedade musical), à phanopoeia (a visual) e à logopoeia ( dança do intelecto entre as palavras).
Para Pound, ainda de acordo com Gentzler, o tradutor volta ao presente criando novas relações. Para poder entender a logopoeia de um texto, o tradutor deve mergulhar na atmosfera do original, reconhecendo que nele existem limitações temporais, espaciais e ideológicas. Entretanto, dando esse mergulho, deve ser capaz de trazer o material para sua própria época, a fim de que a tradução seja um texto contemporâneo; para isso, o tradutor deve converter-se em um bom conversador gadameriano, em um criador (Vidal: 74).
Segundo Venuti, no final da década de 30 a tradução já é considerada uma prática lingüística singular, um gênero literário a parte. José Ortega y Gasset, filósofo espanhol, em "The Misery and Splendor of Translation", aborda a questão da interpretação do sentido do original como algo impossível, em razão das diferenças radicais entre as culturas. Há fenômenos que não encontram qualquer tipo de equivalência, dada a diferença de mentalidades e aspectos da cultura e da tradição dos povos. Nisso residiria a "miséria" da tradução. Por outro lado, seu "esplendor" deriva desse mesmo aspecto, pois sendo impossível trazer o elemento cultural e lingüístico estrangeiro para a tradução, é necessário "forçar" o leitor do texto traduzido para o estrangeiro. O próprio Gasset (p.63), referindo-se às traduções de suas obras para o alemão, assim diz:
As traduções alemãs de meus livros são um bom exemplo disso.... o sucesso deve-se ao fato do meu tradutor ter forçado o limite de tolerância gramatical da língua alemã, a fim de acolher o que não é alemão no meu modo de falar. Nesse sentido, o leitor naturalmente, e sem esforço, realiza giros mentais que são espanhóis. Relaxa um pouco e, por instantes, diverte-se sendo o outro.
Os anos quarenta e cinqüenta apresentam o tema da traduzibilidade como fundamental para a pesquisa. Nesse cenário, a questão da interpretação encontra diferentes maneiras de abordagem. Willard Quine, em "Meaning and Translation" questiona radicalmente a possibilidade da interpretação confiável, uma vez que existe o fenômeno da indeterminação semântica básica. Ou seja, há casos - nos da "tradução radical" - em que o tradutor, lidando com línguas sem parentesco, não encontra indícios de apoio para sua interpretação na cultura, no ambiente, ou no contexto. De acordo com Quine, o tradutor realiza a interpretação com base em "hipóteses de análises" e normas reguladoras. Os lingüistas também se apóiam nessas hipóteses e normas para a realização de dicionários e gramáticas. Entretanto, segundo Quine, em decorrência da possibilidade dos esquemas conceituais dos nativos e lingüistas (esquemas esses que modelam as interpretações dos dados) serem radicalmente diferentes, não há garantia que haja correlação entre estímulos e significado. Isso, os quais podem ser absolutamente diferentes entre o grupo dos lingüistas e dos nativos.
Nesse período, as diferenças lingüísticas e culturais que impedem a tradução são igualmente objeto de reflexão no continente europeu. Martin Heidegger, por exemplo, em 1946 escreve o ensaio "The Anaximander Fragment", no qual deixa bem claro como os referidos esquemas conceituais diferentes complicam as traduções modernas da filosofia grega clássica.
Eugene Nida encontra uma saída para essa questão, aparentemente insolúvel, na busca de equivalências culturais por meio de paráfrases, como o exemplo dado pelo próprio autor a referida por Venuti (p.69), citando Nida (1945:197):
É inconcebível, para os índios maias, um lugar absolutamente sem vegetação, a não ser que ela tenha sido extirpada para a plantação de milho". Portanto, Nida conclui que o tradutor da Bíblia deve traduzir deserto, como lugar abandonado, ao "estabelecer o equivalente cultural para o deserto da Palestina.
