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Paul Valéry, Fernando Pessoa, autores do Fausto
Estatuto Intertextual de Mon Faust (ébauches) e Fausto

Carla Gago (Instituto Camões/Universidade de Leipzig)

O conceito de intertextualidade tem cunhado parte significativa do discurso teórico sobre a pós-modernidade, tornando-se a sua imagem de marca. A história do estudo da relação entre textos remonta, contudo, como sabemos, já à Antiguidade. À mimesis aristotélica contrapõe Horácio a imitatio veterum , que, para além de concepção normativa (tendo em vista uma selecção de textos exemplares que garanta a qualidade da produção textual), delinia já o movimento intertextual entre textos literários.

Mas só em finais dos anos sessenta é que Bachtin traz à discussão, pelas mãos de Julia Kristeva, o conceito de intertextualidade na teoria literária. O conceito de "dialogicidade" bachtiniano, que faz implodir o conceito de texto estanque, torna-se a base da teoria da intertextualidade de Kristeva (todos os textos serão "mosaicos de citações"), pensada como vanguarda crítica e forma de protesto contra o establishment e valores burgueses.

Roland Barthes ampliará o termo, mais tarde, com o conceito de "texto infinito" em Le Plaisir du Texte , a textos não-literários e não-linguísticos:

 

"Et c'est bien cela l'inter-text: l'impossibilité de vivre hors du texte infini - que ce texte soit Proust, ou le journal quotidien, ou l'écran télévisuel" (Barthes 1973: 51)

 

Na medida em que concebem o texto como universo infinito de textos, as posições pós-estruturalistas, para além de dissolverem as fronteiras do texto, conduzem igualmente a um "apagamento" do sujeito - leitor e autor. Mas Michel Foucault, na sua conferência "Qu'est-ce qu'un auteur", sublinha já em 1969 a insuficiência da declaração de morte do autor por parte da crítica e chama a atenção para a entidade do autor que continuaria a exercer o seu poder em espaços específicos ( Foucault 2001: 817) .

Um desses autores que continua a exercer grande poder sobre os vindouros é Johann Wolfgang Goethe, cuja obra-prima Faust continua a instigar novas reescritas. Mas como é que esta acontece em roupagens modernas?

Fernando Pessoa e Paul Valéry empreenderam também eles a "tradução" da grande obra canónica sobre a aventura do conhecimento da figura do Fausto. A redacção dos fragmentos do Fausto de Fernando Pessoa abarca o período de 1908 a 1934, desde os seus vinte anos até pouco antes do seu falecimento, ou seja, semelhantemente ao Faust de Goethe, um summa summarum de toda uma vida 1. Mon Faust de Paul Valéry, escrito em 1940, é editado pela primeira vez um ano mais tarde sob o título Études pour "Mon Faust" . O título tornar-se-á em 1944 nas Éditions du centre Ébauches de "Mon Faust" e conhecerá o título definitivo de "Mon Faust" (Ébauches) na Gallimard em 1945. Depois do título de "études" da primeira publicação do seu Fausto, a opção de Valéry pelo termo "ébauche" no plural (esboços, rascunhos) nos penúltimo e último títulos, realça ainda mais a intenção do carácter anti-definitivo do texto. Obras fragmentárias e fragmentadas não surpreendem, muito menos em autores modernistas, época em que nada parecia querer atingir a "maturidade". E se em Valéry a escrita de um Fausto também não surpreende ( Mon Faust como a sua versão do mito alemão do fausto, enquanto homenagem ao pensamento europeu numa época conturbada como a segunda guerra mundial), o projecto do Fausto pessoano provoca num primeiro momento estupefacção, pois apesar de ser das tentativas poéticas mais interessantes e ambiciosas de Pessoa (a quem, semelhantemente a Valéry, acompanhava o projecto de escrita de três Faustos), não vai bem com a máscara que fizemos para o poeta. Apesar da mediatização, nos últimos anos, da figura de Fernando Pessoa, o Fausto mantém-se um tema satélite dos Estudos Pessoanos, ofuscado pelo teatro heteronímico (muitas vezes esquecido enquanto encenação) .

