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Tradução e impregnação: exemplo em Monteiro Lobato
Elizamari M. Rodrigues (UFRGS)
O objetivo deste estudo é discutir algumas questões bem atuais acerca do processo tradutório, bem como da própria prática de tradução no Brasil, trazendo como exemplo o trabalho de Monteiro Lobato, bastante profícuo, e focalizando a impregnação em sua obra literária de um dos autores que traduziu - Rudyard Kipling.
A adoção de uma nova perspectiva que contempla os estudos culturais dentro dos próprios estudos de tradução parece trazer nesta última década um novo modus operandi para a disciplina. Numa época de globalização e multiculturalismo, Susan Bassnett e André Lefevere instauram uma nova maneira de se encarar a tradução. Menos institucionalizada, o que quer dizer que já não visa a atender às prementes necessidades da Igreja, do Estado ou do próprio Sistema Educacional, que dela exigem uma fidelidade estéril, a tradução liberta-se de seus grilhões e mais recentemente já é aceita como re-escritura e o tradutor, por sua vez, passa a ser também encarado como um mediador entre culturas. Outra entidade que ganha redefinição, tendo sido até poucas décadas atrás totalmente ignorada, é o leitor.
Vários foram os fatores determinantes na inclusão do leitor no intricado processo tradutório. O advento da Estética da Recepção como disciplina dentro do elenco dos Estudos Literários trouxe ao leitor um status novo, havendo um considerável deslocamento de perspectiva ditado pelo próprio mercado editorial e pelos novos parâmetros sociais de inclusão do indivíduo. Pouco a pouco, operou-se um processo de dessacralização do original, e a tradução, enquanto processo de re-escritura e à luz de todas essas mudanças, assumiu um novo e fundamental papel: ponte necessária entre diferentes culturas, minimizadora das distâncias geográfico-culturais e fomentadora da inclusão sócio-cultural daqueles menos favorecidos que não dominam o idioma estrangeiro por fatores que lhe são alheios à vontade.
Dessa forma, os estudos de tradução já não podem ser analisados em termos de certo e errado, fiel ou livre. Há todo um processo de cooperação entre culturas que deve ser envolvido no complexo processo tradutório, sem o qual ela seria meramente o encontro de duas línguas. Mas a tradução é muito mais do que isso, é um encontro entre duas literaturas, duas culturas, duas tradições literárias. E os tradutores, por sua vez, estão sujeitos ao tempo em que vivem, às tradições literárias que tentam aproximar e às próprias características das línguas com as quais trabalham.
Todos esses novos conceitos abriram novos campos de investigação. Mais recentemente, a Literatura Comparada tem-se servido dos Estudos de Tradução para melhor compreender as impregnações que determinados autores sofrem de outros que tenham previamente traduzido. O tradutor é, sem sombra de dúvida, um leitor muito especial, principalmente quando se trata de um tradutor que é também escritor. Se toda escritura é produto de prévias leituras, como não se ver delinear na produção literária desse tradutor-escritor os textos que dissecou com seu bisturi afiado, que experimentou em seu laboratório em fórmulas de diferentes concentrações? O fato é que grandes escritores foram, muito comumente, grandes tradutores. Dedicaram-se à tradução em momentos de suas vidas em que traduzir era rentável, que garantia sua subsistência, enquanto dedicavam-se a outros projetos que nem sempre lhes rendiam o sustento de suas necessidades materiais.
No Brasil temos vários casos de grandes escritores que são ou foram profícuos tradutores e são inúmeras as traduções de escritores famosos que se tornaram célebres pela sua qualidade, citando apenas algumas: Relações Perigosas , de Choderlos de Laclos, por Carlos Drummond de Andrade; Maria Stuart , de Friedrich Schiller, por Manuel Bandeira; Otello , de William Shakespeare, por Onestaldo de Penafort; As Bodas de Sangue , de Frederico García Lorca, por Cecília Meireles; O Livro do Jangal , de Rudyard Kypling, por Monteiro Lobato; Ulisses , de James Joyce, por Antônio Houaiss; O Jaguardarte , de Lewis Carroll, por Augusto de Campos; Odisséia e Ilíada , de Homero, e Eneida , de Virgílio, por Manuel de Odorico Mendes; Tristam Shandy , por José Paulo Paes; Macbeth , de William Shakespeare, por Manuel Bandeira; Poemas , de Charles Baudelaire, por Guilherme de Almeida; A Morte do Leão , de Henry James, por Paulo Henriques Brito.
