![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
O trânsito em torno do vazio nas personagens modernas da literatura no século XX
Márcia Regina Xavier da Silva (UFRG)
No ingresso ao mundo, as sensações desprazerosas são as primeiras a se instalarem em qualquer ser humano. A experiência do imediato desconforto que o bebê tem ao nascer sinaliza para a verdade imediata da condição humana: o mal-estar, o desamparo. Tal constatação se inscreve na medida em que a realidade intra-uterina parecia oferecer tudo a seu tempo, hora e equilíbrio. Temperatura, alimento, ruído e espaço suficientes e eficientes, a tempo e a hora. Não precisava desejar, não havia falta, não havia mal-estar. O primeiro momento de caos que o bebê vai enfrentar é o de uma experiência da força de viver, o nascimento. Ali, no útero, ele já não cabe mais, não existem mais espaços vazios para ele se desenvolver. O corpo materno não é mais o provedor irrestrito de bem-estar. Ele, o bebê, quer, precisa, deseja permanecer vivendo e a única forma é sair daquele ambiente de garantias irrestritas e aventurar-se para um espaço totalmente desconhecido, inóspito, barulhento; o “além túnel”. Para que haja sobrevida, é necessário lançar-se no “vazio”. Nossa primeira travessia que nosso consciente tenta esquecer e que nosso inconsciente procura interpretar, nomear, atribuir sentido, ou, simplesmente, recalcar. Uma vez nascidos, passamos, então, a viver na busca de recuperação desse absoluto bem-estar, desse sentimento de total completude, atribuindo ao retorno a este estado o nosso maior objetivo de estarmos vivos. Esquecidos de que foi justamente a falta do vazio que nos impulsionou em direção à vida, perdemos por completo esta lição iniciática do rito de viver. O que nos faltou, garantiu o nosso desejo e, por conseguinte, a nossa condição de estarmos vivendo.
Freud, já no início do século XX, nos adverte sobre este fato em O mal-estar na civilização. Ele acentua que esta busca é marca da condição humana, e que este traço nos inaugura na vida, pois sempre estamos desejando a dita “felicidade oceânica”, como o próprio nome sugere, sem abalos, sem fronteiras, ampla, irrestrita. No entanto, ele também assinala que é certo de que caso ela (a felicidade oceânica) se configurasse, nos condenaria à não-percepção deste tão sonhado sentimento. Isso mesmo, quando o nosso inconsciente bloqueia a informação da experiência do nascimento, também bloqueia a informação que advém do contraste. O que não nos é possível é viver sem a experiência do desconforto, do mal-estar, da falta, do vazio. Elas são a garantia do prazer e do reconhecimento de felicidade. Este paradoxo é o que inaugura o ser humano, dele não é possível escapar.
Até o século XIX, as várias formas de se blefar esta condição humana estão amplamente ilustradas nos romances e contos românticos, realistas e naturalistas 1. As técnicas do encobrimento do desejo, da sublimação e da aparente “negação” são amplamente desenvolvidas e utilizadas nas estruturas narrativas das novelas e dos romances românticos do início do século XIX. Mais para o fim deste mesmo século, as matrizes de narrativas realistas e naturalistas vão incorporar um pseudodiscurso científico para demonstrar atitudes então chamadas de patológicas daquilo que foge aos comportamentos ditados pela moral cristã burguesa vitoriana, ou seja, lá se buscava um aliado aparentemente isento para legitimar o encobrimento do desejo — a ciência —, e, por conseguinte, a falta, o vazio.