O interesse de Fernando Pessoa pelo tema é geralmente explicado pela atmosfera cultural anglo-saxónica em que cresceu (conheceria o Fausto de Marlow), pela influência enorme exercida pelo Faust de Goethe sobre toda a literatura romântica europeia e, porque o mito fáustico é particularmente congenial à personalidade de FP no seu interesse pelo esoterismo (Del Bene 1970: 33).

No entanto, e apesar da tradição anterior, foi o texto de Goethe que actualizou de forma paradigmática o mito do Fausto. É portanto à sua luz que terão que ser lidas realizações textuais posteriores, tal como Mon Faust de Paul Valéry e o Fausto de Fernando Pessoa.

A leitura destes intertextos pressupõe, assim, a consciência do estatuto do texto entre textos (como o termo intertextualidade etimologicamente sugere), ou seja, a questão do cânone literário. Por outro lado, supõe igualmente a consciência do movimento bi-direccional da simbiose entre os textos : por um lado a existência de um texto anterior e subjacente a um outro texto posterior, por outro a produção de um texto que está em relação com um outro ou outros anteriores. Apesar de muitas análises textuais se intitularem estudos sobre a intertextualidade, mais não fazem do que voltar às velhas práticas filológicas de estudo de fontes e influências, reduzindo-se à primeira direcção e ignorando a segunda, ou seja, a questão da génese textual. Com a aproximação cada vez maior do conceito de intertextualidade da investigação de fontes, Julia Kristeva viria a optar pelo termo "transposição" para se distanciar do que ela chama de sentido banal da crítica de fontes.

O conceito implica, nestes termos, não uma concepção de "logos textual" tal como concebido por Barthes, mas uma definição mais específica: Intertextualidade como uma característica particular de determinados textos literários ou de tipos de texto e como processo mais ou menos consciente que produz no texto pistas que conduzem ao pré-texto/ aos pré-textos concretos.

Alguns teóricos da intertextualidade como Genette, ou na Alemanha, Stierle, Pfister e Broich, ligados à hermenêutica e à escola da recepção, criticam o carácter meramente teórico da posição do grupo Tel Quel que fez com que o conceito esteja hoje inflacionado, tornando-se relativamente lato e reclamam uma maior classificação e sistematização do fenómeno, tendo em vista uma análise textual mais pragmática.

Com a eclosão, nos anos sessenta e setenta, de novos paradigmas na teoria da literatura, e a concepção de que o texto irá sempre beber ao "logos textual", coloca-se definitivamente um ponto final ao favorecimento da originalidade autoral e singularidade de um texto. Por mais útil que este reconhecimento tenha sido, o conceito de intertextualidade poderá e deverá conduzir a outras reflexões, nomeadamente sobre o autor enquanto autor-leitor e o seu papel na "construção" de relações intertextuais, pois quem mais que o autor e o leitor fazem com que o intertexto seja visível e comunicável (Plett 1991:5)?

O próprio autor é em primeira instância leitor e intérprete antes de produtor de sentido e o texto de referência "texto imaginado" (num processo de reactivação, reconstrução ou memória de textos já recepcionados). Por outro lado, a intertextualidade é, em certos textos, um meio pretendido, implícito ou explícito, pelo autor para criação de significado (Pfister 1985: 27). Indagar o estatuto intertextual de um texto implica necessariamente inquirir a instância autoral. O autor estabelece desde logo a ligação entre os dois textos, na medida em que, consciente ou inconscientemente, coloca as pistas de leitura no seu texto e que estas são passíveis de ser reconhecidas pelo leitor. Através de marcações como o título ou referência a personagens, o autor entra em comunicação com o leitor (Valéry, logo na nota de advertência que antecede os fragmentos de Mon Faust , enceta um jogo lúdico com o leitor e assegura que pelo menos uma parte dos receptores reconheca as relações intertextuais).

Mas indagar o estatuto intertextual destes dois textos, não é unicamente inquirir o modus faciendi dos mesmos e o processo de transposição, o que recuperam ou o que recusam explicita ou implicitamente. O cotejo com o texto goethiano exige uma descodificação dupla: não só ao nível do intertexto (já texto que se quer outro), mas também do extra-texto, não versassem as "traduções" de Pessoa e Valéry uma obra incontornável da literatura universal, traduzindo simultaneamente uma relação agonística com o cânone literário.