Monteiro Lobato, que acreditava que "um país se faz com homens e livros", era um nacionalista convicto e lamentava que a população do país não tivesse acesso ao melhor do pensamento mundial. Por isso, a partir de 1930, nosso autor esforçou-se pessoalmente para preencher esta lacuna, traduzindo e publicando mais de cem obras, algumas de grandes nomes da literatura, como Rudyard Kipling, Herman Melville, Antoine de Saint-Éxupery, Ernest Hemingway e H.G. Wells.
Segundo Lobato, a tradução tem que ser um transplante. O tradutor necessita compreender a fundo a obra e o autor, e reescrevê-la em português como quem ouve uma história e depois a conta com palavras suas . 1 Para tanto, Monteiro Lobato acreditava que o bom tradutor teria de ser também bom escritor, uma combinação que, ainda segundo ele, não era fácil de se achar, pois os bons escritores de sua época viviam um impasse:
Ora, isto exige que o tradutor seja também escritor - e escritor decente. Mas os escritores decentes, que realmente são escritores, isto é, que possuem o senso inato das proporções, esses preferem e têm mais vantagens em escrever obras originais de que transplantar para o português obras alheias. Os editores pagam menos e o público não lhes reconhece o mérito. 2
A partir de sua vasta correspondência com Godofredo Rangel, mais tarde compilada na Barca de Gleyre, é possível ter-se uma idéia da importância da tradução na vida de nosso escritor. Por um longo período em que seus recursos financeiros eram escassos e os direitos autorais não davam conta do sustento da família. A experiência lhe rendia um bom dinheiro e sua competência lingüística era mais e mais aprimorada a cada trabalho:
(...) ando assoberbado de maçadas, que aliás rendem alguma coisa, sobretudo as traduções do inglês. Dito-as da rede e Purezinha escreve, e assim vai rápido. Este mês deram-me 80$000. (Areias, 10 dez. 1908) 3
Mas seu objetivo principal, evidentemente, não era tão somente ganhar dinheiro. Sua gana de tirar o povo brasileiro da mesmice dos pequenos vilarejos fazia com que Monteiro Lobato visse na tradução um veículo de grandes possibilidades:
Ando com idéia de traduzir O príncipe de Maquiavel. Nossos tempos são corruptos, sem estilo e sem filosofia. Com o Maquiavel bem difundido, teríamos um tratado de xadrez para uso destes reles amadores. (Taubaté, 20 jan. 1904) 4
E se há todo um público que não tem acesso aos livros, ou por falta de gosto ou por falta de dinheiro, Monteiro Lobato expande seus tentáculos atingindo-os através dos jornais e periódicos da época. Primeiramente torna-se leitor ávido:
(...) tomei uma assinatura do Weekly Times , de Londres - edição semanal em que vêm os melhores artigos do The Times diário, o grande, o velho, o tremendo Times de Londres - e com os pés na grade da sacada injeto-me de inglês, de pensamento inglês, de política inglesa, enquanto pela rua passam os bípedes que vão mexer a panelinha da política local na farmácia do Quindó, meu vizinho. E tenho lido exclusivamente em inglês. O francês anda a me engulhar todas as tripas. Como cansa aquela eterna historinha dum homem que pegou a mulher do outro - como se a vida fosse só, só, só isso! A literatura inglesa é muito mais arejada, variada, mais cheia de horizontes, árvores, bichos. Não há tigres nem elefantes na literatura francesa, e a inglesa é toda uma arca de Noé. Só em Kipling há material para um tremendo jardim zoológico: Kaa, Baghera, Shere Khan, a macacada... (Areias, 2 dez. 1908) 5
Seu próximo passo é oferecer este vasto manancial de idéias ao maior número de leitores que possa alcançar. Que veículo melhor do que o próprio jornal para isso? Coloca, assim, através da tradução, seu leitor em contato com o mundo britânico e o que lá lateja:
Tenho mandado uns artigos para a Tribuna de Santos e publicado n' O Estado de S. Paulo umas traduções do Weekly Times - esse meu meio de neutralizar Areias. (...) Quando encontro coisas muito interessantes, traduzo-as e mando-as para o Estado e eles me pagam 10$000. (Areias, 1 o jul. 1909) 6
Cada vez mais sua produção como tradutor cresce. Em 1906 traduz, a partir da edição francesa de Henri Aubert, O crepúsculo dos ídolos e o Anticristo de Friedrich Nietzsche 7. O manuscrito de Lobato permanece inédito. Congratula-se, por essa época, com o amigo Rangel da familiaridade que passa a ter com o inglês, fruto de leituras e de traduções:
Faço progressos no inglês. Li todo um livrão - 600 páginas: Robertson, Discovery and Conquest of America . Hernan Cortez é um soberbo tipo de bandido! (Areias, 18 nov. 1907)
Monteiro Lobato parecia ser um tradutor voltado para seus leitores. Um exemplo disso é sua preocupação com um filão muito especial de público que toda sua vida mereceu sua especial atenção: o público infantil. É dedicado a esse público o volume maior de traduções e adaptações que fez de próprio punho e/ou editou. Dizia ele a Rangel em uma de suas cartas sobre o tipo de traduções que o mercado editorial vinha oferecendo:
