![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
Travessias alegóricas da máquina do mundo
Ana Lúcia M. de Oliveira (UERJ)
Esta comunicação pretende enfocar a reciclagem da alegoria da máquina do mundo operada por Haroldo de Campos, retomando os textos seminais de Dante, Camões e Drummond. Para abordar o longo périplo de transcriação realizado em A máquina do mundo repensada 1, cabe examinar inicialmente as configurações de tal alegoria que foram convocadas no dialogismo poético haroldiano.
Em "A máquina do mundo", poema publicado por Carlos Drummond de Andrade no livro Claro enigma 2, encontramos um arcabouço narrativo em primeira pessoa. Apesar de longo (com 96 versos), o poema apresenta apenas seis períodos, que estruturam três seqüências narrativas básicas. A primeira está representada nos nove versos iniciais, que delineiam a moldura espácio-temporal - "fecho da tarde" (idem, v. 3) e "estrada de Minas, pedregosa" (idem, v. 2) - do inusitado acontecimento que será narrado. Na segunda seqüência, ocupando a maior parte do poema, a aparição da máquina e seu discurso inicialmente se fazem discretos, mantendo o clima de introspecção do solitário caminhante, revelado na primeira seqüência: "Abriu-se majestosa e circunspecta,/ Sem emitir um som que fosse impuro/ nem um clarão maior que o tolerável" (vv. 13-15). A máquina o convida a se aplicar "sobre o pasto inédito/ da natureza mítica das coisas" (vv. 29-30); entretanto, por não obter resposta, muda de tom, tornando-se mais categórica: "olha, repara, ausculta [...] essa total explicação da vida,/esse nexo primeiro e singular" (vv. 40-43). Contudo, esse apelo revela-se inútil. Desdenhada a visão da grande máquina, instaura-se uma nova seqüência, que retoma a situação inicial: o viajante continua a sua jornada, agora totalmente imerso nas trevas, as quais indiciam o tempo decorrido entre o surgimento da máquina no fecho da tarde e o seu desaparecimento já na noite, e também simbolizam o isolamento total do eu, a sua recusa do conhecimento e da comunicação com o engenho sobrenatural.
Destaque-se que a narração começa in media res , no meio de uma caminhada numa estrada de Minas, em que o viajante encontra-se envolto por sentimentos de introspecção e renúncia, atribuídos posteriormente ao cansaço de uma busca não concluída, à procura de um conhecimento jamais encontrado. Esses sentimentos determinarão sua atitude posterior face à máquina bem como a retomada de sua solitária jornada na seqüência final. Tal retorno ao ponto de partida denota a impossibilidade de superação de sua condição primeira e ressalta também o continuum da caminhada, não interrompida nem após revelações tão surpreendentes. Concretizando, portanto, a volta circular ao início, há a repetição quase total do segundo verso no penúltimo terceto: "sobre a estrada de Minas, pedregosa". Cabe ainda enfatizar a correlação entre a postura de isolamento do viajante e o ambiente físico descrito no poema, entre seu "passo seco" e a "estrada pedregosa". O caminho deserto e árido constitui o elemento topológico a partir do qual ele se define como ser solitário, índice do seu conflito não só existencial, como também epistemológico.
Haroldo de Campos, ao analisar o diálogo intertextual que se estabelece nesse poema, comparou-o à Divina Comédia , considerando a máquina drummondiana "um ensaio de poesia metafísica (quem sabe até de secreta teodicéia laica), no qual se recorta o perfil dantesco" 3. De fato, alguns pontos são passíveis de comparação entre as duas obras. Quanto ao tema, ambas apresentam uma situação semelhante: um viajante solitário na noite a quem é dada uma forma de revelação transcendental. Mas, a partir dessa situação temática única, os poemas desenvolvem caminhos radicalmente diferentes. Pertencendo a uma época para a qual Deus ainda não havia morrido, o poema de Dante descreve uma busca de união com o sagrado. Diante da grande revelação divina, o poeta-viajante manifesta uma alegria intensa, uma forma de êxtase místico-espiritual. Já o caminhante drummondiano não aspira a uma visão mística, uma vez que esta não lhe satisfaz mais, pois "a fé se abrandara" (v. 72). Desdenha a oferta maravilhosa da máquina e segue seu caminho difícil, porque não pode aceitar o que não se origina de "seu próprio ser desenganado" (v. 9).