Não deixa de ser curioso que apesar do interesse óbvio de Pessoa pela personagem e tema do Fausto, este não seja tão frequentemente citado nos seus escritos como a da figura de Goethe (também aqui encontramos mais um paralelo com Valéry). A s referências a Goethe passam mais pelo famoso Conversas com Goethe , produto da admiração reverencial do fiel Secretário do poeta, Johann Peter Eckermann, do que pelo próprio Fausto goethiano. Aparentemente contraditório, pois Goethe é muitas vezes referido como um autor nos antípodas de Pessoa, em parte por Goethe ter gozado de uma hiperpresença e preparado cuidadosamente a sua posteridade em vida, em contraponto a Pessoa, supostamente inactivo quanto à sua publicação em vida .

Mas será a partir do autor alemão que, em Erostratus 2(sintomaticamente escrito em inglês), Pessoa elaborará uma primeira definição da universalidade de um escritor. Esta residiria em Goethe na "extensiva elaboração" (Pessoa: 2000, 52) e não "em frases sagazes, nem em ideias felizes, mas sim na capacidade de construir e desenvolver" (Pessoa: 2000, 54), convertendo "o nosso pensamento casual num sistema, dando-lhe, assim, corpo" (Pessoa: 2000, 53), ou seja, tudo aquilo que nunca conseguiu. Por outras palavras, só o negativo da sua própria imagem é que conquistaria definitivamente "o direito de entrada nas mansões do futuro"(Pessoa: 2000, 52).

Sendo Fausto e Mon Faust textos ancorados na tradição (mito e tradição literária), num diálogo com a cultura europeia, não encerram em si, contudo, uma função meramente ancilar, mas muito mais uma transposição e transgressão desta mesma tradição. No seu ensaio Erostratus (cujo título toma o nome de um desconhecido de Éfeso que lança fogo ao templo de Diana para que ele próprio fique também com o seu lugar na História), Pessoa refere incisivamente que a "novidade que perdura é a que toma todos os fios da tradição e os tece novamente num padrão que a tradição seria incapaz de criar" (Pessoa: 2000, 91) . Génard Genette, por sua vez, atribui ao texto de Valéry, pelo tipo de relação com o "hipertexto", a categoria de "suplemento", que passaria por "une extrapolation déguisée en interpolation, une transposition sous forme de continuation" (Genette 1982: 527). O texto de Valéry foi pensado como um terceiro Fausto, isto é, concebido como um prolongamento directo do I e II Faust de Goethe, mas também o Fausto de Pessoa constitui unicamente a primeira parte de um projecto de três Faustos, cujo terceiro representaria igualmente uma "continuação" dos textos de Goethe, segundo planos encontrados no espólio pessoano. Destas notas consta o Primeiro Fausto, meio-escrito segundo Pessoa e que representaria a luta entre a Inteligência e a Vida, e da qual a Inteligência sairia sempre vencida, um Segundo Fausto, em que Fausto reincarnaria e um Terceiro, uma tragédia mais transcendente ainda, na qual uma reincarnação futura do Fausto aparece com uma interrogação. Estes apontamentos revelam igualmente a intenção de fazer surgir em cena as figuras de Cristo, Maomé e Buda, contrapostas a Shakespeare, Goethe e Camões (Galhoz 1965: 713).

Mas como Genette sugere, este prolongamento será apenas o que encobre a transgressão, que, no caso dos dois autores, não tem que ver unicamente com o tratamento da figura do Fausto, per se já transgressora, ou a continuação da escrita (que mais não é que o prolongamento da tradição), mas com a própria reescrita (revisão da tradição), o escrever de novo, mas também contra, numa inscrição da contemporaneidade 3 e distanciamento do "hipertexto". Este afastamento dá lugar à paródia e ao jogo irónico em Valéry e em Pessoa parece passar pela inovação do género dramático, o que faz com o seu Fausto se traduza num drama lírico.

