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Entre o dizer e o mostrar: reflexões iniciais sobre uma poética da tradução artística
Neusa da Silva Matte (UFRGS)

I dream of a work of great breath, ranging through the whole range of element, object, meaning and style ..(Paul Klee)

 

Abstract

O poema The painter´s dreaming in the scholar´r house de Paul Klee, aponta para a universalidade da linguagem artística e a íntima relação dos processos criativos do poeta e do pintor, e sugere uma poética comum à poesia e à pintura, a partir da qual entendemos ser possível a tradução entre a palavra, linha, tom e cor. Este breve ensaio desdobra o poema de Paul Klee enfocando as intersecções que se configuram nos processos de leitura de textos verbais e pictóricos, sobre as quais o tradutor pode atuar e reconfigurar a expressão artística. (Principais autores referidos: Wallace Stevens, Kandinsky, Joaquin Torres Garcia, Matisse, Paul Klee, Figari, W.Benjamin).

 

Reunimos nesse artigo elementos nos quais, dentro de um "espírito de época", (primeiras décadas do século XX), evidenciam coesão e coerência temática e teórica sustentada por conceitos que gravitam em torno do fazer artístico, ao qual acrescentamos nossa visão de "tradução artística", considerando o texto literário, " como um elemento híbrido, cuja auto-sufuciência e mesmo pureza são atualmente contestadas" 1 , a fim de " indagar sobre os processos de intersecção da literatura com outras formas de arte ou de conhecimento." 2

Iniciamos com uma citação de R.M.Rilke:

 

Nada me impede de achar tudo inesgotável, sem desgaste: de onde a arte deveria partir senão dessa alegria e tensão do eterno recomeço?"

 

Essa frase de Rilke sobre a obra de Paul Klee salienta um dos aspectos mais significativos da obra de Klee, estimula a reflexão comparativa sobre as relações entre poetas e pintores: seus quadros revelam o milagre do processo de criação que se torna visível, disponibilizado para o observador. Na sua visão de mundo como um processo, como uma totalidade unificada, cheia de movimento e vida, Klee tentava ordenar o movimento, que, para ele, era, antes da mais nada, a auto-movimentação, a partir do próprio ser, força de impulsão, energia, inesgotável em sua existência, o fato primordial e o começo de todas as coisas. Dizia Klee: "um artista precisa ser tudo: poeta, pesquisador da natureza, filósofo ( ...) buscar um sentimento universal da vida." Artista plástico, profundamente familiarizado com as outras artes, Klee também era poeta, e músico ativo. Seu principal tema sempre foi a criação "que vive como gênese, sob a superfície do visível da obra"...

E é o próprio Paul Klee que afirma sobre a tradução de uma arte por outra:

 

Recentemente traduzi uma composição musical em linguagem plástica. Portanto agora posso imaginar também o inverso (..) e perguntar como nós, (...)seríamos também ouvidos na forma de música. I dream of a work of great breath, ranging through the whole range of element, object, meaning and style..

 

Em seu sonho com uma obra de ampla respiração, que compreenda todo o âmbito do elemento, do objeto, do significado, do estilo Klee, revela seu desejo de plenitude e de universalidade artística. Mas, como ele mesmo diz em Sobre a Arte Moderna , "nos faltam os meios para discutir sinteticamente uma simultaneidade pluridimensional, idéia que ele desdobra poeticamente. Em seu poema, o pintor sonha dentro da morada do estudioso, e revela seu profundo desejo de tecer e de compreender as relações na secreta história da mente através do visível, da forma exteriorizada da arte. Assim diz o poema:

 

The painter dreaming in the scholar's house

Being a man, and not a god, he stands
Already in a world of sense, from which '
He borrows, to begin with, mental things,
Chiefly, the abstract elements of language:
The point, the line, the plane, the colors and
The geometric shapes. Of these he spins
Relation out, he weaves its fabric up
So that it speaks darkly, as music does
Singing the secret history of the mind.
And then in this the visible world appears,
And it does do, mountain, flower, cloud and tree,
All haunted here and there with the human face,
it happens as an accident, although
the accident is of design. It is because
language first rises from the speechless world
that the painterly intelligence
can say correctly that he makes his world.

 

 

O poema escrito pelo pintor fala sobre as limitações humanas de tornar visível, através da arte, a 'história secreta da mente'. Os sentidos apenas conferem ao homem "os elementos abstratos da linguagem'. Mas embora a fala seja obscura, ela canta e torna visível, através do trabalho do artista, que, fia e tece sua expressão, "assombrada pela face humana." Na obra de arte ele constrói seu mundo.