A contribuição de Roman Jakobson para a questão da interpretação materializa-se em seu texto de 1959, intitulado "Sobre os Aspectos Lingüísticos da Tradução". No ensaio, Jakobson basicamente argumenta que a questão da interpretação deve deslocar-se da lingüística empírica, para a semiótica: o significado não provém de uma referência à realidade, mas emerge da relação com uma cadeia potencialmente infinita de signos . Para ele, a tradução é um processo de recodificação, envolvendo duas mensagens em dois códigos diferentes . O caráter interpretativo da tradução é praticamente ignorado por Jakobson, uma vez que deixa de considerar o fato de que, ao recodificar, o tradutor transforma o texto. Entretanto, Jakobson admite que há diferença entre os discursos de ordem cultural, especialmente no caso da poesia, onde as categorias gramaticais carregam um alto significado semântico .
A grande volta à tradição hermenêutica do Romantismo alemão dá-se com George Steiner. Em 1975, Steiner lança After Babel , segundo Venuti (p.124), livro sobre teoria da tradução mais conhecido desde a Segunda Guerra Mundial.
No ensaio "Hermeneutic Motion" (p.187-91), Steiner, ao comentar o "ato hermenêutico" - ato de descoberta e transferência apropriada do significado - começa fazendo referência à confiança inicial do tradutor: Nos aventuramos a um salto : apostamos , ab initio, que "há algo lá" para ser entendido, [apostamos] que a transferência não será vazia . Toda a compreensão, e a sentença que evidencia esta compreensão - a tradução - começa por um ato de fé. Logo após a crença de encontrar um significado, o tradutor passa ao segundo movimento: agressão, ataque ao texto. Steiner propõe-se a modular a insistência de Heidegger de que a compreensão não é uma questão de método, mas, primordialmente, de ser (...). Compreender também significa abranger e conter em si, assimilar. Na tradução interlingual, essa manobra de compreensão é explicitamente invasiva e extrativa . Steiner lembra São Jerônimo e sua famosa imagem do tradutor capturando o significado do estrangeiro e trazendo-o para casa . Mais adiante, escreve Steiner: Quebramos um código: a decifração é dissecativa, deixa a concha quebrada e as camadas vitais estripadas . Steiner reafirma: O tradutor invade, extrai e traz para casa .
O terceiro movimento, segundo Steiner, é incorporativo. A importação do significado e da forma não é feita no vácuo. Ela se dá no seio semântico da cultura que o importa. Entretanto, segundo Steiner, qualquer que seja o grau de domesticação do texto estrangeiro, tal importação pode deslocar ou recolocar a estrutura nativa . Esta etapa pode ser negativa, se a cultura que absorve o significado, o faz de modo indiscriminado, imaturo. Haverá, então, um movimento de devolução do "corpo estranho".
O quarto movimento - do reequilíbrio - completa o ciclo da fé, do ataque ao estrangeiro e da importação de seu significado. De acordo com Steiner (p.189), os três primeiros passos do hermeneuta/tradutor provocam um desequilíbrio:
Cercamos e invadimos cognitivamente. Voltamos para casa lotados, portanto com certo desequilíbrio, tendo causado também desequilíbrio ao sistema como um todo, quando apanhamos "o outro" e o absorvemos- embora possivelmente com conseqüências ambíguas- a nós mesmos. (...) O ato hermenêutico deve estabelecer uma compensação. Se for autêntico, deve fazer a mediação através da troca e da paridade restabelecida.
Quase ao final, Steiner (p.190) relaciona o conceito de "fidelidade" a esse "reequilíbrio", apontado que o exegeta, o tradutor, ou o leitor é fiel ao seu texto, torna sua resposta responsável , somente quando se propõem a restabelecer o equilíbrio das forças, da presença integral , que o compreender e o apropriar-se, haviam desmanchado .
Concluindo, Steiner (p.190-1) declara que a visão da tradução como hermenêutica da confiança, da penetração, da incorporação e da restituição , possibilita a superação do modelo triádico, segundo ele estéril, que tem dominado a teoria da tradução ao longo dos tempos: literalidade, paráfrase e livre imitação. Essa tríade desconsidera o fato de que a "hermeneia" divida nesses quatro aspectos (...) é, de forma conceitual e prática, inerente a, até mesmo,a uma tradução rudimentar. .
