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Retroprojeções: Vanguarda Concretista e História Literária
Jussara Menezes Quadros (Princeton University)

As traduções de Cantares de Ezra Pound pelos poetas concretistas, publicadas em 1960, e a assimilação das formulações críticas poundianas ao programa teórico do grupo Noigandres, desde que este se articula como movimento em 1952, foram também fatores que convergiram fortemente na reabilitação da obra poética de Joaquim de Sousândrade (1837-1904). A máscara tutelar de Pound acompanharia a reemergência daquele que fora até então um poeta negligenciado do século XIX, de tal modo que a publicação da Re-Visão de Sousândrade, em 1964, acabaria por apresentar-se tanto como modelo de uma "abordagem sincrônica do passado literário brasileiro", quanto como um documento do alinhamento crítico do concretismo à via poética poundiana.

Se a obra de Sousândrade pôde assim retornar para um tempo que não era o seu, e se ver incorporada à uma poética de vanguarda, isto se deu no momento mesmo em que o próprio Concretismo construía ativamente sua entrada no âmbito da tradição. "traduzir e.p . é vincular-se a uma tradição" 1 , declarava Haroldo de Campos, em posfácio ao volume dos Cantares traduzidos em 1960 onde, baixo o título "tradução tradição", enfeixavam-se as formulações sintéticas de uma ars tradutoria que já se encontrava em curso, postulada como um claro vetor estratégico, e melhor apreciável se considerarmos o efeito concentrado das publicações, quase conjuntas, dos 17 Cantos de Ezra Pound, da tradução de Augusto de Campos dos 10 POEMAS de e. e. cummings também em 1960, e dos 11 fragmentos do Finnegans Wake , de Joyce em 1962. 2O alto teor programático de tal elenco de escolhas, e seus desdobramentos numa poética da tradução, encontrariam sua conceitualização, fortemente apoiada nas idéias de Pound, em "Da Tradução como Criação e como Crítica", ensaio de Haroldo de Campos daquele mesmo ano de 1962. 3

Defendida como importante terreno poético-experimental, (pouco mais tarde, no prefácio a Traduzir & Trovar (1967), Augusto de Campos recorrerá à imagem do "canteiro de obras" para se referir a ela), a tradução ganha em valor estimável, e seu papel superdimensiona-se, à medida dos problemas poéticos que é capaz de suscitar, ao mesmo tempo que serve a desvelá-los. Se a tradução poética é tudo menos uma questão de mero conhecimento das línguas, também é certo que para o Concretismo é no espaço de maior resistência e obstáculo, no limiar do intraduzível, que se pode, por sua vez, pôr à prova o limite de radicalidade de invenção poética, sendo deste mesmo espaço que a tradução se alça à sua autonomia.

Autonomia da tradução e vínculo com a tradição são proposições que parecem sugerir aspectos contraditórios do Concretismo enquanto vanguarda. Elas apontam para o momento, e o instrumento (a tradução), de incorporação de um cânone associado ao alto-modernismo, tomado em sua vertente mais francamente experimentalista (Pound, Joyce). Mas também, o vínculo com o alto-modernismo anglo-americano iria centrar-se, sobretudo, na posição paradigmática de Ezra Pound frente à tradição poética européia. Posição singularmente paradoxal por promover um corpus carregado de um sentido acentuado de hierarquia e reverência ao passado, o "classicismo" e medievalismo de Pound, seu tributo ao legado de Dante, o fascínio para com o Renascimento e para com culturas de forte apogeu no passado e, ao mesmo tempo, em contrapartida, por levar a cabo a transfiguração radical desse mesmo corpus no interior da complexa estrutura dos Cantos. Fragmentação e magnitude épica, técnicas de corte e montagem executadas sobre uma heterogeneidade de materiais poéticos e extraliterários, o metodo ideogrâmico e a abertura às poéticas não-ocidentais, as não menos de quinze diferentes línguas usadas nos Cantos , citadas, traduzidas e transcritas, dão uma medida do descentramento e das articulações inusitadas e múltiplas a que Pound conduzira a tradição.

