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O Mesmo como o Outro e o Outro como o Mesmo: As Poesias em Francês de Eduardo Guimaraens
Maria Luiza Berwanger da Silva (UFRGS)

Le traducteur est un écrivain d'une singulière originalité, précisement là où il paraît n'en revendiquer acune. Il est le maître secret de la différence des langues, non pas pour l'abolir, mais pour l'utiliser, afin d'éveiller, dans la sienne, par les changements violents ou subtils qu'il lui apporte, une présence de ce qu'il y a de différent, originellement, dans l'original.

(BLANCHOT, Maurice. L'amitié ) 1

 

Sempre que retorno ao texto de Eduardo Guimaraens, surpreendo-me com o aprendizado do novo, com o traço, com o pequeno traço, que, lirismo inesgotável, a voz eduardiana retrai em busca de decifração. Enigma, prazer, eterno retorno e, eis, que o perfil de Eduardo Guimaraens ressurge por entre textos de jornal, poemas, inéditos, bilhetes amorosos, arquivo do poeta, em uma palavra, que se a memória oculta, a página povoada e desfeita de branco transborda às margens, entrelaçando-se à língua do Outro, à expressão francesa particularmente. Entre o poeta, o crítico, o dramaturgo, o periodista, emerge o perfil do tradutor - Eduardo Guimaraens. Comovo-me ao vê-lo (e ao revê-lo, ao mesmo tempo) como se a singularidade de traços entretecidos e revitalizados de seu arquivo velado mesclasse interpessoal e transpessoal, próximo - subjetivo e distante - mundial, insinuando, por sob a diversidade dos caminhos trilhados, o ponto de origem de sua arte. Matriz da plenitude ou plenitude da matriz? Confesso nunca ter percebido em Eduardo Guimaraens essa inclinação ao fausto e à sacralização do cânone. Encantou-o a busca do cosmopolitismo como lugar do imaginário para o qual o mais tênue movimento de migração ou de errância faz-se articular pela paisagem da subjetividade. Já na epígrafe introdutória ao conjunto dos poemas escritos em francês, Eduardo Guimaraens configura a imagem da tradução como prática da Alteridade, nas palavras quando diz: "Pour ce que la langue française cort parmi le monde et est plus delictable à lire et à oir que nulle autre" 2.

Ao extrair do escritor italiano Martino da Canale (século XII) fragmentos em francês, Eduardo Guimaraens desvela para o leitor a busca do efeito de completude que a expressão do Outro lhe concede: agrega ao imaginário do Mesmo modulações musicais que permitem ao poeta-tradutor a teorização do próprio processo da criação literária. E, assim procedendo, antecipa-se Eduardo à inclinação recorrente na Literatura Brasileira (do Simbolismo à Modernidade) da escritura do poema em francês como o fazem, a título de amostragem, Manuel Bandeira e Murilo Mendes, poetas em que a autoreferencialidade expressa na língua do Outro potencializa, inversamente, a identidade do Mesmo.

Imagens-síntese como a do deleite e a da musicalidade da escuta captadas da epígrafe demarcam o projeto de Eduardo Guimaraens de condensar essencialmente na língua francesa as figurações de sua intimidade lírica, como ato em que retraduz o próprio imaginário. (Retraduzir aqui não apenas como itinerário de uma passagem, a de transladar da língua original à estrangeira mas, principalmente, como traço que marca a fabricação do poema pela negatividade e pela palavra ainda por vir figurada pelo título de La Gerbe sans Fleurs ); como se a escritura em francês lhe permitisse vislumbrar os bastidores de sua criação literária ainda em latência gerando-lhe a ilusão de surpreender o nascimento do lírico. Neste sentido, a errância pela língua captada da epígrafe e a ausência da flor no título especificam a paisagem traduzida de Eduardo Guimaraens pelo espaço da distância entre o Mesmo (o poeta sul-riograndense) e o Outro (a Literatura Italiana e o Simbolismo francês), espaço que se a poeticidade da palavra estrangeira concede, a mão que a modula imprime, agregando, ao estranhamento da musicalidade, os acentos primeiros de uma dicção própria que Eduardo Guimaraens aclimata, reinventando.