Passemos agora ao exame da teoria da tradução de Hans-Georg Gadamer 8 em sua relação com o conceito de hermenêutica. Para Gadamer (apud Vidal, p. 65),
Traduzir implica reescrever o discurso..."destextualizá-lo" de seu espaço poético próprio para iniciar uma nova escritura, a fim de produzir, não um espaço semelhante, mas um espaço, um discurso e um texto diferentes, cujas concomitâncias com os originais, embora os englobem, escapam ao próprio texto como materialidade... a tradução é o original reatualizado, revitalizado, e apresentado a partir de uma nova textualidade .
Para este autor, apud Vidal (p.66), o dom do hermeneuta é ser capaz de compreender inclusive aquilo que parece incompreensível e estranho para nós. Gadamer afirma que, se a tarefa da hermenêutica é lançar uma ponte entre a distância histórica ou humana entre dois espíritos, então a tradução coloca-se perfeitamente no âmbito da hermenêutica. Retomando a etimologia do termo hermenêutica , que recebe esta designação a partir de Hermes, o intérprete-tradutor da mensagem divina para os homens, Vidal realiza uma síntese do pensamento de Gadamer estabelecendo uma analogia entre a função de Hermes e o acontecimento do fato lingüístico da tradução de uma língua para outra e, por conseguinte, da relação entre as duas línguas. Postula que só se pode traduzir de uma língua para outra, quando se compreende o sentido (do que foi dito) e se reconstrói esse sentido na outra língua - portanto, tal processo pressupõe compreensão. Gadamer (1966:60) acrescenta: Não se pode entender, se não se quiser entender, ou seja, se não se quer deixar-se dizer algo . Nessa esteira de raciocínio, Gadamer vincula o papel do tradutor-intérprete ao fenômeno da recepção, como elemento mediador que interfere na relação triangular autor-texto-leitor. Assinala que a distância entre os espíritos (de ordem histórica ou de qualquer outra natureza), agora analogamente aplicada à distância entre o espírito do original e de sua reprodução, só é diminuída em parte:
.. . por muito que o tradutor tenha conseguido introduzir-se [no texto original] e recriar os sentimentos do autor, a tradução não é uma simples ressurreição do processo psíquico original do escrever, mas uma recepção do texto realizada com base na compreensão do que é nele dito. Não há dúvida de que se trata de uma interpretação e não de uma simples correspondência ... Ainda que seja uma reprodução magistral, não poderão faltar-lhe [à tradução] alguns tons que vibraram no original. 9
Vidal, na esteira da teoria gadameriana, salienta que o tradutor realiza uma fusão de horizontes temporais e situacionais entre a historicidade do original e a sua própria, deixando-se interpelar e modificar pela outra tradição, pelo horizonte da "outritade", mas sobretudo, permite que sua tarefa seja criativa, e não a simples reprodução de um texto (p.68). A idéia gadameriana de "distância temporal" entre o intérprete e o texto é que permite situar este último em suas justas dimensões e é também o que permite distinguir conceitos prévios falsos de conceitos prévios verdadeiros. Parece-me igualmente importante sublinhar, com Vidal (p.69), que a compreensão não é pura - como queria Schleiermacher - mas supõe um ato anterior, o da pré-compreensão, e um depois, o da aplicação, que permite relacionar o sentido do texto à situação presente .
Vidal assinala que o julgamento prévio [ conhecimento prévio] é importante porque a compreensão só acontece quando já haja algum tipo de conhecimento prévio. A autora nos alerta para estarmos atentos quando o texto nos fala, observando tanto o que nos diz, como o que não nos diz, porque o sentido não é, segundo Gadamer, uma totalidade disponível sobre a qual haveremos de estar sempre de acordo, mas, sim, uma direção, uma conversa infinita com a alma . Complementado a afirmação, Vidal (p.69) cita Gadamer: Não se trata, pois, da reconstrução de um sentido existente, nem muito menos da redução àquilo que o poeta tenha pensado. Trata-se de participar no íntimo diálogo com a linguagem .
