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Nas esferas tradutórias de Érico Verissimo
Denise de Castro Ananias (UFRGS)

De acordo com a bíblia, "A torre de babel" é proferida como uma tragédia de ordem divina causada pela vaidade humana. Deus, ao tomar conhecimento da ousadia de se querer construir uma torre em que se pudesse ver o mundo de um patamar mais elevado do que o seu, resolveu punir a humanidade proibindo-a de falar a mesma língua, causando, assim, o caos e a confusão sob a face da terra. Essa confusion linguarum pôde ser entendida, então, como babelização . Ao contrário do conceito original, entendemos, hoje, babelização como um fenômeno de difusão de culturas através de diferentes línguas e é conceituada como um evento que lingüisticamente significa a ampliação e multiplicação de determinada língua, o que invariavelmente acontece quando o meio cultural também sofre algum tipo de interferência ou mudança.

George Steiner, em "What is comparative literature" (1995), visualiza a literatura comparada como uma herdeira de babel e, portanto, os estudos tradutórios tornam-se prioritários e indispensáveis para o campo de pesquisa literária comparatista . Deste modo, para Steiner, essa definição se faz no âmbito dos estudos de tradução associados aos de recepção literária.

Teóricos como Theo Hermans, Gideon Toury e André Lefevere, entre outros, fizeram emergir, nos anos 70 e 80, um tipo de estudos da tradução mais solidamente empírico e historicamente orientado, com interesse específico em tradução literária; um modelo teórico resultante, em sua maioria, dos estudos literários comparativos, induzindo o tradutor a uma abordagem mais prática, a qual visa à adoção da comparação entre textos fonte e alvo com o objetivo de verificar a natureza precisa da relação entre eles. Hermans em seu texto "Tradução e interdisciplinaridade - as bases mutáveis para o estudo da tradução" conclui que, devido à abrangência e intersubjetividade em que esses modelos se aplicam, todo o processo sempre estará vinculado ao olhar daquele que contempla e que ao comparar dois textos, os pesquisadores visualizam e selecionam seus próprios critérios de relevância, dependendo de sua posição e do tipo de questão para as quais gostariam de encontrar respostas.

Nesta perspectiva de olhar comparatista, o texto que pretendemos aqui apresentar tem como temática as particularidades de duas traduções feitas da língua inglesa para o português do Brasil da obra Of a mice and men , escrita pelo americano John Steinbeck . A primeira tradução foi realizada por Erico Verissimo na década de 40, a qual dedico maior ênfase, e a segunda, elaborada pela tradutora Myriam Campello, de publicação bem mais recente. Detenho-me de forma pormenorizada no processo tradutório de Erico no texto traduzido como Ratos e homens , que é produto da primeira fase da carreira de Verissimo Tradutor.

A provável constatação da ausência da interface Ficcionista/Tradutor em Erico quase sempre o caracterizam como ficcionista, deixando de lado o Erico Tradutor, o qual desenvolveu uma teoria tradutória em sintonia com seu projeto literário e humanístico. Todavia, as suas retextualizações dão margem a uma vasta pesquisa histórica não só a respeito de seu papel enquanto tradutor na sociedade, mas também sobre o que acontecia no Brasil e no mundo.

É sob essa ótica que a obra Of a mice and men será retextualizada por Verissimo, uma vez que, em forma de denúncia, ele trazia ao conhecimento do público, obras censuradas por mostrarem uma realidade que não era tão agradável como as relatadas nos romances urbanos da burguesia. Of a mice and men foi escrito no período da recessão econômica dos Estados Unidos, causada pela quebra da bolsa de Nova Iorque em 1929. Enfim, se a situação econômica era muito difícil para todos, a do homem do campo, então, era miserável. Vítimas da exploração, além da miséria e da fome desumanas, o abandono dessa classe pelo sistema e o preconceito com o diferente, representado no sofrimento de um deficiente mental e pela narrativa a respeito de camadas excluídas da sociedade, mostravam a realidade nua e crua do sul estadunidense.

Prosseguindo, este trabalho nos permite uma revisão das traduções produzidas por E. Verissimo para uma mesma língua-alvo num determinado período histórico e procura promover a análise e o confronto entre a obra em seu original, a traduzida por ele e a outra transcrita mais recente por Campello. Ademais, o desvio do olhar para os fatos ocorridos naquele determinado período sob determinadas tipologias textuais dos respectivos autores em questão se torna pertinente. É uma investigação de corpus , com foco na língua e cultura receptoras onde o processo é retrospectivo, a fim de aprofundar os estudos sobre a questão da aceitabilidade das traduções de Verissimo à época de suas escrituras e ainda analisar a aceitabilidade dos textos traduzidos nos dias de hoje.