Em sua operação transcriadora, Haroldo de Campos constrói um novo lugar, distante da crença e do ceticismo, para tal embate com o engenho maravilhoso. Leiamos o depoimento do próprio autor acerca desse ponto:
Minha perspectiva, não respondendo a uma fé inicial (como a de Dante e de Camões), nem a um ceticismo desilusionado e radical (como em Drummond), é agnóstica, ou seja, em vez de "incuriosa", animada pela curiositas , pelo desejo de, na dúvida, explorar os possíveis que a hermenêutica do enigma oferece: não crendo nem descrendo, mas duvidando e inquirindo, no sentido de buscar (até onde factível) o conhecimento. 4
Sabemos que a terza rima foi criada por Dante como uma forma apropriada à sua poesia, devido à referência simbólica à Santíssima Trindade. Como reflexo desse simbolismo de base católica, encontram-se no texto vários elementos triádicos: além da terza rima , os três cántiche , os trinta e três cánti em cada cántica e as nove divisões de cada plano. Já Drummond empregou os tercetos clássicos, mas não no modelo encadeado e rimado de Dante, afastando-se da disposição estrófica e da cadeia de rimas triplas interligadas do poema italiano. Não assumindo uma postura mística em sua concepção da máquina do mundo, o poeta mineiro utiliza os tercetos como um simples recurso formal, dissociando-os do simbolismo religioso manifesto na Divina Comédia . Na aguda formulação de Alfredo Bosi, a "Máquina do mundo" foi "escrita segundo o modelo da terza rima dantesca, mas... sem rima, já que seus decassílabos são rigorosamente brancos" 5.
N´ Os Lusíadas 6, o episódio de revelação da máquina, feita pela ninfa Tétis a Vasco da Gama e seus companheiros, constitui a parte final da epopéia lusa, realizando uma síntese alegórica da cosmovisão não só do autor como também de sua própria época. Com efeito, "a epopéia camoniana foi conseqüência da própria evolução cultural e científica do país. Surgiu no momento adequando, quando era esperada, [...] como coroamento do esforço de toda uma coletividade que declinava" 7. Expressiva de um dado momento histórico, essa obra formula uma síntese da cultura medieval com a renascentista, que se reflete na concepção da máquina do mundo, não só nos níveis histórico - os feitos dos navegantes portugueses - e científico - a teoria cosmológica ptolomaica ainda corrente na época -, como também no ficcional - o entrelaçamento do maravilhoso pagão e do cristão, típico do momento de transição representado pelo século XVI. Esse momento de transição se evidencia em certos conflitos básicos que permeiam a obra, como, por exemplo, o contraste entre o sentimento da dignidade do homem, que, com sua ousadia consegue quebrantar os "vedados térmicos", candidatando-se por isso à divinização, e o da sua insignificância de "bicho da terra tão pequeno".
Por estar estritamente relacionada à forma mentis do seu tempo, a máquina camoniana diverge em vários aspectos da máquina drummondiana, satisfazendo, conforme assinalou Silviano Santiago 8, curiosidades diferentes. Na primeira obra, uma curiosidade geográfica e astronômica dos navegantes portugueses, apresentando uma lição de mecânica celeste e de geografia universal. Em termos de lógica narrativa, a máquina é o artifício que permite inscrever no âmbito do poema as conquistas futuras dos portugueses, indicadas no discurso profético de Tétis, a partir do globo mágico. Já na segunda, ao contrário, a máquina se propõe a satisfazer uma curiosidade humana e filosófica que lhe havia sido negada antes. Trata-se de uma máquina ontológica, que proporciona o conhecimento da vida e do mistério do ser.