Vista deste ângulo, a poética da viagem constitui o grão primeiro representativo da textualidade traduzida e que este poeta do sul capta da produção de Charles Baudelaire, em diálogo a meia voz, condensando a complexidade do ato tradutório. Refiro-me à prática articulada por Eduardo Guimaraens com base na relação do simbolismo de viagem com a expressão do sentimento lírico e cuja figura possibilita perceber a tessitura dos fios traduzidos:

Je rêve d'un beau voyage
dont nous rirons au retour!
Il ne sera oas très sage,
Le beau voyage d'amour

...

Vois-tu? La ville de rêve!
La gare aux phares nombreux!
Le soir si doux qui s'achève.
Des blancs palais lumineux.

...

Le théâtre, après. Nous sommes
gourmands des vers et du son.
- Ils te lorgneront, ces hommes?
On nous chantera Mignon.

...

Viens. Partons" -

Nous seronts mieux, seuls, peut-être,
seuls, em regardant le ciel,
seuls les deux, à la fenêtre
d'une chambre d'hôtel. 3

 

Amostragem minimal da produção teórico, crítica e poética, La Gerbe sans fleurs sintetiza a face plural da tradução em Eduardo Guimaraens: sob o "deleite da leitura e da musicalidade", nomeados na epígrafe como traços definidores do gesto de escrever na língua do Outro, a escritura do La Gerbe sans Fleurs evidencia o entrecruzamento do processo criador com a prática tradutória, constituindo este um dos eixos legitimadores da vitalidade inesgotável do texto eduardiano. Temas, mitos, motivos e imaginários, como matéria substancial do pensamento eduardiano, aproximam-se de cores, sons, matizes figurando o corpo sensível da letra com que Eduardo movimenta o ideário da poesia do sul. Dito de outro modo: a escritura do poema Le Beau Voyage de La Gerbe sans Fleurs reinventa o poema L'invitation au voyage de As Flores do Mal de Charles Baudelaire pela ótica do cotidiano em imagem que antecipa a estética modernista brasileira calcada sobre a efabulação de Vou me embora pra Pasárgada de Manuel Bandeira. Neste sentido, o exercício duplo de produzir poemas em francês versando sobre a poética da viagem e de, paralalelamente, traduzi-los de As Flores do Mal , transparece na constelação que remete ao projeto mais amplo da disseminação da poesia francesa na poesia brasileira intermediada pela tradução (haja vista a prática tradutória vasta e volumosa de poetas franceses efetuada por Eduardo Guimaraens e ainda inédita). Deste modo, captada homenagem confessa e inconfessa que dedica à Baudelaire em A Divina Quimera , a leitura de conjunto da obra de Eduardo Guimaraens concentra no poeta de As Flores do Mal a matriz do lirismo eduardiano, em que literatura, estética e cultura gravam, na imagem da errância extraída do poeta francês, a consciência do espaço vasto e a do tempo infinito.

Compõe e recompõe este arquivo múltiplo e interdisciplinar o pulsar do subjetivo e do confessional como perspectivas recorrentes de La Gerbe sans Fleurs e que traçam a fisionomia do sujeito tradutor da intersecção de campos artísticos de versos aproximados pelo discurso amoroso como figura da poesia. Assim, pois, travestido pela força da linguagem, nos poemas escritos em francês, o sujeito-tradutor capta do simbolismo do "coffre" (no poema Offrande , p. 251):

Ce livre
je vous l'offre, avec mon coeur.
Il est, vous le savez, le petit, le tout petit coffre
d'amour où j'ai gardé, comme des fleurs déjà vieillies,
un bouquet de striphes cueillies
au beau verger de mon Bonheur. 4,

 

o efeito poético da condensação, do mesmo modo que fixa em Éventail o ritmo da expansão poética, expansão mediada pelo diálogo da literatura com outras artes:

Doucement... Doucement,
comme quelqu'un qui chante
et qui pleure,
le piano se tait: et c'est un grand silence.
...
Entendez-vous le "Claire de Lune",
de Beethoven?
Sur les meubles d'or de la salle,
des roses s'effeuillent, une à une.
Leur pâle et douloureux parfum s'exale:
on souffre d'un mal de langueur!