No processo de elaboração deste recorte, pude constatar o caráter transgressor de Erico; isto porque, além de derrubar fronteiras lingüísticas, Erico ultrapassou barreiras culturais e até canônicas, traduzindo as mais diversas tipologias textuais: desde almanaques e artigos de revistas e jornais até a literatura ficcional de maior prestígio, segundo os verbetes canônicos da época. O seu grande e maior trabalho como tradutor deu-se quando a antiga editora da Livraria do Globo envolveu-se com mega projetos de tradução, abarcando traduções inéditas de grandes obras da literatura mundial e também inúmeras atualizações; Erico atuou como membro do corpo editorial oportunizando a tradução da Coleção Nobel , até hoje considerada como a melhor coleção de literatura traduzida já escrita no Brasil. Tal projeto contou com tradutores como Raquel de Queiroz, Cecília Meirelles, Mario Quintana, entre outros. Anos mais tarde, sob a coordenação de Paulo Rónai, Erico atuou como tradutor na coleção Biblioteca dos Séculos. Suas escolhas, porém, não foram neutras, já que esse projeto pedagógico era parte de um projeto comercial em parceria com a editora para uma literatura voltada para as massas e que teve grande peso na formação da biblioteca Globo, sul-rio-grandense. Importante ressaltar aqui que tais projetos de tradução aconteceram entre os anos 30 e 40, período em que Erico mais produziu, tanto como tradutor como quanto ficcionista.

Os processos tradutórios de Erico, além de apresentarem um perfil mais ousado no âmbito das escolhas, seguindo a linha transliterária de tradução e os moldes de uma narrativa própria, usa de estratégias que seguiam um mesmo procedimento padrão, uma marca literária, adotada por ele tanto na elaboração de suas obras quanto de suas reescrituras, dando à recepção a devida atenção e respeitando a sintaxe e peculiaridades da língua de chegada. A assertativa pode ser exemplificada no início do terceiro capítulo da obra original, quando se observa, por exemplo: "Altough trere was evening brightness showing through the windows of the bunk house, inside it was dusk". (p.38)

No que Erico traduz assim: " Embora ainda se visse o resplendor do entardecer nas janelas do dormitório, lá dentro já havia lusco-fusco" (p.55).

Para o tradutor, não importava traduzir textos canônicos, mas levar o público unilíngüe a conhecer o que estava acontecendo e o que estava sendo lido no mundo.

Outro item importante a ressaltar é que através dos achados desta busca preliminar, percebo que Erico não visava ao marketing e sim à denúncia, desmascarando atitudes hipócritas, tanto no campo da violência como no da brutalidade. Observaremos no romance original Of a mice and men expressões lingüísticas cuja tradução explicita marcas culturais brasileiras, a fim de analisar as escolhas de Verissimo no que tange o aspecto cultural. Durante a leitura do texto traduzido Of a mice and men percebi um traço de equivalência formal que pode ser observado pela tradução feita do nome do personagem Slim, traduzido por Verissimo com literalidade para Magro, tendo a tradutora Campelo preservado no original, como marca lingüística da cultura de origem. Este exemplo de recriação produzida por Erico reforça o modelo de Gideon Toury, influenciado pela teoria dos polissistemas de Itamar Even- Zohar, de que "traduções são fatos das culturas-alvo" (Toury, 1995, p.29). Segundo Venuti, o projeto tradutório de Toury não se detém em uma "adequação" ao texto estrangeiro o que possibilita uma tradução se tornar sempre inteligível em termos culturais (Venuti, 1998, p.57).

Podemos verificar essas ponderações através da adaptação do texto-fonte ao contexto local, que pode ser detectada no tipo de vocabulário que Steinbeck usa em Of a mice and men . Em se tratando de uma narrativa ambientada no oeste estadunidense, o vocabulário é de um regionalismo lingüístico bem peculiar e informal. As frases denunciam uma entonação e uma informalidade gramática típica daquela localidade, ou seja, do cowboy americano. Ao traduzir, Verissimo adapta-o para a realidade de seu lócus enunciativo, direcionando seu vocabulário para a comunidade cultural receptora, sem tantas contrações, contudo, menos normativa e com uma visão sem marcas regionalistas.

Desse modo, podemos exemplificar tal diálogo na narrativa original: "The ol' people that owns it is flat bust an' the ol' lady needs an operation. (p.59).

Na tradução de Erico: "Os dois velhos que são donos da herdade não têm um vintém e a velha precisa de fazer uma operação" (p.81).

Aqui, infere-se que o contexto em que Verissimo traduzia (em torno dos anos 40), era culto, pois o termo "de fazer" sugere um português vernacular, totalmente inadequado para os dias atuais.

Vejamos outra citação do original, acrescentando a versão de Márcia Campello: "Oh I Dunno. Hardly none of the guys ever travel together" (p.39).

Na tradução de Verissimo, a passagem é escrita desta forma: "Ora... não sei. Quase todos viajam sós" (p.56).

Já a reescritura da tradutora coloca-se assim: "Ah, sei lá. Não é comum ver dois sujeitos viajando juntos" (p.50).