A intimidade de Klee com a pintura, a poesia e a música, resultou também em uma produção teórica sobre as artes, da qual destaco três textos para essas considerações iniciais: o poema acima referido, e seus ensaios " Confissão Criadora " e " Sobre a Arte Moderna ", os quais, justapostos a The Relations Between Poetry and Painting 3 e , Modern Poetry (poema), de Wallace Stevens, a A Gramática da Criação - O futuro da Pintura , e O Espiritual na Arte, de W.Kandinsky, a El Aparente y el Concreto en el obra de Arte , e Universalismo Constructivo, de J.Torres Garcia, a La Aventura Intelectual de Figari , de Angel Rama, e a A Tarefa do Tradutor de W.Benjamin, que percorre intertextualmente as inferências (e referências) sobre a arte e a tarefa de traduzir, configuram uma moldura epistemológica de uma "estética cruzada" nessa "indissociável conjunção do verbal com o visual" "no interior do objeto artístico, visto então como um lugar de passagem, um limite, uma simbolização desse limite", como afirma Lisa Block de Behar em seu artigo sobre Joaquin Torres Garcia. 4

Em uma metáfora sobre a árvore, raízes, tronco e copa, Paul Klee sintetiza sua visão da função e da posição do artista (e, diríamos também, a do tradutor) como mediador no processo de criação:

... ocupando o lugar que lhe cabe - o tronco da árvore-, tudo o que ele (artista) faz é recolher e encaminhar aquilo que lhe vem das profundezas da terra. Não servir nem dominar: apenas comunicar (...) pois a beleza da copa não lhe pertence, apenas passa através dele." 5

 

Nessa metáfora, o artista ocupa o lugar de tronco:

Das raízes afluem as seivas vitais que passam através dele e através de seus olhos. Pressionado e movido pelo poder desse fluxo, ele encaminha o que vê para a obra. Assim como a copa da árvore se desdobra visivelmente para todos os lados, no tempo e no espaço, a mesma coisa acontece no caso da obra e da arte Ninguém pensaria em exigir da árvore que produzisse uma copa exatamente igual à raiz. Todos entendem que não pode existir uma relação direta de espelhamento da imagem entre a parte de baixo e a de cima. É claro que as diferentes funções, em diferentes domínios elementares, tem que produzir divergências vitais 6

 

Não se trata aqui de contrariar os princípios de Mallarmé e de Torres Garcia de que poesia e feita de palavras, e de que pintura é feita com tons e linhas, mas de, ao contrário, atribuir o estatuto de essencialidade às diferenças sem as quais torna-se impossível pensar a tradução. Se tradução é a prática da diferença, não será pelo jogo ilusório das equivalências perfeitas que tentaremos trabalhar sobre a hipótese da tradução entre essas duas linguagens. Tentamos, portanto, nesse breve artigo, abrir um espaço para a confluência de conceitos e práticas teóricas de poetas-pintores, e de pintores-poetas que direcionaram sua arte e reflexão teórica, paralelamente, para a compreensão das possibilidades do dizer e do mostrar artístico, enfocando, simultaneamente, o processo de abstração pré-textual, no qual a percepção das correspondências ainda em estágio de pré-representação, em plena experiência da virtualidade, e os desdobramentos do processo de leitura pós-textual, onde o objeto artístico em si, tela ou texto, configuram-se não como produto, texto de chegada, mas como passagem, como condutor da seiva, tal qual a imagem que Paul Klee constrói do próprio artista:

E nesse espaço aquém e além da palavra, aquém e além dos tons e linhas, procuramos entender o "processo interior" (Klee), a "ressonância interior" da dimensão espiritual (Kandisnky), a "construção mental" de uma unidade abstrata" (JTG), que buscam, idealmente, voz e visibilidade na "cor pura"( Klee), na "pintura pura" ( Kandinsky), na "poesia pura" (Mallarmé, Valéry, e Allan Poe), e que sonham sobreviver, eternamente retraduzidos na "língua pura" (Benjamin). Ou, como bem sintetiza Jean Bessière em Peinture et Ecriture - Les Droits du Visible , uma "estética pura", o visível que compreende as formas e expõe também seus constantes transbordamentos.

Nessa dimensão de idealidade -"natureza ideal" (JTG), as "imagens são desnudadas de sua temporalidade e espacialidade", buscando na "medida harmônica", a realização de uma estrutura sobre um superfície -uma verdadeira escritura- que ele denomina 'arte universal' .