Estou a examinar os contos de Grimm dados pelo Garnier. Pobres crianças brasileiras! Que traduções galegais! Temos de refazer tudo isso - abrasileirar a linguagem. (São Paulo, 11 jan. 1925) 8
Sem dúvida a tradução teve grande importância na vida de Monteiro Lobato. Abriu-lhe os horizontes, proveu-lhe o sustento, amadureceu o gosto de seu público leitor, preparou o terreno para uma literatura que estava ainda em germe e que, mesmo no período pré-modernista sabia exatamente aonde queria chegar: nada menos do que num Brasil moderno. Essa busca por um Brasil moderno, muitas vezes difícil, emperrada, esbarrando nos enferrujados processos político-econômicos em voga, foi alavancada, não poucas vezes, nos salutares ofícios do tradutor Monteiro Lobato, como ele próprio dizia:
Continuo traduzindo. A tradução é minha pinga. Traduzo como o bêbado bebe: para esquecer, para atordoar. Enquanto traduzo, não penso na sabotagem do petróleo. (Areias, 15 abr. 1940) 9
A tradução significava esperança, possibilidade de um país melhor, promessa de progresso para um Brasil cheio de potencialidades adormecidas.
Somente as primorosas traduções de Kipling, como o Livro da Jângal e Kim , já seriam suficientes para mostrar a importância desse autor britânico na vida e obra de Monteiro Lobato. Mas pelo próprio escritor em um de seus ensaios críticos dedicado exclusivamente a Kipling, vê-se o quanto aquele significava no fazer literário de Lobato. Intitulado "Quem é esse Kipling?", seu texto é uma homenagem a Kipling e uma crítica ferrenha à predileção das editoras pelas traduções dos escritores franceses:
O mundo continuou seu caminho, mau grado a nossa geração - e se em represália não fomos também negados é que o mundo desconhece a nossa existência. Surgiram enormes vultos nas várias literaturas que pelo mundo vicejam - como esse Kipling na Inglaterra, como Eugene O'Neil e Mencken na América, como Joseph Conrad... no mar, como toda uma plêiade na Rússia - e nós a deles só termos notícias unicamente através das diluídas traduções francesas, sempre muito orgulhosos do nosso "bras dessus bras dessous" com a gente gálica! Engalicamo-nos assim até a medula. Mantivemo-nos com o máximo heroísmo na atitude do cachorrinho que, orgulhosamente, sacudindo a cauda, segue um viandante, certo de que é esse quem move o mundo. 10
Lobato acredita que esta predileção pela língua francesa e pelas obras e traduções francesas foi responsável por um empobrecimento de nossa literatura brasileira. Diz que nosso equívoco em ver no francês a única língua a nos pôr em contato com a universalidade provocou uma fúria de absorver francês nas classes altas. Numa reação claustrofóbica, alega que "não há ar nessa literatura francesa", e adota leituras do "Wide World Magazine" e do "Strand", publicações sobre viagens, que muito agradam a seu gosto e, aparentemente, alimentam seu sonho de evadir-se da enfadonha cidade de Areias. Lobato parece obsessivo com a idéia de viajar, conhecer o mundo, como se sem fazê-lo não será jamais escritor de valor. Essa idéia fixa não lhe acode apenas por ocasião de sua longa estada no interior, mas também no período em que vive em São Paulo. Toda sua literatura epistolar está repleta de queixumes a Godofredo Rangel sobre esta sua insatisfação:
Nós dois somos o inverso. Somos cracas eternamente grudadas ao pago natal. Somos cogumelos, chapéus-de-sapo, temos o aparelho da locomoção destituído de rodinhas amarelas - libras ou dólares. Somos apteros. Pinguins! Nossas capacidades embotam-se na mesquinhez da introspecção e na sordidez tacanha de meiosinhos roceiros pífios, onde não há os caracteres fortes e sintéticos que o romance requer para não degenerar em teatrinho de João Minhoca; onde não há dramas - (como imaginar os Átridas em Areias?); onde não há que não seja choco. Desta Areias onde apodreço a três meses nem o gancho dum Shakespeare tirava sequer um título de drama. 11
Confessa despudoradamente sua inveja do escritor estrangeiro. Talvez possa ser esse um dos paradoxos em Lobato, que, ao mesmo tempo que clama pela construção de uma literatura genuinamente nacional, brasileira, sem o ranço lusitano, afirmando que "estilo é nariz" e que cada escritor tem o seu, contorce-se de terror pelo marasmo do meio em que se acha inserido, não crendo que possa sucitar-lhe criação o mais remotamente interessante:
Estamos como içás que derrubam as asas e afundam no buraquinho. O destino me deu este buraquinho de Areias e a você deu o de Machado. E invejamos Loti, o homem dos mares e do Japão. E Kipling, o homem todo Índias, todo jungles, todo Himalaias, todo feras. A única fera daqui é um pobre facadista barato. (...) E a tua fera na vida, Rangel, o teu Mugger do Mugger Ghaut, é o chapadíssimo Fernandes...
