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O pensamento teórico de Haroldo de Campos numa entrevista imaginada
Lúcia Sá Rebello (UFRGS)
2000
(...)
"aquilo que já foi /
é aquilo que será //
e aquilo que será //
e aquilo que foi feito //
aquilo /
se fará ///
e não há nada de novo /
sob o sol" -
prossegue o-que-sabe
por entre as névoas
do nada
(...)
Haroldo de Campos 1
A perda de Haroldo de Campos interrompeu uma produção que seguramente ainda viria a enriquecer o nosso pensamento crítico e teórico.
Felizmente, a obra que nos deixou já se constitui num acervo considerável e de grande importância para as reflexões sobre a literatura em geral e sobre a tradução em particular.
Com o intuito de resgatar algumas de suas idéias fundamentais, imaginei uma entrevista que não ocorreu, mas que poderia ter acontecido. O pensamento expresso em suas obras permite, ainda, que se recupere, através de suas idéias centrais, a proposta teórica que nos legou.
LSR - Havíamos combinado que, nesta entrevista, conversaríamos sobre tradução, mas não posso deixar passar a oportunidade de ouvi-lo falar da poesia concreta, movimento literário que "sacudiu" o cenário da cultura brasileira nos anos 50. Qual seria, do seu ponto de vista, a melhor definição para esse movimento?
HC - A melhor e mais sintética definição de "poesia concreta" (correspondente à fase "geométrica" ou, como se pode reconhecer a posteriori , "minimalista" do movimento, aquela que traduz na prática as propostas do plano-piloto de 58) é a formulada por Octavio Paz em Transblanco (Siciliano, págs. 110-111): "Os senhores descobriram - ou inventaram - uma verdadeira topologia poética. À parte dessa função de exploração e invenção, a poesia concreta é por si mesma uma crítica do pensamento discursivo e, assim, uma crítica de nossa civilização. Essa crítica é exemplar. (...) A negação do discurso pelo discurso é talvez o que define toda a grande poesia do Ocidente, desde Mallarmé até nossos dias. (...) A poesia moderna é a dis-persão do curso: um novo dis-curso . A poesia concreta é o fim desse curso e o grande re-curso contra esse fim". A "poesia concreta" é o caso-limite da poética da modernidade. Isto não implica uma consideração axiológica (um juízo de valor), mas um critério histórico-literário, de evolução crítica de formas. Há poemas concretos de primeira linha, como também há diluições frouxamente concretas, tanto no Brasil quanto nos vários países para os quais o movimento se exportou. 2
LSR - Como pode ser explicado o termo "plano-piloto"?
HC - Os poetas concretos teorizaram a sua prática e com ela aprenderam. À falta de críticos aptos a compreendê-los, tiveram de produzir a metalinguagem necessária ao seu entendimento. Por outro lado, um manifesto é um elenco de pressupostos que a prática ora ratifica, ora retifica, não uma tábua de dogmas... Assim, para nós, no tempo, o "plano-piloto" (síntese do que pensamos e escrevemos a respeito do futuro da poesia de 1950 àquela data - veja-se a Teoria da Poesia Concreta , 1965) foi-se desdobrando na prática e sendo por ela criticado, num movimento dialético, que nos levou, a cada um de nós, com as diferenças respectivas, às etapas posteriores de nosso trabalho poético, até o dia de hoje. Aprendemos de nós mesmos, não da miséria da crítica... 3
LSR - Comecemos, então, a falar de seu trabalho posterior e sobre tradução. Admitida a tese da impossibilidade da tradução de textos criativos, em suas palavras, esta engendra a possibilidade de recriação desses textos. Do seu ponto de vista, como se configura a tradução de textos criativos?
HC - Então, para nós, tradução de textos criativos será sempre recriação , ou criação paralela, autônoma porém recíproca. Quanto mais inçado de dificuldades esse texto, mais recriável, mais sedutor enquanto possibilidade aberta de recriação. Numa tradução dessa natureza, não se traduz apenas significado, traduz-se o próprio signo , ou seja, sua fisicalidade, sua materialidade mesma (...). O significado, o parâmetro semântico, será apenas e tão-somente a baliza demarcatória do lugar da empresa recriadora. Está-se pois no avesso da chamada tradução literal. 4
LSR - Pode-se conceber a tradução como uma atividade intimamente ligada à interpretação e à leitura?
HC - A tradução de poesia (ou prosa que a ela equivalha em problematicidade) é antes de tudo uma vivência interior do mundo e da técnica do traduzido. Como que se desmonta e se remonta a máquina da criação, aquela fragílima beleza aparentemente intangível que nos oferece o produto acabado numa língua estranha. E que, no entanto, se revela suscetível de uma vivissecção implacável, que lhe revolve as entranhas, para trazê-la novamente à luz num corpo lingüístico diverso. Por isso mesmo a tradução é crítica. Os móveis primeiros do tradutor, quer seja também poeta ou prosador, são a configuração de uma tradição ativa (daí não ser indiferente a escolha do texto a traduzir, mas sempre extremamente reveladora), um exercício de intelecção, e, através dele, uma operação de crítica ao vivo. 5
LSR - Pode-se afirmar que a tradução, enquanto forma privilegiada de leitura crítica, ajuda a compreender a estética da poesia?