Já no século XX, muito também por conta da experiência da modernidade, é possível se observar nas literaturas brasileira e portuguesa uma nova configuração desenhando-se: o espaço da produção literária como manifestação necessária para seres que se reconhecem humanamente como imperfeitos e, portanto, desejantes! Devemos dividir em parte com a modernidade tal mérito, pois, a busca de uma nova linguagem estética para uma nova ordem de experenciar o mundo, garantiu de certa forma este ingresso da abordagem da precariedade humana na literatura. Aqui, a leitura da imperfeição é levada a um outro patamar de compreensão. Cabe lembrar que muitas vezes tal leitura é viabilizada por meio do espaço da enunciação, pois o contraste desta com o enunciado é o que quebra a aparente aceitação das atuações empreendidas pelas personagens. Logo, esta mesma literatura seria o lugar de trânsito deste mal-estar, desta falta, apontando, nomeando nossos “buracos”. Aquilo a que chamo de buracos são as faltas tão sadiamente presentes em todos os seres encarnados, o motor que nos impulsiona na direção dos sobressaltos de viver. Vejo, então, dentro desta linha, algumas narrativas do século XX como relatos de sobreviventes ao massacre da doutrinação masoquista ocorrida no século XIX, e mais, como produção de novos olhares sobre a mesma questão.
Para empreender esta leitura, escolhi como matriz o romance-idílio Amar, verbo intransitivo , de Mário de Andrade em que se observa desde o início, na personagem protagonista – Fräulein Elza –, uma tentativa de encobrir seu sofrimento, blefando com seu mal-estar. Por isso, ela prefere não se arriscar, optando por uma fuga da realidade. Numa visão inicial, parecem a modernidade e seus códigos causarem-lhe medo, pois ela não dispõe de ferramentas para lidar com eles, nem pretende obtê-las. Num observar íntimo, oferecido graças ao narrador autoconsciente, verifica-se que ela, na verdade, se recusa a participar de um mundo sobre o qual não tem nenhum interesse porque não consegue possuir qualquer domínio. O blefe se inscreve como estratégia de denegar o sofrimento. Com isso, Elza recusa a própria condição humana, encarcerando seu deus , no caso, o desejo, e tornando amar um verbo intransitivo.
Já foi lembrado aqui que essa sensação não é de exclusividade das personagens modernas, mas sim de qualquer ser “encarnado”, seja na forma de vida humana ou na vida ficcional. A novidade, então, seria o olhar que a prosa oferece a partir do século XX nas literaturas brasileira e portuguesa sobre o que chamei de “travessia sobre o vazio”, ou seja, uma assunção da condição humana, reconhecendo que há o vazio, como operacionalização do movimento de vida e como resto do desejo não acolhido na sua integridade.
A primeira personagem a ser analisada será a Fräulein Elza de Amar . A escolha inicial por ela é justamente para montar um sistema de contraposição a outras personagens que terão suas trajetórias e/ou tratamentos oferecidos pelas respectivas narrativas de forma a se distinguir e/ou confirmar sua relação positiva, criativa ou destrutiva com o “vazio”. A complexidade da construção da personagem de Mário propicia um exame mais detido do ponto que quero discutir. Ela sabe do “mal-estar” e tenta “deslizar” para uma condição outra.
Estava muito pouco Fräulein no momento. Porque Fräulein, a Elza que principiou este idílio era uma mulher feita que não estava disposta a sofrer. E a Fräulein deste minuto é uma mulher desfeita, uma Fräulein que sofre. Fräulein sofre. E porque sofre, está além de Fräulein, além de alemã: é um pequenino ser humano. 2
O projeto de Fräulein é sair daquilo que inaugura a todos nós como seres humanos – a falta, a mãe do desejo – para não ter que sofrer, viver, reconhecer as suas imperfeições que a fazem tão ricamente humana e tão desconfortavelmente fora de controle.