Nessa perspectiva, Vidal observa que o fio condutor da virada ontológica da hermenêutica é a linguagem. Segundo Gadamer (apud Vidal: 69):
Vivemos na época da poesia semântica.Não habitamos um mundo em que uma lenda, um mito, a História Sagrada, ou uma tradição surgida da memória coletiva envolva nosso horizonte com imagens que possamos reconhecer nas palavras. O que resta são unidade semânticas que, pela sua natureza não tendem a unir-se, mas a afastar-se umas das outras, dispersar-se numa pluralidade de sentidos. A esse fenômeno, Derrida chama de dissémination...Vivemos em um mundo de fragmentos e numa fragmentada realidade lingüística.
Nessa linha conceitual, é importante salientar o conceito de linguagem de Gadamer, coerente com os princípios da hermenêutica e pertinente para o conceito de tradução do referido autor:
A linguagem é a primeira interpretação global do mundo e por isso não pode ser substituída por nada. Para todo pensamento crítico de nível filosófico, o mundo é sempre um mundo interpretado pela linguagem. A aprendizagem de uma língua, a assimilação de nossa língua materna, é já uma articulação do mundo... Só podemos pensar dentro da linguagem, e esta inserção de nosso pensamento na linguagem é o enigma mais profundo que a linguagem propõe ao pensamento.
Diante de tal perspectiva, portanto, relativamente ao conceito de tradução, podemos concluir com Gadamer e Vidal (p.70) que traduzir converte-se no ato de entabular uma conversa , ou melhor, como diz a autora, no ato de entrar numa conversa, de nos enredarmos nela . Traduzir implica viver na língua; o tradutor é um intérprete e a língua o meio universal em que se dá própria compreensão . Vidal amplia o entendimento da perspectiva hermenêutica da tradução através de mais alguns conceitos: Traduzir é um ato hermenêutico e antropológico . O ato de compreender é a essência do Dasein e a interpretação, uma aventura pessoal, a maneira como vivemos e somos-no-mundo .
A autora refere que este modo de entender a tradução como um ato de interpretação do original e, portanto, de recriação remonta a Ezra Pound, sobre cuja relação com a teoria da tradução já tratamos anteriormente.
De modo similar, porém pertencendo ao pós-modernismo, no Brasil os irmãos Campos concebem o tradutor como intérprete. Na esteira do canibalismo antropofágico do nosso Modernismo, para Haroldo 10 e Augusto de Campos traduzir significa absorver, transformar, recriar. Nos textos citados no rodapé indicado, Haroldo de Campos declara apropriar-se das técnicas da poesia moderna e aplicá-las ao trabalho tradutório ou "trans-criação", inspirado em procedimentos de Ezra Pound, Roman Jakobson e Walter Benjamin (1998: 145). As referidas técnicas foram comentadas neste trabalho, quando abordados os autores mencionados por Haroldo de Campos. Embora a postura dos irmãos Campos seja bastante conhecida entre nós, penso que se deve ressaltar que dos textos de Haroldo de Campos, resultante de sua prática tradutória, surgem indicadores preciosos para delinear limites para a hermenêutica radical. São eles, por exemplo, o seu conceito de que a tradução
é uma "operação semiótica" em dois sentidos:... num primeiro sentido...visa ao resgate e à reconfiguração do "intracódigo" que opera na poesia de todas as línguas como um "universal poético". Considerado do ponto de vista lingüístico, esse "intracódigo" seria o espaço operatório da "função poética" de Jakobson, a função que se volta para a materialidade do signo lingüístico, entendendo-se por materialidade, enquanto dimensão sígnica, tanto a forma da expressão (aspectos fônicos e rítmico-prosódicos), como a forma do conteúdo (aspectos morfossintáticos e retórico-tropológicos). Na terminologia de W. Benjamin, esse "intracódigo" poderia corresponder à língua pura.
(...)
Num segundo sentido, lato, a tradução é um processo semiótico, participando do jogo de revezamento de participantes que Peirce descreveu como uma "série infinita", e Umberto Eco repensou no plano dos encadeamentos culturais como uma "semiose ilimitada"...
Em ambos os sentidos, no estrito ou no lato, a tradução é um ato crítico (1987: 64) .