Apesar de Valéry referir, na advertência introdutória ao seu leitor, que tanto a personagem do Fausto como a do seu cúmplice têm direito a reencarnações, os textos parecem responder directamente aos grandes temas de Goethe para sistematicamente os negarem. Eduardo Lourenço, na sua leitura do Fausto pessoano, é assertivo quanto à "pura negatividade" e ao "canto negro" (Lourenço 1991: 40).

No Modernismo, a escolha do tema do Fausto surge como um pouco insólita. Paradoxalmente, o texto do Fausto do poeta português parece incorporar as feridas mais profundas e matriciais da "obra" pessoana e o Fausto de Valéry parece ultrapassar uma dimensão de transformação unicamente paródica. Pessoa e Valéry obrigam-nos a uma leitura do Modernismo a contra-pêlo (e a de mais um dos paradoxos do moderno?), contrapondo à histeria anti-passadista e do novo da sua época, os seus Faustos.

A questão do estatuto intertextual de Mon Faust (ébauches) e Fausto coloca-se, assim, por um lado, como é que o texto goetheano foi recepcionado, reformulado, reescrito e como reconfigura horizontes de expectativa criados "interliterariamente" e por outro, qual é o lugar destes textos transgressores, de que modo permitem um outro olhar sobre a poética de ambos os autores e sobre o seu tempo.

 

Bibliografia

 

Barthes, Roland: Le Plaisir du Texte . Paris: Éditions du Seuil, 1973.

Del Bene, Orietta: «Elementos para uma tentativa de estudo do "Primeiro Fausto " de Fernando Pessoa», in: Ocidente. Revista Portuguesa Mensal , N° 381, vol. LXXVIII, Jan. 1970, pp. 45-75.

Galhoz, Maria Aliete: «Notas aos Poemas», in: Poemas Dramáticos . Colecção Fernando Pessoa, Obra Poética. Org., introd. e notas de Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro:Ed. Aguilar, 1965, pp. 711-718.

Genette, Gérard: Palimpsestes. La littérature au second degré . Paris: Éditions du Seuil, 1982.

Lourenço, Eduardo: «A Vertigem Ontológica» in : Fernando Pessoa e a Europa do século XX . Porto: Fund. Serralves, 1991, pp. 35-47.

Pessoa, Fernando: Heróstrato e a Busca da Imortalidade . Ed. de Richard Zenith. Trad. Manuela Rocha. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000.

Pfister, Manfred: "Konzepte der Intertextualität", in: Intertextualität: Formen, Funktionen, anglistische Fallstudien. Broich, Ulrich / Pfister, Manfred (ed.).Tübingen: Niemeyer, 1985, pp. 1-30.

Plett, Heinrich F.: Intertextuality . Berlin: Walter de Gryter, 1991.

 

 

Os fragmentos do Fausto pessoano foram "ordenados" e editados por vários críticos: Em Portugal o poema dramático foi publicado pela primeira vez em 1952 por Eduardo Freitas da Costa com o título de "Primeiro Fausto" e sob a égide da Ática. Em1988, a Editorial Presença publica "Fausto. Tragédia subjectiva (fragmentos)" com estabelecimento de texto de Teresa Sobral Cunha. No Brasil, as duas publicações do texto optam igualmente pelo título "Primeiro Fausto": Maria Aliete Galhoz em 1965 pela editora Aguilar e Duílio Colombini pela editora Epopeia em 1986.

Neste ensaio, datado de 1929 (segundo o editor da última edição, Richard Zenith. Os editores da primeira edição do ensaio, Jacinto do Prado Coelho e Georg Rudolf Lind, indicam o ano de 1925), Pessoa propõe-se aqui examinar as condições que produzem a celebridade. Não consegue contudo contornar a questão central na sua vida - a literatura -, sendo assim reflexões sobre o processo de entrada no cânone. Goethe junta-se aqui a outras leituras de Pessoa, tal como Shakeaspeare ou Milton.

a personagem de Mefistófeles, que ainda figura no Fausto de Valéry (mas já contudo apodado de "affreux compère"), em Pessoa desaparece, pois deixa de fazer sentido.