HC - Ora, nenhum trabalho teórico sobre problemas de poesia, nenhuma estética da poesia será válida como pedagogia ativa se não exibir imediatamente os materiais a que se refere, os padrões criativos (textos) que tem em mira. Se a tradução é uma forma privilegiada de leitura crítica, será através dela que se poderão conduzir outros poetas, amadores e estudantes de literatura à penetração no âmago do texto artístico, nos seus mecanismos e engrenagens mais íntimos. A estética da poesia é um tipo de metalinguagem cujo valor real só se pode aferir em relação à linguagem-objeto (o poema, o texto criativo enfim) sobre o qual discorre. 6
LSR - Na tradução de um poema, o essencial não é a reconstituição da mensagem. Como entender essa sua afirmação?
HC - Na tradução de um poema, o essencial não é a reconstituição da mensagem, mas a reconstituição do sistema de signos em que está incorporada esta mensagem, da informação estética , não da informação meramente semântica. Por isso sustenta Walter Benjamin que a má tradução (de uma obra de arte verbal, entenda-se) caracteriza-se por ser a simples transmissão da mensagem do original, ou seja: "a transmissão inexata de um conteúdo inessencial". Goethe, nas "Notas" citadas por Benjamin, soube compreender muito profundamente, do ponto de vista teórico, este problema, tanto assim que admite a existência de três tipos de tradução e descreve o supremo e último estágio como aquele no qual se desejaria tornar a tradução idêntica ao original, de modo que aquela não apenas fizesse aproximativamente as vezes deste, mas lhe assumisse o próprio lugar. Não lhe escapa também o efeito de "estranhamento", por assim dizer, que ocorre nesta fase, quando o tradutor alarga as fronteiras de sua língua e subverte-lhe os dogmas ao influxo da sintaxe e da morfologia estrangeiras (...). 7
LSR - Benjamin diz que a tradução, como a filosofia, não tem Musa. O senhor diz que, se ela não tem Musa, tem um Anjo. Um Anjo?
HC - De fato, no entender do próprio W. Benjamin, cabe à tradução uma função angelical, de portadora, de mensageira (compreendida esta na acepção etimológica do termo grego ángelos , do hebraico mal'akh ): a tradução anuncia, para a língua do original, a miragem mallarmaica da língua pura; ela é mesmo, para o original, a única possibilidade de entrevisão dessa língua pura: - ponto messiânico (ou, em termos laicos da moderna teoria dos signos, - lugar semiótico) de convergência da intencionalidade (...) de todas as línguas, que assinalam entre elas, ao nível desse telos desocultado graças ao peculiar "modo de re-produção" que é a tradução, uma "afinidade eletiva", independente de todo o parentesco etimológico ou histórico. Por isso mesmo, por mais um rasgo paradoxal de sua teoria do traduzir, W. Benjamin inverte a relação de servitude que, via de regra, afeta as concepções ingênuas da tradução como tributo de fidelidade (a chamada tradução literal ao sentido, ou, simplesmente, tradução "servil"), concepções segundo as quais a tradução está ancilarmente encadeada à transmissão do conteúdo do original. 8
LSR - Traduções mediadoras, traduções medianas, transcriação. Gostaria de ouvi-lo falar sobre isso.
HC - (...) as traduções comuns, "naturais" , destituídas de um projeto estético radical são geralmente de dois tipos: ou se trata de traduções simplesmente mediadoras , que outra coisa não visam senão à útil tarefa de auxiliar a leitura do original, como uma espécie de dicionário portátil ou léxico arrazoado ad hoc ; ou se trata de traduções medianas , que procuram intermediar de maneira média (como dizia Maiakóvski de certa crítica), guardando da aspiração estética apenas as marcas externas de um dado esforço de versificação (a medida métrica) e de um deliberado empenho rímico (a rima terminal, consoante). De qualquer modo, se o poeta-tradutor em seu estoque mobilizável de formas significantes, não estiver ao nível curricular da melhor e mais avançada poesia do seu tempo, não poderá reconfigurar, síncrono-diacronicamente, a melhor poesia do passado. Contribuições meritórias nesse campo, avaliáveis positivamente como obras de aturado labor, devoção, erudição e paciência, não podem elidir essa questão fundamental, que diz respeito à metafísica do traduzir: a "diferença ontológica", por assim falar, que aparta, categorialmente, toda tradução-mediação (embora sob parâmetros extrinsecamente "estéticos") e a operação radical de tradução que designo por transcriação. 9
LSR - O senhor afirma que, como ato crítico, a tradução poética não é uma atividade neutra, supõe uma escolha. Que tipo de escolha ou escolhas?