Embora tentando polemizar com a idéia "naturalizada" de tradução literal, fiel ou servil, vista quase sempre como uma atividade subalterna diante do texto original, "aurático" e "verocêntrico", no confronto com o qual o tradutor deveria modestamente "apagar-se" (1987: 65), o conceito de tradução de Haroldo, acima transcrito, apresenta vários elementos, tais como "intra-código", "material lingüístico", "operação semiótica", "função poética", "ato crítico" entre outros, os quais balizam de alguma forma, dentro e fora do texto, a interpretação do tradutor 11. Ou seja, o limite da interpretação é muito amplo, mas está potencialmente presente no texto, no contexto situacional (período e história) da obra e do leitor/tradutor. Assim é que, quando Haroldo de Campos (1998:147) diz que o problema da tradução poética em geral - do qual a tradução da poesia bíblica é um caso específico - consiste em redesenhar, na língua de chegada, todos os traços formais e semânticos do original , está apontando um caminho para a interpretação, qual seja levar em consideração os traços formais e semânticos do original .
Vejamos mais outro exemplo: ao fazer uma transposição "hiperliteral" dos versos do Eclesiastes, Haroldo (1998:147) escreve que seguiu a lingüística e a poética de Jakobson, preocupou-se em reconfigurar em português as mínimas articulações fonossemânticas do original, bem como tudo aquilo que, no plano sintático-morfológico ... acaba sendo irradiado semanticamente e é relevante no nível do conteúdo .
Para Haroldo ainda (1998: 147), o tradutor é o coreógrafo da dança das linguagens. Cabe-lhe discernir o percurso da "função poética" (Jakobson) a partir do original e reconfigurá-lo na língua de chegada. As formas verbais com as quais lida o tradutor são sempre formas "significantes", carregadas de significado .
Seria, pois, admissível concluir-se que, embora a eliminação de hierarquia e limite entre texto original e tradução, autor e tradutor, passado e presente nos trabalhos de "trans-criação", a metodologia preconizada por Haroldo de Campos pode ser considerada como uma espécie de fronteira para a hermenêutica tradutória. Ainda que seja um limite a se perder de vista. Um limite que demarca um território quase infinito de possibilidades.
Para o tradutor literário, ou o estudioso da tradução literária, entrar na "dança das linguagens" neste vasto território, há o requisito essencial do exercício intelectual do permanente e contínuo conhecimento das figuras que participam da dança. A figura da semiótica, eleita por Haroldo como uma de suas principais preocupações norteadoras na coreografia da tradução poética, deve sempre merecer especial atenção.
Nessa perspectiva, os rumos atuais da semiologia literária 12 aportam novas possibilidades de identificação e interpretação daqueles sentidos sugeridos e autorizados pelo texto literário, muito úteis para sua tradução enquanto "processo semiótico" 13
NOTAS
1 RODRIGUES, Sara V. Avaliação da Tradução: aplicação do modelo de Juliane House a textos traduzidos do inglês para o português . Dissertação de Mestrado, PUC-RS, abril de 1985.
2 Esse texto foi apresentado no COLÓQUIO Divergências e Convergências em Literatura Comparada Hoje - X Ciclo de Literatura e Encontro do GT de Literatura Comparada da ANPOLL, 15-16 e 17 de outubro de 2003. UFMS, Dourados, MS.
3 VIDAL, Mª del Carmen. El Futuro de La Traducción: últimas teorías, nuevas aplicaciones . Valencia: Textos i Imatges, 1998. Vidal acrescenta que a própria Mary Snell-Hornby, ainda que propondo um enfoque integrador, considera que disciplinas como a filosofia, a sociologia ou a psicologia têm feito muito mais pela tradução que a lingüística pura (Vidal, 1998: 13 - minha tradução). Mais adiante, Vidal (p.13) cita Peter Fawcett em seu livro Translation and Language. Linguistic Theories explained, respondendo a Hornby: O autor declara não concordar integralmente com esta atitude cética em relação à lingüística; acrescenta não considerar a lingüística como a grande libertadora ou a grande opressora dos Estudos da Tradução; ao invés, acredita que há muitas coisas na tradução que somente podem ser descritas e explicadas pela lingüística. Além disso, um tradutor que carece de, no mínimo, um conhecimento básico de lingüística, está trabalhando com um conjunto de ferramentas incompleto .