No poema de Drummond, a revelação da máquina constitui não um episódio, mas o elemento estruturador central. Afastando-se mais da epopéia lusa, ele inverte o tratamento da temática: àqueles a quem foi anteriormente dado o conhecimento do engenho divino, o prêmio foi recebido com satisfação, mas o viajante drummondiano recusa a oferta ao ser tentado. Em outras palavras, na transcriação poética de Haroldo de Campos: "Incurioso furtou-se e o canto-chão/do seu trem-de-viver foi ruminando/pela estrada de minas sóbrio chão" (2000, p. 35). Outra diferença básica encontra-se na configuração do maravilhoso. O plano ficcional d´ Os Lusíadas se estrutura a partir da intervenção dos deuses pagãos no decorrer da viagem dos portugueses, porém esse maravilhoso pagão está subordinado à ordenação cristã do mundo. Já em Drummond a máquina, pertencente a um plano extraterreno, é questionada pelo viajante, que, por não acreditar em auxílios superiores, rejeita os conhecimentos por ela oferecidos, negando com isso a possibilidade de qualquer recurso à transcendência.
Nessa perspectiva, aceitar a oferta da máquina seria negar a autonomia do pensamento, transferir para um objeto mágico a solução de suas inquietações humanas, demasiado humanas. Sintetizando, pode-se dizer que "A máquina do mundo" drummondiana reflete não um pessimismo epistemológico, mas uma negação do conhecimento gratuito, que se oferece sem ter sido buscado. Reflete também um humanismo tipicamente moderno, com sua recusa de uma realidade sobrenatural, de soluções exteriores ao próprio homem. Por fim, esclarece-se não o enigma, mas a sua condição básica de existência: o enigma deve permanecer enquanto tal, pois não é passível de solução que não dependa de uma intervenção sobre-humana.
Deixemos com o próprio Haroldo de Campos, em seus Depoimentos de oficina , a síntese dessa comparação entre os poetas citados:
Tanto a posição de Dante, como a de Camões, perante o enigma do Universo, é a de um crente, de um fiel seguidor da dogmática teológica do cristianismo, jamais posta em questão. [...] Já no caso de Drummond, é um poeta cético, "incurioso" à força das decepções sofridas, o protagonista que recebe e recusa a oferta de revelação, que implica a sabedoria, ou seja, o conhecimento do engenho regulador do Ecúmeno (2002, p. 63)
Inscrevendo-se em uma longa e fecunda tradição poética que busca seus temas na ciência e, mais especificamente, no estudo do cosmo, A máquina do mundo repensada por Haroldo de Campos atravessa, a partir de uma retomada dos três poetas anteriormente mencionados, antigas concepções cosmológicas para chegar às novíssimas teorias da cosmofísica contemporânea. Como o seu próprio título evidencia, esse longo poema de 152 estrofes de três versos, mais uma coda de verso único, forjado no modelo da terza rima de Dante, de ritmo decassilábico, se propõe como exercício dialógico em relação à tópica da máquina do mundo, oferecendo-se como um discurso sobre o enigma do universo no limiar do terceiro milênio. Tornando mais explícito o dialogismo, logo na abertura, alude ao poeta italiano: "quisera como dante em via estreita/ extraviar-me no meio da floresta/ entre a gaia pantera e a loba à espreita" (p. 13). Além disso, o arcabouço estrutural da obra emula o de três partes da Divina Comédia . O primeiro canto, com 40 estrofes, é alusivo a um "ciclo ptolomaico", retomando explicitamente a dicção poética dos três autores que tematizam a máquina do mundo; o segundo, com 39 estrofes, enfoca a evolução da Física, de Galileu até Einstein; já o terceiro, que ocupa 73 estrofes mais um verso final, descreve a "gesta do cosmos" ( p. 61), especialmente a hipótese do Big Bang.