Quando se considera o caráter internacional do Concretismo em seu momento de emergência, sobressaem-se os vínculos com a herança da Bauhaus, o experimentalismo da vanguarda suíça, a poesia concreta de Eugen Gomringer, as idéias voltadas para a semiótica de Max Bense, o contexto das artes e o espaço das exposições. Mas aqui interessa-me focalizar como a antecedência do vínculo com Ezra Pound e sua poética ativou-se numa circunstância de intenso debate internacional acerca de sua poesia e do próprio destino pessoal do poeta. A polêmica concessão do Prêmio Bollingen de Poesia a Pound, em 1949, por seus The Pisan Cantos/ Cantos Pisanos, havia gerado tantas controvérsias quanto servira para provocar uma mobilização mundial por sua libertação do St. Elizabeth's Hospital, em Washington, um asilo mental para criminosos onde ele fora confinado após a guerra. Acusado de traição em 1943 pela série de programas de rádio que realizara na Itália em apoio ao fascismo, e sem que chegasse a ser julgado após sua prisão em 1945, ele fora declarado mentalmente incapaz, o que significava o risco de que fosse permanecer indefinidamente num manicômio. Ezra Pound ainda se encontrava, assim, no St. Elizabeth's Hospital, em 1953, quando Haroldo, Augusto de Campos e Décio Pignatari lhe enviam o primeiro número da revista NOIGANDRES, iniciando uma correspondência com o poeta americano que representava, àquela altura, uma adesão do grupo à campanha em curso para libertá-lo. 4 O prêmio Bollingen, poucos anos antes, garantira uma brecha aos que viam o aprisionamento de Pound como uma punição excessiva e injustificada, entre os quais se encontravam não apenas amigos que haviam sofrido a influência de suas idéias de vanguarda já nas primeiras décadas do século, como T. S. Eliot, William Carlos Williams e Marianne Moore, mas poetas mais jovens que logo reivindicariam seu legado como o Objetivista Louis Zukofsky, e ainda aqueles como Auden e Robert Lowell, que haviam se empenhado diretamente em favor de sua premiação em 1949. O "caso Pound" era assim ainda matéria suficientemente candente, quando o Grupo Noigandres iniciou seus contatos com o poeta em 1953, e os que o defendiam precisavam se defrontar, de alguma maneira, com a ingenuidade catastrófica de Pound como ideólogo, o que obscurecera naqueles anos a dignidade de sua figura e a importância inequívoca de sua obra.

Na revista The Pound's Newsletter , em 1954, Haroldo e Augusto de Campos, argumentariam, neste sentido:

"Importa, realmente, que Pound - político - tenha malogrado na busca de uma solução concreta para a sociedade moderna, que dramaticamente vislumbrara cancerada pelo pecado "contra naturam": a usura? Cremos que não. 'A política - observa com alguma nostalgia um dos críticos do poeta - é uma atividade heróica justamente porque, quase por definição, está destinada ao fracasso.' E a particular posição de Pound, fundada no estudo da economia antiga e medieval e, sob certos aspectos, na revisão de teorias como a douglasista e a gesselista, como o apoio de uma "sui generis" interpretação da história, parecendo, talvez, culminar na criação de uma nova utopia, não é suscetível, finalmente, de ser julgada por slogans". 5

Augusto de Campos voltaria a referir-se a esses slogans (e explicitá-los), em 1965, desta vez no Cahier de L'Herne dedicado a Pound, onde recapitularia os passos do engajamento crítico do Concretismo em favor de Pound. Ainda que os concretistas, escrevia ele, "não estivessem de acordo com as opiniões políticas de Pound, eles empreenderam a reabilitação literária do poeta americano, em tempos onde o uso apressado dos slogans de "traidor" e de "fascismo", serviam de pretexto para que sua poesia se visse recusada por toda parte e passada sob silêncio em seu próprio país". 6

Tal silenciamento, apontado por Augusto de Campos, ainda que verdadeiramente existente, não chegou a impedir que, em contraposição à sua ameaça, este mesmo período fosse marcado por uma surpreendente revitalização de sua poesia. Pound, preso, continuava extraordinariamente ativo como poeta. E as traduções de alguns de seus cantos feitas por Augusto, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, já em 1953-1954, reunidas em livro em 1960, (as primeiras versões, mais tarde aprimoradas, dos Cantos XLV "Com Usura" e do Canto III, apareceriam em números da Pound's Newsletter de 1954, boletim informativo publicado por John Edwards, da Universidade de Berkeley), estas traduções eram tudo menos um ato isolado: traduções dos Cantos , em várias línguas, estavam então sendo realizadas simultaneamente, motivadas pela campanha para libertar o poeta, por um lado, mas, principalmente, e este é um ponto capital, pelo fato de que, pela primeira vez, com a publicação de The Cantos , pela New Directions, em 1948, uma edição completa dos cantos escritos até aquela data se tornara acessível.