4 Como essa, as demais traduções de autores estrangeiros, citados neste trabalho, serão sempre minhas.
5 Como esclarece ainda José Hierro S. Pescador, apud Vidal (1998:11- tradução minha), a filosofia analítica fez com que a pergunta fundamental da filosofia deixe de ser " como é possível o conhecimento?", para "como é possível a linguagem?" E ainda Acero, Bastos & Quesada , (id. Ibidem): a virada lingüística nada mais é do que a crescente tendência a tratar os problemas filosóficos a partir do exame da forma em que esses problemas estão presentes na linguagem natural. Ou ainda Vicente M. Rodríguez (id. Ibidem) que afirma que a filosofia que mais caracteriza o século XX é a da linguagem . Para maior informação ver: "Analytical Philosophy and Translation". In : Routeledge Encyclopeadia and Translation . BAKER, Mona (ed.). London : Routeledge, 2001, p. 8-13.
6 Os ensaios relativos a esses teóricos seminais da teoria da tradução encontram-se em uma, ou outra, das obras dos organizadores citados. Por questão de economia, quando de citação, faremos a indicação bibliográfica, apontando, no corpo do texto, somente o nome do organizador e a página.
7 O eixo bibliográfico para o estudo de Gadamer é o seguinte material: Gadamer , H.G. Estética y hermenêutica . Madrid: Tecnos, 1996. Trad. de Antonio Gómez Ramos.
8 VIDAL, Mª del Carmen . El Futuro de La Traducción: últimas teorías, nuevas aplicaciones . Valencia: Textos i Imatges, 1998. Fundamento meu texto fortemente em Vidal, tendo em vista a clareza, concisão e rigor com que essa autora escreve sobre os Estudos da Tradução, especialmente quando aborda o conceito de hermenêutica aplicado à tradução. Utilizando a expressão de Vidal ao referir a bibliografia que utilizou, este trabalho é, de certo modo, um eco , um intertexto, uma reescritura do seu.
9 GADAMER, H. G. Verdad y método , vol.1, Salamanca: Sígueme, 1884: 464. Trad. Ana Agud y Rafael de Agapito.
10 CAMPOS, Haroldo. Tradução e Reconfiguração do Imaginário: O Tradutor como Transfingidor. In: Coulthard , Malcon & Coulthard , Carmen Rosa (org). Tradução: Teoria e Prática. Florianópolis: UFSC, 1991, p. 17-32. ___. Da Trans-criação: Poética da Tradução na Bíblia Hebraica. In: Miscelânia - Revista da Pós-Graduação em Letras. Assis: (Faculdade de Ciências e Letras de Assis) Universidade Estadual Paulista, 1998, p. 159-68. ___. Reflexões sobre a Transcriação de Blanco , de Otavio Paz, com um excurso sobre a teoria da tradução do poeta mexicano. In: 1º Seminário Americano de Literatura Comparada (atas). Porto Alegre: ABRALIC/UFRGS/PROPESQePPG-Letras, 1986 (1987). Presidente da ABRALIC: Dra. Tania Franco Carvalhal.
11 Nesse sentido, fiz uma experiência para avaliar a livre interpretação de três tradutores de The Raven , de E. A. Poe. As conclusões estão no texto "Semanálise e Tradução", publicado nos Cadernos de Tradução do Instituto de Letras . Porto Alegre: UFRGS, 2000, nº 11.
12 Conferir BOBES NAVES, M.C., BOUISSAC, P., CONSTANTINI, M., DOLEZEL,L., KOWZAN, T., PELC, J., RECK,H.U., SEGRE, C. (Ed). Nuevas Perspectivas en Semiología Literaria . Madrid: Arco Libros, s.l., 2002.
13 Ao concluir o texto utilizando a expressão de Haroldo de Campos, por ele empregada no texto "Reflexões sobre a transcriação de Blanco, de Octavio Paz", por vez primeira publicado pela Editora da UFRGS, (cf. 10), faço-o em homenagem à sua singularíssima memória.