Ô n'entendez-vous pas la plainte
du "Claire de Lune"?
La douce plainte au claire de lune
de mon coeur! 5

 

No fundo, negatividade, ausência e efeitos poéticos tais como o da retração do "coffre" e o da irradiação do "éventail" dimensionam para o leitor-tradutor a profunda relação entre espaço interno e externo, distância percorrida pelo ato tradutório que condensa a intimidade do texto eduardiano no simbolismo da voz poética.

Vista deste ângulo, a figura da tradução como "mode d'écoute auquel le signe nous a rendus sourds" em Poétique du Traduire 6 de Henri Meschonnic demarca a presença do sujeito e a tonalidade múltipla que imprime no texto traduzido pelo ritmo. Arquivo de modulações do sujeito, o ritmo permite a escuta do contínuo (da língua à literatura, do discurso à cultura, da linguagem à história), especificando que "Plus le traducteur s'inscrit comme sujet dans la traduction, plus, paradoxalement, traduire peut continuer le texte. C'est à dire, dans um autre temps et une autre langue, en faire un texte" 7

"Mode d'écoute" em Meschonnic, a tradução rememora a imagem da "oreille de l'intime", emergente da tradução das Bucólicas de Ovídio por Paul Valéry em diálogo que vincula a intimidade da escuta à "sensation du poète au travail" 8, concedendo, ao poeta-tradutor e ao crítico da tradução, o prazer de surpreender o poema em estado nascente". Explicitado pela relação: ato de escrever / ato de traduzir, o itinerário proposto por Valéry evidencia a imagem da tradução como "forma", como incessante retecer do sujeito, do texto e da subjetividade, forma na qual tradutor e textualidade traduzida reinventam-se harmoniosamente. "Ni passeur ... ni passant", diz Jacques Derrida; como se a pintura do retrato captado da identidade plural e vasta restituisse ao tradutor a certeza de haver atenuado a imagem da "Babel intraduisible" 9. Na reflexão de Derrida, o ato tradutório como jogo simbólico entre Harpa Eólica (figura da migração) e Ânfora (figura do vaso como recepção da diversidade), sublinha a prática de transposição poética operada pelo tradutor com vistas a expandir, reconciliando, o simbólico das línguas confrontadas. ("deux langues comme les deux parties dans tout plus grand").

No fundo, o diálogo das vozes teórico-críticas francesas, com base na revisitação do arquivo poético de um autor e de um texto, revisa o lugar da tradução na Literatura Comparada, hoje: relocaliza-a no espaço do Neutro desenhado por Roland Barthes, no qual a reflexão sobre distinção e indistinção da língua, nas notas às aulas no Collège de France (1977-1978), sugere o diálogo produtivo entre tradução, alteridade e autoreferencialidade.

