VERSÃO PARA IMPRESSÃO [ VOLTAR ]

André Malraux: uma esperança espanhola - recepção crítica de L'Espoir na Espanha e no Brasil
Clarissa Laus Pereira Oliveira (UFRGS)

Foi em maio de 1936 que a guerra civil espanhola começou a demonstrar seus sintomas reais de que a situação no país estava ficando insustentável. Por essa razão, logo no início do conflito, Malraux pisou em solo espanhol para engajar-se na luta contra o fascismo. Mesmo sem nunca ter pilotado um avião, organizou a primeira Brigada Internacional, composta por voluntários estrangeiros. Essa brigada chamava-se Escuadrilla España (1936-1937) e mais tarde chamou-se Escuadrilla André Malraux .

Como se sabe, André Malraux não foi apenas um romancista de renome internacional, ele foi também crítico de arte e homem político de importante expressão na França do século XX, em especial, no governo do general Charles De Gaulle (1959-1969).

Um ano depois, no dia 4 de julho de 1937, ainda em plena guerra civil, iniciou-se em Valência, Madrid e Barcelona o II Congreso Internacional de Escritores que contou com a participação de escritores de quase todas as partes do mundo. O jornal de Barcelona, La Vanguardia Española , apenas mencionou o acontecimento, porém ao informar os nomes dos escritores que estavam chegando ao país, referiu-se a Malraux como o famoso novelista francês que estava à frente da expedição vinda da França.

Malraux esteve muito presente nas atividades daquele congresso, integrando a presidência e expondo nos seus discursos a solidariedade mundial com a Espanha. A tal ponto que foi escolhido como redator de um chamamento para que todos os escritores do mundo ajudassem a Espanha na luta republicana.

Em 1938, Malraux retornou a Barcelona com donativos em dinheiro, resultado da contribuição de diversos escritores. Por essa atitude, o mesmo jornal que o considerou um famoso novelista, denominou-o então de grande amigo da república e relembrou sua colaboração com a Espanha no início da guerra. Chamou também a atenção dos espanhóis para o reconhecimento que lhe deveriam dar, referindo-se a sua obra La Condition humaine como uma maravilha e ao seu autor como camarada, dando-lhe as boas vindas com "emoção e gratidão comovida".

Assim, na década de 30 Malraux já era um escritor bastante conhecido na Espanha graças, sobretudo, a La Condition humaine e foi nesse mesmo período que ele apareceu no contexto brasileiro. Também para nós, brasileiros, aquele foi um período de mudanças de comportamento e de pensamento. Esta era a atmosfera que aguardava a publicação de L'Espoir .

Nessa obra, Malraux recriou sua experiência em um dos conflitos mais ideológicos do século XX e trouxe à tona "a última guerra romântica". Mas não foi apenas na literatura que ele deixou seu testemunho. Baseado em no livro, Malraux produziu e dirigiu o único filme de sua carreira, chamado Espoir - Sierra de Teruel e que contém imagens reais de uma Espanha destruída pelo conflito.

Após esta contextualização histórica, vou comentar alguns aspectos da recepção crítica da obra L'Espoir - literatura e filme - na Espanha e no Brasil. O período averiguado vai desde o momento da primeira publicação na França, em 1937, até 2001, ano em que se comemorou o centenário de nascimento do escritor. Todavía, a pesquisa não está concluída, pois ela constituirá um dos capítulos de minha tese de doutorado que está em andamento.

O levantamento do corpus referente à recepção na Espanha só foi possível graças à bolsa para doutorado sanduíche cedida pela CAPES, dentro do acordo bilateral CAPES/MECD, e às universidades Federal do Rio Grande do Sul e de Barcelona.

São vários os acontecimentos que exemplificam a afirmação de Xavier Pla de que "hablar de la guerra civil española significa pensar en Malraux". Um deles ocorreu recentemente, em março de 1999, quando o Museu de Albacete organizou uma exposição sobre as Brigadas Internacionais. Nesta ocasião, Malraux foi citado por Miguel Angel Villena, no artigo "Las Brigadas regresan a Albacete", como um nome chave da história do século XX e que teve um papel destacado na solidariedade internacional com a causa republicana. Durante a exposição, Sierra de Teruel foi objeto de discussão e análise junto a outras produções cinematográficas do mesmo tema, consideradas testemunhas da luta e das tarefas dos internacionalistas.

Porém, também acontece o inverso. Muitas vezes ao falar de Malraux, faz-se referência ao evento bélico. Na França, por exemplo, motivados pelo traslado de suas cinzas ao Panthéon, em 1996, surgiram no radio e na televisão comentários e ilustrações desses anos terríveis para o povo espanhol. Num debate sobre literatura e guerra civil espanhola, os escritores Rosa Regàs e Juan Bonilla 1, que haviam lançado três novos títulos sobre o assunto, comentaram que existem poucos romances sobre o tema e a maior parte deles não resiste ao tempo. Porém, para Juan Bonilla, L'Espoir é uma das melhores obras que contam a intrahistória do conflito.