Ora, falar de tradução artística implica, necessariamente, constatar os processos de significação que acompanham os excessos, e as "deformações" do objeto traduzido. 7

O que cada um desses artistas acima referidos entende pelo adjetivo "pura", tem sido objeto de amplas discussões meios acadêmicos e artísticos, e não temos, absolutamente, a pretensão de fazer tabula rasa sobre as reflexões de cada um deles, mas, simplesmente, de propor o início de uma discussão sobre a única coisa da qual temos certeza neste trabalho: de que, sem dúvida, trata-se de um tema não só muito estimulante para a reflexão de natureza comparativa interdisciplinar, com também, passível de amplos desdobramentos, e que, uma vez encaminhado na busca da "medida harmônica" entre a razão e o mistério, pode nos colocar em condições de "respirar mais amplamente", (Klee), deixar o espírito fluir além da forma, tocar o milagre. Dizer o indizível, mostrar o que insiste em se manter oculto, traduzir o intraduzível, em estéticas cruzadas, puras ou deformadas, parece-nos que reside aí uma via para a transcendência e para a sobrevivência das nossas Humanidades, nessa grande "aventura intelectual", como define Angel Rama, em La Aventura Intelectual de Figari , onde diz que

fora dos acertos e erros, é o sentido integro da aventura de um artista o que devemos evocar. (...). Em um pequeno país da América do Sul, um artista tentou a experiência total da arte.Tanto na literatura como na pintura e na crítica de arte, realizou uma obra que manifesta (...) uma vigorosa personalidade, que sustem e vivifica sua obra artística. Ao analisar seus escritos e seus quadros a encontramos na sua plenitude(...) com seu afã clarificador e simplificador, de uma decidida aventura da inteligência. 8

 

Wallace Stevens, poeta em cuja obra também se manifesta a natureza formal e visual da pintura 9 teoriza sobre as relações entre a poesia e a pintura em seu texto intitulado The Relations between Poetry and Painting 10, no qual ressalta a necessidade essencial do homem contemporâneo de estender o olhar para além do restrito e do individual, de perceber as relações. Afirma ele:

 

Poet and painter alike live and work in the midst of a generation that is experiencing essential poverty in spite of fortune. The extension of the mind beyond the range of the mind, the projection of reality beyond reality, the determination to cover the ground, whatever it may be, the determination not to be confined, the recapture of excitement and intensity of interest, the enlargement of the spirit at every time, these are the unities, the relations, to be summarized as paramount now."

 

Poeta e pintor da mesma forma vivem e trabalham em meio a uma geração que experiência uma pobreza essencial, apesar da fortuna. A extensão da mente para além da dimensão da mente, a projeção da realidade para além da realidade, a determinação para percorrer o espaço, seja ele qual for, a determinação de não ser confinado, o resgate do contentamento, a intensidade do interesse, a alargamento do espírito em qualquer tempo, essas são as unidades, as relações a ser resumidas como sendo de "capital importância" no momento, para que possamos nos manter capazes de, como disso Rilke para Paul Klee, "achar tudo inesgotável, sem desgaste da alegria e da tensão do eterno recomeço, sentir-se espaço de passagem por onde a seiva e a respiração transitam" 11, agentes da continuidade, tarefas do pintor, do poeta, do tradutor.

 

 

BIBLIOGRAFIA

BEHAR,L.B. Régarder l écriture. XVI Congress of the ICLA.Workshop 5. Pretoria , 2000.

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72

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-The Relations Between Poetry and Painting . Museum of Modern Art. N.York, 1951.

 

 

CARVALHAL,T.F. Interfaces da Literatura Comparada .in NOLASCO,S.coord. Interfaces e transições. UFMS.2001.pg17

Idem.pg14

The Museum of Modern Art, 1951.New York

BEHAR, Lisa B. de. Visión y División de una misma Mirada.

KLEE,P. Sobre a Arte Moderna.j.Zahar Editores.RIo de Janeiro.2002.Pg53

idem

Referimo-nos aqui ao conceito de deformação de H.Matisse, definido em seu texto Reflexiones Sobre elArte .Emecê, Buenos Aires, 1998.

Rama, A. La Aventura Intelectual de Figari .Ediciones Fabula. Montevideo, 1951. Pg 88. Nossa tradução.

Ver, por exemplo , The Man with a Blue Guitar , Anedocte of a Jar , Sunday Morning , só para citar alguns exemplos.

STEVENS, W. The Relations Between Poetry and Painting. MOMA. N.York. 1951.pg9

KLEE,P.op.cit.