Embora Márcia Campello também use um discurso voltado para o contexto de sua região (em Erico, as flexões de sujeito e verbo aparecem em 2ª pessoa, característica do Rio Grande do Sul e em Campello a 2ª pessoa é referida pelo pronome Você, pois a mesma é natural do Rio de Janeiro), seu vocabulário remete a uma informalidade mais de acordo com o do texto-fonte. Além disso, como vimos no exemplo anterior, a retextualização de Márcia é mais estrangeirizada, pois tenta trazer para comunidade-alvo um contexto cultural mais identificado com o ambiente lingüístico do texto-fonte. Assim sendo, em Of a mice and men , transcrevi este seguinte diálogo:

With us it ain't like that. We got a future. We got somebody to talk to that gives a them about us. We don´t have to sit in no bar room blowin' our jack jus' because we got no place else to go. If them other guys gets in jail they can not for all anybody gives a them. But not us (p.14).

 

Abaixo, temos esta transleitura de Erico:

 

Connosco não acontece o mesmo. Temos um futuro, temos com quem falar, alguém que pensa em nós. Não somos obrigados a ficar sentados num café, deitando conversa fora, só porque não há outro lugar aonde ir. Se esses outros vão para cadeia, ficam lá a apodrecer e ninguém se importa. Mas connosco é diferente. (p. 21-22).

 

Agora vejamos a tradução de Campello:

 

Com a gente não é assim. Nós temos futuro. Temos alguém para conversar, alguém que se importa com a gente. Não temos que sentar num bar gastando a gaita só porque não tem outro lugar pra ir. Se outros caras vão em cana, podem apodrecer na cadeia, porque ninguém liga para eles. Mas nós não. (p. 20).

 

Dentro destes parâmetros, é possível inferir que a interface proposta nesta breve apresentação nos aponta um quadro de diversidades culturais e históricas. O momento em que tais traduções surgiram nos revela as alteridades de seus textos.

A contribuição da tradução da tradutora Márcia Campello situa-nos num modelo mais atualizado de reelaboração textual (visto que sua atuação como profissional das Letras iniciou-se a partir de 1978, quando se graduou pela PUC-RJ), apesar de, na edição do livro, não constar o ano da publicação da obra em questão. Por outro lado, o projeto pioneiro de Erico Verissimo não poupou esforços para apresentar ao nosso contexto literário mais popular um fluxo de produções estrangeiras que não eram traduzidas para a sociedade e, portanto, de difícil acesso às comunidades de massa.

É relevante ressaltar que toda a trajetória tradutória percorrida por Erico torna-o um avant-guard para sua época, dedicando seus esforços para elucidar a importância da tradução como intercâmbio cultural entre os povos. No entanto, àquela época, não se tinha uma visão tão consciente da importância que a atividade tradutória representa na sociedade e que, de acordo com Delisle e Woodsworth em Os tradutores na história (1995), vem contribuindo para a história intelectual e cultural da humanidade ao longo dos séculos.

Para finalizar, cito Pierre-François Caillé, presidente fundador da Federação Internacional de Tradutores, que refletem sua filosofia pessoal, transmitida à Federação quando ele a instituiu em 1953: "Transformar as traduções em instrumentos de humanismo, paz e progresso - esta é a nossa tarefa" (apud Delisle; Woodsworth , 1995, p.9). E como esclarece a visão da comparatista Tania Franco Carvalhal (2003), "a tradução é um procedimento que permite ao texto sempre uma nova versão, um novo destino junto a leitores inicialmente não previstos, uma transposição no tempo e no espaço que lhe assegura o prolongamento". Portanto, segundo a autora, o texto traduzido embora seja o mesmo, já é outro. Do seu ponto de vista, "traduzir, é, portanto, recriar numa operação que transporta as intenções primeiras, fazendo-as ressurgir com vitalidade no novo código que as abriga"(Idem).

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

BASSNETT, Susan. Translation studies. London , e New York : Routledge, 1980/1991.

BENJAMIN, Walter. A tarefa do tradutor. In: HEIDERMANN, W. (org.). Clássicos da teoria da tradução. Trad. Susana Kampff Lages. Florianópolis: NUT, 2002. Antologia bilíngüe: alemão-português.

CARVALHAL, Tania Franco. O próprio e o alheio . Ensaios de literatura comparada. São Leopoldo: EDUNISINO, 2003.

DESLILE, John; WOODSWORTH, Judith. Os tradutores na história . São Paulo: Ática, 1998.

HILTON, James. Adeus, Mr. Chips. Trad. Erico Verissimo. Rio de Janeiro: Record, 19__.

STEINBECK, John. Of mice and men. San Francisco: Convici, Friede, Inc, 1937.

______. Ratos e homens. Trad. Erico Verissimo. Porto Alegre: Globo, 1940.

______. Ratos e homens . Trad. Márcia Campello. Rio de Janeiro: Record, s.d.

STEINER, George. What is comparative literature . Oxford : Clarendon Press, 1995.

VENUTI, Lawrence. Escândalos da tradução. Trad. Laureano Pelegrin et alii. Bauru : EDUSC, 2002.

ZOHAR, Even. Polysystem Theory. Poetics Today , v.11, n.1, p. 9-26, 1990.