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Ausências e excessos na poesia de Arnaldo Antunes e de Melo e Castro
Wagner José Moreira (Universidade de Itaúna/PUC-MG )
Lendo a poesia de Nome , de Arnaldo Antunes, e de Algorritmos: infopoemas , de Melo e Castro, tem-se a sensação de perda diante do texto. Como se algo escapasse nessa interação, apesar da precisão das imagens poéticas veiculadas. Tal sentimento traz à baila uma discussão sempre atual, a da fluência do texto artístico que se constitui para além ou aquém de qualquer função. Visto dessa maneira, a escrita suscita um pensamento sobre o seu fazer que se dá nesse vazio de propósitos e intenções. Será esse um lugar aberto por um sinal de não, de subtração? Como esta construção se estabelece enquanto texto apreensível se fala uma ausência? Quais as implicações desse universo de falta para a representação dessa escrita?
Seguindo na companhia das conseqüências da morte para a realização poética, sob a perspectiva de Maurice Blanchot, dialogarei livremente com os poemas Nome , de Antunes e Norte , de Castro, na tentativa de elucidar um percurso poético que explora a imagem do fim como um ponto de fuga da escrita.
Norte , poema do livro de Castro, fala sobre a temática da morte. O texto se constitui pelas semelhanças fonológicas e gráficas dos vocábulos que designam os pontos cardeais. Cada direção deixa entrever um sentido para além do geográfico, estabelecendo um paradigma suplementar para a orientação. Oeste – o outro dialoga com leste – este ; norte – morte com sul – luz . Pode-se perceber nessa distribuição das diretrizes espaciais uma bipolarização temática: no eixo horizontal, tem-se a alteridade frente à identidade; e no eixo vertical, o fim da existência sobre a luminosidade.
A morte aparece, portanto, pairando sobre as proposições apresentadas pela poesia. Associada ao signo norte , ganha uma força adicional com o sentido de estar como o guia, a direção, o rumo de um percurso, neste caso, de todos os itinerários possíveis. Ela se dá como uma massa, um lugar de extensão indefinida que se molda de acordo com aquele que se encaminha por seus espaços. Assim, ela esboça uma ação que atinge seu termo no infinito (Blanchot, 1987: 103).
Diferente de uma meta, de um objetivo a ser alcançado, ela está como uma inevitabilidade relativa. Isto redimensiona o triângulo que se forma abaixo, com sua base voltada para cima, para a morte. Como em diversos textos visuais barrocos, a base dessa figura geométrica voltada para um ponto superior, pode indicar uma abertura para essa força maior que os desejos, ações e potências humanos, marcando uma relação de inferioridade diante desta intensidade inefável . O que estabelece uma marca sobre-humana para esse adejar funesto , sem perpetrá-lo como um plano de vôo racionalmente elaborado.
Os embates em nome da alteridade, da identidade e da lógica aparecem como atos terrenos que se iniciam e findam nesta existência, como uma expressão natural dos indivíduos antes de se lançarem ao nada absoluto. E quando não existe nada, é o nada que não pode continuar a ser negado, que afirma, reafirma, declara o não-ser como ser, a ociosidade do ser (Blanchot, 1987: 107). A poesia apresenta a morte fora da noção de belo ou de horror, pois ela está para além ou aquém do humano, apenas tangenciando a existência como uma borda fluida, volátil, imperceptível e presente.
Ao não se utilizar de um eu na formulação do texto, essa escrita aproxima-se desse movimento de se distanciar do ser para se colocar no aberto que essa falta proporciona. Aqui, nesse deslocamento, o que aparece é a poesia como fala. Um dizer que se afirma por si e para si mesmo, sem meta, sem planejamento. Uma emissão lançada como um plano de consistência (Deleuze, 1995: 12) pronto para interações múltiplas.
Nome , de Arnaldo Antunes, dá-se por meio do apresentar abrupto das imagens, instauradas por um padrão comparativo. O ato de designar implica uma tentativa de se destacar a singularidade de um ser, fixando-lhe por meio desta, transformando-o em uma coisa apreensível, palpável, concreta. Aqui, a nomeação é discutida por um procedimento de similaridade e deslocamento simultâneos, causador de uma vertigem diante do abismo da instabilidade das significações.
Assim, arrastada por essa fluência e distorcida por essa tensão, a morte é apresentada nos versos osso é o nome do fóssil / corpo é o nome do outro . Uma se dá à distância, porque petrificada em um tempo remoto; a outra, próxima, porque diz da substância física pela qual existimos. E, em ambas, verificam-se os traços essenciais do ser vivo. Essa presença cadavérica estabelece uma relação entre o cá e parte nenhuma (Blanchot, 1987: 258), enfatizando o vazio da morte, esse deslocamento sobre o qual nada se sabe, mas que se apresenta no aqui, particularizando o instante em sua face irrecuperável.
Enquanto cadáver, a morte evidencia-se como a sua própria imagem, pois não é o ser que existiu e muito menos dá a ausência deste. Ela se faz um lugar neutro e invulgar na medida em que apresenta a ambigüidade da não existência presentificada em uma imitação da ausência. Ela é uma imagem inerte que não é o sentido de si mesma e não ajuda à sua compreensão, mas tende a subtraí-los na medida em que se mantém na imobilidade de uma semelhança que nada tem com que se assemelhar (Blanchot, 1987: 262). Essa particularidade hesitante traz à baila a crise da representação da perda derradeira , uma vez que não se pode especificar as coordenadas espaciais e temporais desse evento .