A guerra civil espanhola reuniu diversos escritores que dedicaram a ela seus versos e prosas e através deles tornaram-se conhecidos em seus países. Para Edward Malefakis 2, a intervenção de Malraux, Orwell ou Hemingway ajudou a conscientizar as pessoas de que o que estava acontecendo na Espanha era um perigo para o resto da Europa.

No início dos anos 90, a espanhola Maryse Bertrand de Muñoz 3 realizou um trabalho de bibliografia comentada sobre a produção artística e literária durante e sobre a guerra civil. Essa pesquisa resultou em quatro livros sobre a poesia, o romance e o teatro. Dos estrangeiros mencionados, Malraux foi o primeiro a ser citado e recebeu um grande parágrafo sobre L'Espoir que, segundo a pesquisa, foi e continua sendo a obra estrangeira mais citada quando relacionada a essa guerra. "Para todos", confessa Maryse, "este romance foi o hino à dignidade humana, à fraternidade e, como reza seu título, uma imensa esperança para os homens de aceder a esta dignidade através da 'revolução'."

Lluís Bassets 4, em "Malraux, la nostalgia de España", concorda que L'Espoir é a melhor narração e a que está mais próxima da experiência vivida por Malraux. E considera Sierra de Teruel um documento excepcional e "un hito de la cinematografía de guerra".

Tratando-se da recepção crítica das duas obras - literária e cinematográfica -, é notável e facilmente justificável que na Espanha exista um número maior de documentos sobre L'Espoir que sobre as outras obras. Inclusive, em alguns textos, os autores espanhóis se referem a Malraux como o autor de La Esperanza e não como o de La condición humana , que, ao contrário da outra, foi ganhadora do prêmio Goncourt, em 1933.

No entanto, apesar da sua aparição ter sido muito esperada, surpreende o fato da primeira tradução para o espanhol aparecer apenas em dezembro de 1978, sendo que a primeira edição em francês ocorreu em 1937. La Vanguardia anunciou em dezembro de 1978, na sessão "Libros recibidos" 5, a chegada desta tradução realizada por José Bianco, pelas Editoras Edhasa/Sudamericana (a primeira editora é de Barcelona e a segunda de Buenos Aires). José Bianco foi, até agora na Espanha, o único tradutor de L'Espoir que teve onze edições em seis editoras diferentes.

Esta primeira tradução para o espanhol, quarenta e um anos depois da sua publicação na França, apareceu como um acontecimento cultural de fundamental importância. Ela foi justificada por Rodolfo Alonso 6 num artigo chamado"40 años después, Malraux aún pelea en España", publicado em 1979 na revista barcelonense Camp de l'Arpa . Ele explica que Malraux só permitiu a tradução de L'Espoir depois da saída do general Franco do poder, em 1975, o que explica também a falta de referências anteriores à obra.

As reedições da primeira tradução de L´Espoir continuaram. Em 1995, a revista literária El Urogallo comentou, na sessão "Libros del mes" 7, a publicação pela editora Cátedra. Qualificada de grande romance e seu autor apontado como uma das mais lúcidas testemunhas da guerra civil, o prólogo, assinado por J. M. Fernández, afirmou a importância da obra e denominou a literatura de Malraux de "literatura comprometida".

Em 2001, a editora Edhasa reeditou, pela quarta vez, L'Espoir. Sierra de Teruel . O artigo "La gran novela de la guerra civil" 8, publicado no caderno de literatura Babélia , do jornal madrileno El País , comentou a aparição dessa edição comemorativa do centenário de nascimento do escritor francês. A novidade foi o acréscimo da expressão Sierra de Teruel no título original L´Espoir , resultando o título do livro igual ao da versão cinematográfica. Num email recebido do editor Josep Mengal, fui informada que, para esta edição, optou-se por manter o título da obra em francês e acrescentar o título do filme porque, segundo Mengal, "en la traducción se perdía parte de las connotaciones de la forma francesa, y se añadió la referencia a Sierra de Teruel para aclarar a qué obra nos referíamos". Penso que a alteração da tradução literal que já vinha sendo repetida há tantos anos pode levar a confusão dando a impressão, num primeiro contato, que a obra em questão é o roteiro do filme.

Reforçando o interesse que a obra desperta nos espanhóis, houve mais uma edição em 2002. Para compor a coleção "Clásicos del siglo XX", o jornal El País 9 selecionou quarenta títulos considerados essenciais na história da literatura do século. Os critérios de seleção foram: os autores terem realizado uma obra bem feita, terem conseguido a aceitação popular imediata e o reconhecimento da crítica. La Esperanza , que ficou entre os quarenta, foi considerado um dos romances mais extraordinários sobre a guerra civil.