HC - (...) pelo menos segundo a concebo [a tradução] - supõe uma escolha, orientada por um projeto de leitura, a partir do presente de criação, do "passado de cultura". É um dispositivo de atuação e atualização da "poética sincrônica". Assim é que só me proponho a traduzir aquilo que para mim releva em termos de um projeto (que não é apenas meu) de militância cultural. De Pound a Maiakovski, de Joyce a Mallarmé, de Dante a Goethe - para dar apenas estes exemplos - esse projeto vem-se desenvolvendo no tempo como trabalho individual ou em equipe (...). Implicou, inclusive, uma cunhagem neológica de termos "especificadores": recriação, transcriação, reimaginação (caso da poesia clássica chinesa), transparadisação ou transluminação ( Seis Cantos do Paradiso de Dante) e transluciferação mefistofáustica (Cenas Finais do Segundo Fausto de Goethe). 10
LSR - Transblanco e a prática tradutória de transcriação. Fale-nos sobre esse trabalho.
HC - Resumi minha postura em face dessa operação tradutora que chamei Transblanco com as seguintes palavras: "Numa tradução como esta, que se passa entre línguas tão próximas e aparentemente solidárias como o espanhol e o português, os avatares obsessivos do mesmo se deixam, não obstante, a cada momento, assaltar pelos azares pervasivos da diferença. No interpontuar micrológico dessas di-vergências (sobre a pauta do convergente - jogo de palavras tão caro ao poeta de Blanco ), é que pulsa, passional, para além da abulia resignada da tradução servil, pretendidamente inócua", monológico-literal, a vocação dialógico-transgressora de toda tradução que se proponha responder a um texto radical entrando no seu jogo também pela raiz: arraigando-se nele e desarraigando-o num mesmo movimento de amorosa duplicidade". 11
LSR - Suas palavras remetem imediatamente ao Qohélet . Como o tradutor pode proporcionar ao leitor conhecimento do aspecto formal de uma língua estranha/estrangeira? Como conservar e explorar as diferenças entre as diferentes línguas?
HC - [No Qohélet], de minha parte, procurei, sempre que possível, observar o princípio de equivalência no plano lexical. Deixei-me livre, porém, para atender com certa flutuação, onde necessário, às injunções do texto de minha "transcriação" em português, sempre que o âmbito fonossemântico de minha língua me fosse propício e me sugerisse uma alternativa pertinente e poeticamente mais eficaz, no sentido poundiano da operação poética (...). Nesse sentido, tendencialmente, intentei "hebraizar' o português. No sentido de Goethe (do "terceiro e supremo e estágio" da tradução) e de Rudolf Pannwitz ("O erro fundamental do tradutor é fixar-se no estágio em que, por acaso, se encontra sua língua, em lugar de submetê-la ao impulso violento da língua estrangeira"). 12
Paz afirma: "Cada texto é único e, simultaneamente, é a tradução de outro texto. Nenhum texto é inteiramente original porque a linguagem mesma, em sua essência, é já uma tradução". E acrescenta, jogando com o parente paradoxo: "Mas este raciocínio pode inverter-se sem perder sua validade: todos os textos são originais, porque cada tradução é distinta. Cada tradução é, até certo ponto, uma invenção e assim constitui um texto único". 13
LSR - Caro Professor Haroldo, a mim, resta agradecer-lhe pelo passaporte para todas as leituras e para as infinitas descobertas proporcionadas pelas suas traduções. Para todos que sempre o admiraram, o senhor será sempre O-que-fica.
Obrigada.
Porto Alegre, 19 de julho de 2004
Notas
1 In: http://www.secrel.com.br/jpoesia/hcampos.html
2 CONCRETISMO. Movimento concretista dividiu a intelectualidade brasileira. Trabalho realizado pela equipe de Redação do Caderno Mais! Folha de São Paulo , 08.12.96. http://www.secrel.com.br/jpoesia/har02.html . Capturado na internet em 12/07/2004
3 Idem, ibidem.
4 CAMPOS, Haroldo. Metalinguagem & outras metas . São Paulo: Perspectiva, 1992. p. 35
5 Idem, p. 43-44.
6 Idem, p. 46.
7 CAMPOS, Haroldo. A arte no horizonte do provável . São Paulo: Perspectiva, 1977. p. 100.
8 CAMPOS, Haroldo. Deus e o diabo no Fausto de Goethe . São Paulo: Perspectiva, 1981. p. 179.
9 Idem, p. 184-185.
10 CAMPOS, Haroldo. Reflexões sobre a transcriação de Blanco , de Octavio Paz, com um excurso sobre a teoria da tradução do poeta mexicano. In: 1º Seminário Latino-Americano de Literatura Comparada . Porto Alegre: UFRGS, 1987. p. 64-65.
11 CAMPOS, Haroldo. Reflexões sobre a transcriação de Blanco , de Octavio Paz, com um excurso sobre a teoria da tradução do poeta mexicano. In: 1º Seminário Latino-Americano de Literatura Comparada. Porto Alegre: UFRGS, 1987. p. 65.
12 CAMPOS, Haroldo. Qohélet / o-que-sabe .São Paulo: Perspectiva, 1990. p. 31-32
13 CAMPOS, Haroldo. Reflexões sobre a transcriação de Blanco , de Octavio Paz, com um excurso sobre a teoria da tradução do poeta mexicano. In: 1º Seminário Latino-Americano de Literatura Comparada . Porto Alegre: UFRGS, 1987. p. 65-66.