Território do imaginário de todas as línguas, mas, paradoxalmente, Babel inapreensível, recomposta pelo Neutro, a tradução explicita, condensando, o desejo da subjetividade eduardiana de buscar a língua do Outro como forma de nomear o lírico: ao atravessar séculos, espaços e temporalidades estrangeiras, Eduardo Guimaraens grava, em sua paisagem poética, o efeito da neutralidade, na qual mesclados, imaginários e palavras retornam-lhe sob forma poética de transcriação; "transluciferação", sopra Haroldo de Campos em voz que, ao fixar na figura do Outro, o grão seminal da prática tradutória vista como reinvenção e, ao ajustar a teoria da tradução às modulações da presença estrangeira, decifra o desenho da escritura dos poemas franceses de Eduardo Guimaraens. Sob o gesto da homenagem que este simbolista gaúcho presta à Literatura Francesa, através da Literatura Italiana, La Gerbe sans Fleurs converte a melancolia da viagem baudelairiana em alegria da dissipação. Plenitude do arco-íris branco, na voz de Haroldo de Campos, escritura do grau zero e do neutro em Roland Barthes, os limites entre literaturas, regiões e subjetividades entrelaçados instalam o leitor no espaço maior da retradução da Vida pelo prazer do verso lúcido e autoreferencial. "Rosas de França" nomeia singularmente Eduardo Guimaraens seus poemas traduzidos de que a figura teórica, crítica e poética desenhada por La Gerbe sans Fleurs faz-se a representação mais exemplar. Neste sentido, se as poesias publicadas em A Divina Quimera tecem pela poética da passagem, a composição de uma memória residual, da paisagem que retém o aprendizado do sentimento lírico, poética da travessia redesenhada pela língua do Outro, a escritura dos poemas em francês confere completude simbólica à atividade tradutória de Eduardo Guimaraens. "Perfeito homem de Letras", para quem "traduzir era reviver a obra dos outros ... vencendo quase essa incomunicabilidade das línguas que separa rigorosamente as literaturas", assim o configura o poeta modernista Augusto Meyer em discurso de homenagem, quando da inauguração do retrato de Eduardo Guimaraens na Biblioteca Pública do Rio Grande do Sul (14/12/1929), o que corresponde a condensar, no ato tradutório, o lugar de irradiação e de síntese da poética deste simbolista maior. Eterna revivessência captada do diálogo da Alteridade com o autoconfessional, a tradução em Eduardo Guimaraens mascara, sob a ilusão do uno e do monolingüismo, a certeza da pluralidade compartilhada. Ressimbolizadas pela voz da viagem, modulações poéticas e harmoniosas asseguram a Eduardo Guimaraens o ingresso na comunidade simbólica mundial dos poetas tradutores: "Farei desta minha boca sem arte a concha marulhosa na qual se ouça a voz da pátria, pequena a concha, o mar vasto", versos de A Divina Quimera que, projetados sobre Dispersos 10- "Ouve! É Beethoven. Sente: um infinito de alma eu se faz rythmo! E eis que eu, a sós commigo, absorto e pallido, acredito que se enchera de música o Infinito, só com a tua voz!" colhem da melodia de La Gerbe sans Fleurs a plenitude da voz eduardiana, sublimada. Consolidam o perfil do tradutor redesenhado por Maurice Blanchot, com base no jogo simbólico entre mito de origem e original ressimbolizados, expandindo o imaginário das línguas pelo diálogo com a Alteridade, do mesmo modo que legitimam o gesto duplo do poeta-tradutor e do tradutor-poeta Eduardo Guimaraens em traços que se agregam ao retrato definitivo desta figura plural. Assim, pois, com La Gerbe sans Fleurs , Eduardo Guimaraens retraça o itinerário da poesia do sul.

 

BLANCHOT, Maurice, L'amitié . Paris: Éditions Gallimard, 1971, p.71

GUIMARAENS, Eduardo. A Divina Quimera. Porto Alegre: Globo, 1944, p.249

GUIMARAENS, Eduardo, A Divina Quimera . Porto Alegre: Globo, 1944, p. 252

GUIMARAENS, Eduardo, A Divina Quimera . Porto Alegre: Globo, 1944, p. 249

GUIMARAENS, Eduardo, A Divina Quimera . Porto Alegre: Globo, 1944, p. 260

MESCHONNIC, Henri, Poétique du Traduire. Paris: Verdier, 1999, p. 24

MESCHONNIC, Henri, Poétique du Traduire. Paris: Verdier, 1999, pp. 26-27

VALÉRY, Paul, Oeuvres . Paris: Gallimard, 1957, p.214

DERRIDA, Jacques, Psyché (Inventions de l'autre ). Paris: Galilée, 1987, p.219.

DA SILVA, Maria Luiza Berwanger (org), Dispersos de Eduardo Guimaraens . Porto Alegre: Libretos, 2002, p. 48.