Pound começara a escrevê-los em 1917 e, como um notável work in progress, a sua composição acompanharia o transcurso de toda sua vida, no entanto, até àquela altura do pós-guerra, suas publicações permaneciam dispersas em revistas de circulação restrita e em edições já raras e há muito esgotadas, o que também sucedera com seus ensaios críticos. A edição de 1948 finalmente reuniria na íntegra os Cantos I-LXXI, sendo publicados em 1949 os Cantos Pisanos, ( Cantos 74 a 84) e, a seguir, em 1955 e 1957, respectivamente, a sequência dos Cantos 85-95, a chamada Section Rock-drill de los cantares , e os Thrones 96-109 de los cantares . Os últimos Cantos, Cantos LXXII a CXVII, sairão à luz em 1969. Some-se a isto, a coletânea organizada por Hugh Kenner, em 1953, reunindo as principais traduções do próprio Pound, junto a seus notáveis estudos da lírica provençal e da poesia chinesa clássica e, em 1957, um ano antes do poeta ser enfim libertado do St. Elizabeth's Hospital, a publicação de seus Literary Essays , seleção de ensaios críticos de Pound dos anos 20 e 30 organizada e prefaciada por T. S. Eliot, que seria acolhida como um guia indispensável para a formação crítica da geração de poetas que se seguia ao pós-guerra. O mesmo podendo ser dito de ABC of Reading, obra igualmente dos anos 30, que provocaria muito maior impacto a partir de sua reedição em 1958.

Isto dá a dimensão do explosivo material crítico e poético que se via reposto em circulação naqueles anos, e que suscitaria ainda o notável brilho interpretativo de críticos novos, como Hugh Kenner. O livro de Kenner, Erza Pound, The Art of Poetry , de 1950 foi uma fonte teórica evidente das primeiras orientações teórico-críticas do grupo concretista brasileiro. O poeta e crítico Mário Faustino, que não aderira ao Concretismo, divulgaria a pedagogia poética de Pound através das páginas do Jornal do Brasil, de 1956 a 1958, tendo sido um exímio tradutor da primeira poesia de Pound, aquela das Personae . O diálogo do Concretismo com a efervescência da "questão Poundiana", e com a extraordinária renovação de seus postulados seria fundamental naqueles anos, a tradução dos 17 Cantares concluída em 1960, sendo apenas parte desta verdadeira filiação poético-crítica, que se constituiu na influência mais profícua e duradoura a ser assimilada pelo Concretismo como movimento.

Escrevendo nos Cahiers de L'Herne dedicado a Ezra Pound em 1965, Augusto de Campos, no ensaio "Pound Made (new) in Brazil", ressaltava o quanto os poetas concretistas haviam sido os que melhor souberam, no Brasil, não apenas penetrar em profundidade na obra poundiana, mas extrair dela conseqüências importantissimas para seu movimento, notadamente aquelas de maior radicalidade formal. Além disto, a obra de Pound, ao exigir o levantamento de um "inventário de inventores", também motivara novas reflexões sobre "a evolução da poesia brasileira". Como assinalava Augusto de Campos:

"Uma outra consequência das instigações do método ideogrâmico aplicado à crítica, no que concerne à literatura brasileira, é a revisão que se começa a fazer de sua história, sob a base do critério poundiano de invenção. O primeiro fruto dessa tomada de posição foi a redescoberta do poeta Joaquim de Sousândrade, cuja obra, não reeditada se encontrava dispersa em disjecta membra nas bibliotecas do país." 7

 

Em "Evolução de Formas: Poesia Concreta" (1957), Haroldo de Campos, por referência ao modelo do paideuma poundiano, já havia definido a tarefa, para o Concretismo, de "fixar um elenco de autores básicos". 8Também na noção de "salto crítico", tão programática quanto impregnada do otimismo dos anos desenvolvimentistas, o intento de ruptura, ao mesmo tempo que buscava projetar um futuro para a poesia de vanguarda, serviria à montagem retrospectiva de sua tradição:

"A poesia de vanguarda brasileira teve uma característica específica: ela não apenas propôs um paideuma, ou seja, um conjunto de autores básicos para a produção da poesia nova, mas também uma revisão do passado, do ponto de vista sincrônico, a partir deste paideuma. O que permitiu a essa poesia redescobrir, por exemplo, Sousândrade, que era praticamente ignorado por nossos historiadores literários, e rever Oswald de Andrade, que estava silenciado por uma campanha de descrédito...Assim, a poesia concreta tomou estas atitudes radicais em relação à programação do futuro, ou seja, do que seria a nova poesia e a revisão do passado, inclusive do passado mais imediato, que seria o passado dos modernistas." 9

 

A radicalidade residiria no princípio de corte, o corte paidêumico preconizado por Ezra Pound, que permitia "levantar uma tradição por "separação drástica", isto é, aquela que arranca um elenco de autores capazes de serem culturalmente atuantes no momento histórico presente, aqueles deixados - "à margem da história literária", que se revelariam, ao contrário, autores de "eficácia imediata e urgente".