Falando agora sobre a tradução brasileira, o primeiro artigo que encontrei até o momento foi no jornal O Correio do Povo 10 de Porto Alegre. Em setembro de 1940. ele anunciou a tradução de A Esperança , por David Jardim Junior, da Editora Guayra Limitada, de Curitiba. O artigo teceu comentários elogiosos sobre autor e obra, salientando que "a Editora Guayra entregou ao público da língua portuguesa um dos mais sérios e interessantes livros da atualidade."

Os brasileiros tiveram a oportunidade de ler A Esperança apenas três anos depois da publicação francesa, enquanto que os espanhóis aguardaram quatro décadas. No entanto, ao contrário da Espanha, passaraqm-se sessenta e um anos para que a obra recebesse uma nova edição no Brasil. Graças às festividades comemorativas do centenário e com o apoio do ministério da cultura da França, a Editora Record incumbiu Eliana Aguiar da tarefa de traduzir L'Espoir novamente. A revista VEJA 11, de janeiro de 2001, comparou A Esperança com a Guernica de Picasso, e recomendou a leitura.

Como Malraux era lido também na língua original pelos literários brasileiros, Maria Teresa de Freitas 12 afirmou que o romance em estudo marcou a geração brasileira dos anos 30. Malraux foi um homem anti-fascista e anti-colonialista e seus romances eram chamados de "romances revolucionários" porque contavam a história das "duas maiores e mais sangrentas revoluções da primeira metade do século XX, a chinesa e a espanhola" - La Condition humaine e L'Espoir , respectivamente.

Malraux não manteve com outros país, com exceção da França, relação semelhante à que teve com o povo espanhol. Por sua vez, Juan Marichal 13 que é historiador, abordou o romance do ponto de vista da História e no artigo "Malraux y la perennidad literaria de la guerra española" declarou que a obra foi marcadora do início de uma literatura sobre esta guerra. Ele acreditava ainda que ela tenha influenciado algum leitor a participar das Brigadas Internacionais e recomendou aos jovens espanhóis a leitura da obra para que eles soubessem "como em aqueles heróis de 1936, estrangeiros e espanhóis, atuava um movimento profundo: a defesa da dignidade humana."

Ainda em reconhecimento à dedicação que o escritor francês continuou expressando à causa espanhola, na ocasião das Olimpíadas de Barcelona, em 1992, a cidade homenageou o escritor com a praça André Malraux. Embora as razões não fossem tão evidentes, porém não menos importantes, também a Universidade de São Paulo condecorou André Malraux com o título de doutor honoris causa quando ele ali esteve, em agosto de 1959.

Em função dos 20 anos de morte do escritor, Babélia publicou o artigo "La Esperanza de Malraux", de Ricardo Muñoz Suay 14. Para o crítico L'Espoir representa, na obra literária malruciana, tanto a paixão pela criação literária quanto pela recreação histórica, transformando-a sem prejudicá-la. Sobre Sierra de Teruel , disse que "testimonia el talento creador de su autor, su empeño narrativo en amortiguar una escritura discontinua y la vingencia de ese pasaje de la historia de la humanidad en la que la fraternidad se convierte en ilusión lírica y en epitafio." Quanto à forma, o filme apresentou uma nova linguagem cinematográfica com elipses e foi o primeiro a utilizar tempo e espaços reais. Por isso, dos filmes que abordam o tema da guerra civil, o de Malraux foi e continua sendo o mais importante. Também o cineasta brasileiro Paulo Emílio Salles Gomes considerou que Malraux foi o criador do neo-realismo cinematográfico.

Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Elvira Farreras i Valentí, que atualmente tem 90 anos. Ela foi secretária de Malraux no período de junho de 1938 a janeiro de 1939. em entrevista que me concedeu em sua casa, em Barcelona, Elvira Farreras me revelou como nasceu a idéia de filmar L'Espoir . Em troca da ajuda que Malraux conseguiu nos Estados Unidos para comprar ambulâncias para os republicanos, o então presidente espanhol Negrín ofereceu apoio para que o escritor montasse um espetáculo de propaganda pela causa republicana. Foi então que Malraux decidiu levar para o cinema trechos de seu livro. A grande maioria dos técnicos e atores foram espanhóis e a cidade escolhida para cenário foi Barcelona.

O roteiro de L'Espoir - Sierra de Teruel foi publicado em 1977 15 com fotografias das filmagens e dos bastidores. Um documento único, original, testemunho de uma época crucial da Espanha. Enquanto a guerra civil espanhola for lembrada e revivida, Sierra de Teruel terá seu lugar garantido nas telas das cinematecas espanholas.