A construção oferecida pelo narrador autoconsciente de Amar confere uma possibilidade de ver Fräulein em ação na atividade de doutrinação da formação dos papéis familiares dos Sousa Costa. Aí ela é a professora e, ao mesmo tempo, sua maior discípula. O Sr. Souza Costa sabe a qualidade do profissional que contratou e da garantia de eficiência germânica que ela oferece. A governanta é o próprio símbolo da incomunicabilidade, da intransitividade da família. A partir de sua presença entre os Sousa Costa, é possível observar um fenômeno que denominei efeito Elza:
Elza é filho chegando do sítio ou mãe que volta de Caxambu. Membro que faltava e de novo cresce. Começara como quem recomeça, e a tranqüilidade aplainou logo a existência dos Sousa Costa, extraindo as últimas lascas da desordem, polindo os engruvinhamentos do imprevisto. (AVI - p. 15)
Experimentar a fugaz sensação de segurança significa quase sempre se situar num equilíbrio entre confiança e risco aceitável. Fräulein por não conseguir (ou, quem sabe, não querer?) passar por essas etapas do homem moderno, fica presa no devaneio romântico, idílico, para salvaguardar-se quando a realidade cobra demais dela. É possível capturar esse momento do inaceitável dela por meio do discurso interno quase ininteligível, fragmentado, trazido à cena pelo narrador.
O idílio vai prosseguindo, seu ponto alto acontece na integração de Fräulein à natureza como um refúgio fugaz de libertação de seu deus (desejo). Isto ocorre em meio a um passeio dos Sousa Costa ao Rio de Janeiro, na Floresta da Tijuca: “Não pôde mais. O corpo arrebentou. Fräulein deu um grito”.(AVI - p. 137). O gozo é também dor e feiúra. A “alma vegetal” é passaporte seguro das contrações do corpo que se alastram para então gozar. O prazer de Fräulein curiosamente a faz feia. Lingüisticamente falando, o grito é um som sem valor opondo-se por isso ao fonema; não há código.
O momento em que Fräulein explode suas emoções intensas, capturadas pela narrativa, é viável apenas porque escapou do discurso rígido do racionalismo tão apregoado pelo homem-da-vida. Mas tudo isso ocorre sem testemunhas, apenas a do narrador, cúmplice e relator (ou delator?) deste momento absolutamente singular para a heroína de tão poucas realizações, tão poucos feitos. A cumplicidade do leitor é inevitável, ou melhor, até desejável.
Um outro viés sobre o vazio a ser discutido seria a circunstância absurda, cientificamente inexplicável, mas não menos de uma profunda experiência de horror que Ensaio sobre a cegueira 3nos oferece. Um campo fecundo para a discussão sobre o mal-estar da ordem do insuportável, da náusea que é provocado em todos, inclusive e principalmente para quem lê; questionando, ao longo da “travessia do fabular”, se não estaria ele, o leitor, também cego... A que espécie de cegueira estariam os habitantes daquela cidade sendo contaminados? Vale destacar que a experiência de Fräulein Elza é a daquela que ainda não se conscientizou do seu “grau de cegueira” porque simplesmente “não quer ver”, ele poderia tranqüilamente habitar o espaço narrado por Saramago. A impossibilidade de enxergar daqueles seria o efeito colateral do adiamento do confronto com o “vazio”? O vazio, então, se manifestaria pela via concreta da cegueira. Sua aparente cura não seria por meio de um grito — pré-fala (vide Elza), mas uma travessia da aceitação daquilo que só é enxergado por intermédio da não-visão. Se em Amar há uma contextualização de tempo e espaço importante para a construção da intriga, em Ensaio , a ausência destes marcadores só amplia o sintoma humano de denegar os vazios. A cegueira pode acontecer a qualquer um, em qualquer lugar, a qualquer hora.
Já em O Bolor 4, a “intransitividade” é tamanha que se expressa na ausência de um narrador, nas esterilidades das “cartas” (?) trocadas (ou não) entre as possíveis personagens, marido & mulher do romance. Mais um par para a galeria de tentativas de “travessias” do “vazio”. Uma angústia é tomada por aquele que lê, pois o fenômeno da incomunicabilidade é avassalador, não há como organizar aquelas cartas – como bem gostaria de fazer Fräulein — porque elas não parecem ter sido escritas para dizer algo entre as personagens, mas para além delas. Como em Ensaio , o vazio se manifesta pelo sintoma da ausência de visão, aqui seria o do diálogo, da troca, nomeando mais uma espécie de esvaziamento no sentido do não enfrentar as imperfeições da precariedade das relações afetivas. O que está embolorado? A crença no par perfeito? Na completude absoluta? Cabe reforçar que, muitas das vezes, a experiência da travessia do vazio é operacionalizada no espaço da enunciação pelo jogo de espelhos que o enunciado ricamente oferece àquele que cruze atentamente a arriscada leitura.