Estas idéias continham o evidente propósito de desembaraçar-se de uma noção extensiva, por assim dizer, e historicista da tradição, e substituí-la por formas sintéticas (e sincrônicas) de apropriação crítica e seletiva da literatura do passado. Em Ezra Pound, elas partiram de uma reelaboração para o âmbito da poética, e com fins instrumentais, de conceitos tomados de empréstimo ao antropólogo e africanista Leo Frobenius, de quem Oswald Spengler fora discípulo. 10

Frobenius denominou paideuma à cultura tradicional de um povo entendida como uma "rede de idéias complexas e enraizadas em todas as épocas". O que fascinara Pound ao se apropriar do conceito, era considerar o enraizamento como ativo, como raízes de idéias ativas e em movimento, uma kulturmorfologie, um princípio ativo de transformação das culturas.

O aporte da antropologia incitava e justificava não apenas incorporar ao experimento poético a exploração entre distintas culturas, mas a identificar no interior delas, aquelas linhas de força mais ativas e penetrantes. Estas corresponderiam a um elenco daquelas obras fundamentais concebidas em si mesmas como forças vivas contra as quais as obras do presente deveriam medir-se. Procedimento seletivo e capaz de violência: "o interesse crítico do poeta deve ser seletivo, e mesmo arbitrário, ele deve ir na contracorrente das visões convencionais".

O antologismo de Pound, sua constante necessidade de propor a recuperação da poesia do passado e sua justaposição à poesia do presente, necessita ser entendido, desta forma, como prática também de redução, de eliminação de repetições e tautologias, do desnecessário, fazendo com que a tradição crítica e as técnicas do poema se igualem, ambas operando por redução, condensação e justaposições exemplares.

Se o organicismo da antropologia de Frobenius encontra-se implicado no conceito de tradição em Pound, o impulso de vanguarda prepondera. O paideuma poundiano em si mesmo aponta para uma tradição não imobilizada, mas ativa e capaz de ser interceptada pelas exigências do presente, e de se ver nele reconfigurada em reordenamentos fragmentários e descontínuos, pois nela "o presente incessantemente interrompe o passado, e o passado incessantemente interrompe o presente." 11

A poética de Pound revela ainda sua forte crença nas potencialidades do particular (a força de certas obras do passado, a virtude de certos autores, inventores, mestres, "os detalhes luminosos da história", uma percepção imediata e específica), e a crença de que o particular possa conter a síntese de contextos ou de eras inteiras, aglutinados em feixes transhistóricos, como diria Haroldo de Campos.

A Re-Visão de Sousândrade , publicada em 1964, foi concebida para corresponder à risca à noção de paideuma tomada de Pound, correndo o risco, no qual de fato recaiu, de assimilar excessivamente a poesia de Joaquim de Sousândrade à dos Cantos. Mas um dos méritos inegáveis da obra de Pound foi também o de saber reclamar para as obras de arte o direito de renascimento e recorrência.

 

 

Bibliografia

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Idem, ibidem, p. 278.

Haroldo de Campos, "Evolução de Formas: Poesia Concreta" in Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Teoria da Poesia Concreta. Textos Críticos e Manifestos 1950-1960 , São Paulo, Edições Invenção, 1965, pp. 47-53.

Haroldo de Campos em entrevista concedida a Maria Esther Maciel em 1993 in Maria Esther Maciel (org.), A Palavra Inquieta , Belo Horizonte, Autêntica, 1999, p. 50.

Ver a respeito Daniel Tiffany, "Pound, Frobenius and Jünger: The Spell of the World-Picture" in Paideuma , v. 28, Spring 1999, pp. 9-23. Também Guy Davenport, "Pound et Frobenius" in Ezra Pound. Paris, L'Herne, 1965-66: v. 2, Series: Les Cahiers de l'Herne , 6-7, pp. 667-680.

Daniel Albright, "Early Cantos I-XLI" in Ira B. Nadel (ed.), The Cambridge Companion to Ezra Pound , New York, Cambridge University Press, 1999, p. 75.