Somos uns pelicanos, Rangel. Vivemos a arrancar penas, carne e coisas de nós mesmos para que não morram os nossos pobres filhinhos literários. Os artistas subjetivos,que só tiram de si em vez de tirar do mundo que os rodeia, ficam introspectivos em excesso e acabam satisfazendo a um público muito restrito: a si mesmos. Mas os artistas objetivos, os Kiplings, sugestionam e fazem estremecer de emoção grandes platéias - e o aplauso da platéia é o feijão com arroz de todos os artistas. 12
Segundo ele o leitor brasileiro é gente que
escapou de um mal: muramento em vida dentro de uma língua paupérrima em literatura e para a qual, de tudo quanto a humanidade produziu, desde Lucrécio até Henry Mencken, só foram vertidos uns trabucos lacrimogêneos de Escrich e aquela galopada sem fim, para ganhar dinheiro, de Dumas. Escapou de um muramento para cair noutro: murou-se no francês. 13
Lobato parece aqui desmerecer a literatura francesa, mas não se trata disso. O que critica, na realidade, é a falta de opções do leitor brasileiro e o despotismo das editoras. No mesmo ensaio, Lobato elogia a Editora Nacional, dizendo:
A Editora Nacional rompeu com o mito. Começou a dar livros de autores outros que não os franceses, e nessa literatura o povo, com certo espanto, começou a ver que o mundo não é apenas bordel ou alcova, com uma eterna historinha de "lui, elle et l'autre". Que há descampados e florestas imensas, montanhas, planuras de neve, tigres e panteras e elefantes. Que há perspectivas, em suma, e ar livre. 14
Está ele a falar da obra de Rudyard Kipling, cujo fascínio é indisfarçável para Lobato. Ele urge tanto pelo contato do público brasileiro com a obra de Kipling que investe ele próprio, como tradutor, em duas delas, The Jungle Book e Kim, esta última traduzida durante seu período de reclusão penitenciária e publicada em 1941 pela Companhia Editora Nacional. Na selva e nas feras de Kipling, Monteiro Lobato vê representadas as diversas facetas do ser humano, nas suas misérias e ambições, na sua engenhosidade e na sua interação com o meio em que se acha inserido:
O cenário de Kipling é quase sempre a Índia, como o de Jack London, outra alma pânica, é quase sempre a fria terra do Alaska. Seus personagens nunca são os personagens franceses --uma macho que caça uma fêmea pertencente a um terceiro e num hotel exercita uma função fisiológica que o deixa desapontado e de crista caída. É o tigre crudelíssimo e covarde - Shere Khan; é a pantera negra de movimentos elásticos - Bagheera; é a tribo dos Bandar-logs, que nas ruínas de uma cidade morta, engolida pela jangal, brinca de cidade, como nós aqui, bandarloguissimamente, brincamos de país; é a serpente das rochas, Kaa, magnífica de velhice e arte; é Jacala o Mugger do Mugger-Ghaut, velho crocodilo comedor de coolies; é Purun Bhagat, o Primeiro Ministro de um principado indiano que se fez santo e gastou meia vida num píncaro do Himalaia, meditando sobre o grande milagre da vida; é Quiquern, o cachorrinho do esquimau Kotuko; é Dick Heldar, gênio artístico vitimado pela inferioridade egoística de uma tal Maisie - a Mulher; é Kim, o menino que cavalgava canhões... 15
Segundo Lobato, Kipling é a vida, a natureza, o Ar Livre, a Fera, a Índia inteira e cada um de seus contos é uma obra prima. Quem percorre os dois tomos de A Barca de Gleyre não terá dificuldades em comprovar esse ato de recepção em Lobato. Também seus contos o denunciam. O primeiro conto em Urupês , "Os Faroleiros", é uma releitura assumida do conto de Kipling "The Disturber of Traffic", publicado em Many Inventions . Ao que tudo indica, vários contos desse livro tiveram grande impacto em Lobato, que não se cansa de mencionar a serpente marinha de "A Matter of Fact" ou a questão da angústia do escritor durante o processo de criação literária em "The Finest Story in the World". Isso para não mencionarmos The Jungle Book , que influenciou a escritura de Lobato de forma inegável, na linguagem "raspada de literatura" e pouco adjetivada, na unidade temática da organização de seus livros de contos, na valorização do tema e do tipo local.