No entanto, o filme não é evocado apenas em exposições ou eventos sobre a guerra civil. Em março de 2001, a BTV espanhola transmitiu o que considerou "una gran película republicana del cine español (...). un filme de ficción rodado con un estilo realista, casi documental." 16

Também, nas comemorações dos 50 anos de Sierra de Teruel 17, a Embaixada espanhola em Paris homenageou Malraux com a projeção do filme, exposições, debates, sessões sobre a pintura espanhola vista pelo escritor. Ao mesmo tempo, a Casa de Espanha, em Paris, organizou exposições artísticas, bibliográfica, fotográfica e projeção durante dez dias de filmes e documentários relacionados a Malraux.

Da mesma forma que na Espanha, no Brasil, A Esperança e Sierra de Teruel também foram censurados. Durante a V Bienal, em 1959, os Serviços Culturais do Consulado Geral da Espanha em São Paulo proibiram a exibição do filme, assim como a publicação de um capítulo do livro foi proibida num semanário de oposição de São Paulo - O Movimento , por "suscitar questões ideológicas, éticas e até mesmo metafísicas." 18

A revista Caras , que apenas dedica uma página à arte e, como se sabe, não tem na literatura seu foco principal, publicou em 2002 uma breve informação sobre Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccilo. Entre algumas curiosidades sublinhadas, está o fato de ter sido ele quem, a pedido do consulado da Espanha fascista, proibiu a exibição de Sierra de Teruel , no Museu de Arte Moderna, em 1959, quando Malraux esteve no Brasil.

Nas resenhas que encontrei, tanto aqui como lá, o comentário que prevalece a respeito da obra malruciana é sobre seu conteúdo filosófico e sua mensagem política. Os autores dos artigos recordam os papéis que Malraux exerceu na História político-social-literária-artística da França e essencialmente político-social na Espanha. Pouca ou quase nenhuma atenção é dada aos aspectos técnicos da tradução, confirmando o que disse José Paulo Paes 19 em Tradução. A ponte necessária , sobre o descaso a respeito dos tradutores cujo esforço "ficou na sombra, ignorado e menosprezado."

Com a pesquisa, em Barcelona, verifiquei que ainda nos dias de hoje, Malraux é referência obrigatória quando se menciona a guerra civil. Por esta razão, não surpreende que a recepção da obra seja mais extensa na Espanha que no Brasil.

 

 

GÓMEZ, Juan J. Regàs y Bonilla lamentan la falta de novelas sobre la guerra civil. El País.es , Madri, 29 nov. 2000.

MORA, Miguel. Malefakis sostiene que la crueldad de Franco alargó la guerra civil. El País.es , Madri, 28 nov. 1996.

MUÑOZ, Maryse Bertrand de. La guerra civil española y la creación literaria. Anthropos. Revista de documentación científica de la cultura , nº 148, Barcelona, set. 1993, p. 6-24.

BASSETS, Lluís. Malraux, la nostalgia de España. El País , Babélia , Madri, 15 dez. 2001, p. 15.

Libros recibidos. La Vanguardia , Barcelona, 7 dez. 1978, p. 53.

ALONSO, Rodolfo. 40 años después, Malraux aún pelea en España. Camp de l'Arpa , Barcelona, fev.-mar. 1979, p. 63-64.

Libros del mes. Narrativa extranjera. El Urogallo , nº 110-111, Madri, jul.-ago. 1995, p. 136.

M. R. R., La gran novela de la guerra civil. El País , Babélia , Madri, 7 jul. 2001, p. 16.

Toda la belleza literaria del universo. El País.es , Madri, 8 set. 2002.

Livros novos. Correio do Povo , Porto Alegre, 20 set. 1940, p. 5.

Veja , ed. Abril, edição 1684, ano 34, nº 3, 24 jan. 2001, p. 129.

FREITAS, Maria Teresa de. André Malraux no "País da Esperança". Travessia 16/17/18 , Florianópolis, Editora da UFSC, 1988/1989.

MARICHAL, Juan. Malraux y la perennidad literaria de la guerra española. El País , Madri, 23 nov. 1996, p. 11.

SUAY, Ricardo Muñoz. La Esperanza de Malraux. El País , Babélia , Madri, 30 nov. 1996, p. 2-3.

André Malraux - Sierra de Terruel, Cine Club, 9. Camp de l'Arpa, revista literaria , nº 40, Barcelona, jan. 1977, p. 29.

TV-Películas. La Vanguardia digital , Barcelona, 23 mar. 2001.

J. A. S. Unas imágenes de Malraux. El País.es , Madri, 12 dez. 1989.

SILVA, Edson Rosa da. Organizar o Apocalipse. Folha de S. Paulo , São Paulo, 9 jun. 2001, sup. lit. Jornal de Resenhas, p. 5.

PAES. José Paulo. Tradução. A ponte necessária. São Paulo, Ed. Ática, 1990. p. 110