Em sua "tentativa cosmopoética" (Campos: 2002, p. 66), segundo ele mesmo a designa, Haroldo de Campos trabalha seus versos a partir de um processo de translação metafórica, que ele justifica pelo fato de que "a metáfora é o recurso indeclinável para a figuração plástica dos inventos da física" (idem, ibid.). Destaca, além disso, a "aura metaforizante que nimba conceitos como os de ´buracos negros`, ´anãs brancas, azuis e rubras`, ´morte de estrelas` ou ´desvio vermelho`" (idem), bem como os personagens conceituais do "demônio determinista" de Laplace e do "demo termodinâmico" de Maxwell - todos esses referidos na intrincada trama poética haroldiana.
Comentando o final "propositadamente inconclusivo do poema" (Campos: 2002, p. 69) - a coda final " O nexo o nexo o nexo o nexo o nex" (Campos: 2000, p. 153) -, o próprio poeta-analista explicita: "Ao cabo do percurso indagador, a ´agnose` não se transformou em ´gnose`; ficou como no princípio, a dúvida (agora, é verdade, enriquecida pelo esforço metódico de auto-indagar-se). A ´física´ não deu lugar a uma ´metafísica. Parodiando Guimarães Rosa, [...] a verdade não há´" (Campos, 2002, p. 69). A esse comentário deve-se acrescentar a leitura singular de Alcir Pécora, que agudamente observa que "o latim do último termo ( nex = morte) desata o ´nó`, sentido último do suposto mistério, na secura da ruína" 9. Bem diversa é a análise de João Alexandre Barbosa, que destaca o caráter circular desse isolado verso, o qual "assume um papel fundamental no texto, em que o primeiro signo parece ser a figuração da procura infinita, uma vez que o último o retome" . Desse modo, unindo o fim ao início do último verso, o artigo o completa a inconclusa palavra, restaurando o nexo e, mais uma vez, retomando o poema drummondiano, em que o engenho cosmológico oferece ao viajante "essa total explicação da vida/esse nexo primeiro e singular" (Andrade: 1973, vv. 40-43). Em síntese, nas palavras conclusivas do crítico anteriormente citado: "para um poeta contemporâneo que, de sua contemporaneidade, lê a tradição das leituras, como é o caso de Haroldo de Campos, repensar a máquina do mundo será obrigatoriamente indagar pela máquina do poema que concretiza as articulações entre poesia e pensamento" (Barbosa: 2002, p. 12).
Não cabe aqui destrinçar todos os fios dessa trama, apenas apontar para a complexa operação intertextual que está na base da Máquina do mundo repensada . Para percorrer a obra desse "cosmonauta do significante", portanto, os caminhos possíveis sempre são múltiplos, cabendo ao leitor os riscos da travessia. Minhas retinas tão fatigadas apenas apreenderam de esguelha o inusitado acontecimento: no meio do caminho tinha uma máquina, tinha uma máquina no meio do caminho...
CAMPOS, Haroldo de. A máquina do mundo repensada. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.
ANDRADE, Carlos Drummond de. A máquina do mundo. In: Reunião . Rio de Janeiro: José Olympio, 1973.
CAMPOS, Haroldo de. Drummond, mestre de coisas. In: Metalinguagem e outras metas . 4. ed. rev. ampl. São Paulo: Perspectiva, 1992, p. 52.
CAMPOS, Haroldo de.De uma cosmopoesia: sobre a Máquina do mundo repensada . In: Depoimentos de oficina . São Paulo: Unimarco Editora, 2002, pp.65-66.
BOSI, Alfredo. A máquina do mundo entre o símbolo e a alegoria. In: Céu, Inferno . São Paulo: Ática, 1988, p. 95.
CAMÕES, Luís de . Os Lusíadas . Porto: Porto Ed., s/d.
TELES, Gilberto M. Camões e a poesia brasileira . São Paulo: Quiron, 1976, p. 37.
SANTIAGO, Silviano. Camões e Drummond: a máquina do mundo . Hispania (3), september 1966, vol. XLIX, p. 393.
PÉCORA, Alcir. O Big Bang místico. In: Caderno Mais. Folha de São Paulo . São Paulo,24 de setembro de 2000, p. 4.
BARBOSA, João Alexandre. Poesia e pensamento (concreto). Revista Cult n. 39. São Paulo: Lemos Editorial, out. 2000, p. 12