Gostaria de pensar sobre alguns contos de Clarice para cotejar experiências epifânicas ( insight ) de algumas personagens também no enunciado. Como exemplo, gostaria de usar o conto “Amor”, de Laços de Família 5, em que Ana, depois de experimentar a travessia do “amor e o seu inferno”, muito ao gosto de uma discípula de Fräulein, diante do espelho, decidiu “Antes de deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.” 6Aqui Ana é uma voluntária consciente da cidade dos cegos de Ensaio , com uma diferença fundamental — ela não foi tomada de assalto pela cegueira, ela quer permanecer assim, pois, em sua travessia, não gostou do que foi capaz de vislumbrar. Ana, parceira das mesmas escolhas de Fräulein, aborta o ser desejante que tinha sido gestado em sua última experiência, a “revelação” do “cego que masca chicles”, e vai à terra dos “sem flama”, sem luz, cegos.
Faço uma convocação de João Gilberto Noll, na sua construção de uma narrativa que apresenta radicalidade e crueza ao encarar os ditos dramas humanos no conto que inaugura o livro O cego e a dançarina 7, chamado “Alguma coisa urgentemente”, o narrador menino/adolescente confidencia-nos a vertiginosa experiência de seus silêncios, seus sofrimentos, seu vazio. A quase fusão entre o tempo da enunciação com o do enunciado, ao final do conto, é um pedido de socorro, de acolhida ao companheiro de travessia do narrar — o leitor —, para o desamparo diante do maior dos horrores: a morte do pai, que sempre pareceu uma perda anunciada, mas nunca confirmada, o “alguma coisa urgentemente” .
Termino falando sobre a efetiva morte, assunto de nosso simpósio, mas creio ter anunciado, nas outras tantas personagens, várias ordens de experiência de morte que, se não foram sadiamente confrontadas dentro de seu universo trágico, pelo menos foram oferecidas como generosos convites ao leitor para atravessar esse vazio pela leitura da narrativa .
A intenção de minha proposta de leitura não é fazer um jogo antitético entre tradição e modernidade, ou entre real e imaginário, ou ainda recalque e desejo. Muito menos enquadrar a personagem Fräulein — matriz de leitura —, bem como todas as outras, num universo dicotômico excludente e reducionista, pois elas têm a riqueza de uma construção dialética moderna que é percebida principalmente na enunciação. Talvez o grande objetivo do meu projeto seja deslocar a usual compreensão acerca do vazio como algo negativo, uma vez que ele, o vazio, é a própria vida, segundo minha hipótese de trabalho. Fica, então, caracterizada, nas narrativas escolhidas, uma busca de nomear, apontar a necessária travessia do vazio como uma saída para o enfrentamento do mal-estar.
1 Ver brilhante tese de doutorado de Sérgio Nazar David, O paradoxo do desejo . UFRJ, 2001.
ANDRADE, M. Amar, verbo intransitivo - Idílio . 4 a edição. Martins, São Paulo: 1976. p. 09. Todas as demais citações desta obra se farão por esta edição e indicar-se-ão no corpo do texto, seguidas da abreviatura e do número da página de que foram extraídas. p. 69 -70
SARAMAGO, José. Companhia das Letras, Ensaio sobre a cegueira . São Paulo: 1995.
ABELAIRA, Augusto. O Bolor. Lacerda Ed.,Rio de Janeiro: 1999.
___. Laços de Família. Rocco, Rio de Janeiro: 1998.
NOLL, João Gilberto. O cego e a dançarina . In: Romances e Contos Reunidos. Companhia das Letras, São Paulo: 1997.