Monteiro Lobato enxergou tudo isso nesta sua especial experiência como leitor-tradutor. Digeriu o texto de Kipling e sentiu nele um pulsar que lateja na nossa cultura e na nossa história igualmente. A língua não é uma barreira; pelo menos não uma que a tradução não possa transpor.
Não há dúvidas que para Monteiro Lobato traduzir é reescrever e isso se prova na forma como traduz, na sua longa prática de adaptações e nas suas próprias criações literárias impregnadas das vozes dos autores a quem leu e traduziu, sendo Kipling uma das mais significativas e audíveis vozes em Lobato.
Se há ainda quem veja débito na influência de um autor sobre outro, torna-se difícil dizer quem deve mais a quem, se Kipling a Lobato por torná-lo parte do cânone para o público leitor brasileiro, com suas feras e sua selva, ou Lobato a Kipling, pela impregnação criadora que muito repercutiu na própria criação literária deste brasileiro, bem como em seu projeto de criação de um público ledor de massa, que consome livros e boas traduções.
A riqueza da obra de Monteiro Lobato e a inquietação de sua pena foram o resultado de seu amor à pátria e de sua imensa vontade de ver no Brasil desabrochar uma literatura de qualidade. Era um visionário, daí voltar-se para a literatura infantil. As crianças o acolheram como não o fizeram muitos adultos. Via nelas o futuro, um futuro no qual valia a pena investir e a tradução de fábulas e contos infantis representou uma forma de suprir esse público tão especial de obras que nossa literatura carecia.
Só um grande tradutor tem a consciência da importância de se transitar com tranqüilidade entre duas culturas, não somente entre duas línguas, e o faz buscar penetrar um domínio mais amplo, "de pensamento inglês, de política inglesa..." 16 Sabia Monteiro Lobato que ao tradutor cabe desvelar os nós do texto que transcendem a língua pura e simplesmente e que habitam os domínios da cultura, ainda numa época em que não se falava na importância dos estudos culturais para os estudos de tradução.
NOTAS:
1 LOBATO, Monteiro. "Traduções". In: Mundo da Lua e Miscelânea . São Paulo: Brasiliense, 1951. p. 127.
2 Ibid., p. 127.
3 LOBATO, Monteiro. A Barca de Gleyre . São Paulo: Brasiliense, 1951. t. 1. p. 226.
4 Ibid., p. 55.
5 Ibid., p. 225-226.
6 Ibid., p. 250.
7 Cfe. Cronologia In: AZEVEDO, Carmen Lucia; CAMARGOS, Marcia; SACCHETTA, Vladimir. Monteiro Lobato: furacão na Botocúndia . São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2000. p. 220.
8 LOBATO, Monteiro. A Barca de Gleyre . São Paulo: Brasiliense, 1951. t. 2. p. 275.
9 Ibid. p. 333.
10 LOBATO, Monteiro. "Quem é esse Kipling?" In: Mundo da Lua e Miscelânea . São Paulo: Brasiliense, 1951. p. 324.
11 LOBATO, Monteiro. A Barca de Gleyre . São Paulo: Brasiliense, 1951. vol. 1. p. 175. Em carta a Godofredo Rangel, datada de 21 de julho de 1907, Lobato contrasta sua situação e a de Kipling, justificando-se.
12 LOBATO, Monteiro. A Barca de Gleyre . São Paulo: Brasiliense, 1951. vol. 1. p. 220. Em carta a Godofredo Rangel, datada de meados de 1908.
13 LOBATO, Monteiro. "Quem é esse Kipling?" In: Mundo da Lua e Miscelânea . São Paulo: Brasiliense, 1951. p. 323.
14 Ibid., p. 324.
15> Ibid., p. 325.
16 LOBATO, Monteiro. A Barca de Gleyre . São Paulo: Brasiliense, 1951. vol. 1. p. 226.