A poesia enriquece o seu potencial com esse procedimento desdobrado pela imagem da morte. Toda sua extensão se deixa mover por esse ritmo fugaz, tênue, esvaziado de sentido, para traspassá-la por essa força indizível, realizada pelo dizer a ruína. A escrita fala, assim, a sorte do homem que é o nome do outro , digo melhor, ao exprimir-se sobre o humano, essa tessitura aponta um distanciamento entre aquele que é falado e o que diz. Ela não é o objeto sobre o qual se enuncia e, muito menos, o ser que fala através dela. A poesia está como imagem realizada no apagamento do eu.
Transitória, ela se deixa transbordar sobre os próprios limites, estabelecendo uma ação dinâmica que faz aparecer o seu vazio referencial, a sua impossibilidade de dizer o que é, porque está sempre um outro, sempre uma imagem vacilante entre os sentidos potenciais da escrita. A tessitura se faz sussurro imperceptível, um ruído que mal se distingue do silêncio, o escoamento de grãos de areia do silêncio (Blanchot, 1987: 169).
Norte e Nome constituem-se no espaço do incessante, do interminável, o murmúrio sobre o qual a linguagem, ao abrir-se, converte-se em imagem, torna-se imaginária, indistinta plenitude que está vazia (Blanchot, 1987: 17). E, enquanto imagem, evidencia o afastamento de uma mediação entre o signo e o objeto referendado para se afirmar como um esquecimento desse. O verbal ganha ares de visual, seja através do pixel, seja por meio do telemático, simulando a si mesmo, em um deslocamento lúdico para o seio da ausência.
A partir desse pensar, pode-se dizer que o poético se dá em um estender-se da ausência sobre o poder de olhar manifestado nesses textos. Um olhar que deixa aparecer uma tessitura singular de um espaçamento tramado como um sutil entrelaçamento que instauraria uma metamorfose visual (Didi-Huberman, 1998: 147) múltipla e singular. Um ato que olha para além de si mesmo, para um fora no qual se constitui. A poesia reivindica, assim, sua aura por meio da visibilidade ambígua, isto é, que se aproxima do objeto para dizer e afirmar sua distância.
Há uma face dramática evidenciada por essa escrita. Para além da temática da morte, que a atravessa e modifica, deve-se reconhecer o seu aspecto de trânsito como um ritmo incessante que faz colidir e esgarçar o poético. Um ritmo que precipita as imagens uma em direção à outra, que as reúne em seu máximo de energia e encanto (Baudrillard, 1991: 119) para desvelar o movimento de sedução como uma disposição no espaço dos elementos expressivos e estéticos, com alternância de valores de diferente intensidade.
O caráter icônico (Santaella, 1999: 141) predomina nessa linguagem à deriva. Percebe-se um esforço para que as imagens apresentem a própria materialidade, enfatizando suas qualidades. Isto implica em uma linguagem que se dá pelo processo de desdobramento do imagético, pois ele está como objeto e veículo de si mesmo. Tal procedimento não exclui graus de atuação diferenciado nos quais possam ser verificados vestígios de singularidades ou de regularidades. O poético dança sobre seu próprio corpo fazendo-se espetáculo e espectador.
A poesia de Castro e Antunes expressa-se com uma capacidade de renovação de valores que gera uma instabilidade das significações de todos os códigos possíveis. O seu desejo de projetar-se para o horizonte, pelo processo de associação com a morte, eleva o lúdico à condição de vetor fundamental do ato criativo. A utilização dos meios telemáticos como espaço de fruição poética revela a importância do fenômeno da multiplicidade de imagens. Este aspecto age sobre a escrita de maneira dialética, ora edificando-a, ora implodindo-a. O que faz da tessitura um espaço dinâmico, onde se pode situar todos os outros planos possíveis.
Isto implica uma poesia de volume incalculável, sem nenhum limite. Poesia que se revela sem se desnudar, isto é, apenas conduz para os sentidos possíveis de serem constituídos pelo imaginário tocado de infinito. Poesia que se faz impossibilidades, incomunicabilidades presentificadas na escrita movediça em uma duração que desloca o espaço/tempo com suas materialidades instantâneas.
Abstract:
From the poetry of Nome by Arnaldo Antunes and Algorritmos: Infopoemas, by Melo e Castro, the work intend to show the poesy as an excessive creative process of dubiety, of endless, of the self erase. The poetic links presented among verbal, sound and visual languages, go through the space where they show the broken representation of the language. The literary creation dimension itself through the writing.
In this manner, it will be necessary to put in evidence the conceptions of literature and death by Maurice Blanchot showing a poetry rich in hermeneutic possibilities, that reveal itself through absence of the object.
Referências bibliográficas:
ANTUNES, Arnaldo. Nome . São Paulo: BMG, 1993.
BAUDRILLARD, Jean. Da sedução . Campinas: Papirus, 1991.
BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.
CASTRO, Ernesto Manuel de Melo e. Algorritmos: infopoemas . São Paulo: Musa Editora, 1998.
DELEUZE, Gilles. Mil platôs — capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995. vol.1.
DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha . São Paulo: Ed. 34, 1998.
SANTAELLA, Lucia e NÖTH, Winfried. Imagem. Cognição, semiótica, mídia. São Paulo: Iluminuras, 1999.